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(A) :: "Só mais tarde percebi o que estava a acontecer." - O testemunho de Artur, um pai alienado (I)

"Só mais tarde percebi o que estava a acontecer." - O testemunho de Artur, um pai alienado (I)

A compreensão do que era a alienação surgiu apenas anos mais tarde, momento em que começou a olhar para o passado de forma diferente.

Eva Delgado-Martins
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A alienação parental raramente começa de forma evidente. Na maioria das histórias, instala-se lentamente, através de pequenas atitudes, interpretações e dinâmicas familiares que passam despercebidas durante anos. Só mais tarde, quando a relação entre um dos pais e o filho já está fragilizada, é que muitas pessoas reconhecem os sinais que lhes passaram despercebidos.

O testemunho da história de alienação de Artur (nome fictício) ajuda a compreender melhor a realidade da alienação parental. Ao olhar para trás, descreve como foi percebendo, pouco a pouco, aquilo que, no princípio, não sabia explicar ou identificar.

Este testemunho inicial mostra algo que é frequente em relatos de pais e mães que passaram por situações de alienação parental, a necessidade de lembrar que existe uma relação de pai ou mãe com o filho ou filha, uma relação que, em algum momento do passado, foi ferida pela alienação.

Numa conversa de reflexão sobre a sua experiência de alienação parental, Artur começou por se apresentar e por contar um pouco da sua história familiar: “Olá, o meu nome é Artur, a minha filha é Matilde… ela nasceu em 2004… tinha 8 anos quando se iniciou a alienação… hoje tem 21 anos, quase 22 anos”. Este testemunho inicial mostra algo que é frequente em relatos de pais e mães que passaram por situações de alienação parental, a necessidade de lembrar e afirmar que existe uma relação de pai ou mãe com o filho ou filha. Ao referir a idade que a filha tinha quando tudo começou e a idade que tem hoje, Artur ajuda-nos também a perceber o tempo que passou e mostra que esta história atravessa muitos anos da sua vida. Ao mesmo tempo, revela que, apesar da alienação vivida no passado, a sua relação com a filha continua muito presente na forma como conta a sua própria história.

Em seguida, Artur situou no tempo o início do processo sem que, no entanto, garantisse a sua exatidão: “Tudo isto começa em 2010, sensivelmente”. Quando pais ou mães que viveram situações emocionalmente difíceis contam a sua história, é comum procurarem um momento concreto que marque o início do que aconteceu. Contudo, nas situações de alienação parental, esse momento raramente é claro ou fácil de identificar, porque as mudanças na relação entre pais e filhos costumam acontecer de forma gradual, sem que se dê conta do seu princípio.

Uma das partes mais reveladoras do testemunho de Artur surgiu quando mencionou a dificuldade em perceber quando começou a alienação: “A alienação parental… essa resposta hoje é uma, a data era outra”. Estas palavras mostram algo que acontece com muitas pessoas, quando, mais tarde, passam a compreender melhor uma situação, começam também a olhar para o passado de forma diferente. Ao aprender novos conceitos ou ao ter mais informação, muitas pessoas voltam a pensar nos acontecimentos que viveram e passam a interpretá-los de outra maneira. Isso também acontece nos processos de alienação parental.

Artur acrescentou: “Essa resposta hoje é diferente da de 2012, quando eu saí de casa… em 2012 eu não tinha conhecido o que era a alienação parental, eu não sabia nada disso, eu não sabia ler os sinais, interpretá-los, observá-los… era um leigo”. Neste testemunho surge a referência a um momento frequentemente crítico em muitas histórias de alienação parental, a separação dos pais. Em muitas famílias, é após a separação que os conflitos parentais se tornam mais intensos e que as situações de afastamento entre um dos pais e o filho ou filha podem começar a surgir ou tornar-se mais visíveis.

