Quando subiu ao palco dos Brit Awards no dia 28 de fevereiro, Harry Styles quis mais do que apenas romper um hiato que perdurava desde 2023 ao cantar Aperture, o single de lançamento do seu novo disco, Kiss All the Time. Disco, Occasionally, lançado esta sexta-feira. Rodeado de dançarinos e coros e balançando-se em coreografias interpretativas, apresentou-se como nunca o vimos, explorando cambiantes de música eletrónica, mais artpop cerebral que glam exuberante. Tudo pareceu querer passar uma mensagem: “é para me levarem a sério”.
Se dúvidas restassem de que o regresso do cantor britânico de 32 anos está a ser feito com toda a pompa e circunstância que denota essa vontade de ser encarado como um artista mais maduro, basta constatar que este novo disco foi parcialmente gravado nos estúdios Hansa, em Berlim, os mesmos que acolheram David Bowie, Iggy Pop, Depeche Mode ou U2, além de citar como inspirações bandas como LCD Soundsystem e The Durutti Column. Além disso, conta não só com os préstimos vocais de Ellie Rowsell (dos Wolf Alice) em vários temas, como também os ritmos do baterista de jazz Tom Skinner (dos Sons of Kemet) e os coros do House Gospel Choir.
No plano mediático, a situação é idêntica: a primeira entrevista que deu a um jornal em sete anos foi à revista de fim de semana do The Times, adornada por fotografias tiradas pelo lendário Martin Parr, com quem passou férias em Itália. Pouco depois, a revista de atletismo Runner’s World publicou uma conversa sua com ninguém menos que o escritor japonês Haruki Murakami. Já em junho, vai assumir a curadoria do prestigiado festival Meltdown, no Southbank Centre, em Londres, coincidindo com o 75.º aniversário da sala. O cantor vai suceder a Little Simz, que dirigiu em 2025, assim como a nomes como David Byrne, Grace Jones, Nick Cave, Patti Smith e o já referido David Bowie.
https://youtu.be/hfHuIjbRk8o?si=r2uE81CqztxqYdQ1
Não é que Harry Styles não fosse já um caso de sucesso reconhecido. O tipo de perfis e artigos de análise ao seu trajeto de carreira normalmente referem-no como um “sobrevivente” das boy bansd, tendo-se tornado numa estrela em direito próprio como Robbie Williams ou Justin Timberlake ao ultrapassar o estigma associado a este tipo de projetos. Desde que enveredou por uma carreira a solo após o fim dos One Direction, em 2016, Styles só precisou de três álbuns para tornar-se num dos artistas masculinos mais sonantes do planeta — o último, Harry’s House, de 2022, rendeu-lhe dois Grammys e propalou uma digressão mundial de 169 datas, a penúltima das quais em Portugal. O The Telegraph não poupou nas palavras, considerando-o “o novo Mick Jagger”, com fãs de todas as idades.
https://observador.pt/2023/07/19/pergunta-para-60-mil-ha-alguem-que-nao-goste-de-harry-styles/
No entanto, por menos intuitivo que isso pareça, a máxima do “a equipa que ganha não mexe” nem sempre tem cabimento no mundo da música, correndo o risco de dar azo a outra expressão popular, a do “chão que já deu uvas”. Tendo talvez considerações como estas em conta, Styles nunca lançou o mesmo tipo de disco nem seguiu as fórmulas óbvias que levaram tantos outros ex-membros de boy e girl bands ao fracassso ou à indiferença: se o auto-intitulado de estreia decalcou as suas inspirações do universo do rock clássico dos anos 70, Fine Line resultou num trabalho com sensibilidades mais contemporâneas sem deixar de piscar o olho à era glam, ao passo que Harry’s House representou um gesto de ir beber aos anos 80, em particular à new wave e à synth-pop.
Com Kiss All the Time. Disco, Occasionally, todavia, Harry Styles dá um passo mais assertivo na sua progressão como artista ao mesmo tempo que protagoniza uma curiosa contradição: é o seu projeto mais aventureiro até à data por ser, simultaneamente, o mais contido, onde até as canções mais energéticas e festivas são pontuadas por alguma introspeção ou por texturas sónicas mais experimentais (para os padrões da pop mainstream, pelo menos) através do uso de sintetizadores analógicos ou batidas atípicas.
