Um sentado muito direito, pés alinhados, e de botão do fato disciplinadamente desapertado. O outro menos direito, ora de queixo encostado na mão, ora de braços abertos, botão apertado, com as pernas das calças desalinhadas. Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de Sousa não podiam ser mais diferentes e isso notou-se na coabitação Belém/São Bento nestes 23 meses (e também na hora da despedida). O primeiro-ministro jura que não estava desejoso de ver Marcelo pelas costas, mas vai já partindo para o próximo com a “certeza absoluta” de que vão “entender-se bem.” Não tem igual convicção de que Marcelo não andará por aí, ainda que este garanta que vai experimentar ser um ex-Presidente exemplar.
Era “um briefing diferente”, como anunciava o próprio primeiro-ministro depois de uma reunião do Conselho de Ministros presidida pelo Presidente da República que está de saída e que estava sentado na poltrona ao seu lado, num salão do palacete de São Bento, para uma conversa “informal” com os jornalistas. Desta vez, as decisões da reunião não eram o ponto forte, mas sim Marcelo, a sua despedida e algumas justificações relativas ao passado que ambos quiseram aproveitar para dar. As declarações de parte a parte começaram pela esperada cortesia — antecedida de uma sessão de cumprimentos de todos os membros do Governo (ministros e secretários de Estado) e ainda de uma foto de família e uma selfie presidencial.

Conhecendo o alinhamento subterrâneo que existia entre o seu antecessor e Marcelo (sintetizado na frase “éramos felizes e não sabíamos”), Montenegro tentou ombrear: “Fomos felizes e eficazes”. O Presidente não quis destoar da simpatia e garantiu ali mesmo que “aqui fomos felizes e sabíamos”. Não foi tão longe como Montenegro, que considerou mesmo que a relação entre os dois, sobretudo na parte de antecipar problema, “deve fazer escola”.
Afinal, Marcelo parece não esquecer as vezes em que se queixou de falta de comunicação com este primeiro-ministro, cujo perfil chegou mesmo a desenhar como desafiante logo nos primeiros dias em que o apanhou em São Bento. Mas Montenegro queria levar ali o desmentido de qualquer complexidade institucional, garantindo que “não raras vezes” recorreu a Marcelo, sobretudo ao seu “conhecimento técnico-jurídico, da realidade concreta dos temas que era importante tratar e, ao contrário daquilo que muitas vezes se foi dizendo, com antecipação“.
Jurou que a sua felicidade não tem a ver com o Presidente “ir embora”, mas sim “uma análise de dois anos de convivência”, onde destaca “o papel preventivo” de Marcelo “em muitas ocasiões” para “influenciar positivamente o contexto e enquadramento de algumas decisões e para corrigir um ou outro aspeto”: “Foi um período positivo. E quando digo ‘fazer escola’ é a pensar em todos os governos e nos próximos Presidentes da República”.
Mas Montenegro olha já para o próximo com confiança, devido ao “respeito mútuo muito, muito assinalável” e à “postura” de António José Seguro que “expressa uma expectativa muito positiva relativamente ao relacionamento e cooperação institucional a partir da próxima segunda-feira. Tenho a certeza absoluta que nos vamos entender bem, do ponto de vista pessoal e do ponto de vista institucional.”
Marcelo prometeu contribuir para isso, ainda que ao seu lado tivesse — como fez questão de sublinhar — um primeiro-ministro pouco convencido da sua capacidade de resistir à tentação de permanecer no espaço público. Mas o ainda Presidente garantiu que sim, quer ser uma “cidadão” e exemplar. Depois de uma vida inteira dedicada à política — fosse como jornalista, deputado constituinte, líder social-democrata, comentador político ou Presidente da República –, não quer passar à prática política consagrada por Pedro Santana Lopes do “andar por aí”. Vai experimentar mudar de vida.
Prometeu “não empecilhar em relação ao Presidente da República, em relação ao primeiro-ministro, em relação ao Governo, em relação à Assembleia da República, com intervenções.” Um ex-Presidente, disse, “deve abster-se de intervenção política”. Montenegro ouvia pouco crente, com Marcelo a acabar por revelar que o primeiro-ministro apostou em como não vai conseguir resistir. “Diz que a tentação vai ser muito grande. Mas há que, realmente, resistir à tentação porque é salutar para as instituições. E, portanto, vou experimentar contribuir para a saúde das instituições, dessa maneira.”

