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De sábios religiosos a líderes políticos: como é que os aiatolas chegaram ao poder? Cinco respostas sobre o Irão e o Xiismo

O Irão é liderado por um clérigo, responsável por garantir que o país não se desvia do Islão. Mas o que são o Xiismo e os aiatolas? E como é que os sábios islâmicos se tornaram líderes políticos?

João Francisco Gomes
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A morte do aiatola Ali Khamenei, líder supremo do Irão, no ataque lançado na semana passada por Israel e pelos Estados Unidos contra Teerão, trouxe de volta ao debate público a complexa interseção entre política e religião no Irão — e colocou novamente na agenda palavras como “Xiismo”, a corrente islâmica maioritária no Irão, e “aiatola”, o título usado pelo líder supremo Khamenei.

Habitualmente descrito como uma teocracia, o regime iraniano assenta numa constituição muito particular, formada a partir das ideias do aiatola Ruhollah Khomeini, que pode ser difícil de compreender a partir de uma perspetiva secular ocidental. Mas, afinal, o que é um aiatola? O que é o Islão xiita? Qual o papel da religião na governação política do país? Onde está a fronteira entre política e religião no Irão? E como é que os sábios islâmicos se converteram em líderes políticos?

Recuando até às origens do Islão, à divisão fratricida entre sunitas e xiitas e à Revolução Iraniana de 1979, o Observador procura as respostas para algumas destas questões e explora o momento vital em que o aiatola Khomeini concebeu e publicou as suas teorias político-religiosas segundo as quais os líderes religiosos devem assumir a governação dos países — uma tese que molda até aos dias de hoje a realidade política e social iraniana.

O que é um aiatola?

A história das últimas décadas pode levar a uma associação direta entre o termo “aiatola” e o cargo de chefe de Estado (ou Líder Supremo) do Irão. É verdade que, desde a Revolução Iraniana de 1979, liderada pelo aiatola Ruhollah Khomeini, o chefe de Estado do Irão tem sido um aiatola. Porém, não é isso que a palavra quer dizer.

A palavra portuguesa aiatola tem origem na expressão árabe Ayat Allah, que significa “sinal de Deus” ou “versículo de Deus”, e é, na verdade, um elevado título honorífico atribuído aos estudiosos do Islão xiita, corrente seguida por cerca de 15% dos muçulmanos de todo o mundo — e maioritária no Irão. Ao Observador, o presidente do Instituto de Cooperação Luso-Árabe, Khalid Jamal, destaca que este é um título “dado aos clérigos do alto escalão xiita, em particular no Irão”, e que no mundo sunita — corrente maioritária que Jamal integra — não existem aiatolas, sendo mais comuns títulos como “xeque” ou “imã”, para líderes religiosos, ou “emir”, para líderes com uma dimensão política.

O título de aiatola é atribuído aos clérigos islâmicos xiitas que chegam ao topo dos estudos religiosos — dotando-os de uma elevadíssima autoridade espiritual e religiosa. Estes sábios islâmicos, profundamente conhecedores da lei islâmica, dominam detalhadamente não só o Alcorão, mas também a lei, a jurisprudência, a ética e a filosofia do Islão.

“Este título tornou-se mais conhecido no mundo após 1979, com a Revolução Iraniana”, explica Jamal, sublinhando que, a partir da revolução, “os aiatolas passaram a exercer a função de Líder Supremo, numa hierarquia simultaneamente política e religiosa”. Até então, diz Jamal, “um aiatola era um líder religioso; o problema começa em 1979, com a promiscuidade entre política e religião”.

Jamal destaca que, enquanto o título sunita de xeque “vem de quem estudou a sharia”, ou seja, a lei islâmica, “o aiatola é um título que é dado àquelas pessoas que se considera que o merecem”. Ou seja, não é um título outorgado formalmente por uma instituição, mas atribuído por aclamação dos restantes sábios islâmicos.

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É certo que, no contexto do Islão, não existe uma hierarquia clerical comparável, por exemplo, à da Igreja Católica (com um Papa com poder universal sobre a Igreja e uma rede de bispos que exercem o poder nos seus territórios em comunhão com Roma), mas estes títulos clericais acabam por estabelecer uma hierarquia de sabedoria e autoridade espiritual no universo muçulmano.

