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(A) :: Watchout Kim, You’re next!

Watchout Kim, You’re next!

Durante décadas, e bem, assistimos a guerras/intervenções, mas com mandato. Agora nem o simulacro da legitimidade existe.

Pedro Barros Ferreira
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É necessário começar o texto – infelizmente – com algumas clarificações: 1) Sou de direita e é uma falácia que quem critica os EUA e a sua, actual, política externa, é de esquerda. Não é verdade e é reducionismo básico. 2) Sou católico, mas criticar Israel não faz de mim anti-semita. Trata-se de outra redução parva e, até, aviltante.

É triste ter de começar com esta declaração, mas são os tempos em que vivemos. A análise da acção EUA/Israel contra o Irão deve estar livre de esquerda vs. direita e de pró judeu vs. anti-semita.

Dito isto, tratarei de comentar alguns textos/intervenções de defensores da acção Israelo–americana no Irão.

Na RTPN – dia 1/3 – assisto a um comentador (parece que é do marketing) afirmar: “O direito internacional (DI doravante) foi inventado em 1946”. Está gravado e podem confirmar. É um disparate e uma demonstração de ignorância, mas é o que temos a fazer comentários na televisão pública (pago por nós, portanto). Num país que se levasse mais a sério este Sr perdia o emprego. Porquê? Porque o DI não foi “inventado” em data alguma. É uma construção milenar da qual podemos – muito resumidamente – lembrar: Direito Romano, Grotius, Erasmus de Roterdão, Kant, Tayllerand, Richelieu, Metternich, Bismark, Direito do mar, Guerra Justa, Convenções várias sobre a guerra, Woodrow Wilson, Versailles, Sociedade das Nações, etc., etc., etc. O que o tal de marketeer (Rodrigo Moita de Deus) quereria dizer seria Ordem Internacional? O erro seria menor, mas, mesmo assim, a Ordem Internacional nascida após a II guerra já não é a mesma.

Portanto: O DI existe e não foi “inventado”. Podemos sim, é criticar a inoperância do mesmo perante os fortes, e devemos é lutar por um DI actuante e resoluto. Se a ONU não resolve os assuntos, porque não a pôr a resolvê-los em vez de a contornar com um clube tipo Elefante Branco onde se paga para entrar? Os EUA têm a capacidade para liderar esse processo. Como: 1) Alargar a composição do Conselho de Segurança; 2) Acabar com o direito de veto no mesmo. No entanto e apesar da sua actual inoperância (situação que não dá o direito de se fazer justiça pelas próprias mãos) a sociedade internacional tem evoluído para melhor; Abolição das armas químicas, do genocídio; Tribunal Penal Internacional; luta contra a fome e a doença, direitos do ser humano e, dentro destes, das mulheres, das minorias, dos migrantes, etc. Não vejo, pois, que, querendo, os EUA não possam liderar este processo, através das instituições. A menos que se pense que a casa de má fama – onde se paga para entrar – criada por Trump, seja um desígnio de Deus…

Ingenuidade? Pode existir uma certa dose, mas as potências quando querem conseguem. Veja-se a Grã-Bretanha que, quando o era, pressionou tudo e todos a acabar com a escravatura, sem ter de ocupar países. Era um dever moral que a mesma assumiu. Existiam interesses associados? Sim, so what?

O que não pode continuar é a situação actual: O mundo estar dependente de quem vive na Casa Branca. O que é perene é o DI, as instituições. O mundo não pode ser gerido de acordo com os humores, amores e sabores que, a cada momento, se pode sentar na sala oval (que depende em muitas ocasiões, dos rednecks de um qualquer swing state).

Igualmente no dia 1/3, Marques de Almeida (que, ao contrário do que é regra, fala melhor do que escreve) rejubilava com Trump e com a morte de Khamenei. Parecia um sonho húmido, tal a alegria. Eu, que sou um cristão pecador e sempre à procura de ser melhor pessoa, não desejo, nem me alegro com a morte de pessoas (além de Khamenei, morreram a mulher a filha e a neta – certamente todas culpadíssimas).

O respeito ao DI é o caminho. Na II Guerra, Roosevelt queimou os neurónios para arranjar soluções que apoiassem a Grã-Bretanha (lend-lease) antes da Alemanha – inexplicavelmente porque a isso não estava obrigada – lhe ter declarado guerra e, depois, para acabar com a tradição das alianças na Europa. Para que terminasse esse sistema – o das alianças – os seus sucessores criaram a NATO (é por isso que não é uma aliança – como infelizmente se ouve diariamente – mas um tratado).

Durante décadas, e bem, assistimos a guerras/intervenções, mas com mandato: Coreia, Golfo, Sérvia. Agora nem o simulacro da legitimidade existe (basta comparar quem estava a assessorar os Bush com quem agora faz a assessoria a Trump, para se ver a diferença e ter um calafrio). Mas, o que me custa mais é assistir aos parabéns duns quantos que preferem prestar vassalagem aos EUA em vez de manter a cabeça fria e de pensar pela própria, não embarcando em dicotomias esdrúxulas e em reducionismos bacocos. Repito: Israel tem todo o direito de existir e de se defender.

