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A Guerra Fria que se vê do Tejo: uma história de Lisboa como palco do cinema de espionagem

Espiões no Castelo de São Jorge durante a Guerra Fria, perseguições em Alfama, romances no Estoril. O ciclo 'Lisboa, Capital da Intriga Internacional', na Cinemateca Portuguesa, exibe 20 filmes.

Markus Almeida
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De todos os bares de todas as cidades de todo o mundo, Ingrid Bergman tinha logo de entrar no de Humphrey Bogart, em Casablanca, de 1942 – obra-prima de cinema noir e provavelmente um dos filmes que mais citações memoráveis nos deu. E se Rick Blaine e Ilsa Lund terão sempre Paris, importa lembrar que, no filme, Casablanca era apenas um poiso temporário, um passo a caminho a Lisboa, então considerado um porto de abrigo internacional pelo estatuto neutro de Portugal durante a Segunda Guerra. Milhares de refugiados rumaram à capital portuguesa, ora em busca de paz, ora à procura de um bilhete que os levasse até aos Estados Unidos. Lisboa era porto de abrigo, mas também ponto de encontro de espiões.

Era, nesses anos, uma verdadeira capital da intriga internacional – que, não por acaso, é precisamente o título de um ciclo que a Cinemateca Portuguesa dedica durante o mês de março a filmes de espionagem, cinema noir e thrillers. Em comum entre eles: o facto de terem Lisboa como palco.

“Tiroteios em Alfama, códigos secretos no Castelo de São Jorge e alucinantes perseguições sobre o Tejo serviram de ingredientes para mais de meia centena de obras, desde produções de Hollywood durante a II Guerra Mundial até à série 007, passando por paródias e filmes de série B, moldados pela propaganda do Estado Novo e pela promoção turística”, lê-se no comunicado da Cinemateca Portuguesa. Até 31 de março, o ciclo ‘Lisboa, Capital da Intriga Internacional’ exibe 20 desses filmes, oriundos dos EUA, Itália, França, Espanha, Reino Unido, Alemanha e União Soviética.

“Antes da Segunda Guerra Mundial, Portugal era praticamente inexistente no cinema americano”, explica o historiador Rui Lopes, co-programador do ciclo que resulta de uma colaboração entre a Cinemateca, o Instituto de História Contemporânea e o projeto ExPORT (baseado no Instituto de Ciências Sociais), assente na ideia de que “o cinema popular e comercial – incluindo filmes de espionagem e imitações do 007 – pode ser uma forma de diplomacia e poder.”

Com o conflito, a imagem de Lisboa como palco de espionagem, refúgio de fugitivos e oásis de paz persistiu durante a Guerra Fria. “Até 1974, Hollywood produziu cerca de três dezenas de filmes ambientados total ou parcialmente em Portugal, ignorando sistematicamente a repressão política, a pobreza e as guerras coloniais do regime salazarista.​”

O regime reconheceu cedo o potencial propagandístico de Hollywood. António Ferro, que dirigiu o Secretariado de Propaganda Nacional, chegou a propor a Salazar um plano para “pôr Portugal na moda” nos estúdios americanos, mas o ditador, avesso a despesas, recusou financiá-lo, conta o historiador, cuja investigação se tem debruçado sobre como Hollywood retratou Portugal durante o Estado Novo (1933–1974).

Sobre este tema específico, vale a pena recuperar uma citação de António Ferro que Lopes incluiu no artigo “Fado and Fatima: Salazar’s Portugal in US Film Fiction”, publicado na revista Film History (vol. 29.3, 2017): “Os americanos adoram o pitoresco, o diferente, aquilo que lhes parece original. São crianças que querem sempre brinquedos novos. Por isso, se conseguíssemos interessar os cineastas de Hollywood pelo caso português (e com isso quero dizer paisagens, costumes, folclore, história, vida regional e política), se conseguíssemos pôr Portugal na moda, durante alguns anos, nos estúdios de Hollywood, ganharíamos uma vantagem extraordinária em toda a América, no mundo, e sobretudo no Brasil, que nos admiraria muito mais se nos percebesse como populares no país que praticamente os governa.”

Nas décadas seguintes à Segunda Guerra, a relação entre o Estado Novo e a indústria cinematográfica norte-americana foi irregular. “O regime dificultou algumas rodagens, como a do filme Lisbon, de Ray Milland, em 1956, supervisionada pela polícia política, mas acabou por cooperar com as produções americanas nos anos 1960, através do Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), vendo nelas uma fonte de rendimento e de promoção turística.”