No caso específico da corrente maioritária dentro da doutrina xiita, após o período histórico inicial marcado pela governação dos Doze Imãs que sucederam ao profeta Maomé, nos séculos VII a IX, as comunidades muçulmanas têm sido lideradas pelos sábios e estudiosos da lei islâmica, particularmente pelos aiatolas — até ao regresso escatológico do Imã Oculto, o décimo-segundo Imã, figura messiânica que os muçulmanos acreditam que vive atualmente na ocultação e que virá no fim dos tempos para trazer paz e justiça à Terra.

"Este título tornou-se mais conhecido no mundo após 1979, com a Revolução Iraniana. Os aiatolas passaram a exercer a função de líder supremo, numa hierarquia simultaneamente política e religiosa."
Khalid Jamal, presidente do Instituto Luso-Árabe para a Cooperação e conselheiro da Comunidade Islâmica de Lisboa

É neste contexto de um tempo humano situado entre o período inicial dos Doze Imãs e o regresso definitivo desta figura messiânica que se compreende a autoridade espiritual dos sábios muçulmanos, particularmente dos aiatolas, figuras de referência para a comunidade islâmica, que governam em nome dessa autoridade espiritual esperada. Por norma, todos os muçulmanos xiitas têm um aiatola como o seu líder espiritual de referência.

Por isso, apesar de o aiatola mais conhecido do mundo ser o Líder Supremo do Irão (primeiro Khomeini e, depois, Ali Khamenei, morto no último fim de semana), não existe apenas um aiatola no mundo. Só no Irão, há dezenas de sábios islâmicos com este título. Mas eles existem também fora do Irão. Um caso bastante conhecido é o do Grande Aiatola Ali Al-Sistani, principal clérigo xiita do Iraque — que em 2021 se encontrou com o Papa Francisco durante a visita do líder católico àquele país, numa passagem pela cidade sagrada de Najaf em que ambos os líderes religiosos fizeram um apelo ao diálogo entre religiões no Médio Oriente.

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Então um aiatola é um líder religioso ou um líder político?

No caso do Irão contemporâneo, esta pergunta está longe de ter uma resposta clara e direta. Para compreender como a palavra aiatola se tornou praticamente sinónimo de chefe de Estado iraniano, é necessário recuar até à década de 1970 e à Revolução Iraniana de 1979, liderada pelo aiatola Ruhollah Khomeini.

Antes da revolução, o Irão era uma monarquia constitucional governada pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi — e é justamente aí que se encontram as raízes da revolução que transformou o Irão numa república islâmica governada com mão de ferro pelos aiatolas. No início da década de 60, o Xá lançou a chamada “Revolução Branca”, um forte programa de modernização do país com o objetivo declarado de ocidentalizar o Irão. Este programa incluiu uma agressiva reforma agrária com expropriações, várias medidas destinadas a reduzir a influência da religião islâmica na educação e na sociedade iraniana, uma promoção da emancipação das mulheres e uma rápida urbanização do país.

Porém, apesar do sucesso macroeconómico do programa reformista, as medidas de ocidentalização implementadas pelo Xá acabaram por acentuar ainda mais as desigualdades económicas e sociais no país, provocaram um aumento da inflação e uma diminuição do poder de compra dos iranianos comuns, ameaçaram os privilégios da aristocracia agrícola, acabando por prejudicar os agricultores e a vida rural, produziu uma grande rutura nas formas de vida tradicionais do país devido à insistência em aproximar o Irão da lógica de vida ocidental — e, além de tudo isto, irritou especialmente a classe clerical iraniana, com uma série de medidas de secularização que colocaram em risco o poder e a influência social dos clérigos xiitas.

No meio de tudo isto, a reforma modernizadora do xá criou um contexto de forte descontentamento social — a que o monarca respondeu com uma intensa repressão dos protestos e com a perseguição a partidos da oposição, levantando fortes preocupações quanto à democracia e ao respeito pelos direitos humanos no país. A censura, a detenção de manifestantes, a perseguição política e até a tortura física tornaram-se ferramentas comuns na repressão da oposição ao Xá.

