Há 15 anos nascia a Príncipe Discos, que se tornou um símbolo e uma plataforma para a chamada batida de Lisboa — ou batida do gueto —, a música instrumental feita nas periferias da capital, inspirada no kuduro angolano, mas também na eletrónica europeia e norte-americana, dando vida a híbridos de múltiplas sensibilidades sonoras.
Embora nem sempre seja reconhecido como tal, tem sido um dos géneros que mais tem levado o nome de Lisboa — e de Portugal — pelo mundo fora. Hoje, está completamente estabelecido num importante circuito internacional. Dos bairros sociais e subúrbios de Lisboa para os clubes de Nova Iorque, Londres, Paris ou Amesterdão. Dos softwares musicais pirateados e dos computadores precários para as páginas da Rolling Stone, do The Guardian ou da Pitchfork.
Esta sexta-feira, 6 de março, a editora celebra o 15.º aniversário com uma festa no Lux Frágil, em Lisboa. Por uma noite, o clube de Santa Apolónia transforma-se por completo num templo da batida, com performances de O Ghettão, Xexa, Txiga (NinoO e K30), Lokowat, RS Produções (Narciso, Lima, Nulo e Nuno Beats), TLS (Diiony G, E8 Prod e Helviofox), Tia Maria Produções (Bboy, Danifox, Poco e Puto Márcio), Allas G, Bubas, Cirofox, Deejay Veiga, Mano Jio, Firmeza, Nigga Fox, Marfox, DJ Nervoso, Dariiofox e os CDM (Lilocox e Maboku).
Um movimento que já existia antes da Príncipe Discos
Apesar de a Príncipe Discos se ter revelado fundamental para editar, promover, destacar e dignificar esta música, ela já existia e circulava anos antes. No início do milénio, um jovem imigrante são-tomense que dava pelo nome de DJ Nervoso — e que passava música nas festas de bairro da Quinta do Mocho, no concelho de Loures — começou a sobressair por misturar kuduro e techno nos seus DJ sets. Embora de geografias e movimentos socioculturais distintos, os géneros casavam bem por partilharem uma intensidade e um tempo musical. Ambos eram amplamente ouvidos nas periferias.
Não demorou muito a passar para a composição original, através do software de produção Fruity Loops, hoje oficialmente designado como FL Studio. Tornou-se um mentor para outro jovem das redondezas, DJ Marfox, da Portela de Sacavém. Naquela fase inicial, faziam sobretudo remisturas, que começaram a ser difundidas online e a ganhar tração. De forma espontânea, Nervoso e Marfox acabaram por se ligar a outros jovens DJs e produtores dos subúrbios de Lisboa que também faziam as suas experiências sonoras com base no kuduro e na música eletrónica — N.K., do Bairro do Pombal, em Oeiras; e um trio de amigos da Linha de Sintra, Pausas, Fofuxo e Jesse. Juntos, os seis formaram os DJs di Guetto.
Eram todos miúdos afrodescendentes, a maior parte ainda na adolescência, com as mesmas referências musicais e o interesse em explorar abordagens novas. Associaram-se a um coletivo de dança, os Máquinas de Kuduro, e faziam as misturas para eles dançarem nas performances que corriam as escolas das periferias. Aos poucos, e de uma maneira muito orgânica, os DJs di Guetto apostaram cada vez mais na composição e na produção própria de instrumentais.
Apesar de haver a referência assumida do kuduro, entre outros géneros afro-lusófonos como o tarraxo ou o funaná, a música que estavam a fazer tinha um caráter distinto. Era mais frenética e pesada, com sintetizadores mais agressivos e muitas camadas rítmicas. Usavam samples mais ligados ao norte da Europa ou aos Estados Unidos da América. Além disso, não havia uma cultura de cantores de kuduro em Portugal. Este fenómeno desenvolveu-se então enquanto música instrumental, o que também a distinguia daquilo que se fazia em Angola.
Após algum tempo a trabalhar em conjunto, os DJs di Guetto reuniram as melhores faixas que andavam a produzir e lançaram uma compilação a 18 de setembro de 2006. Não era uma data aleatória — era o começo de um novo ano letivo e os DJs queriam espalhar a sua música como uma febre, naquele ambiente de entusiasmo e de partilha que marca o início das aulas. Drift Furioso, Mãe Gorda, Tarraxo Nervoso, Un Bes Bai ou Isto é Kazu Bite tornaram-se faixas emblemáticas, trocadas de leitor de MP3 em leitor de MP3, através dos infravermelhos dos telemóveis ou de chats online como o MSN. Os temas circulavam dispersos e soltos, sem qualquer contexto associado, num panorama digital que precedia as redes sociais e o streaming organizado de música.