Esse Lisbon, a primeira produção americana inteiramente rodada em Portugal, foi o filme escolhido para abrir o ciclo, a 2 de março. Nas boas-vindas habituais de uma primeira sessão, Luís Mendonça, programador da Cinemateca Portuguesa, sublinhou a ideia de uma  “redundância produtiva” entre a Lisboa retratada no ecrã e a cidade real. Referiu ainda que este ciclo representa um ângulo fresco face a iniciativas anteriores (como o ciclo Lisboa no Cinema, de 1994).

Annarita Gori, coordenadora do projeto ExPORT (“Exportar Portugal. A diplomacia cultural e as estratégias de rebranding do Estado Novo nos Estados Unidos 1933-1974”), no âmbito do qual o ciclo nasceu, explicou que a motivação foi tirar a investigação académica da “bolha” universitária e levá-la até ao público. Levá-la, neste caso, até uma sala de cinema. Mas não só: este ciclo, que acontece com o apoio do Instituto Francês, Instituto Italiano, Instituto Cervantes e FLAD, será acompanhado de visitas guiadas e conversas em diferentes instituições sobre a evolução da imagem da cidade, da linguagem do cinema e das relações políticas e culturais entre Portugal e outros países ao longo século XX.

A escolha dos filmes seguiu três critérios: “interesse cinematográfico, qualidade das cópias e relevância histórica”. De uma lista inicial de cerca de 50 títulos, a equipa conseguiu reunir e legendar 20 cópias. Rui Lopes, o impulsionador do ciclo, recomenda-nos – acompanhado das devidas apresentações – oito filmes indispensáveis do ciclo ‘Lisboa, Capital da Intriga Internacional’.

“The Conspirators” / “Os Conspiradores”

De Jean Negulesco (EUA, 1944)
26/3, 19h — Sala M. Félix Ribeiro
31/3, 15h30 — Sala M. Félix Ribeiro

The Conspirators faz parte de uma onda alargada de produções a tentar replicar o sucesso de Casablanca, reproduzindo parcialmente o ambiente, elementos narrativos e até o elenco desse filme. Neste caso, Paul Henreid volta a interpretar um herói da Resistência, desta feita holandesa, em Lisboa, onde se cruza novamente com Peter Lorre e Sidney Greenstreet (Victor Laszlo, Ugarte e Signor Ferrari em Casablanca, respetivamente), em mais uma história cheia de intriga e paixão. Recriada nos estúdios de Hollywood, é uma Lisboa sombria e romântica, com laivos expressionistas. Embora Portugal fosse oficialmente neutro, as suas autoridades são retratadas como simpáticas para com os Aliados (ignorando a dimensão fascista do regime), exprimindo implicitamente o desejo americano de que o Estado Novo parasse de vender volfrâmio aos nazis e deixasse os EUA e o Reino Unido utilizar a base das Lajes. Não obstante, os propagandistas de Washington – do Office of War Information – proibiram a exportação do filme para Portugal, com medo de ofender a ditadura salazarista. Esta é, portanto, uma das primeiras vezes que o podemos ver em sala.”

https://www.youtube.com/watch?v=h8blpOiVFNM

“Ça Va Être Ta Fête” / “Passaporto falso” / “Eddie em Lisboa”

De Pierre Montazel (França/Itália, 1960)
7/3, 19h30 — Sala Luís de Pina
9/3, 15h30 — Sala M. Félix Ribeiro

“Esta é uma daquelas obras que seria interessante só por si, enquanto filme de espionagem, mesmo fora de um ciclo especificamente sobre Lisboa. No livro The Eurospy Guide, David Deal considera-o um dos 10 melhores filmes de espionagem europeus entre as centenas de obras saídas nos prolíficos anos 60. Richard Rhys Davies também o elege como um dos apogeus no seu vasto The International Spy Film Guide.

Se os temas e estética geral de film noir são aqui por de mais evidentes, há também laivos de onirismo nas imagens, na montagem, na mise-en-scene e na própria narrativa que de certo modo aproximam o filme da sensibilidade nouvelle vague da nova geração de cineastas franceses. Dito isto, este é sobretudo um filme de Eddie Constantine, estrela americana do cinema francês que se tornara extremamente popular ao longo dos anos 50 a fazer policiais e filmes de espionagem, normalmente encarnando o papel de agente do FBI Lemmy Caution (cuja atitude irónica, libidinosa e de homem de acção antecipa claramente o James Bond cinematográfico).  A personagem dele aqui, o agente do FBI John Jarvis, é uma mera variação, sendo que um dos títulos alemães do filme até o identifica como Lemmy Caution… e o título português, reconhecendo o principal apelo para o público, realça o próprio ator: ‘Eddie em Lisboa’.