Pelos vistos, a promessa para o futuro é diferente daquela que fez a si mesmo quando, há dez anos, se deslocou daquela que era a casa dos seus pais, na Lapa, a pé até à Assembleia da República, onde tomaria posse como Presidente. Neste mesmo briefing a dois, Marcelo contou que foi nesse percurso que decidiu que não ia mudar a sua maneira de ser.
“Não, eu não vou mudar. Não vou mudar porque depois não fica nem carne nem peixe. Nem fica aquilo que a pessoa é, nem aquilo que quer ser para vestir um facto institucional e uma maneira de agir e de proceder, mesmo ritualmente, que não é a sua maneira de ser. Não vou mudar.” Agora diz que vai, até porque tem a “obrigação de ter aprendido a lição”.
“Eu aprendi a admirar os meus antecessores ainda mais do que já admirava. Aprendi a dificuldade que é ser-se Presidente da República. Aprendi quantas vezes eu não agradeceria não ter ex-presidentes da República a intervir na vida política”, detalhou mesmo em direção ao único ex-Presidente que o criticou, Cavaco Silva. Por tudo isto, passa a uma experiência totalmente nova para o bicho político que sempre foi: “Falar de outras coisas. Posso no domínio da cultura. Posso no domínio social, da prestação de serviços sociais”.
Ao contrário do que chegou a prever — nas antecipações de calendário que sempre vai fazendo — que fosse António Costa, e não ele, a encerrar este ciclo político. Fechou-se um “ciclo de 50 anos na democracia portuguesa” e agora entra outro. “O senhor primeiro-ministro foi um dos novos protagonistas desse novo ciclo da vida política portuguesa, há dois anos. Teremos, a partir de segunda-feira, um novo e importante protagonista também, o senhor Presidente da República Portuguesa.E, portanto, é também na vida portuguesa — não é só no mundo — um virar de página.”

Encerra o seu ciclo sem grande análise sobre eventuais erros — “ninguém pode dizer que nunca cometeu nenhum erro” — e a justificar cada uma das dissoluções. Afinal são o peso maior que leva desta passagem por Belém, numa história em que é tantas vezes apontado de ter, através das sucessivas antecipações de eleições, ajudado ao agigantar da extrema-direita em Portugal. Começou por dizer que alguém um dia fará “um juízo definitivo” sobre isso, mas acabou a justificar cada uma com a defesa da “estabilidade”.
“A estabilidade em si mesma é um valor fundamental. Portanto, num caso, a estabilidade orçamental, que era muito importante para a estabilidade do Governo. Em outro caso, a estabilidade ao nível da liderança do Governo e do principal partido, o partido maioritário no Parlamento. E, em outro caso, as condições para um governo que está a governar, poder proceder à governação”, afirmou sobre a dissolução de 2021, a de 2022 e a de 2025. Mas afinal o juízo que lhe interessa está feito: “Os portugueses julgaram três vezes, e das três vezes deram razão ao Presidente”.
Quem vem a seguir, só tem de fazer melhor. O desafio está também lançado por Marcelo que embora não queira empecilhar o seu sucessor, empecilhou. Colocou-lhe em cima dos ombros a pesada responsabilidade de ter de “ser o melhor de todos os presidentes da República”. “Porque tem um apoio tal, e tem uma esperança tal das pessoas atrás dele, que isso implica que seja obrigação de todos os cidadãos — agora já falo quase como cidadão — desejarmos isso mesmo. E que numa das peças fundamentais esteja o relacionamento com o Governo, e do Governo com Presidente.” Marcelo vai experimentar ficar só a ver.
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