Em época de sprints pelos cinemas, para ver os filmes nomeados para os Óscares, este ano atribuídos dia 15 de março, também as plataformas de streaming entraram na corrida. Com os filmes de 2025 e de anos passados — e à 98.ª edição, são muitos. Nesta lista que sugerimos, dez são vencedores absolutos, cinco melhores filmes internacionais e outros cinco melhores filmes de animação. E como não há prémios sem derrotados, há muitas ramificações, com mais sugestões, algumas polémicas e a indicação da plataforma onde ver. Uma de muitas viagens possíveis pela história do cinema, para começar quando e onde quiser.
ÓSCAR PARA MELHOR FILME
“Oppenheimer”
Christopher Nolan, 2023 (Netflix)
Num ano de concorrência feroz, com Anatomia de uma Queda (HBO), que ganharia o Óscar para Melhor Argumento Original, Zona de Interesse (HBO Max, FilmIn), considerado o Melhor Filme Estrangeiro, Vidas Passadas (HBO), de uma intimidade rara e a revelação do extraordinário Teo Yoo, Pobres Criaturas (HBO), assinado por Yorgos Lanthimos e com Emma Stone a receber o prémio de Melhor Atriz, Assassinos da Lua das Flores (Apple TV+), de Martin Scorsese, nomeado em 10 categorias, incluindo a de Melhor Realizador, e até Barbie (Netflix), a fazer do ícone pop uma sensação feminista, a Academia foi pela escolha mais convencional. Para muitos, pouco mais do que uma aula sobre a história da bomba atómica, para a Academia um thriller biográfico merecedor de sete estatuetas, com destaque para o realizador Christopher Nolan, os atores Cillian Murphy e Robert Downey Jr. e para a quase omnipresente banda-sonora, de Ludwig Göransson. Do mesmo ano, também na Netflix, pode ver o vencedor do Óscar para Melhor Curta Metragem, A Incrível História de Henry Sugar, de Wes Anderson.
“Parasitas”
Bong Joon-ho, 2019 (HBO, Film In)
Maior surpresa da cerimónia desse ano e uma das maiores da história dos Óscares ao tornar-se o primeiro título não falado em inglês a ganhar o prémio para Melhor Filme e, além disso, para Melhor Filme Estrangeiro. Esta sátira social sul-coreana assinada por Bong Joon-ho (Óscares para Melhor Realizador e Melhor Argumento Original) foi a primeira fita em 60 anos a acumular a Palma de Ouro em Cannes e o maior prémio de Hollywood. Entre os principais adversários estavam O Irlandês (Netflix) (de novo Scorsese) e Era uma Vez… em Hollywood (Prime Video), de Quentin Tarantino. Nos estrangeiros, bateu Dor e Glória, de Pedro Almodóvar. Além de assistir ao filme, vale a pena procurar a cerimónia no YouTube e assistir aos momentos de surpresa e confusão na entrega dos Óscares principais.
“Este País Não é Para Velhos”
Joel e Ethan Coen, 2007 (HBO)
Adaptação do romance de Cormac McCarthy com o mesmo nome, este thriller neo-western valeu aos irmãos realizadores e argumentistas Joel e Ethan Coen os óscares para Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado. A estatueta de Melhor Ator Secundário para Javier Bardem (inesquecível Anton Chigurh) fez dele o primeiro espanhol a ser distinguido pela Academia. Penélope Cruz seria a segunda, no ano seguinte, por Vicky Cristina Barcelona. O grande rival deste ano, Haverá Sangue (HBO), entraria para a lista oficiosa de melhores filmes a não ganharem o Óscar de Melhor Filme. O realizador, Paul Thomas Anderson, é um dos nomeados deste ano, com Batalha Atrás de Batalha (HBO).
“Imperdoável”
Clint Eastwood, 1992 (HBO)
Uma revisitação dos westerns clássicos realizada por outro clássico, Clint Eastwood, na altura ainda com 62 anos (hoje com 95 e no ativo). Além de Melhor Filme, foi distinguido nas categorias de Melhor Realizador, Melhor Ator Secundário (Gene Hackman) e Melhor Edição (Joel Cox, colaborador de Eastwood em 33 dos seus 40 filmes). Perdeu o Óscar de Melhor Ator para Al Pacino, em Perfume de Mulher (Netflix), num ano de grandes fitas, incluindo Jogo de Lágrimas, de Neil Jordan, premiado pelo Melhor Argumento Original, Regresso a Howards End, de James Ivory, com Emma Thompson a ser considerada a Melhor Atriz, e ainda estatuetas para Melhor Argumento Adaptado e Melhor Direção de Arte, e Questão de Honra (Prime Video, pago), com argumento de Aaron Sorkin.