Khalid Jamal recorda que é necessário compreender as “causas da revolução” no Irão, sublinhando que a “impopularidade do regime dos xás” pode ser lida a partir de vários prismas. Por um lado, “promoveu a revolução branca, impulsionado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido” e, com isso, “a cultura ocidental estava a penetrar no Irão”. Tudo isto, acrescenta Jamal, acompanhado de uma “repressão organizada pela polícia secreta iraniana, que recorria a prisões e a torturas”.

Mas, continua Jamal, “as pessoas não mudam de regime se não enfrentarem fenómenos como a pobreza e a inflação; a impopularidade do regime era consequência da pobreza e da inflação”.

Para Khalid Jamal, também conselheiro da Comunidade Islâmica de Lisboa, no contexto deste descontentamento, “cria-se uma rivalidade islâmica” ao programa do Xá e “começa a crescer esse fenómeno de oposição à ocidentalização do Irão”. Para os iranianos, estas duas realidades (ocidentalização e aumento da pobreza) passam a estar associadas — e o apego à identidade tradicional do Irão, marcada pelo Islão xiita, ganha valor como bandeira de resistência ao xá. “É nessa altura que o aiatola Khomeini surge como promotor da revolução”, explica Jamal.

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Mas a vontade de revolução transcendeu as fronteiras da classe clerical iraniana: este contexto alimentou o nascimento de uma grande frente de oposição ao regime do Xá, que uniu a classe clerical conservadora do Islão xiita, partidos de esquerda, intelectuais seculares, grupos nacionalistas e até movimentos pró-soviéticos. Esta frente unida encontrou o seu principal rosto no aiatola Ruhollah Khomeini, um estudioso muçulmano que vivia no exílio desde a década de 60 por ser um forte crítico do regime do Xá. Khomeini, antigo professor de filosofia que havia escrito em abundância sobre as suas ideias políticas para a formação de um estado de natureza islâmica, regido pela lei muçulmana, apresentou-se como um líder populista, prometendo liderar uma revolução em defesa de um Estado moderno e democrático.

“Houve uma subvalorização do aiatola Khomeini por parte do Xá, pensando que não ia dar em nada”, diz Jamal. “Obviamente isto tem por base a religião, porque se entende que é mais sedutor convencer as pessoas por via da religião do que por via de uma ideologia. Houve uma instrumentalização da religião para a obtenção de um fim.”

No início de 1978, jovens estudantes iranianos foram para as ruas de Teerão protestar contra o Xá, espoletando uma revolta que se prolongou por meses. A revolução foi violentamente reprimida, o que levou a uma escalada da violência, a greves na indústria do petróleo, a manifestações de centenas de milhares de pessoas nas ruas da capital e, por fim, à fuga do Xá em janeiro de 1979. Em fevereiro, as forças armadas declararam neutralidade e a população iraniana acorreu às ruas em massa para aclamar Khomeini como líder. O aiatola regressou do exílio e assumiu o poder — e rapidamente as promessas de um país moderno e secular caíram por terra.

Este contexto alimentou o nascimento de uma grande frente de oposição ao regime do Xá, que uniu a classe clerical conservadora do Islão xiita, partidos de esquerda, intelectuais seculares, grupos nacionalistas e até movimentos pró-soviéticos. Esta frente unida encontrou o seu principal rosto no aiatola Ruhollah Khomeini, um estudioso muçulmano que vivia no exílio desde a década de 60 por ser um forte crítico do regime do Xá.

A nova constituição do Irão foi desenhada a partir das ideias de Khomeini para uma nação islâmica, a sharia foi implementada, os parceiros revolucionários de esquerda e seculares foram abandonados e o aiatola proclamou a fundação da República Islâmica do Irão, liderada pelos clérigos xiitas, impondo uma perseguição aos opositores ainda mais violenta do que havia ocorrido no tempo do Xá, revertendo a legislação que garantia mais direitos às mulheres e mobilizando para as ruas iranianas milícias fundamentalistas para garantir o cumprimento estrito da lei islâmica.

