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Entre a sobrevivência e o "dedo no gatilho", Houthis surpreendem Israel ao manterem-se fora da guerra

Israel contava que Houthis se juntassem ao conflito com morte do aiatola, mas grupo do Iémen mantém-se neutro. Oportunidade para se demarcar do Irão ou à espera de oportunidade para entrar na guerra?

José Carlos Duarte
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Entre todos os aliados do Irão no Médio Oriente, há um que está a surpreender Israel pela inação. Em vez de entrar no conflito diretamente e ajudar o regime iraniano a sobreviver à ofensiva israelo-americana, o grupo mantém-se fora da guerra e está a observar todos os movimentos atentamente. Para já, não vai agir, mas já avisou que isso poderá mudar. “Sobre a escalada militar, os nossos dedos estão no gatilho, prontos para responder a qualquer momento se os acontecimentos assim o justifiquem”, avisou, esta sexta-feira, Abdul-Malik al-Houthi, o líder dos Houthis, o movimento xiita que ocupa partes do Iémen.

Os Houthis preferem, para já, não entrar no conflito diretamente, o que pode terminar com o seu principal apoio político e económico: o regime iraniano. No Médio Oriente, Teerão montou um eixo de resistência ao redor de Israel, do qual o movimento iemenita faz parte. Os aliados Hezbollah, no Líbano, e as milícias xiitas do Iraque já estão a apoiar o Irão. O grupo do Iémen não, embora tenha manifestado solidariedade e prometido vingança pela morte do aiatola Ali Khamenei.

Dentro do eixo de resistência montado pelo Irão no Médio Oriente, sobra outro movimento: o Hamas. Mas se o grupo palestiniano está demasiado débil para prestar qualquer tipo de auxílio por causa das consequências da guerra em Gaza, os Houthis ainda conservam arsenais de mísseis e drones, tendo ainda a capacidade de atacar as embarcações que passam pelo Estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho, numa rota vital para o comércio global — em particular para o transporte de petróleo.

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Noutras fases da guerra contra Israel, desde o 7 de Outubro de 2023, os Houthis atingiram com mísseis e drones território israelita, em solidariedade com o Hamas. Atacaram também embarcações que passavam pelas águas do Estreito de Bab el-Mandeb. Se agiram no passado, o que justifica então este impasse? Por um lado, o movimento xiita atravessa um complexo movimento interno. Por outro, teme as represálias que poderá sofrer dos Estados Unidos e de Israel, tendo ainda outra potência regional bastante atenta ao que o grupo fará: a Arábia Saudita, vizinha do Iémen.

A posição vulnerável dos Houthis no Iémen contra a Arábia Saudita

Nos cálculos e nos planos israelitas desenhados antes do conflito, de acordo com o que avançaram fontes das Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla em inglês) ao jornal Jerusalem Post, os Houthis já deveriam ter entrado no conflito. Telavive esperava que, depois da morte do aiatola Ali Khamenei, o grupo xiita declarasse guerra e retaliasse. Não o fizeram. Depois, Israel tinha a expectativa de que entrariam para apoiar o Hezbollah, que se juntou à ofensiva na segunda-feira. Também não aconteceu.

Segundo o entendimento de Israel, os Houthis ainda não bombardearam o país porque os Estados Unidos da América (EUA) também estão envolvidos nas operações militares. A presença norte-americana e os possíveis atos de retaliação terão afastado o grupo xiita da guerra, assim como a avaliação de que o Irão é demasiado longe geograficamente do Iémen para entrar em ação. Ainda assim, as Forças de Defesa de Israel não descartam que o movimento iemenita mude de ideias.

Com a mediação do Omã, o movimento xiita assinou, em maio de 2025, um acordo de cessar-fogo com os Estados Unidos para travar os ataques marítimos no Mar Vermelho. Um mês depois, quando começou a Guerra dos Doze Dias, os Houthis também ficaram de fora, evitando terminar com a trégua com os norte-americano. Apesar da retórica dura que os militantes do grupo usam contra Israel, sabem também ser pragmáticos, como nota o analista Ahmed al-Shalafi, num artigo escrito para a Al Jazeera.

“O grupo tem a capacidade de separar a retórica que permite cerrar fileiras das decisões operacionais, quando as considerações de custo‑benefício prevalecem”, expõe Ahmed al-Shalafi, acrescentando que os cálculos dos Houthis “não estão limitados à arena regional”. “As dinâmicas internas no Iémen desempenham um papel igualmente influente a determinar certas escolhas”, diz o especialista, apontando que o movimento enfrenta “desafios económicos, juntamente com tensões de segurança e sociais”.