Para Marfox, “foi a primeira compilação que representou o negro europeu de Lisboa”. Afinal, o rap — que já existia há mais de uma década em Portugal e tinha ganho uma forte componente identitária local, também com uma importante presença afrodescendente — tinha raízes nos Estados Unidos e uma origem muito distante da lusofonia. “O que é que o negro europeu de Lisboa ouve, o que é que faz? Podem falar de hip hop, mas globalmente, o que é que foi exportado daqui? Foi esta música, que ficou rotulada como música de Lisboa.”
Com os membros espalhados pelos grandes polos suburbanos da capital — a Linha de Sintra, de Cascais, da Azambuja e até a Margem Sul, quando DJ Pausas se mudou de Queluz para o outro lado do rio Tejo — os temas alastraram rapidamente entre bairros e diferentes comunidades. E não demoraram até chegar à diáspora PALOP espalhada pela Europa, que os começou a contratar para passarem as músicas nos clubes das suas cidades.


Era um mundo novo para estes miúdos que não estavam sequer habituados à validação da sua música. Em Portugal, tinham poucas oportunidades para tocarem nos clubes de música africana — dominados sobretudo pela kizomba, mais melódica e sensual, com outro apelo pop —, cujos gerentes e promotores desconfiavam daquelas batidas agressivas. Eram relegados para o final da noite, eram pressionados a expandir o leque musical e a passarem outro tipo de faixas nos seus sets.
“A música era completamente condicionada por egos, por invejas, às vezes até por questões xenófobas dentro da própria comunidade. O que é um são-tomense a fazer kuduro?”, recorda Marfox. “Eu ia tocar aos clubes mas só me deixavam tocar a 20 minutos do fim. Os DJs residentes condicionavam os nossos sets, a nossa visão, a nossa estratégia e quando nos deixavam tocar era no final da noite, quando já havia muita gente encharcada de álcool, já tinham acendido as luzes, havia discussões verbais e às vezes acabava em atos físicos. Sempre tentaram culpar a música.”
José António Moura, que seria um dos fundadores da Príncipe Discos, sublinha que havia uma grande “desconfiança” em relação a estas batidas. “Porque também atraía pessoas que não eram muito desejáveis, que eram as pessoas normais dos bairros. Que se calhar não tinham um fato, ou os sapatos, ou a atitude que era considerada certa em termos aspiracionais. A música não tinha um eco favorável. Não era kizomba, não era kuduro, não era cantada — o que também é um fator importantíssimo na definição da sua popularidade ou falta dela —, tinha pouca melodia e era sobretudo rítmica. Não era nenhum género identificável. Portanto, eram só fatores alienantes. E, no entanto, a música conseguiu vingar.”
A descoberta de uma música única e autêntica que precisava de uma plataforma
Em 2007, num evento de âmbito social e cultural na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, os programadores Nélson e Pedro Gomes — que tinham trabalhado na Galeria Zé dos Bois e entretanto haviam fundado a sua associação e promotora, a Filho Único — escutam um funaná como nunca antes tinham ouvido. Era ainda mais frenético do que um funaná tradicional, as notas de acordeão tinham sido substituídas por sintetizadores, em vez dos convencionais ferros havia uma percussão mais eletrónica. “Quem é que fez isso?”, perguntaram ao cantor que usara aquele instrumental, o artista de funaná Kota Lumi. “Foi um puto do meu bairro.” No dia seguinte, apresentava DJ Marfox à equipa da Filho Único.
“Eles ficaram fascinados, perguntaram se eu fazia mais beats assim, e eu disse que não, que o meu forte era batida”, lembra Marfox. “O que é isso da batida?”, terão perguntado. “É uma espécie de kuduro, mas sem voz”, respondeu. “Fui introduzindo-os, fomos tendo mais contacto, arranjaram-me pequenos concertos e depois perceberam que havia todo um movimento que já estava a acontecer mas que o centro da cidade não imaginava.”
