(c) 2023 am|dev

(A) :: Irão dá lições de estratégia, geoeconomia e diplomacia

Irão dá lições de estratégia, geoeconomia e diplomacia

Vale a pena olhar para a guerra do Irão como uma lição prática de análise geoestratégia.

Bruno Cardoso Reis
text

A semana passada afirmei que era errada a ideia de que legalmente Portugal não tinha margem para autorizar ou recusar a utilização das Lajes pelos EUA para um ataque ao Irão. Felizmente isso foi corrigido, e veremos como a decisão tomada compara com outros países europeus. Antes disso vale a pena olhar para a guerra do Irão como uma lição prática de análise geoestratégia.

Chaves de uma boa análise geopolítica

Olhar para os factos, e fazê-lo à luz de padrões históricos. Olhar para a geografia. E, claro, não nos deixarmos influenciar por preferências ideológicas ou outras. E, claro, ignorar o coro mais vocal no espaço público, dos militantes fanáticos e dos autodesignados especialistas em especialistas. Em Portugal temos até o fenómeno bizarro – de que já Salazar se queixava – dos adeptos fanáticos de líderes externos, dos patriotas fervorosos de países estrangeiros. Outro fenómeno corrente, mais compreensível, mas não melhor conselheiro da boa análise geopolítico, é o comentário da política global como continuação da política nacional em paragens exóticas. Acertar sempre é impossível, infalível só Deus.

A melhor prática é, até por isso, falar em probabilidades (e não no sentido do rigor estatístico) e cenários. É reconhecer o papel da contingência, dos atores. As grandes certezas parecem sinal de uma análise muito segura, não o são. É verdade que arrisquei dar por certa a vitória de Putin nas últimas presidenciais russas, mas é o tipo de exceção que confirma a regra, com uma pseudo-eleição e sem real oposição. Por isso, sempre me recusei a dar por certo que Trump tinha desistido definitivamente de uma ação armada contra o Irão, apenas que – como ainda hoje, o próprio confirmou – não tinha interesse em apoiar a democratização do país.

Quando estamos a falar de conflitos armados estar atento aos meios é crucial. Sem armas não há guerras. Por isso fui chamando a atenção para quando os EUA começaram a concentrar c.50% dos seus aviões de combate no Golfo. Só tínhamos visto tantos meios militares nessa região em 1991 e 2003. Nunca os EUA tinham projetado meios militares nesta escala sem depois avançarem para um ataque. O facto de abundarem meios aero-navais mas não tropas terrestres também dava pista sobre o tipo de conflito. É o mesmo tipo de análise que fiz da concentração de quase 200.000 militares da Rússia na fronteira da Ucrânia, no início de 2022, e que me levou a escrever, semanas antes de se concretizar a massiva invasão russa, que esta era uma possibilidade muito séria, contrariando as certezas de muitos.

Tudo isto apontava para uma forte probabilidade de um ataque norte-americano e israelita. Mas era certo? Não era. A informação que temos confirma que até ao último minuto tudo esteve dependente das inclinações, sempre variáveis, de Donald Trump.

É a geoeconomia…

Outro elemento indispensável na análise deste tipo de conflitos é a geografia. Em particular a atenção aos chamados pontos de estrangulamento (“choke points”). Desde que Afonso de Albuquerque chegou a Ormuz, em 1507, e abriu as portas a um século de hegemonia naval portuguesa no Golfo, com presença desde o Bahrain até Mascate, que é clara a importância geoestratégica vital do estreito de Ormuz. Hoje trata-se sobretudo do estreio de Ormuz ser uma via de passagem obrigatória dos navios que escoam toda a produção de gás e grande parte da produção de petróleo desta região. Estes são produtos energéticos, indispensáveis para o bom funcionamento da economia global desde o início do século XX. Passam pelo estreito 20% a 25% do total das exportações de petróleo e gás para o mercado global. Por isso fui antecipando o cenário de uma parte importante da resposta iraniana passar por criar uma ameaça credível – que nem precisa ser especialmente eficaz militarmente – no Estreito de Ormuz. O risco acrescido bastar para paralisar boa parte da navegação neste ponto vital. Uma questão central para a evolução do conflito será perceber se os EUA planearam uma resposta eficaz a essa ameaça previsível.

