O sul-africano J.M. Coetzee, distinguido em 2003 com o Prémio Nobel da Literatura, é conhecido sobretudo como autor de uma quinzena de romances (e dois híbridos entre romance e autobiografia), mas é também um perspicaz ensaísta literário (parte da sua produção neste campo está reunida nos volumes Stranger shores, Inner workings e Late essays), prefaciador de reedições de obras de Graham Greene, Saul Bellow e Robert Musil e, pontualmente, tradutor de holandês para inglês; quando, em 1965-68, estudou e leccionou na Universidade do Texas, em Austin, dedicou-se à linguística e concluiu uma tese de doutoramento que envolveu a análise estatística da prosa de Samuel Beckett.

A argentina Mariana Dimópulos é tradutora do alemão (Robert Musil, Theodor Adorno, Martin Heidegger) e do inglês para o espanhol, especialista na obra de Walter Benjamin (que também traduziu) e autora de quatro romances.

Além de estarem vinculados pela novela The Pole/El polaco, da autoria de Coetzee e que Dimópulos traduziu para espanhol, ambos têm reflectido sobre línguas e tradução, o que levou o Museu do Prado a convidá-los, em 2023, para partilhar com o público a sua experiência em torno de The Pole. Soledad Constantini, que co-dirige a editora argentina El Hilo de Ariadna, que publicou El polaco, achou a palestra em Madrid suficientemente rica e estimulante para desafiar a dupla a desenvolvê-la sob a forma de livro. O resultado da troca de ideias, à distância, entre Coetzee e Dimópulos, chegou a Portugal com o título O dom das línguas, pela mão da D. Quixote e com tradução de J. Teixeira de Aguilar, a partir da versão inglesa, publicada em 2025, intitulada Speaking in tongues.
No excerto da recensão a Speaking in tongues na Kirkus Review que é reproduzido na badana da edição portuguesa lê-se que “É possível ler este livro numa hora. É possível que se fique toda a vida a pensar nele”. A primeira afirmação é discutível – o livro tem apenas 120 páginas, mas a sua elevada densidade pede uma leitura pausada – mas a segunda é inquestionável. Dada a multiplicidade de pistas para reflexão abertas por Coetzee e Dimópulos, este artigo focar-se-á apenas nalgumas.

Duas histórias de migração, miscigenação e dissonâncias linguísticas
Os curricula de J.M. Coetzee e de Mariana Dimópulos no domínio da escrita e da tradução bastariam para conferir autoridade às suas reflexões sobre a origem e evolução das línguas e sobre essa delicada operação de transmutação a que chamamos tradução. Mas as experiências pessoais de Coetzee e Dimópulos e dos seus antepassados têm particularidades que lhes dão habilitações adicionais para a tarefa.
Um dos bisavôs maternos de Coetzee é um polaco nascido, como Balcer Dubyl, na Silésia, uma região que combina elementos polacos, checos e germânicos e era, à data, governada pela Prússia; o bisavô terá concluído “que o futuro era alemão” e, “consequentemente, germanizou-se, mudando de nome, frequentando uma escola alemã e casando-se com uma rapariga alemã. Os filhos do casal, nascidos nos EUA, falavam alemão em casa e inglês em público. Dos EUA, mudaram-se para a África do Sul, onde continuaram a sua prática bilingue germano-inglesa, apesar de agora viverem num ambiente de expressão holandesa” (pg. 43-44). Se se consultar a genealogia de J.M. Coetzee, percebe-se que a história da sua ascendência materna é mais enredada do que ele revela aqui: na África do Sul, Louise Amalia, filha do silésio Balcer Dubyl – aliás Balthazar Du Biel –, casou-se com Pieter Hendrik Wehmeyer, filho de Gottlieb Wilhelm Bernhard Wehmeyer, um missionário alemão nascido perto de Osnabrück, na Baixa Saxónia, e que emigrara para a África do Sul.
Vera, uma das filhas do casal Louise Amalia Du Biel & Pieter Hendrik Wehmeyer, casou-se, por sua vez, com Zacharias Coetzee, descendente de “pessoas que no século XVII emigraram dos Países Baixos para o extremo meridional da África do Sul. Durante as Guerras Napoleónicas, esta pequena colónia holandesa foi tomada pelos britânicos […][e] os meus antepassados adaptaram-se aos seus novos senhores, conduzindo a sua vida pública em inglês, ao mesmo tempo que continuavam a falar holandês em casa – um holandês que, na sua forma altamente crioulizada, passaria a ser conhecido como africânder” (pg. 44).
O filho de Vera e Zacharias Coetzee, nasceu em 1940, na Cidade do Cabo, foi baptizado como John Maxwell Coetzee e, em 2002, dando seguimento à irrequietude dos seus antepassados, mudou-se para a Austrália, cuja cidadania obteve em 2006.