Quem só ler o “Disco” do título sem atender ao seu contexto — que, segundo Styles, é a ideia de não se pode estar sempre em altas, apenas ocasionalmente —, poderá vir ao engano, porque este não se apresenta como um álbum inspirado no hedonismo desse género musical, antes uma saída noturna levemente tingida de melancolia. Há aqui uma quantidade generosa de graves e ritmos inspirados no calor das pistas, sim, mas que pedem dança mais orientada para a expiação do que para a euforia celebratória, aspeto esse também reforçado pelo pendor confessional das letras. Retire-se um exemplo de The Waiting Game: “You can romanticize your shortcomings, ignore your agency to stop / Write a ballad with the details while skimming off the top” [“Podes romantizar as tuas falhas, ignorar a tua capacidade de parar / Escrever uma balada com os detalhes enquanto deixas de fora um bocadinho”].
[ouça o álbum “Kiss All the Time. Disco, Occasionally” na íntegra através do Spotify:]
Além de Aperture — que, por si mesma, é uma canção menos direta, servindo-se de um crescendo paciente até à explosão —, poucos temas assemelham-se sequer ao imediatismo orelhudo de As It Was e Watermelon Sugar. Ready, Steady, Go! e Dance No More, aditivadas de funk com linhas de baixo saltitonas, ou Pop, devedora do indie pop musculado dos M83, são o que mais se aproxima, mas este surge-nos sobretudo como um disco sem singles óbvios. Por outras palavras, mais “adulto”, supondo-se que o seu criador queira que o encaremos como um conjunto sonicamente coeso e não um coletânea de sucessos garantidos, concebidos para dominar as rádios e as plataformas de streaming.
Perante tamanhas mudanças, poderíamos estar em crer que Styles tivesse mudado a sua equipa de produção e composição, mas para este álbum voltaram a ser recrutados Kid Harpoon e Tyler Johnson, os mesmos dois que o têm acompanhado desde a sua estreia, o que também demonstra a sua maleabilidade como artistas. Sobra então a questão: porque é que um artista no topo do mundo decidiu voltar-se para dentro ao invés de continuar a aproveitar os bons ventos dos últimos anos? Os dois últimos anos explicam-no.
Aprender a abrandar quando se começa a correr
Ao fim das longas sequências de concertos da digressão Love on Tour e prestes a fazer 30 anos, Harry Styles tomou a decisão de retirar-se temporariamente da atenção mediática. Além dos holofotes que o iluminam em palco, também estava na mira dos que o escrutinam enquanto celebridade. Ainda que tenha conseguido manter uma persona pública tida como afável e humilde e se tenha notabilizado por defender publicamente causas progressistas, desde o ciclo promocional de Fine Line que vinha sendo alvo de debates quanto à sua orientação sexual ou às suas escolhas de vestuário, e até de polémicas. A mais recente e notória foi a que marcou a promoção do filme Don’t Worry Darling, realizado por Olivia Wilde, com quem manteve uma relação amorosa na mira de especulações e rumores.
“Era importante afastar-me da imagem que tinha de mim mesmo. Desde jovem que via essa versão de mim que as outras pessoas viam e que me era constantemente refletida”, afirmou na entrevista ao The Times. Nessa conversa, sublinha também que não só sentiu a necessidade de retemperar forças e “aprender a abrandar”, como precisou de reavaliar a sua relação com o estrelato. “Sempre pensei, ou esperei, ser o tipo de pessoa que não precisava das descargas de dopamina que este trabalho frequentemente proporciona. Mas, na verdade, nunca me afastei dele e era difícil eliminar a dúvida de que, se tudo isso desaparecesse, eu sentiria muita falta”, confessou.