O protagonista segue um típico percurso turístico. Há um contraste central, tal como noutros filmes deste ciclo, entre o local de beleza e prazer exibido aos espectadores e a tensão e sofrimento experienciados pelas personagens. Neste caso, o clímax envolve sobrevoar Lisboa uma sequência que simultaneamente mostra as vistas e representa um perigo de morte para o protagonista, preso numa avioneta que não consegue controlar.

Os censores do Estado Novo aprovaram este retrato de Lisboa, na altura. Classificaram o filme para ‘maiores de 12 anos’, apenas com cortes das imagens das ‘girls’ nos bastidores do teatro.”

“Comando De Asesinos” / “Fim-de-Semana com a Morte”

De Julio Coll (Espanha/Portugal/República Federal da Alemanha, 1966)
11/3, 21h30 — Sala M. Félix Ribeiro
24/3, 21h30 — Sala M. Félix Ribeiro

“Filme saído do pico de coproduções europeias de espionagem entre 1964 e 1968 (agora conhecidos como ‘Eurospy’), com centenas de filmes cavalgando o sucesso da série 007, incluindo através da ênfase nas cores, na música dinâmica, nos gadgets, na câmara de olhar turístico, numa estética de ‘modernidade’ e, sobretudo, numa certa ligeireza, retratando a espionagem como um jogo que não é suposto levarmos muito a sério e que serve essencialmente de pretexto para aventura cosmopolita, ação e erotismo.

A ligação ao boom turístico, para além de implícita nos travelogues de Lisboa e explícita na publicidade e cobertura mediática, está incorporada no próprio texto do filme. Numa perseguição, os espiões refugiam-se num autocarro turístico e acompanhamos a tour de Lisboa durante alguns minutos (com vistas e descrições diferentes consoante a versão espanhola ou alemã, apontando para diferentes interesses). É de realçar a perseguição final, que culmina no tabuleiro da Ponte Salazar, como se chamava na altura, ainda por concluir.

Um aspecto fascinante é o quão diferentes são as versões portuguesa, espanhola (com uma voz-off que dá mais protagonismo à personagem feminina) e alemã (que muda a própria nacionalidade das personagens, para que o protagonista passe a ser o ator alemão Peter van Eyck). O próprio título varia muito, em português (Fim-de-Semana com a Morte), castelhano (Comando de Asesinos), inglês (High Season for Spies), alemão (Sechs Pistolen jagen Professor Z) e italiano (Sette killers a caccia del prof. ‘Z).

Uma nota para nuance dos dois últimos: em alemão são seis pistolas (talvez porque o número ‘Sechs’ soa a ‘Sex’) e em italiano são sete assassinos (porque as distribuidoras italianas metiam o número sete sempre que podiam, evocando assim o 007).”

https://www.youtube.com/watch?v=XGC9SgGJrMs

“Sete Balas Para Selma”

De António de Macedo (Portugal, 1967)
30/3, 19h30 — Sala Luís de Pina

“Um filme português que tem uma relação não só com a intriga de espionagem em geral, mas com algo mais específico… Antes de mais, a sua versão do género vai beber aos filmes do 007, com o seu pendor mais fantasioso e aventureiro, pleno de ação espectacular e gadgets, e politicamente superficial: neste caso, uma organização secreta justiceira contra um vago grupo criminoso que procura vender uma super-arma a uma potência rival no âmbito de uma guerra que se aproxima. A escolha do número sete para o título pode ser parte desta intertextualidade.

Mais do que a série do 007, o modelo parece ser o da onda de coproduções Eurospy (sobretudo italianas, espanholas, francesas e/ou alemãs), filmes de série B que inundaram os cinemas de bairro europeus (incluindo os ecrãs portugueses) desde 1964, os quais compensavam valores de produção menos elevados desenvolvendo um estilo próprio: em vez de simplesmente imitar os filmes do 007, exageravam, com assumida ironia, a violência, a sexualidade, as cores berrantes e o uso da paisagem urbana. A grande cena de pancada na margem sul, no meio dos veículos de construção, com Lisboa ao fundo, não destoaria em muitos desses filmes. Para além do parentesco estético, a narrativa contém vários chavões do cinema Eurospy, que quase sempre girava em torno de competições por super-armas.

