Era previsível. Depois de Luís Montenegro ter desafiado Pedro Passos Coelho a ir a votos contra ele já em maio, o antigo primeiro-ministro sugeriu que o seu sucessor não soube estar à altura do cargo que ocupa e aconselhou-o a trabalhar para cumprir aquilo que prometeu aos portugueses. “Já ouvi muitas coisas que não gosto e ouvi e ouvi e andei. A gente não brinca com o país por causa disso.”
Pedro Passos Coelho falava aos jornalistas à margem 4ª edição da Cimeira da Associação de Estudantes da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (AEFEP). Confrontado com o desafio de Luís Montenegro, que decidiu partir para o ataque depois de duas semanas a ser queimado em lume brando, o antigo primeiro-ministro foi direto ao assunto. “Não estou de candidato a coisíssima nenhuma. Escusam de perder tempo a fazer efabulações sobre o que é que eu quero. No dia em que me quiser candidatar, digo que me quero candidatar e candidato-me”, avisou o antigo primeiro-ministro.
A seguir, Pedro Passos Coelho aconselhou Montenegro a trabalhar mais e a preocupar-se menos com as críticas que lhe fazem. “Luís Montenegro é primeiro-ministro. É uma função importante. Contraiu uma responsabilidade com o país. As pessoas aguardam que o seu mandato possa ir ao encontro daquilo que as pessoas esperam. E as pessoas esperam uma mudança. Este é o tempo de Luís Montenegro se concentrar no exercício dessas funções e dessas responsabilidades.”
“Não me deixarei condicionar por reptos de espécie nenhuma. Tenho uma obrigação para muitas pessoas no país e direi sempre aquilo que entender. Estou à espera que o meu partido dê conta do recado e faça o que tem de fazer. Foi para isso que as pessoas votaram no PSD. Recomendo ao chefe do Governo que se concentre nessa missão e que se distraia pouco com o resto. Eu digo o que penso e direi sempre o que penso. Já ouvi muitas coisas que não gosto e ouvi. Ouvi e andei. A gente não brinca com o país por causa disso.”
Montenegro tem de “liderar” e assumir de “risco”
Já no encerramento da 4.ª edição da Cimeira da Associação de Estudantes da FEP, numa intervenção de cerca de uma hora, Pedro Passos Coelho voltou a pedir aos governantes que não tenham medo de fazer as mudanças de que o país precisa —numa declaração em linha com aquelas que vem fazendo nas últimas semanas.
“É um péssimo sinal quando os governantes acham que numa posição paternalista podem adivinhar o interesse das nações e embrulhar numa série de mentiras piedosas o comprimido que querem dar às sociedades. Normalmente não funciona bem. Se queremos ter um capital social forte, ele não se obtém enganando as pessoas ou ocultando os problemas às pessoas. Não temos de as assustar, não temos de as ameaçar, isso também não é uma forma nem adulta nem inteligente de lidar com os problemas”, foi sublinhando Pedro Passos Coelho.
Já depois de ter analisado os principais desafios que o país e o mundo enfrentam num contexto de enorme incerteza, o antigo primeiro-ministro respondeu indiretamente a Luís Montenegro e aos demais dirigentes do PSD que têm dito que repetidamente que os portugueses sabem bem o que este Governo está a fazer.
“Fazer de conta que está tudo bem, que temos tudo controlado e que não vale a pena estar a perder muito tempo porque os governos sabem o que é que vão fazer, é uma forma muito curta e deficiente de construir esse caminho que precisamos de fazer. Porque é um caminho que só podemos fazer duradouramente se o quisermos trilhar. Os políticos têm o dever de liderar esses processos. É para isso que existem. Não é para ir atrás da corrente”, continuou Passos.
“Queremos políticos que assumam o risco. Não é possível fazer um caminho comum, que as pessoas queiram fazer, sem discutir as coisas com elas. Vale a pena começar a apostar neste debate adulto, inteligente, que considera a capacidade que as pessoas têm para poderem pensar e saber o que é que acham que deve ser feito para podermos fazer alguma coisa que nos permita encarar o futuro”, rematou o antigo primeiro-ministro.
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