Khomeini, que escondeu as suas ambições políticas assumindo-se sempre como um líder religioso e um estudioso do Islão, deixou os seus parceiros revolucionários — incluindo os intelectuais seculares, os partidos de esquerda, as mulheres e as minorias étnicas e religiosas — com um forte sentimento de traição, depois de terem visto no Islão xiita uma bandeira da identidade iraniana capaz de unir o país na revolta contra o regime anterior.

Mas o que é, afinal, o Xiismo?

O Islão, a religião fundada no século VII pelo profeta Maomé, considerado pelos muçulmanos o último de uma série de profetas da tradição abraâmica (incluindo, entre outros, Abraão, Moisés e Jesus) e o consumador da revelação divina iniciada por esses profetas anteriores, divide-se em duas grandes correntes: o Islão sunita, que é a corrente maioritária, seguida por cerca de 85% dos muçulmanos do mundo, e o Islão xiita, a corrente minoritária, seguida por cerca de 15% dos muçulmanos.

A grande divisão do mundo muçulmano aconteceu logo no início, após a morte do profeta Maomé, e prendeu-se justamente com os diferendos em relação à sua sucessão.

Como o Observador explica neste pormenorizado artigo, Maomé foi capaz de unir o mundo árabe, anteriormente composto por tribos beduínas dispersas que prestavam culto a diferentes deuses. Contudo, Maomé morreu em 632 sem ter um filho e sem deixar indicações claras sobre a sucessão, o que reacendeu antigas divergências nas comunidades. Rapidamente, surgiram duas fortes hipóteses para suceder a Maomé como líder dos muçulmanos: Abu Bakr, um dos mais próximos companheiros de Maomé, e Ali Ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé (casado com a sua filha Fatima). Abu Bakr acabaria por assumir o poder como califa.

Aqueles primeiros tempos foram particularmente turbulentos, com califados curtos, assassinatos, intrigas familiares e cisões — mas a cisão inicial entre os partidários de Abu Bakr e os de Ali nunca mais foi curada. Os sunitas, partidários de Abu Bakr, entendem que Maomé não designou um sucessor, para que fosse a comunidade muçulmana a escolher o líder apropriado a cada momento; os xiitas, partidários de Ali, consideram que o genro e primo de Maomé foi explicitamente nomeado como líder da comunidade muçulmana e que só os descendentes diretos do profeta podem assumir a liderança. Dentro destas correntes, há também subgrupos teológicos importantes, sendo que, no caso do Islão xiita, a esmagadora maioria dos fiéis integra a já mencionada corrente dos Doze Imãs.

Khalid Jamal, que é um muçulmano sunita (como a maioria dos muçulmanos portugueses e residentes em Portugal), destaca que esta divisão entre xiitas e sunitas traduz também uma visão muito diferente em relação à hierarquia. “Os sunitas são uma espécie de protestantes do mundo islâmico”, compara Jamal, referindo-se à corrente protestante do Cristianismo, na qual, ao contrário de correntes como a Igreja Católica ou a Igreja Ortodoxa, não existe uma hierarquia eclesiástica particularmente vincada. “Repare: quando o profeta faleceu, disse que a pessoa mais próxima dele seria o próximo líder. Nós, sunitas, acreditamos que Abu Bakr foi nomeado pelos seus pares por mérito, pela consciência de que os pares tinham de que ele era um homem merecedor. Os xiitas acreditam que o primeiro foi Ali, que era primo do profeta e depois se tornou seu genro. Portanto, acreditam que seria uma questão de hereditariedade, quase de dinastia.”

Daí que, sustenta Khalid Jamal, a ideia de hereditariedade e descendência direta do profeta seja muito mais importante no Islão xiita do que na corrente sunita — o que ajuda a compreender a transformação do poder religioso em poder político no contexto particular do Irão.

