A previsão de uma subida próxima dos 20 cêntimos no preço dos combustíveis, motivada pela escalada de tensão no Médio Oriente, trouxe de volta um reflexo político que já conhecemos bem. Sempre que o preço dispara por causa de um choque externo, surge a promessa de aliviar temporariamente o ISP para amortecer o impacto. Foi assim noutras crises energéticas e volta a ser assim agora. De repente, o peso fiscal no combustível passa a ser reconhecido como um problema que merece correção.
Mas a verdade é que esse peso existe todos os dias, não apenas quando há guerra. Durante grande parte dos últimos anos, os impostos representaram perto de metade do preço pago num posto de abastecimento em Portugal. Entre ISP, IVA, taxas de carbono e outras componentes fiscais, uma fatia muito significativa do litro que pagamos não depende do mercado internacional nem do custo da energia, mas de decisões internas. Ainda assim, este tema raramente ganha destaque fora de momentos de crise, como se a estrutura fiscal do combustível só se tornasse relevante quando o preço sobe abruptamente.
O combustível é um dos pilares silenciosos da economia. Mesmo num cenário de transição energética e de desenvolvimento de alternativas mais limpas, continua presente em praticamente toda a cadeia de distribuição, do transporte de mercadorias à produção alimentar, do turismo à indústria, passando pela logística que liga empresas, cidades e regiões. Quando o preço sobe, o efeito espalha-se rapidamente por toda a economia. É por isso que qualquer variação de poucos cêntimos tem consequências que vão muito além dos postos de abastecimento.
A descida temporária do ISP pode aliviar o impacto imediato desta subida, mas também expõe uma contradição recorrente. Se o combustível é tão central para o funcionamento da economia, e se o peso fiscal é conhecido há anos, porque é que este debate só regressa quando uma guerra o torna impossível de ignorar? E se o preço continuar a subir nas próximas semanas, até que ponto estará o Governo disposto a acompanhar essa subida com sucessivas descidas de impostos?