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Triste

Esta melancolia etimológica estendeu-se a todas as línguas romance, embora cada uma a seu modo diga – ou melhor, cale –a escuridão interior.

Paulo Ramos
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Ser afligido por algo que dói por dentro.

Quando chega, a tristeza produz um ruído semelhante ao das nuvens que rapidamente encobrem um dia de sol: nenhum. Quem ouviu já o som de uma nuvem a passar? Não se dá por nada e, de repente, sem que nos apercebamos, estamos na penumbra.

Quando se está triste, a alma faz-se nublada e escura; luz que de repente se extingue, como o filamento de uma lâmpada que não suporta mais e, sem qualquer ruído, se quebra. Tic.

Tudo pode dizer-nos a etimologia da tristeza, essa palavra «de origem indeterminada» mas certamente derivada do latim tristis (tristus tardio) que deu origem depois a todas as nossas tristezas a partir da forma medieval tristo.

Esta melancolia etimológica estendeu-se a todas as línguas romance, embora cada uma a seu modo diga – ou melhor, cale –a escuridão interior.

O francês triste parece idêntico ao nosso adjetivo, mas trata-se de uma palavra que percorreu outros caminhos – transmissão por «via erudita» diz-se em linguística da jornada pela qual um lema entra no vocabulário não por necessidade, mas por ter sido um poeta o primeiro a usá-lo. Quase nunca se sabe quem foi, sabemos apenas que, de palavras, sabia bem mais do que nós.

Não há maneira de espantar as nuvens; se houvesse, o sol brilharia sempre sobre os nossos dias tristes. Resta-nos aceitá-los e abrir o guarda-chuva das etimologias para não nos molharmos excessivamente.

Em sânscrito, encontramos trsta, que significa “áspero”, “turvo”, e que sobrevive até hoje no lituano tirsztas, “mal-humorado” — quão rabugentos podemos ser com a primeira pessoa que passa quando estamos tristes?

Em latim, tristitia na verdade significava um dia chuvoso: tristis era a designação do céu quando escurece. Mas também um fruto que se arrancou cedo demais à árvore, “amargo”, “azedo”. Um damasco que parece delicioso, mas dói só de morder por causa do seu sabor pungente e imaturo. Tão áspero como encontrar palavras para nos explicarmos quando estamos tristes.

No Apendix Probi, um códice escrito no mosteiro de Bobbio por volta de 700 (mas certamente copiado de um antígrafo, ou de um documento mais antigo que dataria do século V) e atribuído a um certo Probo, encontramos um elenco de 227 palavras que não corresponderiam às “boas regras” do latim clássico.

No Apendix, a variante tristus é censurada, por conta da sua formação por analogia com maestus/laetus: de acordo com o autor, deveria preferir-se a palavra tristis.

Acontece-nos com frequência escolhermos as nossas palavras não no dicionário do dizer, mas no do silêncio. Está nublado, mas façamos de conta que… que o sol brilha, que somos felizes, em latim lieti, «lá por casa, tudo bem».

Quantas vezes passámos pela experiência de erguer os nossos olhos baços e sussurrar hesitantes «hoje estou triste» para alguém e, como resposta, ouvirmos: «estás a lamentar-te de quê?»

Muitas vezes somos os primeiros a dizê-lo a nós mesmos, de manhã, em frente ao espelho, ainda sujos de sono.

Pedimos ajuda para dissipar a nossa tristeza, e de volta disseram-nos que somos chatos e sem graça.

Da próxima vez que isso acontecer (amanhã? agora?), reclamemos o pacto de realidade – e respeito – que as etimologias impõem. É para isso que elas servem.

Porque não se trata de previsão do tempo, mas de dor.

E se chover, é dentro que chove.

La vita fugge, et non s’arresta una hora.

Definitivo é Petrarca no soneto 272 do seu Canzoniere: a vida é uma só. E demasiado breve para ficarmos em silêncio a observar aqueles que à nossa volta estão tristes e encolher os ombros, amanhã é outro dia. Ou para permanecermos tristes, observando-nos a nós próprios e a atormentarmo-nos sozinhos.

Não, amanhã não será um outro dia se não encontrarmos as palavras.

O preço de não dizer é um dia encontrarmo-nos atormentando simultaneamente o passado e o futuro, como Petrarca nestes versos (9-11): Tornami avanti, s’alcun dolce mai / ebbe ‘l cor tristo; et poi da l’altra parte / veggio al mio navegar turbati i venti.

Ou seja: fomos capazes de encontrar a doçura quando o nosso coração esteve triste? E a nossa vida será sempre assim tão dura, com nuvens e ventos contrários à nossa espera no horizonte?

Não, claro que não. Desde que as nossas tristezas não sejam censuradas, mas que encontrem um caminho – um qualquer, desde que feito de voz e de algumas palavras fiéis – para serem ditas. E para serem escutadas por alguém.