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(A) :: Obrigado, Mestre

Obrigado, Mestre

Obrigado, Mestre. Obrigado, António Lobo Antunes. Obrigado.

Pedro Ranito Chaves
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Ao princípio estranha-se, uma floresta de vozes vindas do fundo da memória, um jogo de espelhos até à alucinação, espectros rodopiando no proscénio da loucura, o encabritar de uma palavra perfeita e imprevista, vidas inteiras ardendo sob o silêncio, desabando com o peso de ausências longamente mastigadas, caminhando como casas em chamas,

-Mas como é que ele faz isto?

depois opera-se um fenómeno estranho, as frases que leio de repente minhas, os livros que devoro afinal meus (suponho que seja essa a marca de um grande escritor, escrever coisas que são dos leitores e apenas mediatamente de quem as escreve), a impressão de que essa rocha ígnea lavrada pela violência, esse portentoso mistério que é um livro, é afinal a nossa vida entre lombadas

-Mas o que é isto?

a nossa vida em todo o seu inferno polifónico, em toda a sua cartografia sentimental, pais, tios, avós, retratos adormecidos com rostos vagamente familiares, estranhas figuras que emergem do âmago da noite para projectar as suas sombras, a madeira crepitando no rigor do inverno, a intrincada urdidura dos naperons revelando os dedos de quem os teceu, soalhos que rangem quando a noite se agiganta, uma tremulina que entra pela janela para iluminar os esconsos da nossa solidão e nos revelar toda a nossa gloriosa miséria, e histórias da guerra, histórias do Império, histórias de Portugal, de todos quantos viveram longas agonias em silêncio, os que foram e os que ficaram, os que combateram e os que fugiram, sobretudo os que regressaram, histórias de coragem e sacrifício e sangue e glória e amor e ódio, histórias de um país em que às vezes parece que nada acontece e no entanto

-Eu gosto desta terra

-Cada vez gosto mais de ser português

-Para mim Portugal é central e muito grande

mas são sobretudo as vozes, tão rápidas, tão reais que parecem correntes galvânicas electrocutando as meninges, despejando fogo e enxofre pelo cérebro abaixo, vozes ou açoites bruscos que rasgam fundos gilvazes no rosto e nele permanecem como obscuras melodias

-Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam; quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre

e como não?, é uma escrita de quem morre sobre a pluma, de quem espreme a polpa de que é feito, de quem luta ferinamente contra o anjo da morte, de quem vomita a antiga e sempre nova e sempre verdadeira angústia do homem no tempo, e como não?, ler-te é sempre um estado febricitante, uma valsa lenta com aqueles elementos apenas pressentidos, pois o que desconhecemos é sempre mais vasto e importante do que o pouco que conhecemos, é sempre uma vigília para enfermiços e doidos, para quem cultiva bestas e belzebus no húmus do corpo e no entanto carrega uma grande cruz

-Só os maus escritores não sobem à cruz

na qual talhará a sua redenção em palavras, recordo-me agora daquela grande frase de D.H.Lawrence (sequer gostarias, gostas dele?)

always feel as if I stood naked for the fire of Almighty God to go through me,

recordo-me agora da tua frase seca, derradeira, sentenciosa, uma frase que não admite réplica

-Não há ateus

deveras? e tu, estarás em paz agora que conheces a verdade?, tu que sempre tiveste uma relação conflituosa com o Senhor lá de cima, estarás em paz?, assim reduzido à pedra de que és feito, assim devolvido ao silêncio genesíaco e à origem dos nossos dias, folha branca para Deus escrever, estarás em paz?, agora que sabes que morrer é mais fácil do que em geral se supõe como dizia o mestre Aquilino, agora que sabes que morrer é todo o nosso glorioso destino, a nossa grande e única vocação?, olho longamente para os teus livros e sinto um caroço de sangue esganando a garganta, garroteando as palavras, e agora?, e agora que as agulhas do ponteiro do teu relógio finalmente tricotaram todos os teus minutos, tecendo o cachecol do tempo, e agora?, não escreverás mais?, nunca mais?, e no entanto sei que escreves, que escreverás sempre, que és a própria escrita.

Obrigado, Mestre. Obrigado, António Lobo Antunes. Obrigado.