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(A) :: Quem lê António Lobo Antunes?

Quem lê António Lobo Antunes?

A morte de António Lobo Antunes é o seu último livro, mais despojado e denso do que qualquer outro, finalmente sem necessidade de ser transposto para papel e ne varietur.

Vieira Barbosa
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Quem lê António Lobo Antunes? Ou apenas os seus livros?

O maior, vastíssimo número dos seus leitores, compreende todos os que nunca o leram nem alguma vez o virão a ler. Por uma razão primitiva na esmagadora maioria dos casos. São leitores que não lêem livros, não vêem necessidade, não têm paciência ou dinheiro para serem perdidos em qualquer tipo de leitura que não seja obrigatória. Uma importante minoria entre estes leu os seus primeiros livros mas não persistiu para além das páginas iniciais de um dos últimos – os que o autor mais estimava e se sucediam de ano a ano numa genial imitação dele próprio. Alguns poucos que superaram a dificuldade de uma leitura até ao fim ficaram cansados, com cefaleias e não perceberam o que é que o ilustre homem queria dizer. Umas escassas dúzias insistiram todos os anos em começar o novo romance de Lobo Antunes, têm todos os seus livros na estante. Têm igualmente uma edição encadernada da Divina Comédia e duas traduções do Ulisses. É verdade que entre tantos dos não leitores de Lobo Antunes alguns têm os seus próprios livros e autores. Estes, são preferentemente caras conhecidas e bem tratadas, estão presentes nas redes sociais – parecem pessoas normais ao contrário de Lobo Antunes, têm dramas com vestimentas por ocasião de uma passadeira vermelha, cultivam uma família e a profissão. Escrevem porque têm ideias irreprimíveis e para ajudar os outros, mas trabalham – como se uma actividade fora da escrita fosse garantia de que não são bichos do mato e de que os seus livros não são uma estopada – outra vez como os de Lobo Antunes.

Um segundo grupo de leitores admira António Lobo Antunes. Lê os seus livros com método e paciência, explora as entrelinhas e os silêncios, aponta num papel alguns nomes, ideias de interpretação e recorrências significativas. Volta atrás, regressa ao princípio, procura identificar modelos narrativos e, em última análise, se o autor quis contar uma história ou antes estilhaçar uma história que não quis contar nem saber. É admissível que estes leitores tivessem sido detestados por Lobo Antunes mais do quaisquer outros, e temidos, Na realidade pensaria neles sem conseguir evitá-lo, não os suportaria por esse motivo – pequenos ratos insistentes esburacando o seu pensamento, querendo ir até onde ele próprio tinha dificuldade em estar. Nem todos esse chatos e pretensiosos leitores são sinceramente devotados. Há uma intimidade neles que dividiam apenas com amigos cúmplices – o Lobo Antunes já não se atura. E tinham dúvidas sobre o que estava a acontecer – se era o escritor que estava cada vez mais complexo ou se eram eles que estavam a ficar menos espertos.

