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"Não posso ser apenas espectadora": Banu Mushtaq, uma vida a dar voz às mulheres do sul da Índia

Do sufoco de um casamento que quase a silenciou para o palco do International Booker Prize. Em entrevista, a escritora indiana recorda o percurso de uma vida e conta como reclamou a sua voz.

Joana Moreira
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Inês Correia
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Passou décadas a escrever sobre vidas invisíveis, num circuito literário que raramente atravessa fronteiras. Até que, em 2025, aos 77 anos, o nome da escritora, advogada e ativista indiana Banu Mushtaq chegou aos quatro cantos do mundo. Ao vencer o International Booker Prize tornou-se a primeira vencedora do prémio literário a escrever em canarês, uma língua da Índia falada por 65 milhões de pessoas. Fê-lo com Candeia Coração (Relógio D’Água), uma coletânea de contos publicados originalmente entre 1990 e 2023, que retratam o quotidiano das mulheres e raparigas nas comunidades muçulmanas do sul da Índia. O galardão foi partilhado com a tradutora para o inglês, Deepa Bhasthi.

A entrevista com o Observador acontece via Zoom, a partir de Karnataka, estado na Índia onde nasceu e continua a viver, e, ao longo de quarenta minutos, Mushtaq revisita a infância, o casamento, a quase interrupção da escrita e a forma como a vida — e o conflito — alimentaram um corpo de trabalho marcado pela denúncia do patriarcado e pela defesa pelos direitos das mulheres.

Conta como cresceu numa família muçulmana, num contexto em que a educação das raparigas ainda era limitada ao ensino em urdu. “Era a nossa língua materna. As raparigas podiam estudar, mas apenas em urdu. As outras línguas eram reservadas aos rapazes”, recorda. Passou um ano na escola e não foi capaz sequer de aprender o alfabeto. “O meu pai ficou desesperado. Queria que a filha fosse boa aluna, que estudasse. Estava preocupado com o meu futuro.” Quando este foi transferido por motivos profissionais para outra cidade, Mushtaq acabou numa escola católica onde se ensinava em língua canaresa. A resistência foi imediata: “As freiras diziam que as raparigas muçulmanas não aprendiam facilmente canarês.” Foi aceite com a condição de provar capacidades em seis meses, mas aprendeu a língua em semanas. “Num mês já escrevia no chão, nas paredes, em todo o lado.” Esse episódio, mais do que um detalhe biográfico, antecipa um padrão que viria a repetir-se ao longo de uma vida: a recusa em aceitar limites impostos pelo género.

Banu Mushtaq diz ter percebido cedo o que era a desigualdade entre homens e mulheres. “Observava o que se passava em casa, na rua, na sociedade. E entendia que não era fácil para uma rapariga sobreviver num mundo de homens. Há regras diferentes, a justiça é diferente. A mulher não é vista como um ser humano igual.” Essa constatação precoce gerou perguntas e uma inquietação que se prolongaria na juventude e no resto da vida.

Escolher a própria vida

Contra todas as expectativas sociais, Mushtaq não demonstrou pressa em casar-se e optou por frequentar a universidade, onde se apaixonou pela vida académica. “Nunca usei hijab na faculdade, participava em debates, concursos literários, estava sempre no palco”, lembra. Comportamentos que, no contexto em que cresceu, eram vistos como incompatíveis com o ideal de “boa rapariga muçulmana”, mas que nunca a fizeram baixar os braços, medir ambições, cancelar sonhos.

Foi ali que conheceu o homem com quem viria a casar (a quem se dirige nos agradecimentos do livro, “por todo o apoio e encorajamento ao longo dos anos”), também ele estudante. Ainda assim, o casamento foi adiado durante “sete longos anos”, nota. “As nossas famílias não permitiam [que casássemos]. Diziam que eu não era obediente, que questionava demasiado.”

Quando finalmente deram o nó, tudo mudou. Pediram-lhe que abandonasse o trabalho e passasse a viver com a família alargada do marido. Duas dezenas de pessoas sob o mesmo teto. “Era sufocante para mim. Não conseguia respirar. Não tinha qualquer interação intelectual com ninguém”. Os dias eram consumidos por tarefas domésticas repetidas: preparar refeições para toda a família, três vezes por dia, cuidar da casa, coser roupa. “Era só isso. Levantar, trabalhar, voltar a trabalhar.” Sem estímulo para qualquer outra atividade, sentia-se diminuída. “Estava confinada a essas coisas. Bordar, costurar, tratar da casa. Nada mais.” A ausência de tempo e liberdade para pensar — ou simplesmente conversar — tornou-se insustentável.

Seguiram-se anos de tensão. “Discutíamos todos os dias. Eu não conseguia aceitar aquela vida. Comecei a protestar”, recorda. Disse ao marido que precisava de uma alternativa: retomar os estudos ou voltar a trabalhar. Mas as possibilidades eram escassas. Já se tinha despedido e o acesso ao mercado de trabalho não era fácil. Ele próprio estava preso às expectativas familiares, envolvido no negócio da família e sujeito às mesmas normas. “Foi um período difícil”, diz. “Talvez uma dona de casa ‘normal’ tivesse sido feliz ali. Mas não eu.”