A Nélson e Pedro Gomes juntaram-se José António Moura e Márcio Matos, que geriam a loja de discos Flur, e os Photonz, dupla de música eletrónica composta por Marco Rodrigues e Marco Evaristo. Partilhavam a vontade de fundar uma editora focada no talento local que pudesse ombrear com o que ouviam no circuito internacional da música de dança. Inicialmente, não existia um plano estético propriamente definido. Mas a proximidade com Marfox acabou por ditar o destino da Príncipe, pois havia todo um género musical com características únicas que poderia beneficiar de um projeto editorial como este.
“A relação com o Marfox destapou todo um universo de música vibrante que já existia, que já tinha a sua expressão bem vincada, já tinha a sua popularidade bem estabelecida nas periferias de Lisboa e até internacionalmente, junto de algumas comunidades”, conta José António Moura. “Simplesmente era um universo que praticamente não se cruzava com o chamado centro, com os circuitos a que estávamos habituados. Era um universo que nós desconhecíamos e quando começámos a ouvir o material em bruto para selecionar, começámos a ter uma noção do que a editora poderia vir a significar e representar em termos estéticos. Estes artistas precisavam de uma plataforma para poderem ser traduzidos, digamos, sem mácula, sem desvirtuar fosse o que fosse da sua visão artística, para um centro onde está a imprensa, os clubes fora do circuito africano, e sobretudo lá para fora. Está aqui uma música feita em Portugal que não conseguimos comparar com nada do que ouvimos na música de dança. Não ouvimos mais nada que soasse tão vital e que necessitasse tanto de promoção, foram raríssimas as vezes que ouvimos música feita cá que nos entusiasmasse tanto. Vamos mostrar isto a toda a gente.”
A primeira edição foi o EP Eu Sei Quem Sou, de DJ Marfox, em 2011. Desde muito cedo que o artista se tornou uma figura de proa neste movimento. Por um lado, estava a revelar-se um músico influente para os produtores mais jovens — a prova disso são os inúmeros nomes artísticos que terminam em “fox”, numa clara homenagem, o que evidencia a linhagem musical, mesmo que alguns dos mais recentes “fox” já se tenham inspirado em “fox” intermédios. Em segundo lugar, foi Marfox quem inicialmente mediou os contactos entre estes músicos e a estrutura da Príncipe, que outrora se movimentavam em “mundos totalmente distantes, que nem se comunicavam”.
“Quisemos inaugurar o catálogo com o Marfox por uma questão de simbolismo e porque os mais jovens, aspirantes que olhassem para ele, saberiam assim que poderiam ter ali uma casa”, conta José António Moura. Entre as pesquisas no Soundcloud, a principal plataforma de música para estes produtores, e as recomendações que chegavam diretamente via Marfox, o catálogo foi-se expandindo. Nos anos seguintes foram editados discos de Nigga Fox e de Nídia ou de coletivos que reuniam vários DJs e produtores, como Tia Maria Produções (que chegou a incluir um iniciante Deejay Télio), Casa da Mãe Produções, BNM e PDDG.

As edições em vinil e o design artístico e pintado à mão por Márcio Matos tornaram-se referências e parte essencial da coesão editorial. Aquela música informal, dos bairros de Lisboa, era apresentada num embrulho de vanguarda artística de um circuito mais intelectual, subvertendo e baralhando os tradicionais conceitos de alta e baixa cultura, de popular e alternativo.
“Era tudo na contramão do que se fazia na minha realidade”, conta Marfox. “No meu contexto, estávamos todos com os flyers da moda, tudo muito tchanan, e a Príncipe com o design do Márcio tinha outra forma de estar. A própria Noite Príncipe, o formato de tocarmos só batida, a nossa música, durante seis horas… Foi tudo novo. Eu dizia ao pessoal: vamos ter uma noite só de batida. ‘Isso é mentira, Marfox, batida não pode, vai dar confusão’. Já nos tinham vendido essa ideia e nós acreditávamos naquilo cegamente. Como sonhávamos estar naqueles palcos, com aqueles DJs mais velhos e conceituados da noite africana, nem questionávamos. Nem entendíamos que eles estavam a limitar o nosso processo criativo. A Príncipe também nos deu esse lado, aqui fazes e tocas o que quiseres. E isso deu espaço para toda a gente crescer musicalmente, conhecer-se a si próprio e estruturar melhor a identidade do seu som.”