Artur reconheceu que, naquela altura, não tinha conhecimento suficiente para perceber o que estava a acontecer, mostrando um problema que ainda existe em muitas situações de alienação parental, a falta de informação sobre este fenómeno. Muitas pessoas vivem situações de alienação, sem compreender exatamente o que está a acontecer. Por desconhecimento, acabam por interpretar os sinais apenas como conflitos normais entre pais após uma separação, sem procurar a ajuda que poderia ser importante para compreender melhor a situação e proteger a sua relação com o filho ou filha.

Só mais tarde, quando entram em contacto com informação sobre alienação parental ou quando ouvem outras histórias semelhantes, é que muitas pessoas começam a compreender melhor aquilo que estavam a viver.

No caso de Artur, a compreensão do que era a alienação surgiu apenas anos mais tarde, momento em que começou a olhar para o passado de forma diferente: “Hoje sim, percebo que a alienação parental começou na gravidez”. Ao rever a sua própria história, Artur identifica agora sinais e comportamentos que, na altura, passaram despercebidos e interpretou de outra forma.

Na nossa conversa, Artur continuou a aprofundar esta perceção: “Hoje, olhando de fora, começou na gravidez ou até antes se calhar, sempre existiu (…) Talvez tenha começado quando a mãe pensou em ter um filho… pode ter a ver com a postura da mãe, com a sua personalidade ou com um padrão de comportamento”. Estas palavras mostram a sua tentativa para compreender a origem de uma experiência difícil, procurando possíveis explicações no comportamento ou na forma de pensar da mãe alienadora.

Ao ouvi-lo contar a sua história, percebe-se também que usa um olhar mais distante sobre a sua experiência. Com o passar do tempo, Artur foi ganhando algum distanciamento emocional em relação ao que aconteceu: “Eu hoje vejo isso de fora, distante, longe”. Muitas vezes, a passagem do tempo e alguma distância emocional ajudam os pais e mães alienados a olhar para acontecimentos dolorosos com mais clareza e a compreender melhor aquilo que viveram.

Ainda assim, Artur reconheceu que a história não está ainda totalmente encerrada: “Se me perguntarem se está resolvida, não está…, mas foi o melhor que se pôde fazer”. Este testemunho revela algo muito comum em processos de alienação parental: mesmo quando o conflito diminui, as marcas emocionais permanecem.

Um dos aspetos interessantes do testemunho de Artur é a forma como explicou aquilo que foi aprendendo ao longo dos anos e o tornou muito mais sensível ao processo de alienação parental: “Hoje, os sinais vão-se notando até pelo simples facto de ouvirmos aquela pessoa comentar um divórcio de uma pessoa amiga”. Com esta ideia, Artur mostra que alguns sinais podem surgir em conversas simples do dia a dia. A forma como as pessoas falam sobre separações, divórcios ou relações familiares pode revelar muito sobre a maneira como veem a relação entre pais e filhos após uma separação.

Artur revelou que acredita que, com a experiência que tem hoje, conseguiria reconhecer esses sinais mais cedo: “Com três ou quatro perguntas, hoje, conseguia perceber perfeitamente se aquela mãe é alienadora, se não é… se é um pai alienador ou se não é”. Estas palavras mostram que, quem viveu uma situação de alienação passa muitas vezes a estar mais atento a comportamentos ou discursos, que antes poderiam passar despercebidos. A experiência leva as suas vítimas a ficarem mais atentas a certos comportamentos ou formas de falar. Artur concluiu esta ideia com uma observação simples, mas significativa: “Basta percebermos como é que fala da amiga, da prima, do vizinho, do colega de trabalho. São conversas que todos temos… e percebe-se!”, ou seja, muitas das pistas podem surgir em conversas simples do dia a dia.

A alienação parental é uma realidade que muitas vezes passa despercebida. O testemunho de Artur mostra bem um dos problemas associados a estas situações: muitas vezes é difícil perceber o que está realmente a acontecer no momento em que se vive a situação. Para muitas famílias, a compreensão só surge anos mais tarde, quando o conflito já teve impacto na relação entre pais e filhos.

Histórias como a de Artur mostram a importância de haver mais informação, sensibilização e apoio especializado, para que pais, profissionais e instituições consigam reconhecer estas situações mais cedo e proteger o bem-estar das crianças envolvidas.