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(A) :: Romano fez um vídeo sobre o "papel humanitário global" da Arábia Saudita. A partir daí, foi "here we go" nos comentários (e nas críticas)

Romano fez um vídeo sobre o "papel humanitário global" da Arábia Saudita. A partir daí, foi "here we go" nos comentários (e nas críticas)

Vídeo assinalado com hashtag #ad (conteúdo pago) feito por Fabrizio Romano sobre "papel humanitário global" da Arábia Saudita gerou muitas críticas ao jornalista – e também aos métodos de "trabalho".

Bruno Roseiro
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Não tem uma carreira ligada aos relvados, não foi sequer um jogador (pelo menos a ponto de ter referências a isso na Wikipedia, nem que fosse nos mais modestos clubes), conseguiu sedimentar-se como um dos players mais importantes do futebol global – tanto que, com um crescimento exponencial e sustentado ao longo dos anos, passou a ser quase “a” fonte de todas as transferências internacionais. F Romano mudou a lógica que acompanhava o período de mercado aberto da modalidade, fazendo quase lei quando avançava com um interesse ou com uma venda a caminho de ser confirmada. Se ele dizia, era verdade. Se ele não dizia, podia ser só especulação. Se ele escrevesse “Here we go”, havia negócio à vista. Aos 33 anos, chegou ao topo.

https://observador.pt/especiais/here-we-go-como-fabrizio-romano-foi-de-icardi-a-bruno-fernandes-para-se-tornar-o-influencer-do-mercado-de-transferencias/

Como acontece numa sociedade cada vez mais polarizada onde tudo o que aparece de novo e não segue um caminho “lógico” tanto pode ser amado ou odiado, a história do jornalista italiano tem tanto de única como de improvável. Nascido em Nápoles, no sul do país, estudou na Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão, cidade do seu clube assumido (Inter), começou a escrever para o FCInterNews.it aos 16 anos quando estava ainda no secundário e ganhou protagonismo quando revelou informações de bastidores sobre Mauro Icardi, argentino que passou pela formação do Barcelona mas que rumou depois à Sampdória. Em 2012 foi contratado pela Sky Sports italiana. A partir daí, multiplicou a rede de contactos, passou a trabalhar com outras publicações estrangeiras, cresceu tanto que se transformou ele próprio numa “marca”.

Tudo ajudava a que potenciasse um pouco mais a esfera de influência, dos prémios internacionais na área do jornalismo que foi recebendo às várias entrevistas que foi dando a meios de todo o mundo, passando pelo aumento dos canais nas redes sociais para que pudesse tornar-se num autêntico informador oficial de tudo o que mexia no futebol. Nem mesmo a imagem de marca, com o célebre “Here we go!”, faltava, numa frase com apenas três palavras que rapidamente entrou em esferas como os jogos de consola da modalidade. Quase de forma inevitável, também houve polémicas à mistura como aquela que foi levantada pelo jornal dinamarquês Tipsbladet, que em fevereiro de 2024 acusou o jornalista de promover contactos com clubes do país para que pudesse elogiar jogadores nas suas redes sociais e com isso aumentar o valor de potenciais vendas – mais tarde, a própria Comissão de Jornalistas criticou esse artigo, que foi removido com a devida correção.

https://observador.pt/2025/12/20/o-presente-mais-aguardado-foi-um-regresso-surpreendente-thiago-silva-deixa-brasil-e-volta-ao-fc-porto-20-anos-depois/

Houve outros focos de críticas, como todo o destaque que deu a Mason Greenwood quando rescindiu com o Manchester United no seguimento das acusações de violação, mas Fabrizio Romano foi-se mantendo como o tal player incontornável de toda a máquina do futebol internacional. Até que, meio do nada, no seguimento de uma publicação no meio de tantas outras, chamou a si os radares da forma que menos pretendia.

“O Centro de Ajuda Humanitária e Socorro Rei Salman, mais de dez anos desde a sua criação, implementou 4.212 projetos em 113 países em todo o mundo, refletindo o papel humanitário de liderança da Arábia Saudita. O Centro lançou vários projetos pioneiros de alta qualidade, com destaque para o [Projeto Masam], de desminagem do Iémene, que já removeu 540.000 minas até à data”, destacou num vídeo com pouco mais de dois minutos com a referência #ad (anúncio ou publicidade paga) que tinha o título “O Papel Humanitário global da Arábia Saudita”, entre outros links para os programas. “Talvez tenha perdido as notícias sobre nobres atos de caridade da Arábia Saudita. Para sermos justos, alguns outros acontecimentos no Médio Oriente acabaram por ofuscá-los (…) A Arábia Saudita alcançou a impressionante segunda posição global em ajuda humanitária. Sabemos isto graças a um jornalista desportivo”, escreveu o The Telegraph.

