(c) 2023 am|dev

(A) :: O mito do lóbi

O mito do lóbi

Sem o lóbi, dificilmente teríamos hoje muitos medicamentos essenciais comparticipados, vários dos direitos laborais, ou a preservação de setores económicos tradicionais da economia.

Alexandre Luz
text

Em Portugal, a palavra lóbi carrega frequentemente um peso acusatório e quase moral. Quando alguém é identificado como lobista, a suspeita instala-se antes de qualquer explicação. A imaginação leva-nos para conspirações, para favores e para decisões influenciadas entre um copo whiskey e um charuto.

Esta demonização do lóbi, particularmente enraizada nos países latinos, assenta numa visão deturpada da decisão pública, como se esta tivesse de ocorrer num espaço asséptico, onde se confundem pressões e favores com contributos legítimos e interesses organizados. Desta forma, parte-se do princípio de que qualquer tentativa de influenciar um processo de decisão é, por definição, suspeita. Em contraste, nas democracias anglo-saxónicas, germânicas ou do Norte da Europa, a representação de interesses é assumida como parte integrante do processo democrático, com regras claras e transparentes.

Será conspiração quando um laboratório farmacêutico apresenta contributos técnicos para a comparticipação de um medicamento inovador, quando uma empresa alerta para os impactos negativos de uma alteração regulatória na competitividade da economia portuguesa, ou quando um sindicato propõe melhorias nas condições de trabalho dos seus membros? Em todos estes casos, a decisão final continua a ser exclusivamente do decisor público, que pode ou não alinhar com os contributos recebidos. A diferença está na qualidade da decisão, que passa a ser tomada com mais informação. Sem o lóbi, dificilmente teríamos hoje muitos medicamentos essenciais comparticipados, vários dos direitos laborais conquistados, ou a preservação de setores económicos tradicionais da economia portuguesa.

A representação de interesses, para ser séria e transparente, exige método e conhecimento. Por isso, as organizações recorrem cada vez mais a agências de comunicação especializadas, já que este trabalho vai muito além do contacto com os decisores. Inclui a monitorização sistemática das políticas públicas, legislativas e regulatórias, permitindo antecipar impactos, preparar posições responsáveis e, sobretudo, traduzir matérias complexas em informação clara e fundamentada. Não se trata de contornar a democracia, mas de participar nela de forma informada. Sem esse acompanhamento, muitas decisões seriam tomadas apenas com base na perceção mediática ou na pressão do momento.

As instituições, os grupos profissionais, as empresas e os diferentes setores da economia têm interesses e objetivos próprios, sendo natural que sejam representados por profissionais especializados, responsáveis por definir estratégias transparentes e por estruturar a comunicação de forma rigorosa, garantindo que as decisões são tomadas com toda a informação relevante.

Sem esse canal, os interesses mais visíveis, mais ruidosos ou mais mediatizados tenderiam a prevalecer sobre aqueles que, embora legítimos, não dominam a agenda pública. O lóbi transparente funciona como um mecanismo de equilíbrio, permitindo que diferentes setores da sociedade sejam ouvidos em condições mais equitativas.

Talvez esteja na altura de substituir o mito pelo rigor, porque a democracia não se protege com tabus, mas com instituições sólidas e com transparência.