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(A) :: Ser tudo para toda a gente

Ser tudo para toda a gente

O autor não pretende mudar de pintas nem está a tentar enganar os gregos: está a sugerir, como outros gregos antes dele, que as pessoas só percebem aquilo que já sabem.

Miguel Tamen
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O conselho ‘ser tudo para toda a gente’, que São Paulo deu por carta a uns correspondentes gregos, é inegavelmente áspero, e tem má reputação.   Considera-se que requer, caso decidamos segui-lo, que digamos às várias pessoas com quem interagimos aquilo que elas querem ouvir, ou que façamos tudo o que nos pareça necessário para elas concordarem connosco; e em última análise que nos disfarcemos de modo a ser confundidos com as pessoas com quem nos damos, na esperança de passarmos completamente por elas.

A má reputação do conselho associa o seu autor a profissões ou actividades que sempre foram consideradas um pouco duvidosas: actividades como as dos políticos, dos cirurgiões plásticos e dos actores.  Os praticantes dessas actividades especializar-se-iam em parecer-se ou fazer as pessoas parecer-se com quem elas querem; e sobretudo em dizer-lhes o que elas querem ouvir.  Mas essas actividades não são as únicas ou mesmo as principais actividades para as quais isso é importante.  Só quem nunca viu um professor em acção é que ignora que podem ser cultivadas ainda com mais entusiasmo.

A origem da má reputação do conselho é a associação de duas ideias: a ideia de que cada um é como é; e a ideia de que quem finge ser como não é tem sempre motivos repreensíveis para o fazer, e está a esconder características porque espera obter ganhos.   As fábulas apresentam-nos assim muitos exemplos de dissimulação frustrada mas também de intransigência moral.   Um lobo vestido de cordeiro é um pobre-diabo que não consegue senão enganar temporariamente cordeiros; e os leopardos recusam-se com nobreza a ir ao cirurgião plástico para mudar as pintas.

O autor do conselho não é porém lobo ou leopardo.  Parece-se mais com um realista (“fiz-me fraco com os fracos para ganhar os fracos”).   Reconhecemos a figura sem dificuldade porque vivemos rodeados de ferrabrases disfarçados de realistas.  Trata-se em todo o caso de um realista peculiar, cujo instinto prático o leva a admitir com humor as vantagens da dissimulação; de um realista que não se importa de falar em público dos seus estratagemas.  Nunca um ferrabrás cometeria um erro desses, ou só o cometeria nas suas memórias.

Na carta o Santo não estava porém a escrever as memórias; e o erro é demasiado ostensivo para ser um erro.  O autor não pretende mudar de pintas nem está a tentar enganar temporariamente os gregos: está a sugerir, como outros gregos antes dele, que as pessoas só percebem aquilo que já sabem; e a dizer abertamente que quem fala às outras pessoas de certos assuntos não se deve preocupar com a sua reputação, as suas opiniões e os seus sentimentos.  Ao aconselhar que se seja tudo para toda a gente, São Paulo está a recomendar aos intelectuais públicos a virtude da auto-depreciação: uma certa indiferença em relação àquilo que achamos que sabemos, e sentimos que somos.