O Islão sunita tornar-se-ia, ao longo da história, a corrente maioritária, enquanto o Islão xiita reúne apenas cerca de 15% dos muçulmanos de todo o mundo — embora as duas correntes partilhem a generalidade dos fundamentos da fé e os textos sagrados e tenham vivido, genericamente, de forma pacífica em todo o mundo. A divisão também se tornou geográfica: no Irão, onde se estima que entre 90% e 95% da população seja xiita, vivem cerca de 40% de todos os xiitas do mundo e o país é o principal centro religioso e académico do Islão xiita.

A Revolução Iraniana de 1979 voltou a intensificar a tensão entre sunitas e xiitas. O aiatola Khomeini, que tal como muitos outros também reivindicava ser descendente de Maomé (o turbante preto é usado no contexto do Islão xiita como sinal dessa descendência), aterrou em Teerão em 1979 apostado em fundar uma república islâmica, assente na ideia de que os clérigos têm de assumir o poder político para poderem cumprir o mandato divino de implementar a religião islâmica no mundo. Esta ideia, rejeitada pelo Islão sunita, contribuiu para uma forte polarização do mundo islâmico, corporizada na oposição entre Xiismo (no Irão) e sunismo (na Arábia Saudita) que se evidenciou nas guerras e conflitos das últimas décadas.

Como é que Khomeini transformou a liderança religiosa em poder político?

Nascido no Irão em 1902, Ruhollah Khomeini era filho e neto de clérigos xiitas e, aos 20 anos, instalou-se na cidade de Qom, o principal centro académico do mundo xiita, onde se dedicou aos estudos islâmicos. Em pouco tempo assumiu-se como um académico proeminente e como um sábio consultado por muitos. Escreveu várias obras sobre filosofia, direito e ética — e, na década de 50, foi aclamado como aiatola. Na década seguinte, recebeu o título de grande aiatola, ou “marj”, tornando-se num dos principais líderes da comunidade xiita do Irão.

Nesta altura, os aiatolas eram, essencialmente, figuras religiosas — e, antes de Khomeini, houve vários que se destacaram. O aiatola Husayn Burujardi, por exemplo, que foi mestre de Khomeini, era particularmente conhecido por se manter afastado da política ativa. Outros aiatolas muito célebres, como Muhsin al-Hakim, Abu al-Qasim al-Khoei ou Ali al-Sistani, mesmo nunca tendo escondido posições e perspetivas políticas, não procuraram o envolvimento direto com o poder político.

Khomeini, porém, não pensava assim. Foi na década de 60, quando esteve exilado no Iraque por ser um forte crítico do regime do Xá, que o aiatola começou a formular e a deixar por escrito as suas teorias políticas, conhecidas pela expressão persa “velāyat‑e faqīh”, que se pode traduzir como “tutela ou governo do jurista islâmico”. Na prática, Khomeini defendia que, na ausência do Imã — que há de regressar no fim dos tempos —, é necessário que um especialista na lei e na jurisprudência islâmica assuma o poder político ou supervisione o governo, de modo a assegurar uma governação justa à luz da sharia.

Essa teoria política publicada em livro por Khomeini foi a base da constituição iraniana redigida após a revolução de 1979 — embora não tenha sido essa a expectativa dos revolucionários que se associaram a Khomeini e aos seus seguidores.

Khalid Jamal recorda que, “no passado, houve uma amplitude governativa maior no mundo islâmico”, mas que, “particularmente a partir da queda do Império Otomano, não há uma liderança islâmica unívoca”. Em vez disso, explica, há “circunscrições territoriais” orientadas por diferentes líderes e estudiosos com perspetivas diferentes. Ao longo do século XX, houve um afastamento entre “as fações que o Islão já tinha, porque o Islão é muito plural”.

A verdade, porém, é que no contexto islâmico, a separação entre estado e religião não é, de todo, um dado adquirido, afirma Jamal. “No caso do Cristianismo, há muitos que dizem que a ideia de separação entre Estado e Igreja brota do próprio Evangelho. Mas, no Islão, não é regra nem sequer é obrigatório”, destaca Jamal. “A ideia de não haver uma separação não tem a ver com uma vontade da religião de converter o poder político. Tem-se por regra, historicamente, que essa separação não teve lugar e ainda não tem lugar nos países de maioria islâmica. Era tradição o chefe de Estado acumular funções religiosas e políticas.”