Nos nossos dias, um pateta de peruca entende que se raptar um ditador e a sua mulher – a quem acusa de serem traficantes de droga – tudo se resolve. Pois claro: O Maduro do ditador fazia os pacotes à noite e a esposa ia distribuí-los ao fim de semana nos EUA. Sozinhos. Agora e depois de há 6 meses ter “obliterado” a capacidade nuclear do Irão, teve de repetir a façanha. Só que, ao que me é dado ver, está a bombardear mais umsas quantas coisinhas, já não é só as centrais… Ma é claro: assassina um facínora doente e velho, mais uns quantos generais da brigada do reumático e tudo fica resolvido (olhe que não, olhe que não).

Os mais pragmáticos dirão que é fácil criticar, mas que, quem sofre é o povo do Irão. Pois sofre – e não devia. O problema é que vai continuar a sofrer – se calhar mais. Assim como sofrem outros desgraçados povos. Veja-se o Afeganistão: É governado por uns homens das cavernas e não é por se matar ou raptar um qualquer chefe que a coisa muda. Depois de milhares de mortos e triliões de dólares os EUA disseram: Amanhem-se. Lá está, cada ocupante da Casa Branca cada teoria e nós só temos de esperar que chegue um do qual gostemos para prestar vassalagem. É isto forma para o mundo ser governado?

A Rússia invadiu a Ucrânia com a justificação de que: 1) Os russos nos territórios ucranianos eram maltratados (não era totalmente mentira); 2) A Ucrânia é nazi (um disparate); 3) Não queria forças da NATO na parte detrás do seu quintal (o que faz sentido). Ora, os comentadores e articulistas (onde me incluo) malharam forte e feio na Rússia. Então e agora com a Venezuela e Irão já a lógica/narrativa russa pode ser utilizada? Vamos mesmo acreditar que a Venezuela representava um perigo para os EUA? E que o Irão ia atacar essa nação (como afirmou o Sr da peruca amarela e pele laranja)?

Para terminar, vem o artigo de Moreira de Sá (3/3 Observador) num estilo lacrimejante, relatar os bárbaros assassinatos perpetrados pelo Hamas. Durante décadas o Holocausto serviu de desculpa para os atropelos à lei por parte de Israel. Por quantos anos vão – para o mesmo efeito – servir os crimes do Hamas? É que, a mim, não me chocam apenas as mortes dos israelitas inocentes, das suas mulheres e crianças. Aliás, esta capacidade de se aceitar, no ocidente, as mortes colaterais – desde que não nas nossas casas – é revelador de uma visão turva do cristianismo. Na Alemanha, os alemães fingiram que não viram o que era feito aos judeus, mas não os culpámos do facto, pois as mulheres e crianças alemãs eram todas – e eram mesmo – inocentes do crime de genocídio (razão pela qual são crimes de guerra os bombardeamentos de Dresden, Hamburgo e Colónia). Mas, em Gaza, as crianças podem morrer porque são todas apoiantes do Hamas…

Está disponível na Apple uma boa série de espionagem, chamada Teerão. Através da dita consegue-se perceber um pouco o que é viver no Irão, ou em Teerão para ser mais exacto: Muita gente jovem; muitos universitários; uma grande vontade de mudar o status quo. Do que vejo (admito que por ser homem) sou levado a acreditar que deve ser pior viver na Coreia do Norte – o que não faz do Irão um paraíso na terra (teocracias de qualquer género não são recomendáveis e pior ainda, quando dirigidas por fundamentalistas neandertais que matam quando assim lhes apetece). No entanto, quer Trump, quer os articulistas favoráveis à acção americana, não exigem que se decapite o gordo psicopata que manda em Pyongyang. Porquê? Assim como já está tudo bem na Venezuela e vai ficar tudo bem no Irão, tudo ficaria pelo melhor na Coreia, ou não? Não me digam que é por causa da China ali ao lado!? Se é, então as lágrimas que vertem por Israel e Irão, são de crocodilo.

Por fim temos a questão da bomba atómica. Totalmente contra a sua proliferação. Consequentemente nada a opor à destruição cirúrgica de instalações desse teor. Diria que falta fazer o mesmo na Coreia do Norte, mas já se sabe, é lá longe. A talhe de foice: Sabe o leitor como Israel conseguiu fazer as suas bombas? Roubando os planos e, depois, com a permissividade de uma Europa com peso na consciência de séculos de pogroms e de um Holocausto (executados por gente branca, civilizada e cristã (maioritariamente ortodoxos e protestantes, a bem da verdade)).

Termino, com a certeza de que os nomes neste texto referidos, já têm o obituário do Kim da Coreia do Norte preparado. Ele é o próximo, ou não fosse o Trump a coragem em pessoa. Watchout Kim, You’re next!