“Falar em línguas”
O título original de O dom das línguas é em si mesmo um exemplo das dificuldades que se põem aos tradutores. Speaking in tongues pode ser traduzido literalmente como “falar em línguas” (e é isso mesmo que o Tradutor Google propõe), o que não está muito longe do que Coetzee e Dimópulos aqui fazem, que é “conversar sobre línguas”. Porém, o verdadeiro significado da expressão inglesa equivale, em português, a “glossolália”, ou seja, à produção de um encadeamento de sons, de aparente espontaneidade e fluidez, que soa como um discurso numa língua estrangeira desconhecida dos ouvintes, mas que, na verdade, não tem significado algum. O termo “speaking in tongues”/“glossolália” é, frequentemente, usado como equivalente a “xenoglossia”, que designa a produção de um discurso fluido numa língua real de que o falante não tinha conhecimento prévio. A xenoglossia, que é também conhecida como “dom das línguas”, está, como a glossolália, associada a cerimónias religiosas e à inspiração divina. Uma das suas manifestações é descrita no capítulo II dos Actos dos Apóstolos: estando reunidos, numa casa em Jerusalém, seguidores de Jesus com as mais diversas proveniências, da Líbia à Pérsia, e até “forasteiros romanos […], cretenses e árabes”, a fim de celebrar o dia de Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre eles, permitindo que cada um ouvisse os outros “falar na sua própria língua” e compreendesse o que diziam, o que causou perplexidade geral na assembleia.
Do ponto de vista da narrativa bíblica, o “dom das línguas” veio resolver um problema de comunicação criado deliberadamente por Deus quando da construção da Torre de Babel “na terra de Sinar”, na Mesopotâmia. Quando a edificação começou, “toda a Terra tinha a uma só língua e um só idioma” (Génesis 11:1), mas o propósito de construir uma torre que chegasse ao céu desagradou a Jeová, que fez com que os ambiciosos construtores passassem a expressar-se em línguas diferentes, dificultando a tal ponto o entendimento entre eles que levou a que a construção fosse abandonada e os homens se dispersassem pela Terra: “Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a Terra” (Génesis 11:9).

O linguajar dos bárbaros
O episódio da Torre de Babel, está, segundo uma crença com alguma difusão, na origem da palavra inglesa “babble” (balbuciar, tagarelar), etimologia a que Dimópulos dá crédito na pg. 34. Porém, os etimologistas não encontram vínculos entre “Babel” e “babble”, e propõem antes que a segunda é uma onomatopeia que reproduz os primeiros sons repetitivos e sem significado que os bebés produzem quando começam a tentar falar. Esta emulação da tagarelice infantil estará igualmente na origem a palavras similares para descrever o discurso desprovido de sentido em francês antigo (babillier), em alemão (babbeln), em holandês (babbelen), em sueco (babbla), em italiano (balbettare), em espanhol (balbucear) e em português (balbuciar), não sendo claro quais destes derivam do latim “babulus” (aquele que diz coisas sem sentido) e quais surgiram independentemente. A palavra portuguesa “bebé” e a inglesa “baby” têm, provavelmente, a mesma origem.
Similar, na sua génese onomatopeica, é a palavra grega “barbaros”, que designava todos os que não falavam grego – por mais instruídos e requintados que fossem – e que provém de “bar”, a emulação do “ruído” produzido por quem se exprime numa língua que o ouvinte desconhece. O latim converteu o “barbaros” grego em “barbarus”, palavra que designava todos os que não eram romanos nem gregos e que acabou por dar origem ao português “bárbaro” e às palavras equivalentes em todas as línguas da Europa (mesmo nas que não provêm da raiz indo-europeia, como o finlandês e o húngaro).