Que desfecho? 

Este é um espaço pessoal de opinião política, não de trabalho académico, mesmo que seja frequentemente informado por ele. Nunca escondi a minha simpatia pela Ucrânia. A Ucrânia tem o direito do seu lado. Mas também procurei que isso não influenciasse a minha análise. Fui deixando claro que ninguém podia prever com certeza o desfecho da invasão. Infelizmente, a história não se deixa influenciar pelas minhas preferências, e também nos mostra que as guerras justas não têm necessariamente um desfecho justo. Ao contrário dos filmes, na realidade, por vezes, o vilão vence. Fui apontando, com base nos padrões históricos, para a probabilidade elevada de um conflito prolongado, e, eventualmente, de um cessar-fogo, quando muitos apostavam num fim rápido pela vitória clara de um dos lados ou por uma paz negociada.

Nunca é demais recordar que conflitos armados são por definição o reino do contingente, até porque o inimigo tem um voto e se vai adaptando. Um desafio central da estratégia é que, ainda mais difícil do que conseguir vitórias militares, é transformá-las em vitórias políticas duráveis. Ter grande poder e armamento tecnologicamente avançado não são suficientes para garantir a vitória final. Se fosse assim os EUA teriam vencido no Vietname e a União Soviética teria ganho no Afeganistão. Temos múltiplos exemplos ao longo da história de conflitos assimétricos em que o lado aparentemente mais fraco acaba por prevalecer, nomeadamente, levando o lado mais forte a concluir que os custos do conflito não compensam. Para isso o lado mais fraco precisa de mostrar vontade de continuar a resistir, encaixando custos e baixas mais elevadas, de prolongar o conflito, de procurar aliados, de adotar táticas não-convencionais que vão da guerrilha, à pirataria, ao terrorismo, até ao uso de drones. O regime do Irão conseguirá fazer tudo isso? É cedo para o dizer.

Ninguém duvida da grande superioridade militar dos EUA e Israel. Mas têm os meios e a vontade para atingir as suas prioridades estratégicas, e quais são elas? Tanto quanto percebemos Israel parece estar a seguir a linha dominante na sua cultura estratégica nas últimas décadas: explorar todas as oportunidades de decapitar e enfraquecer inimigos declarados como o regime iraniano, e fazê-lo as vezes que for necessário. É uma estratégia de alto risco, e
que deixa pouca margem para negociações. Também choca com o objetivo de normalizar relações com os países vizinhos, apostando que estes preferem a prosperidade de uma região paz. Mas é uma estratégica clara.

Qualquer previsão sobre o desfecho do conflito é complicada pelo facto de os EUA terem declarado objetivos variados e contraditórios que vão mudando de dia para dia. Eles vão desde destruir o arsenal de mísseis até destruir o regime iraniano. Trump, na sua mais recente entrevista, à CNN, declarou que quer uma rendição incondicional. Mas também confirmou que não se importa com a escolha democrática da liderança iraniana, pode ser um aiatola desde que lhe agrade. Isso, provavelmente, quer dizer um líder iraniano que, entre outras coisas, acomode os interesses económicos de Trump, nomeadamente no petróleo e, afaste rivais, como a China, atualmente o grande parceiro económica do Irão. Seria extraordinário que um regime islâmico que se construiu com base na independência total, na resistência a interferências passadas dos EUA na política iraniana, aceitasse algo desse tipo. De caminho Trump esqueceu as promessas de apoio que fez à heroica oposição iraniana. As declarações mais fiáveis da Administração Trump sobre a sua estratégia parecem ser: uma vitória para o governo dos EUA será o que Trump declarar ser uma vitória.