A Noite Príncipe começou como residência mensal no Musicbox, no Cais do Sodré, em fevereiro de 2012. Por lá manteve-se durante 13 longos (e consistentes) anos. “Não foi uma coisa que se estabelecesse como popular no imediato, porque a música pode dizer-se que não era familiar, soava até estranha”, explica José António Moura. “Foi uma grande aprendizagem para todas as partes envolvidas. Incluindo para o público, que teve curiosidade e começou a habituar-se, e foi essencial ser naquela zona porque não havia filtro. Havia desde o turista casual ao pessoal mais hipster da noite.”
Além, claro, das multidões das periferias que estes artistas arrastavam para o centro. “Isso também foi importante para desbloquear um bocado alguma desconfiança que pudesse haver da periferia em relação ao centro, do centro em relação à periferia. E foi importante para os artistas perceberem como é que a sua música tinha impacto num clube que não era o habitual na noite africana. A nossa proposta foi sempre que os artistas tocassem a sua música, não eram encorajados a tocar os grandes hits, fossem americanos ou angolanos. E dessa apresentação de música própria, nós também aprendemos o que é que poderíamos utilizar nos discos.”
A Noite Príncipe funcionou, então, como um laboratório para a própria editora. Foram muitos os DJs e produtores que, convocados por Marfox e pela Príncipe, ali se apresentaram antes de editarem os seus discos. “Os miúdos antes reclamavam dos cachets, da maneira como eram tratados e subjugados, e quando chegam a uma editora que lhes dá um palco, em que dizem ‘isto é vosso, vamos criar e transformar em algo maior’, eles entenderam automaticamente. Aqui querem-me livre, deixam-me ser quem eu sou e deixam-me ser aquilo que eu nem sabia que poderia ser, que é a coisa mais incrível.”
Nos anos seguintes, alcançaram a tão almejada expansão internacional. Os convites para tocar em festivais de renome sucederam-se. Em 2014, DJ Marfox tornava-se no primeiro artista português a merecer um destaque na revista norte-americana Rolling Stone. Atentas ao som da batida, inconfundível e incomparável com tudo o resto, editoras internacionais especializadas começaram a editar esporadicamente temas ou compilações especiais com estes produtores, como foi o caso da britânica Warp Records. E alguns dos artistas começaram a ser convocados para assinar remisturas de músicos conceituados. Marfox apareceu ao lado de Björk nos remixes de Fever Ray, foi convidado pelos Crystal Fighters para fazer uma versão ou partilhou os créditos com Pete Rock nas remisturas para Panda Bear. Nídia haveria de trabalhar a música de Kelela, Elza Soares ou Perfume Genius no mesmo registo.
“Gerou-se uma onda que não parou, até hoje”, reflete José António Moura. “Posso dizer que há mais de uma década que a editora tem conseguido manter-se estabelecida. Entrámos pela porta de um certo circuito internacional que ainda valoriza o lado estético da música e não apenas a popularidade. Já sabíamos que a música tinha esta força, não só pela música em si, mas pela história por trás e pelo enquadramento social na cidade de Lisboa. Era muito traduzível para o exterior como uma história.”
Foram vários os artistas que, a partir daí e ao longo do tempo, se conseguiram profissionalizar. “Passas a perceber que podes viver da música, e da música em que sempre acreditaste e que amaste”, diz Marfox. “Houve espaço para as pessoas se maturarem, crescerem, errarem e alguns deles — gostaria que fossem todos — tornaram-se DJs internacionais e alguns até têm mais gigs do que eu por ano. Mostra que o trabalho foi bem feito, são bons produtores e a aposta inicial não falhou.”
José António Moura realça a “sensação incrível” de, apesar de não ser a ambição inicial, terem conseguido transformar a vida de vários músicos com o “impacto social” que alcançaram. “Começámos a assumir que este trabalho não é apenas editar discos e não queremos mais saber dos artistas, não era possível trabalhar assim. Todo o know-how da Filho Único, de management, agenciamento e acompanhamento, foi transportado para a Príncipe. Era muito fácil, a partir do momento em que as coisas rebentaram, haver um deslumbramento e aceitar qualquer proposta de qualquer marca, por exemplo, para aproveitar o hype do momento e catapultar um artista para o spotlight. E depois, de repente, o artista não está bem porque não sabe onde está metido nem o que vai acontecer, com um patamar elevadíssimo de exposição e depois volta à estaca zero quando há a queda. Quisemos sempre evitar essa súbita exposição que pudesse comprometer uma evolução mais sustentável.”