Vale a pena acrescentar que os portugueses, que muito se orgulham da arte Nanban, que floresceu no Japão da segunda metade do século XVI, em resposta à chegada dos mercadores e missionários portugueses, são implicitamente menorizados na própria designação dessa arte: “nanban” significa, em japonês, “bárbaros do Sul”, uma vez que os navios portugueses arribavam ao Japão vindos de Sul.
Pode concluir-se que, para a maioria das culturas, o Bárbaro é simplesmente o Outro, e o som que o Outro produz ao falar é uma espécie de “bruá”, um ruído indistinto, que transmite tanta informação como o cacarejar das galinhas e cuja decifração não merece, seguramente, qualquer esforço às gentes civilizadas. Simetricamente, há povos (como os inuit) que se designam a si mesmos por uma palavra que significa “pessoas”, “seres humanos” ou “gente”, e designam a sua terra como a “terra das pessoas” ou “terra da gente”, o que tem implícita a desumanidade dos outros povos.

Somos inatamente preconceituosos, autocentrados e desconfiados de quem é diferente de nós e isso está inscrito na matriz das nossas línguas. Ao contrário do que crêem os herdeiros de Jean-Jacques Rousseau, a xenofobia sempre fez parte da nossa natureza, pelo que é muito fácil reacendê-la e orientá-la para obter vantagem no combate político, como temos visto recentemente nos países mais desenvolvidos e letrados do mundo.
O sonho/pesadelo da língua universal
Escreve Dimópulos que “uma vez perdido o domínio do latim sobre os vernáculos europeus, registou-se uma série de tentativas de criação de uma língua universal para a ciência e para a comunicação. O sonho de nos libertarmos de Babel é antigo e foi expresso de maneiras diferentes nos últimos 200 ou 300 anos” (pg. 122). Esta demanda, que levou à criação do esperanto e do volapük e, mais recentemente, também de excentricidades como o klingon e o ithkuil, é o assunto do livro In the land of invented languages: Adventures in linguistic creativity, madness and genius (2009), de Arika Okrent, que se recomenda a quem pretenda aprofundar este assunto.
Dimópulos não partilha da visão dos conlangers (designação hoje dada aos entusiastas das línguas artificiais ou “constructed languages”) e considera que “a noção de que a criação de uma língua artificial nos fará ultrapassar as diferenças linguísticas é ilusória” e que “as línguas são entidades complexas que dificilmente comportam imposições e generalizações por meio de regras arbitrárias vindas de cima” (pg. 122). Dimópulos tem toda a razão, mas, no século XXI, existem duas razões bem mais poderosas que obstam à implantação de uma língua artificial universal.
Johann Martin Schleyer (o inventor do volapük, em 1879), L.L. Zamenhof (o inventor do esperanto, em que trabalhou 1878 e 1887) e os outros criadores de línguas artificiais da viragem dos séculos XIX/XX tinham o propósito de fornecer uma língua simples, lógica e fácil de aprender, de forma a permitir a comunicação universal e, assim, fomentar a paz e a concórdia (era o que suponham estes linguistas, bem-intencionados mas com equívoca percepção da natureza humana); a necessidade de essa comunicação ser providenciada por uma língua artificial decorria de, naquela época, não se antever que alguma das línguas naturais pudesse assumir o papel de língua universal, apesar de o Império Britânico se encontrar no seu apogeu e de estar presente em todos os continentes (incluindo a Antárctida), através de colónias, protectorados ou domínios (“dominions”, i.e. comunidades autónimas dentro do Império,como sejam o Canadá ou a Austrália).