O mais ambicioso dos objetivos enunciados pelos EUA – mudar o regime com o apoio dos iranianos – até faz algum sentido com um regime tão impopular e tão desestabilizador da região. Se o regime teocrático sobreviver provavelmente isso significará o triunfo da linha mais dura, que poderá retaliar assimetricamente ao longo dos próximos anos e desenvolver um programa de armas nucleares secreto. O problema é que não temos nenhum exemplo na história de uma campanha de bombardeamentos aéreos, por muito fortes que sejam, que tenha atingido esse objetivo. Da Grã-Bretanha do Blitz, durante a Segunda Guerra Mundial, até à Ucrânia de hoje, por regra, o efeito é, pelo contrário, reforçar a resistência ao atacante. Houve a Líbia, em 2011, e o Afeganistão, em 2001. Mas nesses casos a campanha aérea foi complementada por forças especiais e, sobretudo, por uma oposição armada que já estava a combater esses regimes. Sobretudo, importa sublinhar que nesses casos o resultado final não foi uma democracia pluralista e pacífica, foi uma guerra civil prolongada.

Não é por acaso que o chanceler alemão Merz veio agora chamar a atenção para os riscos do cenário de pesadelo de um Irão mergulhado no caos. É bem possível que os curdos iranianos refugiados no norte do Iraque voltem a ser os aliados indispensáveis dos EUA, fornecendo soldados para combater no chão do Irão. Veremos. E veremos se esse cenário se concretizar, se não serão carne para canhão, se isso precipitará ações eficazes da oposição civil iraniana e defeções do regime. Ou se, pelo contrário, criará um reflexo nacionalista favorável ao regime, movido pelo temor de fragmentação de um país que sendo maioritariamente persa, tem milhões de curdos, azeris, baluches.

E nós, pequena potência ou grande impotência?

A Europa tem sido acusada por muitos de falta de resposta à guerra no Irão. O que isso quer dizer é que a resposta não tem agradado a todos. A reação da União Europeia tem refletido também o facto de esta não ser um Estado, muito menos um Super-Estado. A UE reflete divisões entre os Estados Membros com declarações que dão uma no cravo, outra na ferradura. Incluem expressões de desconforto com ações militares que nem sequer procuram ter amparo na lei internacional e arriscam uma desestabilização perigosa numa região vizinha. Ao mesmo tempo refletem também a rejeição do brutal regime dos aiatolas que massacra a sua própria população e nunca respeitou aspetos centrais da lei internacional, como a imunidade dos diplomatas ou a integridade territorial dos vizinhos.

Esta postura europeia também reflete o facto de os EUA não terem consultado ou informado devidamente os seus aliados europeus. Não o fizeram sequer com a velha aliada, a Grã-Bretanha. Isso levou vários países a recusar o uso sem condições das suas bases. Foi assim com a Espanha de Sanchéz – para quem opor-se com estrondo a Trump é um ativo político. Foi assim também com a própria Grã-Bretanha, que também criticou ter-se ignorado a lei internacional. Ambas, aliás, partilhando algumas preocupações e limitações com Portugal. Nomeadamente ninguém quer aviões a atacar diretamente o Irão de bases europeia.

Já vimos na semana passada que Portugal pode legalmente recusar o seu uso pelos EUA neste tipo de operações. Mas estrategicamente faz sentido autorizar o seu uso com algumas limitações? Sim, até para se diferenciar de Espanha. Portugal não levantou problema ao trânsito de meios militares pelo seu território, desde que não como base para ataques diretos ao Irão. E até, tanto quanto se percebe, ao contrário de Espanha, até terá autorizado missões de apoio logístico. Isso é o tipo de equilíbrios que muitas vezes são necessários na diplomacia. Portugal até o fez com uma mensagem política genericamente positiva para a Administração Trump.

Não tenho nada contra algum pragmatismo, com o mínimo de princípios. Recordo é que o pragmatismo pressupõe ganhos em troca. Pedimos uma declaração pública de agradecimento e de reconhecimento da importância deste base em território português? Pedimos alguma renovação da garantia de segurança para o nosso país, mais em risco de retaliação assimétrica? Apalavramos até conversas futuras sobre algumas vantagens adicionais para os açorianos? Passar a ideia de que se irá carimbar positivamente qualquer pedido não é diplomacia, é burocracia. Espero que não tenha sido o caso. Se nem sequer quando dizemos que sim aos EUA de Donald Trump nos atrevemos a pedir um simples obrigado público, um encontrozinho com Marco Rubio, então já não somos uma pequena potência, somos uma grande impotência.