Ainda assim, a tecnologia e o gore são tão cartoonescos – e são tantos os toques excêntricos que pontuam o filme, estimulando o distanciamento cómico – que não podemos reduzir Sete Balas para Selma a uma mera variação nacional de Eurospy. A dimensão de imaginário pessoal, o tom satírico e o proto-surrealismo psicadélico assemelham o filme a algo ainda mais idiossincrático… De resto, o final original era experimental e ambíguo, tendo a produtora Imperial Filmes imposto um fim mais convencional. Nesta exibição da Cinemateca, mostramos os dois finais!”

https://www.youtube.com/watch?v=Evy9qaDs9kc

“On Her Majesty’s Secret Service” / “007 — Ao Serviço de Sua Majestade”

De Peter R. Hunt (Reino Unido/EUA, 1969)
14/3, 21h30 – Sala M. Félix Ribeiro

“O livro original não se passa em Portugal, mas sim no norte de França, pelo que a escolha de Lisboa e arredores se prenderá mais com facilidades logísticas e critérios estéticos. Ainda assim, tornou-se num chavão relembrar que o Ian Fleming esteve no casino do Estoril durante a II Guerra Mundial, quando era espião, o que terá inspirado o primeiro livro do James Bond, ‘Casino Royale’.

O Hotel Palácio Estoril, que já tinha aparecido no Eurospy Comando de Asesinos (incluído neste ciclo), é objeto de uma visita guiada, que cumpre uma dupla função. Por um lado, estabelece a geografia e familiariza o público com os espaços onde terão lugar o romance com a Condessa Teresa ‘Tracy’ di Vicenzo e uma destrutiva sequência de pancada. Por outro lado, fornece a ambiência de luxo cosmopolita que se tornara característica deste franchise, firmando assim o lugar de Portugal na rota do jet set.

Como em quase todos os filmes deste ciclo, Lisboa não é apenas uma cidade de intriga, mas também de turismo e romance. O apaixonar de Bond e Vincenzo é ilustrado por uma montagem com eles a namorar em diferentes sítios da cidade e arredores. O anel de noivado é comprado no Rossio e a lua-de-mel inicia-se com a travessia da ponte sobre o Tejo.

O Estado Novo aproveitou a oportunidade propagandística. A imprensa deu ampla cobertura à rodagem. Aproveitando o tema do casamento do James Bond em Portugal, o Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI) organizou uma campanha chamada ‘Lua de Mel em Portugal’, trazendo 49 jornalistas de fora para vir noticiar as filmagens. Embora o nome do país não seja explicitado no filme, as suas marcas são evidentes (e foram explícitas na imprensa), confirmando que, apesar das controversas guerras coloniais, a ditadura portuguesa continuava a contar com benevolência em vários círculos ocidentais, nomeadamente nas indústrias de lazer e entretenimento dos seus aliados.”

https://www.youtube.com/watch?v=Qp274hNLkts

“Le Grain De Sable” / “O Triângulo Circular”

De Pierre Kast (França/Itália/República Federal da Alemanha/Portugal, 1964)
9/3, 15h30 – Sala M. Félix Ribeiro
13/3, 19h30 – Sala Luís Pina

“Uma história de mistério e intriga em torno de espionagem industrial inteiramente situada e rodada em Lisboa, escrita e realizada por Pierre Kast, um cineasta da nouvelle vague – e antigo membro da resistência comunista durante a II Guerra Mundial – que vinha escolhendo cada vez mais Portugal para os seus filmes, desde o início das década.

Para além desta dimensão pessoal, fruto de preferências ou de redes estabelecidas, a escolha de cenário insere-se num crescente encantamento do cinema francês com a capital portuguesa (numa altura em que a cidade era cada vez mais ‘descoberta’ pelo turismo), visível em várias outras produções da época.

Dito isto, apesar da tónica francesa, trata-se de uma típica co-produção europeia, tão em voga nos filmes de género da altura, com produtoras de França, Itália e República Federal da Alemanha juntando forças num projeto com vedetas de diferentes origens nacionais, tais como Lilli Palmer (alemã), Paul Hubschmid (suíço), Sylva Koscina (italiana de origem croata) e, de novo, a portuguesa Clara d’Ovar.

Ou seja, o filme, rodado com apoio do SNI, integra Portugal num imaginário europeu, não só visualmente e narrativamente – com um retrato benevolente das forças policiais do Estado Novo –, como na própria economia transnacional de produção e estrelato.

A intriga foca-se na morte de um grande magnata, com uma guerra de sucessão na empresa, investigada por um enviado francês da polícia portuguesa. Em termos diegéticos, a polícia portuguesa aparece como eficiente e bem coordenada. De resto, visualmente, é uma verdadeira ode ao catálogo de paisagens lisboetas.”