“O Silêncio dos Inocentes”
Jonathan Demme, 1991 (Prime Video)
Um dos grandes clássicos da cultura pop dos anos 90, com interpretações antológicas de Sir Anthony Hopkins (“Hello, Clarice…”) e Jodie Foster. Ganhou os cinco óscares principais: Filme, Realizador, Argumento, Ator e Atriz. Assinado por Jonathan Demme, este thriller psicológico adapta o livro homónimo de Thomas Harris, sequela de Red Dragon, ambos sobre o genial assassino em série e psiquiatra Hannibal Lecter, personagem com a sua própria página na Wikipédia, fora as múltiplas sequelas e prequelas no cinema e na TV. Não nomeado para Melhor Filme, ganharia o Óscar de Melhor Argumento Original Thelma e Louise (Prime Video, pago), um road movie com Susan Sarandon e Geena Davis, que a história trataria de consagrar.
“O Padrinho”/”O Padrinho II”
Francis Ford Copolla, 1972/1974 (Prime Video)
Baseado no best-seller de Mario Puzo, esta saga sobre a família Corleone, mafiosos de origem italiana nos EUA, é uma das mais premiadas da história da Academia e também a única que ganhou o prémio de Melhor Filme tanto pelo título de estreia como pela sequela. A terceira fita da trilogia (Netflix) ficou-se pela nomeação na mesma categoria. Se o primeiro filme valeu Marlon Brando o prémio para Melhor Ator e a Francis Ford Coppola e Puzo a distinção para Melhor Argumento adaptado, o segundo, considerado um dos melhores da cinematografia americana e, por muitos, melhor do que o antecessor, levou um total de seis estatuetas, incluindo Melhor Realizador para Coppola, Melhor Ator Secundário para Robert de Niro e Melhor Banda Sonora Original para o mestre italiano Nino Rota. Um clássico dos filmes de gangsters, e de uma geração.
“Lawrence da Arábia”
David Lean, 1962 (FilmIn)
Um hino ao cinema, aos épicos de aventuras e ao grande ecrã. Uma viagem a um tempo, também, em que as três horas e 38 minutos de duração não eram um desafio para os mais inquietos mas uma viagem por outros mundos e estéticas. Ganhou sete Óscares. Para além de Melhor Filme, Melhor Realizador (David Lean), Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição, Melhor Banda-sonora “Substancialmente Original” e Melhor Som. Os olhos azuis do britânico Peter O’Toole viram o prémio de Melhor Ator fugir para Gregory Peck em Mataram a Cotovia (Prime Video, pago). A 35.ª cerimónia da Academia ficou também marcada pelo último episódio da rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford, quando só a primeira foi nomeada por um filme protagonizado pelas duas, O Que Terá Acontecido a Baby Jane? A estatueta iria para Anne Bancroft, em O Milagre de Anne Sullivan (Apple TV, pago).
“Casablanca”
Michael Curtiz, 1943 (HBO)
Vencedor surpresa na altura, sucesso crescente daí em diante, ícone incontestado até hoje. Numa altura em que, tal como voltou a acontecer a partir da cerimónia de 2010, ainda eram 10 os nomeados para melhor filme, o drama romântico de Michael Curtiz, ganhou apenas três óscares, mas só foi superado por um já esquecido A Canção de Bernardete, distinguido quatro vezes. Além do prémio para Melhor Filme, Casablanca, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial, ganhou nas categorias de realização e argumento adaptado – de onde várias falas saíram diretas para a cultura popular. A oportunidade para relembrar porque razão Ingrid Bergman e Humphrey Bogart teriam sempre Paris, que bela amizade estava a começar e qual era o papel de Lisboa em toda esta história.




“E Tudo o Vento Levou”
Victor Fleming, 1939 (HBO)
Três horas e 41 minutos de filme, treze nomeações, oito óscares, mais dois honorários e o primeiro filme a cores a ser distinguido pela Academia. Das principais categorias, este épico histórico americano só não ganhou o prémio para Melhor Ator, com o britânico Robert Donat a levar a melhor sobre Clark Gable. Acusado de branquear a escravatura e expressar nostalgia por esses tempos, o filme foi ao mesmo tempo o primeiro a valer um óscar a uma atriz afro-americana, Hattie McDaniel (Melhor Atriz Secundária), por sua vez a primeira mulher negra a estar presente numa cerimónia da Academia. Ainda no campo das controvérsias, E tudo o Vento Levou derrotou por KO o outro favorito, hoje um clássico a revisitar, Peço a Palavra (Film In), de Frank Capra, protagonizado por James Stewart. A denúncia da corrupção política caiu tão mal em certos círculos que o embaixador americano no Reino Unido chegou a pedir ao Presidente Roosevelt que o filme deixasse de ser exibido na Europa.