A ascensão, após a II Guerra Mundial, dos EUA à posição de potência económica, tecnológica e militar n.º 1, o desenvolvimento pelos EUA de uma máquina de propaganda multimédia sem paralelo na história, o domínio da cultura pop de massas por criações anglo-saxónicas, a intensificação da globalização, a democratização da viagem aérea e o advento e rápida massificação da Internet fizeram com que o inglês se tornasse, ainda que oficiosamente, a língua de comunicação universal.
É certo que o inglês surge apenas em 3.º lugar no top das línguas com maior número de falantes nativos (390 milhões), ficando bem atrás do mandarim (990 milhões) e do espanhol (480 milhões), mas há 1100 milhões de pessoas que falam inglês como segunda língua, enquanto os que falam mandarim como segunda língua rondam os 200 milhões e os falantes de espanhol como segunda língua rondam os 100 milhões. Assim, o número total de falantes de inglês é de 1500 milhões (18% da população mundial), contra menos de 1200 milhões de falantes de mandarim (14% da população mundial). E quando se consideram também as pessoas que possuem alguma competência na língua inglesa e a usam no seu trabalho, nas suas viagens ou na navegação na Internet, ainda que não sendo fluentes, o número total de falantes de inglês ronda os 2000 milhões, ou seja 24% da população global.
[Evolução do top 10 das línguas com maior número de falantes (nativos + não-nativos) entre 1900 e 2025:]
https://youtu.be/ixGXssIDkFI
O inglês assumiu também o papel que fora ocupado pelo latim até meados do século XVIII: o de língua franca da ciência & tecnologia, quer no que respeita a publicações, comunicações e congressos científicos, quer no que respeita à terminologia – só os franceses teimam em manterem-se agarrados a termos como “ordinateur” (computador) e “logiciel” (software). Por outro lado, são cada vez mais as universidades, de Lisboa a Kuala Lumpur, a ministrarem cursos exclusivamente em língua inglesa, tendência iniciada nas “business schools” (o mundo do “business” adora expressar-se em ing) e que tem vindo a alastrar a muitas outras áreas do conhecimento. O inglês é também a língua de trabalho em quase todas as organizações internacionais e, embora as línguas de trabalho da União Europeia sejam três – o inglês, o francês e o alemão –, na prática, a dominante é o inglês, ainda que, ironicamente, após o Brexit, os falantes nativos de inglês no território da UE tenham ficado reduzidos a 5.4 milhões de irlandeses, numa população total de 450 milhões. O domínio do inglês é ainda mais expressivo na Internet, onde representa 49% dos conteúdos, enquanto a segunda língua mais representada, o espanhol, se fica pelos 6%; o crescimento registado, nos últimos anos, nos conteúdos em línguas de países asiáticos muito populosos, como o mandarim, o hindi, o bengali, o vietnamita, o coreano e o malaio/indonésio, não impede que a supremacia do inglês permaneça inatacável.
E quanto mais peso o inglês tem, no meio real e no meio virtual, maior é a motivação/pressão para que pessoas em todo o mundo o aprendam.
Um tradutor poliglota no bolso
O segundo impedimento de peso à implantação de uma língua artificial universal é o célere desenvolvimento a que se assistiu no século XXI no software de tradução automática, que não só é cada vez mais fiável, como possui múltiplas funcionalidades e está permanentemente disponível em qualquer parte do mundo, a qualquer momento e sem custos, quer em smartphones, quer em acessórios tecnológicos portáteis (wearables) como smartwatches e smartglasses.
Neste contexto, as línguas artificiais, por mais simples, elegantes, lógicas e fáceis de aprender que sejam, tornaram-se completamente inúteis. Se o número de falantes de esperanto no mundo continua a crescer (as estimativas oscilam entre 100.000 e 2 milhões, consoante as fontes e os critérios), tal não resulta de os seus falantes acreditarem na sua utilidade como ferramenta de comunicação universal, desiderato que poderia ser alcançado investindo antes no aperfeiçoamento do inglês. No século XXI, falar esperanto é apenas um hobby destinado a preencher tempo livre e, nalguns casos, a conferir a sensação de pertença a uma “elite” (os que não gostam de imaginar-se como mais-uma-ovelha-no-rebanho), algo equivalente a dedicarem-se à observação de nuvens (cloud watching), a esculpir colheres de pau ou a escrutinar as praias com um detector de metais.
Na verdade, os impressionantes progressos realizados no domínio da tradução automática (e os que se adivinham num futuro próximo) e a massificação do uso de smartphones e wearables não só esvaziaram a necessidade de uma língua artificial universal como dissuadem a aprendizagem de línguas “naturais”.
O conhecimento de inglês continua a ser considerado útil, mas o interesse dos alunos portugueses em aprender uma segunda língua estrangeira já declinara vertiginosamente muito antes dos recentes progressos na tradução por IA: em 2023, apenas 6.7% dos alunos do ensino secundário o fazia, o que colocava Portugal no último lugar da UE neste domínio. Hoje, quando o Google Translate oferece traduções em 249 línguas e dialectos e as apps de tradução para smartphone se universalizam, que argumentos de ordem prática restam para convencer crianças e adolescentes a investirem centenas ou milhares de horas de trabalho na aprendizagem de uma língua estrangeira? Num mundo cada vez mais materialista, calculista, apressado e obcecado com a produtividade, ler Baudelaire ou Petrarca no original é uma actividade para pedantes e excêntricos e os países do vasto mundo são vistos, não como culturas em que mergulhar, mas como mercados a explorar, como carimbos a inscrever no passaporte, ou como lugares a riscar da lista de “lugares que precisa de visitar antes de morrer”.
Coetzee e Dimópulos não ignoram os progressos na tradução automática, no “machine learning” e, em particular, na aplicação da IA à tradução, mas advertem o leitor de que não tratarão desta última, “não porque não seja da maior importância, mas porque é tão nova que ninguém está ainda em condições de avaliar as suas limitações (se é que as há!) no campo da tradução literária. […] Até que ponto afectará a escrita literária é uma questão em aberto, mas seria ingénuo pensar que a prática da tradução e a indústria do livro em geral se manterão incólumes”! (pg. 19).
Na verdade, o que se sabe hoje sobre a tradução automática é já suficiente para ocupar muitas páginas de reflexões válidas sobre o assunto – e é por isso que é legítimo prescindir de aflorar tal assunto num livro sobre tradução, sob risco de o tema IA devorar todo o espaço disponível. No meio editorial, a tradução automática não é uma questão lateral nem se encontra ainda no domínio das possibilidades vagas; é, indubitavelmente, a magna quaestio, e são poucos os editores que não reflectiram sobre a possibilidade de recorrer à tradução por IA e não há um único tradutor (mesmo que a sua área seja a mais requintada e subtil literatura) que não tenha considerado a possibilidade de a sua profissão estar condenada a juntar-se a telefonistas, leiteiros, carvoeiros, ascensoristas e ardinas no caixote de lixo da história.