https://twitter.com/FabrizioRomano/status/2028818183923147039

O artigo assinado pelo editor de Desporto, Thom Gibbs, recordava o peso de Romano nas redes sociais com 27 milhões de seguidores no X, 43 milhões de seguidores no Instagram e 50 milhões de seguidores no TikTok e no  Facebook, acrescentava que depois dessa publicidade tinha avançado com a informação exclusiva de que Ronaldo estava a trabalhar no centro de treinos do Al Nassr e não tinha voltado a Madrid (algo que agora já é uma realidade, com confirmação de Jorge Jesus), e recordava algumas das conclusões do Relatório Anual da Human Right Watch menos abonatórias para o que se passa na Arábia Saudita. “Romano tem o direito de tomar as suas próprias decisões sobre quais os anúncios a veicular. Aparentemente, há aqui apenas uma consideração, e diz respeito ao valor pago. Mas perdoem aqueles de nós que, ao ouvirem ‘Arábia Saudita’ e ‘jornalista’ na mesma frase, pensam imediatamente em Jamal Khashoggi”, concluía Gibbs.

https://twitter.com/FabrizioRomano/status/2028859368070856904

Houve mais publicações que não passaram ao lado do vídeo promocional. O francês L’Équipe, por exemplo, escreveu mesmo que “de jornalista a influencer, Fabrizio Romano tem a sua credibilidade posta à prova”. “Num mundo em que cada palavra proferida por um jornalista é minuciosamente analisada, a linha que separa a informação e a comunicação parece, por vezes, ténue. Uma publicação recente a elogiar o ‘papel humanitário global’ da Arábia Saudita, acompanhada da hashtag #Ad, indicando conteúdos patrocinados, gerou uma onda de reações na comunidade futebolística. Para alguns internautas, a desilusão é palpável”, explicou. “‘O jornalismo está completamente morto quando o maior jornalista desportivo é pago para promover iniciativas estatais’, escreveu um deles. Outro desafiou o jornalista de forma mais direta: ‘Foque-se nas transferências, não na publicidade'”, recuperou também, a publicação desportiva gaulesa.

https://twitter.com/lequipe/status/2029893036897894796

No entanto, o artigo que mais comentários gerou acabou por ser escrito por Nick Harris, um jornalista da Sporting Intelligence que apontou as estratégias utilizadas por Romano. “Um rapaz nos seus 30 e poucos anos que, ao fim de mais de uma década, se tornou numa pessoa autoritária no mundo das transferências futebolísticas. É tão popular que, nos dias de hoje, pode cobrar até enormes quantias para falar sobre regimes que abusam dos direitos humanos. Parabéns para ele. Talvez seja este o mundo em que vivemos. Podem reparar que este vídeo controverso sobre a Arábia Saudita veio com a hashtag #ad, que significa que foi pago para publicitar o conteúdo em questão. Romano já declarou em várias ocasiões que aquilo que faz se baseia em publicidade, seja para casas de apostas – como já fez umas dez vezes este ano –, para empresas de criptomoedas, ou para a Pepsi e a FIFA. Na maioria das vezes, nem sequer refere que está a promover algo, e é aí que entra um dos grandes problemas de tudo isto”, começa por referir num texto onde apelida o italiano de “charlatão”, dando o exemplo do que aconteceu na morte do ganês Christian Atsu.

https://twitter.com/sportingintel/status/2029880066604167415

“Um antigo colega de Romano explicou-me que a coisa mais ‘baixa’ que fez terá acontecido imediatamente após os sismos na Turquia, que vitimaram 60 mil pessoas. Na sua página de Facebook, Romano disse aos seus seguidores, a 7 de fevereiro, que Atsu estava vivo e no hospital após ser encontrado com uma lesão no pé e dificuldades respiratórias. Na verdade, Atsu estava morto e o seu corpo viria a ser encontrado no dia 18 desse mês. Qualquer jornalista com o mínimo de credibilidade teria referido que Atsu estava vivo de acordo com X fonte. Mas Romano referiu que, factualmente, Atsu estava vivo. E a sua família chegou a ganhar uma nova esperança. Na realidade, os rumores que Romano espalhou eram coisas vazias que circularam nas redes sociais”, contou, a propósito do antigo internacional que passou pelo FC Porto.

https://twitter.com/AdamJoseph/status/2029685592913760544

“Amundsen-Ansari confirmou que recebeu uma proposta em 2022. Disse que foi contactado por uma companhia que oferecia variados serviços, como espalhar rumores acerca de jogadores para gerar ‘ruído’ acerca dos mesmo e dos próprios clubes”, acrescentou ainda, recuperando as declarações do então diretor de marketing dos noruegueses do Valerenga, em 2022, que denunciou essa abordagem dizendo que o preço que estava então tabelado rondava os mil euros por cada publicação. “Como leitores, podem estar a questionar: ‘Por que razão estás a fazer isto?’. Aquilo que posso dizer é que Romano não é um jornalista. E a história dele com a Arábia Saudita esta semana irritou-me imenso”, concluiu Nick Harris no mesmo artigo.