“36 Hours” / “As Últimas 36 Horas”

De George Seaton (EUA, 1964)
16/3, 15h30 – Sala M. Félix Ribeiro
19/3, 15h30 – Sala M. Félix Ribeiro

Este é um filme em que Lisboa tem uma aparição bastante limitada, mas muito importante na economia da narrativa. Baseado num conto do Roald Dahl de 1944, quando a acção se passa, a trama assenta num plano dos nazis extremamente elaborado – envolve a simulação de toda uma cidade estrangeira e tempo histórico – para obter uma informação estratégica através do engano. Ou seja, este filme de 1964 antecipa um dos enredos mais recorrentes da famosa série de espionagem ‘Missão Impossível’, que se estrearia dois anos mais tarde – embora a série reverta os papéis: nela, são os heróis que enganam, heroicizando assim as conspirações e operações de desinformação da CIA, o que altera a dinâmica do suspense.

Ainda assim, há muito por onde pegar no que toca à presença de Lisboa, que não aparece no conto original, tendo sido acrescentada propositadamente para o filme. Volvidos 20 anos, a marca impressa por Hollywood durante a guerra foi tão forte que a cidade continua a surgir como ponto de passagem neutro (ou seja, onde se cruzam agentes dos dois lados) e relativamente pacífico e pitoresco em várias histórias de pendor histórico. Mais uma vez, a dimensão turística está latente – veja-se como a cidade é introduzida através do zoom de um postal que ganha vida.”

https://www.youtube.com/watch?v=bVG96J7apwM

“The Russia House” / “A Casa da Rússia”

De Fred Schepisi (EUA, 1990)
20/3, 15h30 – Sala M. Félix Ribeiro
30/3, 16h30 – Sala M. Félix Ribeiro

“Este filme pode ser visto com o cruzamento de três finais. Um deles é o final da Guerra Fria, na fase derradeira, quando a Gorbachev abria cada vez mais a União Soviética, deixando os serviços secretos ocidentais num limbo de incerteza sobre até que ponto continuava em curso a luta contra o velho inimigo. Este momento de apreensão quanto à reestruturação (perestroika) e abertura (glasnost) foi captado por um romance do mais talentoso narrador da Guerra Fria – John le Carré – publicado em 1989, e por esta adaptação, um ano mais tarde, ainda antes do colapso da URSS, mas filmada já num contexto de degelo que permitiu que fosse a primeira produção de Hollywood com extensas rodagens em Moscovo e Leningrado.

É, portanto, uma cápsula do tempo geopolítico, mas com um interesse para além do histórico, graças ao seu esforço por fazer justiça ao estilo que tornara le Carré num sucesso de vendas e da crítica: diálogos espirituosos com uma cadência elíptica, sensibilidade psicológica das personagens, um enredo inteligente urdido de forma não linear.

Do ponto de vista cinematográfico, trata-se também de um certo fim dos thrillers de Guerra Fria. Este conflito, que tanto fizera por popularizar o género da espionagem, doravante passaria a ser objecto de ficção histórica com mais ou menos nostalgia por um período de confronto claro entre ideologias e superpotências bem definidas.

Esse final é simbolizado pela presença de Sean Connery, ator inaugural da emblemática série 007, desempenhando aqui um anti-Bond visivelmente envelhecido, humanizado, empático, desencantado politicamente e recrutado a contragosto pelos serviços secretos de Sua Majestade, que desta vez acaba por trair em nome do amor.

Sob esse prisma, Lisboa completa também um arco, desenvolvido ao longo deste ciclo. No cinema, esta cidade foi ponto de encontro de espiões dos dois lados durante a II Guerra Mundial e palco de intriga internacional ao longo da Guerra Fria, carregando essa aura quando surge através da janela e quando Barley Scott-Blair (a personagem de Connery) a contempla, indeciso sobre juntar-se ou não ao mundo da espionagem.

Note-se que a escolha da localização deriva do próprio material de origem. De uma perspetiva diegética, no entanto, já não é Lisboa em si que atrai a espionagem: os agentes secretos limitaram-se a seguir Barley, que alugara um apartamento na capital portuguesa para fins recreativos. Quando muito, a cidade volta a representar um local de suposta paz, espaço neutro onde convivem capitalistas e comunistas, e onde Barley e Katya, no final, podem justamente alcançar um escape, um refúgio, uma vida para além da Guerra Fria.”

https://www.youtube.com/watch?v=NVZFichFCW8