Emigrada da Irlanda para o Canadá, Grace tinha 16 anos, e servia numa casa particular. Logo à cabeça do romance, o futuro da vida prometida da emigração cai por terra. Com Grace a afirmar nada se lembrar do crime, as teorias sobre o seu envolvimento divergem, entre quem a considere culpada ou louca ou inocente. Um grupo de clérigos que lutam pelo seu indulto contrata Simon, especialista em saúde mental, e o livro conta com a versão de Grace, que, ao longo do romance, lhe relata a sua vida. Simon tenta, por isso, entender o que se passou no dia em que Thomas Kinnear, dono da casa em que trabalhava, e Nancy Montgomery, sua governanta e amante, morreram. Desengane-se quem procurar somente um thriller. Atwood parte deste cenário para criar um todo orgânico em que, misturando micro e macro, retrata a sociedade em questão, assim como a perpetuação de poder e a defesa social de quem nascia já em privilégio.
Baseado num caso real, o romance voa pelo território da ficção, e a escrita de Atwood é limpa, concisa, escorreita. À medida que as consultas com Simon avançam, o leitor conhece a vida de Grace, atando-lhe os pontos, como quem ouve a voz de Xerazade. Como as conversas levam à vida e à intimidade, Simon cria uma ligação empática com Grace, e o leitor faz o mesmo ao seguir-lhe os passos, desde a viagem intercontinental ao estabelecimento no Canadá, já com a mãe morta, ou aos trabalhos como criada, ou à mudança para a casa de Kinnear e à vida na prisão. E, magistralmente, os elementos de surpresa e de mistério ficam bem doseados, e o leitor jamais encontra respostas imediatas, definitivas. Em vez disso, tacteia-se a dúvida à medida que Grace discorre sobre a vida.
Ao assumir novamente o ponto de vista de uma serviçal, como já acontecera com A História de Uma Serva, a autora, enquanto lhe desfia a biografia, Atwood mostra a liberdade como praia da classe alta – à baixa, resta apenas a solidariedade entre si, jamais vinda de cima. Assim, mais do que sobre um assassinato ou um mistério, o livro faz o retrato de uma classe social, ou até de duas. Afinal, toda a acção acontece num contexto em que as divisões de classes parecem feitas a bisturi, além de haver uma predominância de um sentimento anti-imigrantes entre os nativos.

Com tudo isto, a sinopse que aponta para um crime e para a ideia da sua resolução acaba por bater ao lado, uma vez que o livro tece outras teias e faz nascer outros tentáculos. Sob a aparência de um romance de causa-efeito simples, em que o leitor teria de seguir pistas, lançam-se afinal pistas para o mundo, abrindo-se a narrativa aos campos do poder e da memória, e ainda da forma como são ou podem ser fabricadas as verdades.
Ora, a própria figura de Grace aparece de múltiplas formas no livro, porque ao dar de si não deixa de dar a visão dos outros sobre si. Portanto, é em simultâneo primeira e terceira pessoa, agente e objecto. As outras personagens usam-na como eixo de definição, tentando ora interpretá-la, ora apropriá-la. E ela, no meio disto, permanece uma figura meio opaca, numa construção em que Atwood não é inocente – essa opacidade é o motor da narrativa. Além disso, a sua voz narrativa já é coisa complexa: à medida que conta a história a Simon, percebe-se que domina as ferramentas da arte de contar, seleccionando, omitindo, reorganizando. Há momentos de tal forma infantis que se tornam constrangedores para os eleitores. Noutros, parece politizada, perfeitamente consciência de uma estrutura social opressiva que a mantém na base da pirâmide. À medida que isto se vai desenrolando, e com estas flutuações, o próprio leitor percebe que tem de se equilibrar na narrativa, abdicar da sua benevolência ou da própria crença como dado adquirido, uma vez que não fica claro se a voz de Grace é fiável, ou seja, se é ingénua no que diz ou se cumpre uma estratégia.
Atwood joga bem com essa ambiguidade, mantendo o leitor tenso, mantendo-o confuso, e o romance nunca chega a um arco, nunca se fecha sobre si mesmo. Há, por isso, desconforto na leitura, e quem lê mete-se num jogo sem saber onde perde o pé ou até que ponto é enganado. E, partindo isto de uma história real, também não se entende bem se, na cabeça da autora, já há uma concepção de verdade, havendo a versão de Grace em cima dela, ou se também ela joga no território da dúvida. Ou seja, fica dúbio o que Atwood sabe ou em que é que acredita em relação à personagem, o que, no campo da interpretação literária, é um elemento fascinante – Grace deixa de ser fantoche, podendo impor-se, até perante a voz autoral, como a dúvida que não deixa de ser dúvida.
E por isso todo o livro é essa sombra. Simon também aparece com a pretensão de explicar o que não pode ser explicado. Vasculha a cabeça de Grace em busca de um caminho. E Atwood faz o mesmo, dentro do território ficcional, em busca de todos os caminhos. Personagem e autora caminham na direcção de desocultarem o mistério, e o próprio Simon acaba por ter o seu quê de Atwood: ao aproximar-se de Grace, a curiosidade depressa vira obsessão, vontade de entendê-la ao limite. E o seu olhar clínico, tal como o literário, mostra-se dúbio e falível. Nisto, Atwood desmonta, de forma discreta e subjectiva, a ideia da autoridade científica como mais uma narrativa, também esta passível de distorção, preconceito, ilusão. Para mais no campo da saúde mental, a medicina aparece como ciência que tactei e que também bebe de superstições e preconceitos. Neste cenário, um diagnóstico é como a recepção deste romance – pode não passar de mera interpretação.
Com a prosa lisa e escorreita do costume, a autora tece um romance que navega pelas sombras, que prima pelo vigor da subjectividade. Não há personagens a preto e branco e o próprio leitor fica desamparado ao vê-las, sendo este efeito de não ter como encaixar nem ter respostas fáceis o maior mérito do romance.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.