Desde janeiro de 2026, o Iémen está a atravessar uma fase complexa. Até aquele mês, o país — considerado um Estado falhado para muitos analistas — estava dividido em três: o norte e oeste sob controlo dos Houthis; grande parte do sul era administrada por milícias separatistas apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos; o leste estava nas mãos de forças ligadas ao Governo reconhecido internacionalmente, apoiadas pela Arábia Saudita.

As tropas pró‑Governo, com o apoio direto de Arábia Saudita, lançaram uma ofensiva contra os separatistas apoiados pelos Emirados Árabes Unidos, num conflito que colocou dois aliados do Golfo Pérsico a enfrentarem-se, quase num cenário de guerra por procuração. Ora, as forças apoiadas por Riade saíram vencedoras e expulsaram os independentistas do sul do Iémen.

Isso até poderia ter sido positivo para os Houthis a curto prazo. A partilha do poder é, no fundo, mais fácil. Contudo, a ofensiva que derrotou os separatistas apoiados pelos Emirados Árabes Unidos também significa que a Arábia Saudita tem meios e vontade para, se o entender, pressionar militarmente o grupo xiita. Aliás, Riade terá recentemente intensificado os esforços para unir e reestruturar a oposição contra o principal movimento do eixo de resistência do Irão.

Tendo em conta as circunstâncias, o contexto interno do Iémen colocou o movimento aliado do Irão numa posição vulnerável durante esta operação militar israelo-americana. Nenhum país do Golfo — incluindo a Arábia Saudita —, entrou oficialmente no conflito e não está previsto que o façam em breve. Porém, o canal estatal israelita KAN avançou, na quarta-feira, que Riade entraria no conflito se os Houthis do Iémen atacassem o território saudita. “Por agora, estamos a deixar os EUA e Israel concluírem os seus passos no Irão”, indicou fonte saudita ao canal de Israel, sinalizando que essa postura se alteraria se o grupo pró-iraniano iemenita atacar a Arábia Saudita.

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Neste momento, como escreve a analista April Longley Alley num artigo para o think tank Washington Institute, os Houthis mantêm um “diálogo aberto com a Arábia Saudita, com a chance de fechar um entendimento que lhes possa permitir desempenhar um papel proeminente no Iémen após a guerra”. “Apoiar militarmente Teerão numa altura em que o Irão ataca alvos sauditas poderá inverter estes avanços e abrir espaço para os opositores dos Houthis no Governo iemenita”, aclara a especialista.

Estratégia de se demarcarem do Irão e falta de valor estratégico?

O Presidente norte-americano assegurou, esta sexta-feira, que o objetivo é apenas um: o colapso do regime no que é apresentado como uma “rendição incondicional”. Donald Trump tem recusado todas as tentativas de mediação e não parece disposto a aceitar uma solução intermédia. Se a ofensiva israelo-americana for bem sucedida, os Houthis vão perder o maior aliado e um grande apoio militar e geopolítico. Mas aí o foco passa a ser a sobrevivência do grupo iemenita.

“Alguns elementos dos Houthis podem ver a guerra como uma oportunidade para estabelecer uma certa distância entre eles e Teerão”, acredita April Longley Alley, salientando que, “ao manterem-se neutros neste conflito, o movimento sente que pode demonstrar a sua capacidade de tomar decisões de forma independente, mostrando à população que dá prioridade ao Iémen em detrimento do seu aliado estrangeiro”.

"Alguns elementos dos Houthis podem ver a guerra como uma oportunidade para estabelecer uma certa distância entre eles e Teerão."
Analista April Longley Alley num artigo para o think tank Washington Institute

Os contactos existentes com a Arábia Saudita, a rival sunita do Irão no Médio Oriente, podem indiciar já isso. A sobrevivência do grupo impõe-se à lógica de apoiar o maior aliado que fornece meios financeiros e armas. Em declarações à Deutsche Welle, Abdulghani al-Iryani, membro do think tank Sanaa Center for Strategic Studies, antecipa que os “Houthis não vão ter muito apoio do Irão no futuro” e isso vai forçá-los a negociar um “acordo de paz equilibrado e justo no Iémen”.