Após o nascimento da primeira filha, temeu chegar a um ponto sem retorno. Num episódio que relata com desarmante franqueza, Mushtaq descreve uma noite em que, após uma discussão, tentou pôr termo à vida. “Encharquei-me de gasolina e estava pronta para ascender o fósforo”. Foi travada pelo marido, que se apercebeu do cheiro a tempo. “Veio direito a mim e abraçou-me, implorou-me para que não o fizesse, disse-me que ia lutar por mim, que íamos encontrar uma solução”. No dia seguinte, depois do trabalho, levou-a a uma biblioteca. “A partir daí, todos os dias ou de dois em dois dias voltava lá para devolver os livros e levar novos. Li tanto nessa altura… Acho que foi assim que reclamei a minha voz. Quando voltei aos livros.”

Primeiro a leitura, depois a escrita. Com 29 anos, a recuperar do que sabe agora ter-se tratado de uma depressão pós-parto, dedicou-se a escrever para explorar o que sentia. Em paralelo com uma carreira como jornalista e, mais tarde, como advogada, publicou seis coletâneas de contos, um romance, um livro de ensaios e uma antologia de poesia. Candeia Coração, a primeira obra editada em português através da Relógio D’Água, é uma dessas coletâneas. Francos, complexos, os 12 contos retratam comunidades na região de Karnataka: mulheres que levam vidas difíceis e isoladas, muçulmanos que lutam com a sua fé, ameaçada pelo dinheiro, pelo poder e pelo preconceito. Expõem, também, as diferenças de classe. As histórias nascem frequentemente de pequenos detalhes, explica a autora. “Pode ser uma palavra, um gesto, um olhar. Isso desencadeia a imaginação. O resto é ficção.”

Publicados originalmente na língua canaresa entre 1990 e 2023, os contos têm reminiscências dos muitos anos de trabalho de Mushtaq em profissões que exerceu para defender os direitos das mulheres e se opor a todas as formas de opressão de casta e religião na Índia. Mas a autora insiste na dimensão universal do livro: “Os seres humanos são iguais em todo o lado. O tema é a mulher, os marginalizados, dar voz a quem não a tem.”

“Toda a carreira de Banu Mushtaq — enquanto escritora, jornalista, advogada e ativista — pode ser resumida numa só palavra canaresa: bandaya”, escreve Deepa Bhasthi, tradutora para o inglês, numa nota de arranque na edição portuguesa de Candeia Coração. Badaya significa “dissidência, insurreição, protesto, resistência à autoridade, revolução e seus conceitos associados”. “Quando combinada com sahitya, que significa literatura, obtemos o nome de um movimento literário de curta duração, mas altamente influente, na língua canaresa nas décadas de 1970 e 1980”.

A autora integra esse movimento literário nascido como uma forma de resistência a um campo literário dominado por homens de castas superiores, que definiam o que era publicado e legitimado. Incentivou mulheres, dalits e outras minorias a escreverem a partir das suas vivências, usando o canarês do quotidiano. Mustaq foi, ainda assim, uma das poucas mulheres.

Recebeu os prémios literários mais importantes da Índia, mas a exposição pública não foi isenta de consequências. No ano de 2000, foi alvo de uma fatwa depois de afirmar que “o Islão nunca proibiu as mulheres de entrar e rezar nas mesquitas” e que, na verdade, a proibição vinha de “patriarcas de certas mesquitas”. Eram esses homens que negavam “ilegalmente” o acesso às mulheres, afirmou. “Disseram que eu não era muçulmana, que não podia conviver com outras pessoas muçulmanas”, recorda ao Observador. Durante três meses, viveu sob esse estigma. “Sofri muito nesse período”.

Ainda assim, o episódio não a afastou da intervenção pública. Pelo contrário, reforçou a convicção de que a religião, quando instrumentalizada, pode tornar-se um mecanismo de controlo. “A fé pode ser um conforto. Mas, quando é usada como arma, transforma-se em opressão”, acredita. A fatwa acabaria por ser levantada. Ainda assim, a experiência confirmou o risco inerente à sua posição: a de alguém que critica simultaneamente estruturas patriarcais dentro e fora da sua comunidade. Esse confronto mostra-se, de forma mais ou menos velada, nos 12 contos compilados em Candeia Coração, onde são frequentes as figuras de autoridade que distorcem textos religiosos para justificar desigualdades. Para a autora, a resposta, tanto na ficção como na vida, mantém-se: “Não peçam — exijam justiça.”

Uma justiça que, enquanto escritora, também procura. Continua com a missão de querer tornar a leitura universal, acessível a todos. “Não posso escrever numa sala com ar condicionado, escrever literatura só para essas pessoas. É meu dever estar com quem está na rua. Não posso ser apenas espectadora. Quando alguém sofre uma injustiça, tenho de dizer: isto está errado.”

Ao olhar para as últimas décadas, reconhece mudanças e algum progresso, mas não se ilude com o caminho que falta percorrer. “Há mais acesso à educação. Mas os problemas persistem. A opressão começa dentro de casa.” O patriarcado, acrescenta, não desapareceu — apenas se transformou. “Se uma rapariga de uma comunidade quiser casar com um rapaz de outra comunidade, continua a haver problemas.” Perante este cenário, a consagração internacional torna-se secundária à urgência do seu fazer literário. Para Mushtaq, a expressão não é uma escolha. “Sem me expressar, não consigo sobreviver”. E escrever é o fôlego que a mantém viva.