A história
“Costumo dizer que isto é o bar do ‘com licença’. Da porta até conseguires chegar à casa de banho, tens que pedir licença no mínimo umas vinte vezes. Não te safas disso. É a melhor forma de desbloqueares uma conversa. Aliás, tenho muitos casais que se conheceram aqui”. Este é um raríssimo dia em que não nos acotovelamos para cruzar este retângulo até ao bar onde nos recebe Bruno Costa. A hora precoce ajuda a escoar o trânsito, que já teve diferentes sentidos. Se 2019 foi um ano “estrondoso”, quando veio a pandemia encetou-se um caminho descendente. Mas de altos e baixos está esta esquina cheia.
Quem aqui chegou antes de 2010 talvez ainda se lembre que muito antes do hype da cultura dos chefs, e da correnteza de restaurantes e bares novos a ligarem a Rua da Escola Politécnica à D. Pedro V, ou de a zona ser promovida a “Novo Leblon”, o Príncipe tinha muito pouco de Real. No número 63, uma modesta loja de conveniência por aqui se mantinha rés-vés Bairro Alto. Mas no dia de Natal de 2013, o enredo começou a mudar. O original Pub Lisboeta abria portas pela mãos de vários sócios. Com o tempo, ficaram ao leme António Pereira e Filipe Guimarães. Bruno chegou em outubro de 2014 e assumiu a gestão do espaço e o lugar cativo atrás do balcão. E a comunidade foi crescendo. Mas como em tudo, a vida mete-se pelo caminho e atropela os melhores dos planos. “Quando o António também saiu para articular outros projetos que tinha a casa começou a decair. O tempo foi passando, os nossos clientes começaram a ficar mais velhos, a ter família, a viver menos perto. Não conseguimos fazer a transição de público. Com a rua a cair também, fomos caindo. Perdi o braço direito e às tantas já não estava a dar mais. Isto estava sempre cheio, custava-me.”

Os consumos na cidade mudaram de forma acelerado e Bruno admite que o velho Pub não soube reinventar-se a tempo. Em junho de 2025, saiu de vez do balcão onde foi recebendo a legião de assíduos ao longo dos anos. No dia a seguir, o Lisboeta fechou portas. Ele entrou em modo de pausa, enquanto o antigo dono tentava vender o espaço. “A Sara do Ó já andava à procura de um espaço aqui no Príncipe Real para expandir a marca Pachecas, e encontrou este”. Os astros alinharam-se depois desse encontro com a fundadora da Ó capital, a holding focada em acelerar o crescimento de pequenas e médias empresas.
A ideia inicial era “matar o Pub Lisboeta” mas a voz dos amigos, e habitués do Pub, falou mais alto. Cumpriu-se o trespasse, a marca manteve-se, e Bruno, o anfitrião de sempre, juntou-se à sociedade, agora com a condição de não fazer horários tão tardios, como antigamente. É um facto: estamos todos mais velhos. E, sim, não se preocupem que já está a formar nova equipa, respeitando os requisitos prévios. “Um deles também é Bruno. Isto vai ser sempre o bar dos Brunos.”

Se as sextas ganharam fama por transbordar de gente passeio fora, chegando quase até ao Pavilhão Chinês, as quartas e quintas sempre foram mordendo as canelas. “Já éramos clientes, muitos vezes a meio da semana vínhamos de jogar à bola e parávamos aqui”, descreve Pedro Marques, um dos cinco sócios da Ó Capital, e o responsável pela marca Mercearia Pachecas, que na Rua da Artilharia 1 tem impulsionado o conceito de after work. “Tivemos esta oportunidade em agosto, ficámos com o negócio em setembro. O objetivo é expandir as Pachecas, com espaços maiores, outros menos, e este encaixava-se no conceito. Apanhámos um sítio mítico e não quisemos acabar com o nome. Mantivemos o conceito, e mantivemos o Bruno”.