Foi por isso que, ao longo deste período de relativa dormência, Styles passou temporadas em Roma e em Berlim sob um perfil discreto. Foi aí, afirma, que procurou não só a anonimidade que as pistas de dança mal iluminadas oferecem, como o sentido de comunhão ao deixar-se fazer parte do público, algo que lhe ficou patente ao assistir a concertos ao vivo dos já referidos LCD Soundsystem — e não é por acaso que a banda de James Murphy é uma das principais influências deste disco, especialmente em temas como Are You Listening Yet? — e dos Radiohead. “Acho que, depois de tanto tempo em palco, os últimos dois anos permitiram-me ser um verdadeiro membro da plateia, estar no meio da multidão e lembrar-me do porquê disso ser tão especial para as pessoas”, disse em entrevista à rádio BBC1.

Das poucas vezes que Styles foi visto em público, foi a praticar a sua nova paixão, a corrida. Foi com surpresa que o mundo reagiu não só ao facto do cantor ter participado em maratonas, mas também de ter tido excelentes performances para um corredor não profissional. O artista definiu esta ocupação como uma forma de estruturar a sua vida para lá dos tempos de lazer e de trabalho. Na sua conversa com Murakami, agradeceu ao autor por ter escrito Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo, misto de livro de memórias e ensaio sobre esta modalidade de atletismo. “Uma das coisas que realmente adorei no livro foi libertar-me da ideia de que a música tinha de ser uma profissão pouco saudável e que eu tinha de ser uma alma atormentada”, partilhou, adiantando subscrever a tese de que “ser saudável permite-nos ser um artista por muito tempo”.
No entanto, não foi apenas o ideário do “corpo são, mente sã” que inspirou o cantor para este álbum. A súbita morte de Liam Payne, o seu ex-colega dos One Direction, foi outro dos catalisadores para fazer uma reflexão sobre a sua vida enquanto artista. “É difícil perder qualquer amigo, mas é ainda mais difícil perder um amigo que é tão parecido connosco em tantos aspetos”, disse a Zane Lowe. “Foi um momento muito importante para mim, em termos de refletir sobre a minha vida e poder dizer a mim mesmo: ‘OK, o que quero fazer com ela? Como quero viver a minha vida?’”, adiantou, considerando que “a melhor maneira de honrar os amigos que faleceram é viver a vida ao máximo”.
Foi então esta confluência de fatores positivos e negativos o que propiciou a vertente mais introspetiva quanto à natureza da fama e da vida artística de Kiss All the Time. Disco, Occasionally, por si descrito ao The Times como “uma representação em áudio de uma longa entrada de diário”. E, como a maior parte dos diários, contém passagens de sentido inescrutável para qualquer um que não seja o seu autor ou os seus mais dedicados estudiosos, oferecendo interpretações múltiplas. Em Pop, o artista refere-se em termos eufemísticos ao ato amoroso tal como fizera em Cinema, cantando “It’s just me on my knees / Squeaky clean fantasy /It’s meant to be pop” [“Sou só eu de joelhos / Uma fantasia impecavelmente limpa / É para ser pop”]. No entanto, é fácil extrapolar esta passagem para algo como o tipo de expectativas que se tem dele como um artista ao serviço do público.
Noutros momentos, o sentido é mais claro. Season Two Weight Loss — termo que se refere ao fenómeno das estrelas de uma série de sucesso regressarem com melhor forma física para a segunda temporada porque já têm melhores condições de treino e nutrição — é uma metáfora para um regresso revigorado. Já a semi-acústica Paint by Numbers é ainda mais óbvia na sua determinação de colocar o seu papel sob um microscópio: “It’s a little bit complicated / When they put an image in your head, and now you’re stuck with it / You’re the luckiest, oh, the irony / Holdin’ the weight of the American children whose hearts you break” [“É um pouco complicado / Quando te colocam uma imagem na cabeça e agora estás preso a ela / És o mais sortudo, oh, que ironia / Carregando o peso das crianças americanas cujos corações partiste”].
De resto, já foi até veiculada a tese por órgãos como a revista Dazed de que a maior parte das letras, escritas na segunda pessoa do singular, não se dirigem a mais ninguém senão ao próprio cantor, em diálogo consigo mesmo, debatendo-se nesta fase da vida entre ser uma celebridade pop e ter direito a estabilidade e privacidade. Ou seja, que o “there’s only me and you” de Coming Up Roses — momento atípico no álbum, uma ternurenta balada acompanhada de orquestração — tanto pode dirigir-se ao objeto do seu afeto, como ao binómio entre também “Harry, o artista” e “Harry, a pessoa”.
