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Até Cunhal sabia que a diplomacia não é para meninos de coro

Quando foi ministro no pós-25 de Abril, Álvaro Cunhal teve de tomar posição sobre as Lajes e sobre dilemas internacionais. Paulo Raimundo, Fabian Figueiredo e José Luís Carneiro podem aprender com ele

Miguel Pinheiro
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O mundo, além de perigoso, é complicado. Por isso, a diplomacia e a guerra não são temas propícios a almas sensíveis ou a espíritos que pretendem apenas sinalizar virtude. Esta semana, percebemos isso muito bem ao ouvir alguns políticos portugueses de esquerda. Falando sobre a guerra no Irão e sobre o uso da base das Lajes pelas forças norte-americanas, Paulo Raimundo, do PCP, apontou o dedo indicador tremelicante na direção do governo e decretou, com tremendismo, que o primeiro-ministro “ajoelhou o país perante mais uma agressão militar”; Fabian Figueiredo, do BE, trovejou que Luís Montenegro “branqueou crimes de guerra”; e José Luís Carneiro, comicamente entalado entre as diferentes pressões vindas do PS, criticou com a mesmíssima veemência “a intervenção dos EUA” e “a resposta do Irão”. Esta troika das pombas e das flores comportou-se como se estivesse ainda no jardim do Éden sem se deixar abalar pelas dificuldades labirínticas que assolam a realidade. Tinha de ser assim, uma vez que a esquerda só se move pela pureza das convicções? Não tinha. Mas se Paulo Raimundo, Fabian Figueiredo e José Luís Carneiro não quiserem confiar em mim, talvez se possam guiar pelo exemplo de Álvaro Cunhal.

O primeiro governo logo depois do 25 de Abril, liderado pelo respeitado advogado Adelino da Palma Carlos, juntou em conselho de ministros a lista completa do “quem é quem” do novo regime. Francisco Sá Carneiro era ministro Adjunto, Mário Soares era ministro dos Negócios Estrangeiros, Salgado Zenha era ministro da Justiça, Almeida Santos era ministro da Coordenação Interterritorial, Francisco Pereira de Moura era ministro sem pasta, Firmino Miguel era ministro da Defesa e Álvaro Cunhal era ministro sem pasta. Todas estas personagens, radicalmente e visceralmente diferentes, tiveram de se pôr de acordo para resolver os problemas mais complicados e inesperados que surgiram logo depois da revolução — incluindo, claro, os problemas de política externa.

Anos mais tarde, ficámos a saber tudo o que se tinha passado na sala do conselho de ministros. Adelino da Palma Carlos deu uma longa entrevista à extraordinária jornalista Helena Sanches Osório e, mais importante do que isso, entregou-lhe os apontamentos manuscritos que tinham sido feitos para as atas das reuniões do executivo. Foi tudo publicado no livro “Um só rosto, uma só fé — conversas com Adelino da Palma Carlos”. E assim descobrimos, com surpresa e espanto, como se comportou Álvaro Cunhal nos momentos diplomáticos mais delicados daquele primeiro governo.

A base das Lajes apareceu como um incómodo logo na reunião de 5 de junho de 1974, escassos dias depois da revolução. Adelino da Palma Carlos contou a Helena Sanches Osório que “o Nixon veio à Europa e, no regresso aos Estados Unidos, resolveu, por sua alta recreação e sem dar cavaco a ninguém, parar nos Açores, no aeroporto das Lajes, como se aquilo fosse território americano”. Compreensivelmente, o Presidente da República, que era o autocentrado militar António de Spínola, “perdeu a cabeça”: “Então aquilo é nosso, vem um Presidente americano e instala-se, sem nos dizer nada, sem nenhuma atenção para connosco?”. No conselho de ministros, Palma Carlos perguntou à mesa, como se fosse um Lenine da diplomacia: “Que fazer?” Álvaro Cunhal podia ter suspirado, bufado e insultado; podia ter dito que a pátria não se podia “ajoelhar”; podia ter bramado que se recusava a alinhar com um “branqueamento” da atitude sobranceira de Nixon. Mas o líder do PCP não fez nada disso. Admitiu que talvez a base das Lajes fosse “uma questão a rever”, mas, para evitar uma eventual “inquietação americana”, o assunto “não seria de levantar agora”. Mais: “Não deve sequer haver afirmações nesse sentido”. Em alternativa, recomendou o caminho da “diplomacia lenta”, um conceito que hoje em dia a esquerda pátria desconhece.

Naqueles dias em que partilhou responsabilidades pela governação, o realismo de Álvaro Cunhal mostrou uma elasticidade ainda mais surpreendente. A dada altura, conta Palma Carlos, o ministro da Defesa apareceu-lhe no gabinete “um bocado contrafeito” e lamentou: “Tenho aqui um problema… O Exército quer vender munições para o Chile”. Mais tarde, no conselho de ministros de 24 de junho, Firmino Miguel deu mais detalhes. Tratava-se de uma encomenda de 130 mil contos em munições de armas ligeiras. E o negócio era “muito importante” para a nossa fábrica porque representava seis meses de trabalho. Como notou o primeiro-ministro, olhando melancolicamente para a carteira vazia, aquele dinheiro “fazia a maior das diferenças”. Apesar disso, “muitos dos ministros barafustaram violentamente”. Havia uma razão para os urros e berros. É que à frente do Chile estava Augusto Pinochet, o temível ditador que chegou ao poder através do golpe de Estado que levou à morte de Salvador Allende e de Victor Jara, ídolos políticos e culturais da esquerda. Aliás, uma das primeiras medidas tomadas depois do 25 de Abril tinha sido, naturalmente, o corte de relações com o Chile. Agora, o governo precisava de escolher entre os princípios e um saco cheio de dinheiro.

Pereira de Moura anunciou imediatamente que “não podia votar senão contra”. Salgado Zenha juntou-se a ele, proclamando que “essa transação com a nossa consciência teria um saldo largamente negativo”. Continuando nas metáforas contabilísticas, Almeida Santos aduziu que “o saldo negativo” seria “muito grande”. O ministro do Equipamento Social, Manuel Rocha, alertou que “os prejuízos para a imagem do país neste momento poderão ser graves”. E o próprio primeiro-ministro confidenciou que “o fornecimento direto ao Chile lhe repugnava muito”. No meio da exaltação e da vozearia, Cunhal manteve-se “muito calmo”. Começou por dizer, numa procura de sensatez, que “não queria ser mais papista que o Papa”. E, depois, apontou um caminho: “Tornar isto um contrato comercial vulgar”. Palma Carlos descodificou mais tarde a proposta do líder do PCP: “Aconselhou a que se desse um tratamento estritamente comercial ao assunto, vendendo as munições a um terceiro, que as revendesse a quem quisesse…” Até Cunhal sabia que a diplomacia não é para meninos de coro. Ou seja, como se comprovou esta semana, não é para Paulo Raimundo, Fabian Figueiredo ou José Luís Carneiro.