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Esgotamento silencioso: o trabalho remoto e a ameaça invisível

A flexibilidade do teletrabalho esconde uma fragilidade: o esgotamento digital silencioso. Com a "luz verde" da disponibilidade sempre acesa, cobra-se um alto preço ao nosso bem-estar.

Pedro Malheiro
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Desde 2019, venho estudando e partilhando os impactos do trabalho remoto na liderança de equipas, nos teletrabalhadores (especialmente na sua saúde mental), nas famílias e nas organizações. A mudança em massa para este modelo, muito impulsionada pela COVID-19, trouxe benefícios inegáveis, mas a fusão entre casa e escritório transformou uma facilidade de conexão numa fonte silenciosa de desgaste.

A transição massiva para este modelo, fortemente impulsionada pela COVID-19, trouxe inegáveis benefícios, como a flexibilidade, mas também expôs uma enorme fragilidade psicológica. A fusão entre a casa e o escritório transformou o que era uma facilidade de conexão numa fonte silenciosa de desgaste.

Foi com o propósito de ajudar a identificar esta realidade que escrevi o e-book “O Esgotamento Silencioso: Como Identificar o Burnout no Teletrabalho”. Este primeiro e-book destina-se a ajudar a identificar problemas mentais e laborais associados ao stress crónico e ao burnout, decorrentes de práticas inadequadas de gestão do trabalho remoto.

O esgotamento silencioso encoberto no “quiet quitting”

O burnout no teletrabalho é silencioso; na maior parte das vezes, é ligeiro, e os desequilíbrios psicológicos são suportados individualmente. O quadro que resulta disto é uma espécie de “quiet quitting” que, com o tempo e a intensidade dos fatores laborais mais nocivos, pode gerar exaustão e esgotamento.

Mas o que diferencia um dia stressante do verdadeiro burnout? O stress é a nossa resposta de sobrevivência a desafios, intensificando as emoções e a ansiedade (“Tenho tanta coisa para fazer!”), mas o trabalho ainda faz sentido. O burnout, por outro lado, surge quando a nossa energia é ‘extinta’ por um stress prolongado. Sentimo-nos exaustos e desmotivados; as emoções ficam embotadas; tornamo-nos passivos e cínicos, e o trabalho perde o sentido.

Os aceleradores digitais

A investigação científica recente mostra-nos que o trabalho remoto não causa burnout por si só. No entanto, quando mal gerido, atua como um perigoso acelerador dos fatores que alimentam a exaustão. Como psicólogo especialista em saúde mental no trabalho, reconheço que estes fatores ganharam novos contornos na era digital:

E-presentismo e Tecno-invasão: Sem a barreira física do escritório, o trabalho invade a casa, gerando conflito com a vida pessoal. O cérebro não consegue desligar. Muitos sentem que precisam manter a “luz verde” do chat sempre ativa para provar que estão a produzir, esticando o dia de trabalho.

Sobrecarga e “Zoom Fatigue”: O excesso de videochamadas provoca um cansaço extremo. Perdem-se as pausas informais e o convívio, o que gera isolamento e falta de apoio.

Tecno-insegurança: A falta de feedback informal imediato alimenta a autocrítica (“Será que estou a fazer o suficiente?”) e o medo de ficar para trás face às novas tecnologias e à Inteligência Artificial.

A intensidade destas exigências, muitas vezes aliada a espaços de trabalho domésticos improvisados e ergonomicamente inadequados, levou entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a alertar para uma crise de saúde mental, na qual o teletrabalho amplifica os riscos psicossociais.

O problema não é a tecnologia

A conclusão a que chego, e que partilho neste artigo, é clara: o problema não é a tecnologia digital; é a falta de limites, de recuperação e de segurança psicológica. A exaustão instala-se quando as exigências superam a nossa capacidade de resposta, quando as nossas estratégias para lidar com os problemas falham e quando deixamos de conseguir descansar adequadamente.

Se alguém dá por si a agir de forma indiferente no trabalho, se sente que perdeu energia e motivação, ou se tem negligenciado o seu próprio bem-estar, pode estar a experimentar burnout. Reconhecer estes sinais invisíveis a tempo é vital para salvaguardar a sua saúde e a sua carreira.

No próximo e-book a sair em abril, irei dedicar-me de forma mais profunda ao que alimenta este stress crónico e ao burnout no trabalho remoto, fornecendo as primeiras indicações práticas para sua prevenção e tratamento.