“A crise existencial mais funky da pop”, chamou-lhe o crítico da BBC na sua análise a Kiss All the Time. Disco, Occasionally, uma descrição certeira para um álbum que ninguém previu e que, avaliar pelas primeiras reações, tanto tem surpreendido pela positiva por sinalizar um novo rumo com desenvoltura artística como pela negativa de não oferecer aos fãs aquilo que esperavam ou da sua visão não se ter traduzido em canções suficientemente interessantes.
Uma encruzilhada de estilos
Quando foi instado pelo The Times a perspetivar Together, Together, a digressão de promoção a Kiss All the Time. Disco, Occasionally, Harry Styles voltou a aludir a uma certa tendência caseira que adotou durante estes últimos anos. “Estou muito animado com a tour, mas se fizéssemos apenas dois espetáculos e a minha sobrinha e a minha irmã estivessem lá a assistir, isso seria tão gratificante quanto eu precisaria que fosse”, afirmou. Mas isso não é, de todo, o que vai acontecer.
Depois de ter experimentado realizar residências numa mesma sala de concertos durante vários dias, Styles vai levar esse conceito ainda mais além, com a sua digressão mundial a concentrar-se em apenas sete cidades. Em Londres, bateu o recorde estabelecido pelos Coldplay ao marcar 12 datas no Estádio de Wembley entre 12 de junho e 4 de julho. Já em Nova Iorque, depois da anterior digressão o ter levado a assentar arraiais no Madison Square Garden durante 15 dias, desta vez duplica para 30, entre 26 de agosto e 31 de outubro, tocando a cada quarta, sexta e sábado.

Tal decisão provocou a irritação de bastantes fãs, visto que, por exemplo, as datas em Nova Iorque são, para já, as únicas marcadas em solo norte-americano, o que significa quem queira vê-lo terá de viajar. A juntar-se a isto, os bilhetes acompanharam a escalada do aumento de preços que tem sido visível noutros concertos de grande dimensão. “Harry Styles, quero que fiques na plateia e não deixes ninguém entrar, a menos que te entreguem 1200 dólares em dinheiro. Olha nos olhos de cada fã e pede-lhes 1200 dólares”, escreveu uma fã numa publicação na rede social X, citada num artigo do The Guardian onde já se prevê que casos como este possam vir a causar dano reputacional.
Note-se que, mesmo antes mesmo desta situação, e não obstante a já referida bonomia com que é generalizadamente encarado, Styles já vinha sendo alvo de repetidas acusações dos seus críticos desde o início da carreira: que é um produto manufaturado pela família Azoff que o agencia desde os tempos dos One Direction, que o seu carisma maquilha as suas debilidades enquanto artista ou que lhe são permitidas veleidades por ser homem inacessíveis a uma artista feminina, parecendo “ser capaz de fazer o que quiser e não ser questionado”.
A questão é que, para todos os efeitos, talvez todas estas conjunturas não passem de poeira ao lado do que se espera ser mais um sucesso estrondoso de Styles. Segundo a Ticketmaster, mesmo perante os preços proibitivos, houve mais gente a pré-inscrever-se para os concertos no Madison Square Garden do que há população em Portugal, com 11,5 milhões de submissões, o que para a plataforma é “o maior volume já registado para uma pré-venda de um artista” em Nova Iorque e “o maior número de inscrições para pré-venda de um artista já visto para um único mercado ou residência de espetáculos”.
Face a todo isto, e dado o período de introspeção que experienciou e que resultou num álbum decididamente menos acessível, esta poderia uma fase em que Styles redefiniria também como se quer apresentar doravante na indústria musical, se como um “auteur” que define as suas próprias regras, se como alguém que continua a jogar as regras do jogo plasmadas na Welcome To The Machine dos Pink Floyd. Até mesmo pelo cariz mais interior destes novos temas, o crítico do Telegraph apontou como é “estranhamente difícil imaginar essas músicas delicadas e caprichosas transpostas para uma escala tão imensa”. Caberá a Styles decidir que rumo tomar, tendo apenas como garantia que, citando uma das suas canções, nada será como dantes.