Em Diário de um Homem Supérfluo, de Turguéniev, o desesperançado, nostálgico e à beira da morte Tchulkatúrin, inundado pelo peso dos seus trinta anos de inútil existência, interroga-se sobre a passagem do tempo e solta uma verdade estranha, daquelas que nos pára enquanto está a ser lida: “Enquanto uma pessoa vive, não sente a sua própria vida: como um som, ela torna-se-lhe inteligível algum tempo depois.”
Nos melhores livros, a cabeça viaja, simultaneamente para perto e para longe das palavras. Para longe, porque a partir do momento em que as lemos, elas deixam de poder estar circunscritas àquela realidade, é preciso que as adaptemos às nossas vidas, que as usemos em nosso proveito para nos sentirmos menos sozinhos no mundo, para que o possamos compreender. Para perto, quando queremos regressar-lhes, quando o peso da nossa realidade se torna desconfortável.
A ideia de não sentir a própria vida parece quase uma ofensa à nossa racionalidade. Supor que não sabemos viver, que a vida nos ultrapassa sem a conseguirmos agarrar, não porque estamos condenados a perdê-la, mas porque nunca conseguimos realizar que ela não é para ser agarrada. Talvez não seja descabido pensar que muitas pessoas procuram a vida fora de si. Há quem procure viver através daquilo que consegue conquistar e adquirir. Haverá aqueles que concentram os seus esforços em diminuir a vida dos outros, na tentativa de que isso lhes multiplique a única vida que na verdade têm. Sobre os Homens que não sabem reconhecer a vida, poderá talvez dizer-se que também não sabem reconhecer a morte.
Como neste Diário em que o nosso herói Tchulkatúrin se sente supérfluo, também a guerra, os ataques e contra-ataques com que nos presenteiam as notícias parecem começar a adquirir a mesma tonalidade transparente. Falamos de tudo como se fossem já apenas isso mesmo: factos supérfluos. As ofensivas do mundo moderno já não nos “ofendem” como, arrisco-me a dizer, deveriam. A morte é supérflua, mas o poder é atrativo. Excitamo-nos facilmente com as vinganças. Penso que é mesmo essa a palavra adequada, a excitação que a vingança nos causa é ao mesmo tempo sádica e melancólica, como se existisse sempre dentro de nós uma vida que não estamos a viver, e que só sabemos viver através de exercícios de poder levados a cabo por outros.
Se os Homens lessem, não tinham tempo para a Guerra (pelo menos, não tanto tempo). Será que esta suposição faz sentido? Pelo menos, veio de um lugar de verdade, não a escrevi por ironia. Talvez peque pela utopia e pelo excesso de confiança na capacidade de os seres humanos se manterem ocupados com ofícios que enrubesçam menos o sangue. É difícil imaginar uma sociedade sem guerra, mas é fácil imaginar que a incapacidade de sentir a vida possa despoletá-la. E se a guerra não for mais do que querer conquistar ao outro aquilo que ainda não conquistámos a nós próprios?
Resta saber se o nosso jovem homem supérfluo Tchulkatúrin morreu mesmo no fim (no fim, certamente que o fez, pelo menos algum dia), mas talvez essa questão não seja tão relevante como saber se Tchulkatúrin morreu antes do fim, como fazem tantos Homens que não se apercebem de que ainda estão a viver. É assim que a personagem se despede de nós, dizendo “Estou a morrer…Vivei, vivos!”. Uma irónica chamada de atenção para os vivos, esses desgraçados que não sabem viver.