Com o passar do tempo, aperceberam-se rapidamente de que “a fonte não ia secar”, de que havia um constante renovar de gerações, com cada vez mais artistas a aparecer depois de verem os mais velhos a mostrarem que havia um caminho. “Apareceram diferentes identidades e isso também deu um brilho à editora”, acredita Marfox. “Toda a gente foi à procura do seu som.”




Apesar do sucesso no circuito internacional de música de dança, Portugal também se revelou um mercado pequeno para acolher tantos autores desta música “vanguardista e estranha”. “O mercado é minúsculo e não dá para muita gente. Nunca haveria sítios nem festivais suficientes para todos tocarem sem repetirem os mesmos sítios regularmente”, diz José António Moura. “Também não há imprensa digna desse nome há muitos anos, com variedade suficiente para poder acolher uma cena mais robusta.”
Seja como for, o aparecimento exponencial de artistas neste segmento, a desconstrução do género musical em múltiplas abordagens, o surgimento de outros projetos editoriais a trabalhar esta música (como a canadiana Moonshine, que agencia e edita os discos de Vanyfox e NegoO, além de ter editado trabalhos de nomes como Mano Jio e outros artistas ligados à cena) sugere um universo em constante expansão para o qual a Príncipe terá dado um contributo decisivo.
“Não consigo quantificar a influência que a Príncipe poderá ou não ter tido no surgimento de novos artistas, novas plataformas, novas editoras. Não consigo mesmo”, defende José António Moura. “Gosto de pensar que houve, acima de tudo, uma abertura de consciência por parte dos media, por parte dos clubes, por parte do público que ouve e que gosta de música.”
O futuro da Príncipe Discos e desta música: manter a coesão, alargar a Casa Príncipe, resgatar o arquivo
Esta música nascida na diáspora dos PALOP em Lisboa — onde portugueses e angolanos, cabo-verdianos, guineenses ou são-tomenses, imigrantes ou afrodescendentes já nascidos na capital portuguesa, partilhavam prédios, festas e sons — tornou-se ainda menos ligada a uma realidade física concreta quando se deram as grandes vagas de migração destas comunidades para outros países da Europa, sobretudo com a crise económica de 2008.
Nídia, por exemplo, uma das artistas mais renomadas deste universo, cresceu no Vale da Amoreira mas já estava a viver em França quando editou pela Príncipe. Filho de pais angolanos, Danifox nasceu em Lisboa mas começou a fazer batidas em Leeds, no Reino Unido, antes de se tornar uma referência da sua geração. Vanyfox, outro dos nomes proeminentes que surgiram nos últimos anos, trilhou um trajeto semelhante e começou a fazer música em França.
Apesar de dispersos nos territórios, partilham um movimento musical e cultural que transcende fronteiras geográficas e políticas. “A comunidade existe além fronteiras, há ligações online muito óbvias entre os artistas, há comunicação”, explica José António Moura. “A música hoje em dia não é feita só em Lisboa”, acrescenta Marfox. “É feita em Londres, em Paris, na Alemanha, até na Bélgica. Vi agora uma entrevista com uns miúdos belgas, angolanos de origem, que estão a fazer batida. Acho isso fantástico.”
O FL Studio mantém-se como o “Santo Graal” desta música, embora hoje sejam muitos os produtores que também usam a Maschine, da Native Instruments, para um processo de composição mais manual e orgânico. 20 anos depois da compilação dos DJs di Guetto, Marfox nota que a batida tem desacelerado o ritmo, os temas ficaram mais lentos.
“A batida começou nos 140 BPM [batidas por minuto] e já vai nos 130 ou 128. As pessoas foram experimentando, se calhar vinham com um viés de que a batida tinha de ser isto ou aquilo, mas a editora foi desconstruindo isso e a música ganhou outras formas”, conta. “Também houve uma melhoria da condição de vida, o que significa melhores programas, melhores plugins, melhores monitores, melhores fones, dá para explorar mais frequências. Outro fator é que o Fruity Loops durante vários anos abria a 140 BPM por definição. Depois, passou para 130. E ainda dou uma quarta razão: o facto de haver festas e espaços onde a música podia respirar, noites só de batida, também contribuiu para a variação de beats, para que as pessoas explorassem outros sons. E aquilo que nos chega de Angola também baixou o BPM, tanto o kuduro como o afrohouse.”
