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(A) :: O que faz a “America Great” é a América Rural

O que faz a “America Great” é a América Rural

Eu faço, eu cultivo, eu protejo a minha família e os meus vizinhos. É o espírito empreendedor, cowboy, rural: o espírito americano.

Julie Machado
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Um político representante do Estado de Kentucky, Thomas Massie, foi ao podcast de Theo Von e começou por falar da sua casa. Não paga fatura de luz, água ou eletricidade há 20 anos. Tem um poço para a água e painéis solares, onde também carrega o seu Tesla. É engenheiro mecânico de formação, e também concebeu um galinheiro com uma grade à volta e por cima para proteger as galinhas de predadores. Tem relva por baixo e um sistema que faz o galinheiro ir mudando de lugar um pouco por dia para as galinhas terem erva fresca, e não ficar muito sujo. Thomas Massie disse que o pior dia na sua casa em Kentucky ainda é melhor  do que o melhor dia em Washington DC, onde trabalha.

Thomas Massie explicou que não montou estes sistemas em sua casa e na agricultura (também tem uma pequena manada de vacas) para poupar dinheiro. Até porque que foi um gasto montá-los. Fá-lo por um princípio intrinsecamente americano: self-reliance (autossuficiência). Ao contrário dos portugueses, que estão cada vez mais dependentes de espaços urbanos, de supermercados e do Estado, Thomas Massie não fica ficaria aflito se houvesse um apagão.

Desde a fundação dos Estados Unidos, e especialmente na sua expansão para o Oeste, os americanos valorizam o campo, o espaço, a natureza, as montanhas, os cavalos e a agricultura. O estilo de música chamada country é tão popular hoje em dia como era há 50 anos, e quase todas as canções são sobre isso. Escolheram que a capital Washington D.C., fosse longe da capital financeira, a cidade de Nova Iorque, de propósito.

Num segundo livro da série escrita por Laura Ingalls Wilder no século XIX, chamado Farmer Boy, o pai da personagem principal tem a seguinte conversa:

Essa noite, quando voltavam para casa com o leite, Almanzo perguntou ao Pai:

“Pai, como assim? Foram os machados e arados que fizeram este país? Não o ganhámos da Inglaterra?”

Ganhámos a independência, filho,” disse o Pai. “Mas os nossos antepassados só tinham um pequeno pedaço de terra , entre estas montanhas e o mar. Daqui para Oeste era terra dos Índios, e terra dos espanhóis, franceses e ingleses. Foram os agricultores que pegaram nessa terra e a tornaram América.”

“Como?” perguntou Almanzo. 

“Bem, filho, os espanhóis eram soldados, e senhores orgulhosos que só queriam ouro. Os franceses eram comerciantes de peles, queriam dinheiro rápido. E os ingleses estavam ocupados a combater em guerras. Mas nós éramos agricultores, filho; nós queríamos a terra. Foram os agricultores que atravessaram as montanhas, limparam a terra,a povoaram, cultivaram e se agarraram às suas quintas. 

“Este país estende-se três mil milhas a Oeste, agora. Vai para além do Kansas, para além do Grande Deserto Americano, para além de montanhas maiores que estas, até o Oceano Pacífico. É o maior país do mundo, e foram os agricultores que pegaram nessa terra toda e a tornaram América, filho. Não te esqueças disso.” (Farmer Boy, do capítulo Independence)

Gosto de explicar às pessoas que quando os americanos votam no presidente, não é por voto popular. Os fundadores dos Estados Unidos pensaram no sistema de colégio eleitoral e na maneira como os Estados são representados nas 2 câmaras do Congresso para dar voz às zonas rurais. Como as cidades estão mais povoadas, se o voto fosse popular, os interesses das pessoas da cidade sempre se sobreporiam aos interesses das zonas rurais. Por exemplo, as pessoas da cidade poderiam, por maioria e a pretexto de salvar o ambiente, implementar uma lei que prejudicasse a rega ou a quantidade de animais que as zonas agrícolas poderiam ter.

É difícil encontrar uma família com bebé ou crianças que more em Nova Iorque, São Francisco, ou Los Angeles. Quando a família começa a crescer, os americanos vão para os subúrbios.

A campanha de Trump fez muitas promessas aos agricultores, e o seu primeiro ano como presidente tem mostrado essa prioridade. Entregou $12 biliões de fundos diretamente, como alívio imediato, no programa Farmer Bridge Aid. As tarifas aplicadas ao estrangeiro tiveram em mente também proteger a agricultura nacional. O secretário da saúde, Robert F Kennedy, não fala em mais nada senão pequenos agricultores, agricultura “regenerativa” e combater a “big ag” (agriculture). Na mais recente conversa que teve no podcast de Theo Von, disse que conhecem os males dos pesticidas, especialmente do glifosato, mas não o querem proibir de imediato porque prejudicaria muitos agricultores. Quer fazê-lo, mas gradualmente,  ajudando-os a encontrar novas soluções. E explicou que o futuro será de máquinas agrícolas com lasers, que queimam as ervas daninhas.

Temos que depender das instituições e viver em sociedade, mas quando as instituições se tornam demasiadamente grandes e corruptas, é tempo de as deitar abaixo e construir de novo. Os melhores movimentos nos Estados Unidos são do tipo “grassroots”, nascem das raízes, das bases. O MAHA (Make America Healthy Again), encabeçado por Robert F Kennedy, começou com mães preocupadas com os químicos na comida dos filhos. Muitas americanos optam por não comprar seguro de saúde e fazer uma espécie de seguradora com uma pequena comunidade que partilha as despesas de saúde de todos no final do mês. Insatisfeitos com as opções escolares, cada vez mais cresce o ensino doméstico e as “co-ops”, grupos de alunos em ensino doméstico que têm aulas em conjunto. Há pais que começam escolas novas, pequenas, por vezes híbridas. Há associações sem fins lucrativos para ajudar esta causa ou aquela, sem estar à espera do governo. Confiam em Deus e não no governo, para providenciar. Quanto menos o governo se meter nos assuntos do dia à dia, melhor.

Eu faço, eu cultivo, eu protejo a minha família e os meus vizinhos. É o espírito empreendedor, cowboy, rural: o espírito americano.