Os acontecimentos da década de 1970 transformaram, porém, esta relação entre política e religião no Irão. “Em princípio, nos países de maioria islâmica, não há contradições muito substantivas entre religião e política. A lei civil, a ordem jurídica, é conforme ao poder religioso”, explica Jamal. “A partir do momento em que há uma relação com o mundo ocidental ou com outras esferas diferentes, os atritos começam a surgir. Então, aí, das duas uma. Ou o poder religioso retrai-se, como nos Emirados ou em Marrocos, onde a religião tem um papel influente, mas não determinante, no Estado. Ou, então, continuamos a ter uma contaminação muito grande, que prejudica ambos, a religião e o poder político.”

“O que está subjacente a essa coincidência de poder no caso do Irão é a ideia de que o risco de ter um político que não professasse a religião poderia perverter o país”, explica Jamal, sublinhando que foi essa ideia que, na década de 1970, conduziu à aclamação de Khomeini como líder simultaneamente político e religioso. “A ideia de que ‘não queremos que o país se torne completamente diferente do que é, não podemos admitir que alguém, um líder sugestionado pelos Estados Unidos, tome conta do país e do poder político e perverta a natureza originária do Irão’. Por isso, na dúvida, as pessoas abstêm-se”, acrescenta Jamal, destacando que muitos iranianos se viram inclinados a aceitar uma república islâmica se essa fosse a solução para preservar o país.

Como escreveu recentemente no The New York Times o diretor de estudos iranianos da Universidade de Stanford, Abbas Milani, em 1979 “o povo do Irão queria uma revolução baseada na ideia de uma cidadania moderna e de um contrato social, para trazer a democracia, a liberdade, a independência e uma república, mesmo que fosse islâmica, mas sem governo clerical”.

“O aiatola Khomeini prometeu essas ideias, dando aos iranianos e às potências ocidentais aquilo que estavam desesperados por ouvir. No fim de contas, o que ele orquestrou foi uma contrarrevolução”, assinalou ainda Milani. “Nos subúrbios de Paris, nos meses antes do derrube do Xá, o aiatola deu várias entrevistas. Escondeu a sua ambição política e sugeriu que, em última análise, acabaria por se afastar da governação, embora nos seus escritos passados ele se tivesse aproximado da ideia de uma governação do clero.”

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Para Milani, muito do que permitiu a Khomeini liderar a revolução de 1979 foi o desconhecimento de muitos dos que se juntaram à causa acerca das ideias políticas que o aiatola desenvolvera e publicara no passado. “O romantismo da revolução, a ignorância sobre os antigos escritos do aiatola Khomeini e a sua pose como defensor de uma política democrática liberal nos meses antes da queda do Xá fizeram com que a propaganda enganosa funcionasse, mesmo que brevemente”, escreveu o especialista. “Iranianos de todos os estratos sociais, líderes ocidentais e muitos intelectuais de destaque viram nele o porta‑estandarte das aspirações democráticas do Irão.”

E o sucessor Khamenei foi um líder religioso ou um político profissional?

Se o aiatola Khomeini inaugurou a era dos aiatolas como chefes de Estado — mais do que isso, como “líderes supremos” do Irão —, o seu sucessor no cargo, o aiatola Ali Khamenei, seguiu lealmente esta ideia de que o topo da hierarquia política deve ser ocupado por um clérigo. Com a fundação da República Islâmica do Irão, governada com mão de ferro pelos aiatolas, reprimindo duramente a oposição interna, e apostada em assumir-se como anti-imperialista, feroz opositora do Ocidente, dos Estados Unidos e particularmente de Israel, o Irão transformou-se numa potência regional, decidida a obter armamento nuclear, a dominar o Médio Oriente e a disseminar o Islão xiita — tudo isto em nome de Deus.

Nascido em 1939, Ali Khamenei dedicou-se desde a adolescência ao estudo do Islão e logo abraçou as ideias político-religiosas de Khomeini, assentes na premissa de que o Líder Supremo, governando a comunidade muçulmana enquanto o Imã não regressa, deve estar munido de um poder absoluto comparável ao do profeta e ao dos imãs. Khamenei associou-se ao movimento de Khomeini, chegou a ser preso pelo regime do Xá e diz ter sido torturado. Logo após a revolução, Khamenei integrou o Conselho Revolucionário e nunca mais saiu do aparelho do Estado iraniano, chegando a ser Presidente do país.