No cimo da Artilharia, a um passo do não menos concorrido Corner, as Pachecas começaram por abrir estritamente como mercearia. Aguentaram-se neste formato um pouco mais de um ano mas não funcionou. O passo seguinte foi ajustar o conceito ao modelo seguido pelos vizinhos espanhóis e pelos italianos, que aproveitam os finais de dia para beber um copo antes de seguir para casa. “O DJ é das seis e meia às nove e meia. Depois lá fico a pôr música até à meia noite. É um ponto central, com escritórios. As pessoas aparecem para um copo. Vendemos a garrafa e bebem-na praticamente ao preço a que compram para casa, sem taxa de rolha. Depois é o bom ambiente.”, descreve Pedro. À mais valia da comunidade reunida pelo master dos cocktails junta-se a frequência de turistas a passar lá fora.
O espaço
Já era hora de “Lucília” tirar umas férias. O característico néon encarnado que recebia quem entrava no Pub, e que com ele quase disputava o batismo, saltou da parede lá ao fundo. No seu lugar, abre-se espaço para os videoclips que acompanham a banda sonora (que promete não defraudar os fãs da antiga playlist, promessa de Bruno) e ainda, para entusiastas do desporto, eventuais transmissões de Sport TV — ainda que quem frequente a casa saiba de antemão que não estamos de todo num sports bar ao estilo irish. Nesta encarnação by Pachecas o Lisboeta tornou-se menos escuro, muito mais luminoso, a começar pelos candeeiros sobre o balcão, pelo mobiliário, pela nitidez dos espelhos em redor, pelo quadriculado dos azulejos coloridos (foi-se o verde garrafa) enfim, pelo conjunto de design de interiores e arquitetura com assinatura da Magari Studio que tem deixado a sua marca nos espaços Pachecas. Quanto às dimensão, não dá para inventar, nem é preciso, porque circular por aqui sem apertos nem seria a mesma coisa. O número de mesas também é o possível dadas as limitações.

Nas paredes, acomodam-se livros de lifestyle, garrafas e uma série de outros items que também podem seguir para casa. As latas de Bonilla la Vista acrescentam um toque retro, e as garrafas de Bellini Cipriani reforçam a vibração nova. “Foi dar uma limpeza e de cor e manter o mesmo ambiente. As pessoas até gostam de haver pouco espaço. Apercebemo-nos que havia um chats com pessoas que vêm ao Pub Lisboeta. Eram umas 30 e tal pessoas. “A última prova das comidas e bebidas fizemos com eles, foi uma semana antes de abrimos ao público. Quando chegaram aqui quiseram ver se tínhamos alargado esta zona. ‘Não alargaram isto, pois não?’ É impressionante mas isto fica à pinha.”, lembra Pedro Marques.
A comida e bebida
Com os anos, os emblemáticos de origem foram saindo da carta, e ficou comida para “desenrascar, sem grande graça”, como pizzas. As sugestões para matar a fome foram “o nosso maior upgrade”. O convite é, desde logo, para vir almoçar, e ainda picar tarde fora, à saída do trabalho, e serão dentro — estão abertos todos os dias, mantendo-se a segunda-feira como dia de folga.

A abrir a carta elaborada por Diogo Abecasis, enumeram-se azeitonas (3 euros), ostras (7 euros 2 unidades), os croquetes de vitela (2.5 euros) ou a tábua de queijos para dividir (16 euros). Há folhado de queijo chèvre e doce framboesa (7.5 euros), beijinhos de alheira em cama de grelos (9.5 euros), tártaro de novilho (12 euros) ou espargos na chapa com parmesão e amêndoa tostada (10 euros).
Juntam-se à festa os ovos mexidos à Pub (9.5 euros), a pinsa de atum ou burrata (8.5 euros) e ainda a nostalgia de uma sanduiche estrela do bar Jobi, no carioca Leblon, num encontro guloso entre rosbife e chedar. Aliás, com o toque Bitas Comida Lá de Casa apresenta-se também a empada de cozido (17 euros). Se preferir, para alguém com mais pressa à hora de almoço, também é possível levar iguarias para casa.

Outra novidade? As sobremesas a estrear: cocktail tiramisu (8 euros), bolo chocolate Paparrucha (9 euros) e dadinhos de bolo de laranja com brigadeiro (7 euros).

A garrafeira generosa mantém-se, um dos melhores pisco sours (11 euros) de Lisboa continua em forma, e os preços em geral (boas notícias) foram afinados sem grandes desvarios. Há mais cocktails para além do elenco em papel, pontuado por outros clássicos da casa como o Moscow Mule (10 euros), Basil Smash (11 euros) ou um Fizz Raspeberry (11 euros).

À medida que a noite for entrando, uma cortina de veludo, que ainda há-de chegar ao Pub será fechada à entrada, para afinar a atmosfera.
Por fim, o projeto at home de catering de bar que Bruno já mantinha levou uma injeção no formato e torna-se agora Pub Lisboeta em casa, para quem quer dar uma festa ou evento e procura estrutura de cocktails ao domicílio.
Pub Lisboeta by Pachecas, R. Dom Pedro V 63, 1250-096 Lisboa. Das 12hoo às 02hoo. Encerra à 2f
“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos (e renovados) restaurantes e cartas.