Quem se demore uns minutos a percorrer com atenção as ilustrações de Bernardo P. Carvalho não deixará de se surpreender com a complexidade cromática aplicada, o que nos dá boa conta do investimento artístico aplicado na representação desta narrativa que reinventa a figura do grego Ulisses e da sua odisseia. A coleção Museu Casa da Moeda — criada em 2016 e agora com 14 títulos — já consolidou há muito o seu extraordinário grafismo, com o verso da sobrecapa abrindo-se para uma figuração-síntese do tema do livro (neste caso, o roteiro da viagem do herói a sua casa, em Ítaca, dez anos depois da guerra de Tróia) e uma paginação ágil que integra breves notas explicativas sobre assuntos e personalidades referidas no texto, permitindo aos mais novos acompanhar inteiramente o que vão lendo, mas o facto de A Fénix e o Unicórnio retomar a grande aventura de Odisseus/Ulisses vem obrigar-nos a confrontá-lo — e assim se terá certeza de todo o progresso havido — com a antiga versão de João de Barros para a Livraria Sá da Costa, que curiosamente André Letria (um dos artistas fundadores da Pato Lógico) também ilustrou, em 2010.
A coleção Museu da Casa da Moeda tem dado particular atenção ao mundo natural a preservar, com volumes dedicados ao lince-ibérico, ao lobo, ao golfinho-comum, ao cavalo-marinho e à águia-imperial-ibérica, e ao mar, numa abordagem de evidente conservadorismo ambiental que ilumine as gerações do futuro, mas este regresso a Ulisses e a um grande clássico da literatura universal — e quase o mesmo poderia ser dito para Fernão de Magalhães. O Homem que se Transformou em Planeta, de Luís Almeida Martins e António Jorge Gonçalves (2019), face ao best-seller internacional de Stephan Zweig (1938) — também garante a presença, entre os nossos mais novos, da matriz cultural greco-romana da civilização ocidental, de tão necessária salvaguarda como aqueles.
E neste caso, juntar à figura do rei de Ítaca o unicórnio e a fénix, dois animais mitológicos de fácil adesão pelos juvenis, além dos deuses e deusas envolvidos na narrativa homérica — que, como se sabe, passa por um território que é hoje o nosso país e Lisboa —, parece um bom achado de Rodrigo Vieira Dias. As pequenas mas boas notas sobre o Cavalo de Tróia, os Campos Elíseos, as Colunas de Hércules, Oceanus, os Tritões ou Penélope, entre outras, são capazes de criar nos infantes vontade de saber mais sobre o mundo antigo — em que se julgava que “os deuses brincam com as nossas vidas como se fôssemos bonecos de trapo” —, reportando-os ao tempo presente: Plus Ultra na bandeira de Espanha; tritão sentado na Porta dos Corais no Palácio da Pena, em Sintra, entre outros; as sereias e o famoso conto de Hans Christian Andersen A pequena sereia (1837); até o camoniano Adamastor.

A fénix — ave com fogo nas penas, ou “águia-sol” — renasceu após a flechada que a derrubou, e a captura do unicórnio Aristeios por um pequeno exército de ofis (cujo milagroso corno foi dado a um fenício embarcado que outro não era que um tritão, indisposto a cumprir a promessa feita) abrem caminho a uma história maravilhosa de reacertos e redenção entre Ardacus pai e a filha Atégina, gravemente ferida, porém salva pelos grãos do pó miraculoso do disputado chifre, com Lisboa a sofrer um terramoto e um maremoto causados pela fúria de Posídon (“ferve em muito pouca água”, escreve Dias, em mais uma tirada humorística, visando prender os seus pequenos leitores). Atégina assume a potência curativa do unicórnio e acaba por curá-lo e aos feridos da grave destruição de Lisboa. “A minha maravilhosa sobrinha-neta foi abençoada pela grande serpente que viaja entre os vivos e os mortos”, diz a druida a Ulisses, reconhecendo que ela “recebeu o poder dos deuses”. As cinzas da fénix também serão muito bem aproveitadas. O estuário do rio Tagus haveria de “tornar aquele lugar num ponto estratégico para o comércio com outros povos”, e “com o tempo Atégina tornar-se-ia numa deusa para os povos daquela parte do mundo”. Razões para temer que essa “bênção seja ao mesmo tempo uma maldição”.
“Na Grécia Antiga, as pessoas compravam pão, peixe e azeite com moedas que exibiam deuses e criaturas mitológicas”. A Imprensa Nacional — Casa da Moeda convidou as artistas Susa Monteiro, Gonçalo Viana e Ana Biscaia para conceberem moedas de coleção em cuproníquel, prata e ouro com as figuras do Unicórnio, de Ulisses e da Fénix — e o resultado, em azul e preto, é tão bom como a história do livro que acompanham.