Com o Musicbox encerrado, a Noite Príncipe não é hoje uma residência fixa com casa própria. Vai acontecendo esporadicamente em vários espaços na cidade, como o clube Outra Cena, em Marvila. Paralelamente, são organizadas Noites Príncipe em cidades estrangeiras, com cartazes inteiramente definidos (e desenhados) pela editora lisboeta. DJ Marfox conversa com o Observador a partir do aeroporto de Londres, onde faz escala após voltar de uma festa esgotada em Nova Iorque com forte curadoria da Príncipe, onde se apresentou ao lado de DJ Firmeza e Nídia. A 13 de março, uma semana depois do aniversário no Lux Frágil, há Noite Príncipe na Garage Noord, em Amesterdão, com DJ Lycox e Helviofox.
No contexto lisboeta, já pensaram em fazer o movimento inverso e organizar uma festa na periferia, procurando levar um público mais central até aos subúrbios da cidade. Contudo, os desafios logísticos e a falta de espaços com as condições certas impossibilitaram até agora este objetivo, que se mantém “no horizonte”. “No entanto, não é uma coisa que se considere tão premente assim porque o circuito continua a existir nessas chamadas periferias, nos bairros em torno de Lisboa”, acredita José António Moura. “Ou seja, a música continua lá presente. Nós não vamos evangelizar ninguém. Seria uma celebração, não é? Mas não consideramos que seja assim tão necessária porque a música continua a existir, há festas que continuam a ser feitas e a música já lá era ouvida antes de nós existirmos.”
No ano passado, foi inaugurada em Campo de Ourique a Casa Príncipe, armazém, escritório e espaço de trabalho da editora — partilhada com a Filho Único — que também abriu esporadicamente as portas ao público para DJ sets e venda de merchandise. “É uma espécie de frente, de montra, que sempre quisemos ter, um sítio onde as pessoas pudessem conhecer a cara da editora, falar connosco e eventualmente com os artistas, e pudessem tomar contacto com o catálogo”, contextualiza Moura. “Esse passo ainda não está totalmente concretizado, mas queremos abri-la enquanto loja numa base regular, com horário anunciado. E que seja uma casa dos artistas, de trabalho, de comunicação, de troca de ideias, de experiências, de produções.”


Antecipando o futuro, José António Moura espera sobretudo “manter a consistência” do plano editorial. “Ouvir música nova, sermos apresentados a novos artistas, ou sermos nós a procurá-los e a encontrá-los. As músicas e os artistas continuam a aparecer, há ligações a serem feitas, este conhece aquele, este já trabalhou com o outro, e assim conseguimos continuar a alargar a nossa rede. Queremos fazer bons discos, discos que fiquem, que representem a música portuguesa — no fundo, estamos a falar de música portuguesa, embora algumas pessoas possam não a considerar assim.”
Esta sexta-feira, 6 de março, em jeito de celebração, a Príncipe Discos prolonga o trabalho de arquivo e valorização deste património musical ao editar uma segunda compilação dos DJs di Guetto com música praticamente inédita produzida em 2007.
“O arquivo é muito grande e custa-nos deixar música que ainda achamos ótima, incrível e consequente, na obscuridade. Daqui para a frente podem surgir alguns discos em formato split, com um lado para um artista e outro lado para outro, para podermos explorar esse arquivo de forma eficaz. Queremos realmente aproveitar a música muito boa que ainda está nos discos rígidos.”
Segue-se uma antologia de um dos DJs deste super-grupo fundacional, N.K., hoje o engenheiro de som responsável pela masterização dos discos da Príncipe. Por seu lado, Marfox revela em primeira mão ao Observador que irá lançar um novo álbum na “reta final” do ano. “Também gostava de ter mais mulheres, negras, a fazer música na editora, mas não tem sido fácil. A Príncipe é uma editora, mas isto era o nosso sonho. Eu dizia aos DJs di Guetto: ‘somos os melhores de Portugal, vamos levar esta batida pelo mundo’. Eles riam-se em 2006. ‘Marfox, nem nos querem na noite africana, tu és maluco?!’ Às vezes temos de ter um pouco de maluquice dentro de nós e não desistir.”