Ainda assim, como escreve o académico Andrew Thomas, professor de Estudos do Médio Oriente na universidade australiana de Deakin, a escolha de Khamenei para Líder Supremo do Irão após a morte de Khomeini não foi pacífica. “Khamenei tinha credenciais políticas para liderar. Era também um apoiante firme do Khomeinismo. No entanto, foi visto como uma escolha surpreendente para Líder Supremo quando foi eleito pela Assembleia de Peritos, um grupo de clérigos islâmicos”, diz Thomas. “Alguns estudiosos islâmicos acreditavam que lhe faltava o título de grande aiatola, que era exigido pela constituição para ascender ao cargo. Estes críticos acreditavam que o povo iraniano não respeitaria a palavra de um ‘mero ser humano’ sem uma ligação apropriada a Deus.”

Foi necessária uma alteração constitucional para permitir a subida de Khamenei ao cargo. Entretanto agraciado com o título de aiatola, Khamenei teve “muito mais poder como Líder Supremo do que Khomeini alguma vez teve”, aponta Thomas, sublinhando que as alterações constitucionais deram a Khamenei “significativamente mais poder para intervir em assuntos políticos”.

“Apesar de Khomeini ter sido o autor da Revolução Iraniana, muitos dizem que Khamenei foi, na verdade, o líder mais poderoso que o Irão moderno teve”, escreve ainda Thomas, destacando como Khamenei teve um “poder sem precedentes sobre a política doméstica”, reprimindo brutalmente a oposição interna e apontando como principal prioridade “a sua sobrevivência e a do seu regime”, recorrendo habitualmente à violência policial para reprimir protestos em Teerão — mas assumindo-se também como o arquiteto da política externa do Irão, concretamente através da rede de proxys regionais como o Hezbollah, o Hamas e os Huthis.

A transição entre Khomeini e Khamenei ilustra, portanto, de forma eloquente o modo como, no Irão moderno, o poder religioso se transformou em poder político: se Khomeini era um influente e aclamado líder religioso que acreditava que a hierarquia política era o lugar natural para os clérigos islâmicos implementarem o plano divino do Islão, Khamenei chegou ao topo da hierarquia já como líder político com um longo percurso no aparelho estatal iraniano, e não a partir da posição de influente sábio do Islão, como o seu antecessor.

Para Khalid Jamal, mais do que a religião islâmica ou até do que o regime político, são os “protagonistas” que são responsáveis pelo estado atual desta complexa relação entre religião e poder político. “Acredito que a religião paga, sempre, o preço da impopularidade política”, diz Jamal, lamentando que, neste momento, seja ao Islão que são atribuídos os defeitos do regime iraniano. “Já desde o tempo do profeta há um versículo do Alcorão, ‘nós temos a religião e vós tendes a vossa’, que diz que o profeta fez comércio com os judeus. Do Alcorão não brota nenhuma ideia de julgar ou matar estrangeiros.”

Com Khamenei morto na sequência dos ataques norte-americanos e israelitas a Teerão, a classe clerical iraniana tem agora pela frente a espinhosa missão de escolher um sucessor para liderar o país — uma tarefa que cabe à “Assembleia de Peritos”, um órgão composto por 88 clérigos que é o único que tem o poder para escolher, supervisionar e destituir o Líder Supremo. A tarefa pode afigurar-se como bastante difícil, já que uma boa parte dos nomes apontados como possibilidades foram também mortos pelos ataques de Israel e dos EUA. O favorito para suceder a Khamenei parece ser, para já, o seu segundo filho, Mojtaba Khamenei — que tem o título de aiatola desde 2022 e que é considerado tão rígido como o pai no que toca às ideias anti-ocidentais. Resta saber se o regime político-religioso traçado por Khomeini consegue sobreviver ao desafio existencial que agora enfrenta.