“Uma Noite Aconteceu”
Frank Capra, 1934 (FilmIn)
Realizado há mais de 90 anos e distinguido naquela que foi apenas a sétima cerimónia da Academia de Hollywood, é considerado um dos maiores filmes de sempre. Realizado por Frank Capra, com Clark Gable e Claudette Colbert nos papéis principais, conta a história de uma jovem socialite que, na ânsia de escapar ao controlo do pai, acaba por se envolver com um repórter de intenções duvidosas. Esta comédia romântica foi primeiro filme a ganhar os cinco Óscares principais (Filme, Realizador, Ator, Atriz e Argumento). Até hoje, só outros dois alcançaram esse feito, Voando Sobre um Ninho de Cucos e O Silêncio dos Inocentes.
ÓSCAR PARA MELHOR FILME ESTRANGEIRO
“Ainda Estou Aqui”
Walter Salles, 2024 (HBO)
À sexta nomeação foi de vez. O drama biográfico, passado durante a Ditadura Militar, foi a primeira fita brasileira a ganhar um Óscar e também a primeira nomeada para Melhor Filme. A atriz Fernanda Torres, segunda brasileira nomeada depois da mãe, Fernanda Montenegro, perdeu a estatueta para Mickey Madison, protagonista do vencedor do prémio para Melhor Filme, Anora. Este ano é Wagner Moura que está na corrida para Melhor Ator, por O Agente Secreto, também indicado para Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Casting, uma nova categoria.
“Zona de Interesse”
Jonathan Glazer, 2023 (FilmIn, HBO)
Com cinco nomeações da Academia e o Prémio do Júri em Cannes, esta adaptação de Jonathan Glazer do livro de Martin Amis com o mesmo nome conta-nos a história da família de um comandante nazi que vive junto ao campo de concentração de Auschwitz. Uma reflexão sobre a banalidade do mal, a humanidade e o horror. Também nomeados e a rever estavam o contemplativo Dias Perfeitos, de Wim Wenders (Film In), e A Sociedade da Neve (Netflix), sobre o desastre aéreo nos andes.




“A Oeste Nada de Novo”
Edward Berger, 2022 (Netflix)
Terceira adaptação ao cinema do romance baseado na experiência bélica do escritor alemão Erich Maria Remarque e terceira a ser premiada. A primeira, de Lewis Milestone, ganhou o Óscar de Melhor Filme em 1930, ainda a cerimónia cheirava a novo. A segunda, um telefilme britânico de 1979, venceu um Emmy e um Globo de Ouro. E esta, de Edward Berger, foi distinguida com quatro estatuetas, incluindo Melhor Fotografia, igualando o recorde de vitórias de Fanny e Alexander (FilmIn), O Tigre e o Dragão e Parasitas (HBO, FilmIn) – para um filme não falado em inglês. O livro Im Westerns Nicht Neues, no título original, relata a vida de um soldado durante a Primeira Guerra Mundial e no regresso a casa. Foi banido pelos nazis.
“Mais uma Rodada”
Thomas Winterberg, 2020 (FilmIn)
Depois da nomeação em 2014 por A Caça, o co-fundador do movimento Dogma 95 Thomas Winterberg ganhou por fim o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro (e o BAFTA e o César) por esta tragicomédia em torno do consumo de álcool e das crises de meia-idade. Protagoniza Mads Mikkelsen, que, desde Casino Royale, se tornou presença frequente em blockbusters de Hollywood, mas que no país natal é um dos principais rostos do novo cinema dinamarquês. Mais uma Rodada bateu Collectiv – Um Caso de Corrupção (Film In), que ganharia o Óscar para Melhor Documentário desse ano.
“Roma”
Alfonso Cuarón, 2019 (Netflix)
Um feito cinematográfico, ofuscado em parte pela polémica em torno dos direitos de exibição comprados pela Netflix e reduzidíssima exibição em salas de cinema. E se há fita que apetece ver no grande ecrã, é esta. Ao mesmo tempo, tornou-se o primeiro título distribuído por uma empresa de streaming a ser nomeado para Melhor Filme. Depois de ganhar o Leão de Ouro em Veneza, este drama semi-autobiográfico do mexicano Alfonso Cuarón recebeu 10 nomeações da Academia de Hollywood e concretizou três. Cuarón tornou-se a primeira pessoa a ganhar os Óscares de Melhor Realização e Melhor Fotografia, o título representou a primeira estatueta do género para o México e é considerado um dos melhores filmes a não ter ganho o Óscar de Melhor Filme, num ano em que a distinção foi para Green Book – Um Guia para a Vida (Prime Video, pago).
MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
“Flow”
Gints Zilbalodis, 2024 (HBO)
O momento épico em que um filme independente letão criado com um software gratuito e open-source (pode ser usado, modificado e partilhado pelos utilizadores) vence grandes estúdios como a Pixar/Disney (com o brilhante Inside Out 2, na Disney ), Dream Works (Robot Selvagem, streaming na SkyShowtime, pago na Apple Tv e na Prime Video) e Aardman (Wallace & Gromit: A Vingança das Aves, na Netflix). Entre os favoritos estava a multipremiada tragicomédia australiana (e apenas segundo filme de animação para adultos nomeado nesta categoria) Memórias de um Caracol (FilmIn). Sem diálogo e passado num mundo pós-apocalíptico, Flow também esteve indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, ganha por Ainda Estou Aqui (HBO).




“Pinóquio”
Guillermo del Toro, 2022 (Netflix)
Só para o caso de ainda não ter percebido pelo título do filme: Guillermo del Toro assina esta adaptação da história de Pinóquio, na verdade co-realizado por Mark Gustafson. Mestre da fantasia gótica e dos universos dos contos de fadas, o mexicano já tinha ganho os Óscares de Melhor Filme e Melhor Realização (além do Leão de Ouro) em 2018, por A Forma da Água (Prime Video, pago). Agora, volta a estar nomeado por Frankentstein (Netflix). O ano de 2022 foi também o primeiro em que um filme português marcou presença na cerimónia. A lutar pelo prémio de Melhor Curta Metragem de Animação, o belíssimo Ice Merchants de João Gonzalez, vencedor em Cannes e do prémio Annie, perdeu para a adaptação do best-seller O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo (Apple TV).
“Homem-Aranha: No Universo Aranha”
Peter Ramsey, Bob Persichetti, Rodney Rothman, 2018 (HBO, Prime Video)
Primeira adaptação do franchise Spider-man à animação e primeiro homem-aranha negro, neste caso, um miúdo que quer impressionar o pai. O filme é considerado um dos melhores do universo do super-herói, louvado pelas técnicas de animação e pela estética inovadora. Por outras palavras, vale mesmo a pena. A sequela, Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (Prime Video, pago), também foi nomeada. De certeza que o título não ajudou, mas teria sido difícil bater o mestre Hayao Miyazaki e o seu O Rapaz e a Garça (Netflix).
“A Viagem de Chihiro”
Hayao Miyazaki, 2002 (Netflix)
Dos grandes filmes de todos os tempos, sem distinguir entre personagens de carne e osso ou desenhadas – neste caso, à mão. A deriva de Chihiro, de 10 anos, por um mundo habitado por espíritos do folclore xintoísta, de onde terá de conseguir escapar, é o oitavo título realizado pelo fundador dos Estúdios Ghibli. O japonês Miyazaki já era uma referência da animação mundial, como filmes como O Meu Vizinho Totoro (1988) e Princesa Mononoke (1997). Antes de O Rapaz e A Garça, que, passados 21 anos, voltaria a consagrá-lo em Hollywood, realizaria O Castelo Andante (2004), Ponyo à Beira-Mar (2008) e A Colina das Papoilas (2011), entre outros. Quase toda a filmografia de Miyazaki está disponível na Netflix.
“Shrek”
Andrew Adamson, Vicky Jenson, 2001 (Netflix)
Primeiro ogre a ganhar um Óscar, primeiro filme de animação distinguido pela Academia e primeiro título da série de quatro que valeu a Shrek uma estrela no passeio da fama. Produzido pela Dreamworks de Steven Spielberg, adaptado de um livro sobre um monstro repugnante que se casa com uma princesa repugnante, e com as vozes de Mike Myers (Shrek) e Eddie Murphy (burro), esta paródia de outras adaptações de contos de fadas foi um êxito de bilheteira e da crítica. Quanto à Academia, terá criado a categoria de Melhor Filme de Animação para distinguir a qualidade crescente do género e de estúdios que não a Disney. Ao todo, a Pixar, entretanto comprada pela Disney, ganhou 11 vezes. Este ano, o prémio será atribuído pela 25.ª vez.