Um terceiro grupo de leitores integra críticos, amigos e inimigos, leitores reconhecidos como bastante inteligentes e conhecedores da obra de António Lobo Antunes, investigadores e curiosos de renome. Há-os que são detractores e se referem ao escritor com distanciamento, sem compromisso, como se estivessem a avaliar a sua obra em permanência, armados com uma atenção incomum, compreensivos e de espírito aberto. Já encontraram nos seus livros alguns motivos de merecimento, são textos interessantes em alguns aspectos e esperam, para bem de Lobo Antunes, encontrar mais alguns indícios de qualidade. São muito cautelosos esses que não gostam do autor e dos seus livros. Não reconhecem em si próprios a liberdade de detestar, o que pode ser por atendíveis razões ou apenas por despeito, inveja ou outros defeitos. A sua discrição tem a ver com razões múltiplas, agora mais prementes porque António Lobo Antunes chegou à definitiva qualidade da morte. Não querem criar roda de maus costumes, suscitar réplicas do contra-campo e afrontar um consenso dominante sobre o génio de Lobo Antunes – um génio que era óbvio para muitos e desde ontem é obrigatório para todos. É temível a ideia de lhes replicarem com os incontáveis prémios e distinções e, definitiva apreensão, sabem que sempre esteve presente, e continua a estar, o risco de um dia atribuírem ao homem o Prémio Nobel. São, por isso, muito mais audíveis todos os que leram António Lobo Antunes com profissionalismo e retiraram da sua leitura os sinais de uma experiência fascinante, de uma excursão acompanhada ao futuro do pensamento e da expressão. Todos eles, portugueses e estrangeiros, têm uma convicção laudatória do escritor e são capazes de justificar os seus elogios com argumentações sólidas em todos os domínios que interessam à literatura, à linguística, à semiótica ou à poesia. As suas conclusões aparecem diluídas em presenças simplificadas na televisão, em entrevistas, reportagens. São tais e tão complexas as razões porque António Lobo Antunes é admirável que não podem expressá-las de maneira compreensível para o comum das pessoas. E quando se atrevem a ir mais profundamente na sua visão do homem e da sua obra, tornam-se esquisitos. Como um homem que só apreciasse a beleza da mulher olhando-lhe o esqueleto – desprovido da tepidez da pele, da macieza da carne e do desenho do peito.

E, por fim, há um derradeiro e único leitor. António Lobo Antunes, ele próprio, incapaz de ler desde há algum tempo e, agora, morto. Lobo Antunes leu os seus livros como mais ninguém, perfeitamente, no acto de os escrever. Algumas vezes nem será apercebido que os escrevia enquanto, no espantoso espaço da memória, os estava a ler. Não foi, sobre isso, uma excepção, apenas foi mais desatento que outros escritores e mais indiferente aos que o iriam ler mais tarde na forma imperfeita do livro. Como os maiores escritores, Lobo Antunes não escreveu para ninguém – porque todos o fazem pela razão simples da necessidade, de prestígio ou de dinheiro e somente os mais pequenos o fazem por boas razões, para expressar sentimentos cheios de originalidade ou para transmitir uma mensagem. O acto de escrita é realmente um acto de leitura do que está a ser escrito, É a única leitura profunda, desvendadora e irrepetível de um livro. Por isso o seu autor se afasta do que escreveu e não retorna às mesmas páginas. António Lobo Antunes leu os seus livros, não os escreveu. O que ficou escrito nos seus livros foi a imagem desmaiada do que a sua mão escrevia enquanto o seu cérebro estava a ler. Toda a sua obra recente ficou marcada, por esse autismo criativo. Lobo Antunes sabia que o leitor comum não podia estar presente no momento da escrita, não por cima do ombro mas fluindo com ele entre o cérebro e a mão. Seria a única forma de ser lido completamente e, não sendo isso possível, então bardamerda. Dito isto, porque certamente o disse, e assente que ninguém poderia aceder ao momento ideal mas impossível da criação, o papel escrito e concluído não era mais do que o resíduo reconhecível pela Dom Quixote para publicação.

A obra de António Lobo Antunes é única e una. Nenhum dos seus livros tem valor integral quando isolado dos que o precederam e dos que se lhe seguiram. Constituem um complicado edifício por onde o escritor subiu e andou à procura do livro. O livro que queria ler. Não o encontrou, sabia que nunca o encontraria. No seu trabalho de uma vida deixou para trás dezenas de obras imperfeitas, nenhuma delas parecida com o livro que desejava ter lido e que, se o tivesse encontrado, nunca conseguiria transpor para o papel. Não há nenhuma história reconhecível em António Lobo Antunes, nenhum sentido explícito. Existe, e agora exposto à admiração sem o receio de um próximo volume, o monumental esforço de compreensão da vida e da morte em que se consumiu enquanto foi vivo e que agora levou com ele, sabe-se lá para onde.