Adicionalmente, refere Abdulghani al-Iryani, os Houthis “não têm qualquer papel a desempenhar durante este confronto”. “O valor que acrescentavam era causar problemas” aos inimigos do Irão, ao mesmo tempo que “davam margem” para Teerão se demarcar da sua autoria. “Agora que o Irão está, de facto, a atacar toda a região, o envolvimento dos Houthis não acrescenta muito valor”, opina.

Para o Irão, o apoio declarado dos Houthis talvez não seja preciso por agora, embora os stocks de mísseis estejam a diminuir. Além disso, o grupo xiita do Iémen ainda está a recuperar logisticamente dos ataques de que foi alvo nos últimos anos, em que a liderança do movimento foi decapitada por Israel. No plano estratégico, é  verdade que a abertura de uma nova frente divergiria os recursos e as atenções dos israelitas e norte-americanos. Mas é precisamente com esse trunfo que o regime iraniano pode estar a contar.

Houthis estão com “dedos no gatilho” — e não recusam entrar na guerra

Existe a possibilidade de o Irão estar à espera do momento ideal para os aliados do Iémen entrarem na guerra. Não é previsível que o conflito seja curto e poderá demorar semanas até ficar resolvido. Os Estados Unidos e Israel não escondem que derrubar o regime em Teerão não será uma missão nada fácil — e os Houthis poderão ser úteis noutros momentos.

Para os Houthis, de resto, pode não haver outra alternativa. Por muito que tentem negociar um seguro de vida com a Arábia Saudita e mantenham contactos com a coroa saudita, Israel está determinado em destruir o eixo de resistência no Médio Oriente. Nesse sentido, o Executivo israelita poderá atacar alvos do movimento xiita no futuro, de forma a eliminar todas as ameaças à sua segurança interna. O líder do movimento do Iémen já criticou Telavive por desencadear uma “guerra aberta contra populações livres, sem controlos, restrições ou compromissos” no Médio Oriente.

Vão os Houthis entrar abertamente no conflito e atacar alvos israelitas? Essa parece não ser a hipótese mais provável, preconiza Ahmed al-Shalafi. “Bombardear Israel ou levar a cabo operações de larga escala contra os interesses norte-americanos permanece uma opção de alto risco”, analisa o especialista, lembrando que o Governo israelita pode usar qualquer “momento oportuno para lançar uma ofensiva contra a liderança e a infraestrutura militar” do grupo do Iémen.

"Bombardear Israel ou levar a cabo operações de larga escala contra os interesses norte-americanos permanece uma opção de alto risco."
Analista Ahmed al-Shalafi, num artigo escrito para a Al Jazeera

“O cenário mais provável aparenta ser uma escalada calculada através de operações simbólicas ou táticas de pressão calibrada sem um confronto aberto. Isso daria margem de manobra para o grupo demonstrar solidariedade com o Irão e manter a coesão da sua base interna”, prossegue Ahmed al-Shalafi. O foco será muito provavelmente o Mar Vermelho e o Estreito de Bab el-Mandeb. “Esta região representa um dos pontos de pressão estratégicos mais importantes no comércio global e nas rotas energéticas. Os Houthis já provaram a habilidade de o usar como tática de pressão efetiva.”

Com o Estreito de Ormuz já muito condicionado pela Marinha iraniana, a desestabilização de outro ponto nevrálgico das rotas marítimas, como o Estreito de Bab el‑Mandeb, colocaria ainda mais pressão sobre o comércio internacional, com consequências diretas para a economia do Ocidente. Os Houthis reconhecem que atualmente este é o maior ativo que têm.

Além do mais, dentro do próprio movimento, pode haver pressão para uma ação mais assertiva. “Parte da base do apoio popular dos Houthis espera um confronto militar, devido aos anos de retórica belicista — não especialmente de apoio ao Irão, mas contra os Estados Unidos e Israel”, considera April Longley Alley, sentenciando: “Ao não fazer nada, o movimento corre o risco de parecer fraco num momento crítico”.

Em qualquer dos cenários, realça April Longley Alley, a decisão para o movimento xiita não é “fácil”. Os Houthis estão a priorizar atualmente os ganhos estratégicos numa conjuntura interna bastante intrincada e com a Arábia Saudita atenta ao que se passa. Ainda assim, se o regime em Teerão ficar enfraquecido e desesperado para sobreviver, o grupo islâmico poderá ser arrastado pelo Irão para uma guerra contra Israel e os Estados Unidos. Guerra essa que também pode colocar em causa a sua sobrevivência no Iémen.