Existe uma ideia profundamente enraizada nas democracias modernas: a de que o poder se exerce sobretudo através de normas, instituições e argumentos.
No plano interno, essa ideia associa-se ao Estado de Direito. No plano internacional, manifesta-se na esperança de que tratados, organizações multilaterais e diplomacia consigam regular o comportamento dos Estados. Na maior parte das vezes, isso funciona.
Mas não sempre.
Os conflitos geopolíticos que marcam o início do século XXI, da guerra na Ucrânia às tensões no Indo-Pacífico, passando pelas crises recorrentes no Médio Oriente, recordam-nos uma realidade mais antiga da política: em última instância, a força continua a ser um instrumento de poder. Gostemos ou não.
Esta constatação até pode parecer desconfortável, admito-o, sobretudo para sociedades que construíram a sua identidade política em torno da lei, das instituições e da cooperação internacional. No entanto, do ponto de vista da ciência política e da biologia evolutiva, ela está longe de ser surpreendente.
Durante a maior parte da história humana, as relações entre grupos foram moldadas por competição por recursos, território e estatuto. Pequenas comunidades humanas disputavam espaço e oportunidades num ambiente onde a capacidade de coerção física podia alterar o equilíbrio de poder de forma decisiva.
Nesse contexto, não evoluímos apenas para cooperar. Evoluímos também para reconhecer sinais de dominância, avaliar ameaças e responder a demonstrações de força.
Esta arquitetura psicológica não desapareceu com a modernidade. Se alguém pensa isso, desengane-se.
A civilização apenas tentou domesticar essa lógica através da construção de instituições políticas. O Estado moderno, por exemplo, baseia-se no que Max Weber chamou de monopólio legítimo da violência: a ideia de que a força continua a existir, mas é canalizada e controlada por instituições legais.
No plano internacional, porém, a situação é diferente.
Ao contrário do que acontece dentro dos Estados, o sistema internacional permanece estruturalmente anárquico. Não existe uma autoridade central capaz de impor de forma consistente o cumprimento das regras.
É precisamente esta ausência de autoridade superior que levou os teóricos realistas das relações internacionais, de Hans Morgenthau a Kenneth Waltz, a sublinhar que o poder continua a ser um elemento central da política mundial.
Normas, tratados e organizações internacionais são importantes. Mas funcionam sobretudo quando existem equilíbrios de poder que sustentam essas regras.
Sem essa base, a ordem internacional torna-se frágil.
É neste ponto que a analogia com fenómenos sociais aparentemente menores, como o bullying, se torna interessante.
No bullying, tal como na política internacional, existe frequentemente um cálculo implícito de custos e benefícios. O agressor testa limites e procura perceber até que ponto existe capacidade real de resposta.
Quando essa resposta é fraca ou inexistente, a intimidação tende a continuar.
Entre Estados, a lógica não é muito diferente.
Ao longo da história, Estados insatisfeitos com a ordem internacional existente – as chamadas potências revisionistas – testam frequentemente os limites das normas, avaliando até que ponto os outros atores estão dispostos a defendê-las. A credibilidade da dissuasão, conceito central da estratégia internacional, assenta precisamente nesta lógica: a capacidade de convencer um adversário de que determinadas ações terão custos elevados.
Sem essa credibilidade, as normas tornam-se mais facilmente violáveis. Mas a história não acaba aqui.
Existe ainda um elemento adicional que muitas análises políticas preferem ignorar.
A política não se move apenas por valores.
Move-se sobretudo por interesses.
Interesses movem indivíduos.
Interesses movem empresas.
Interesses movem Estados.
Quando esses interesses estão em jogo, os princípios tornam-se frequentemente negociáveis. E quando os interesses são suficientemente elevados, a força volta a entrar na equação.
A civilização política moderna construiu instituições extraordinárias para limitar essa lógica. Tratados, organizações internacionais e regimes jurídicos são tentativas sofisticadas de reduzir o recurso à coerção.
Mas essas instituições não eliminaram o problema fundamental.
Apenas o contiveram.
Talvez por isso a política internacional continue, em certos momentos, a revelar a sua natureza mais antiga.
Quando as normas entram em conflito com interesses considerados vitais, muitos atores regressam à linguagem mais primitiva do poder.
A da força.
Não porque ignorem as regras, mas porque sabem que, por trás de muitas regras, existe uma realidade que raramente se admite em voz alta:
Na política, como na vida, os interesses movem o jogo.
E quando os interesses são suficientemente grandes, a força continua a ser a última palavra do poder.
O mundo mudou muito. A natureza humana nem por isso.
E é isto.