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"The Hack": esta televisão não é fácil, mas não é aborrecida

O argumentista desta série de 7 episódios é o de "Adolescência" e a história, verdadeira, aborda um escândalo jornalístico britânico. A narrativa é densa, o ritmo é intenso. Como chegaremos ao fim?

Susana Romana
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Um escaravelho-do-estrume empurrando uma bolinha do material orgânico que lhe dá o nome. Um anúncio no metro de Londres que reage ao protagonista. Uma cena quase coreografada na Câmara dos Comuns. O primeiro episódio de The Hack, série agora estreada na Filmin, faz de tudo um pouco para não parecer mais uma série dramática inglesa clássica. Mas aguentará este estilo até ao fim, com um plot tão complexo para desenrolar?

The Hack é uma série baseada num caso real com 7 episódios, passada entre 2002 e 2012, que entrelaça duas histórias reais. De um lado, o trabalho do jornalista de investigação Nick Davies (interpretado por David Tennant, uma espécie de José Raposo britânico, no sentido em que entra em tudo, da comédia ao drama) que revelou provas de escutas telefónicas ilegais no tabloide News of the World, que viria a fechar. Por outro, em paralelo, a história da investigação ao homicídio por resolver do investigador privado Daniel Morgan, liderada pelo antigo Detetive-Chefe Superintendente da MET Police, Dave Cook, interpretado por Robert Carlyle, eternamente o Begbie de Trainspotting.

The Hack é escrita pelo argumentista Jack Thorne, o mesmo do avassalador Adolescência da Netflix, mas também da mais recente adaptação do clássico Deus das Moscas, atualmente na BBC. E é curioso que o arranque da série seja, exatamente, o jornalista Nick Davies a tentar perceber como escrever o arranque de uma reportagem, às voltas com o tom. É que escrever esta história terá também tido um grau de dificuldade acrescido para Thorne, já que a história real é difícil de contar. Complexa, por vezes confusa, árida em determinadas partes. E se o argumentista conseguiu, na generalidade, dar-lhe ritmo e interesse, não se livra por completo deste peso narrativo. Aliás, fica o aviso: para alguém em Portugal, com um interesse mais acessório pela actualidade britânica, The Hack nem sempre é fácil de acompanhar. A história é complicada e o encaixe de dois plots diferentes complica ainda mais.

https://www.youtube.com/watch?v=AShPTasA7eI

O primeiro episódio marca um ritmo que o segundo, quase imediatamente, desmonta. A efervescência da personagem do jornalista, protagonista do tomo inicial, contrasta com o cinzentismo do investigador e parece quase que não estamos a ver a mesma série. Mas é um daqueles casos nos quais aguentar um ou outro momento mais aborrecido compensa pelo desenlace e encaixe final, valendo-nos os Santinhos da Concentração.

Dito isto, há um claro esforço para que o espectador não se perca, esforço esse com graça e alguma inteligência. Faz lembrar em alguns momentos Big Short — A Queda de Wall Street, filme de 2015 sobre a crise financeira de 2008, que usa pessoas como Anthony Bourdain ou Margot Robbie para explicarem conceitos base. Aqui, é essencialmente a personagem do jornalista que quebra a quarta parede e imagina cenários que ajudam quem está a ver.

Não deixa de ser irónico que o The Guardian, jornal onde trabalha Nick Davies durante a ação e que é amplamente envolvido na trama, tenha feito uma crítica negativa a The Hacks, considerando-a “televisão extraordinariamente aborrecida”. Não é verdade, mas não é televisão fácil.