O totalitarismo linguístico
A afirmação de Dimópulos de que “as línguas são entidades complexas que dificilmente comportam imposições e generalizações por meio de regras arbitrárias vindas de cima” despertará nalguns portugueses a memória do “golpe de estado” cultural que foi a assinatura pelos países lusófonos do Acordo Ortográfico de 1990 (adiante designado por AO90). Sob o pretexto de instituir uma ortografia oficial unificada para a língua portuguesa, o que o AO90 fez na prática foi impor, arbitrariamente e a partir de cima, a quem escreve e lê em português pelo mundo fora, uma ortografia artificial,
● Para começar, o “problema” que o AO90 se propunha resolver não existe: os falantes de português sempre conviveram pacificamente com as variantes ortográficas de cada país, tal como acontece com as outras línguas multinacionais com muitos milhões de falantes, como o inglês, o espanhol, o francês ou o alemão. E uma vez que o problema das variantes ortográficas é fictício, não será a sua uniformização que irá abrir as portas das editoras a novos mercados – um argumento usado para aliciar a indústria livreira a apoiar o “golpe de estado” – como, aliás, o tempo entretanto decorrido comprovou.
● Qualquer eventual dificuldade de inteligibilidade entre os falantes dos vários países lusófonos decorre mais das diferenças de pronúncia, vocabulário e sintaxe do que das diferenças de ortografia.
● A maioria das alterações introduzidas pelo AO90 correspondem à adopção da norma brasileira – é o caso da grafia dos nomes dos meses com minúscula – ou são invenções arbitrárias; nalguns casos pontuais, o AO90, em vez de uniformizar a ortografia, cria divergências onde elas não existiam.
● A maioria das alterações introduzidas pelo AO90 não tinham, antes do AO90, qualquer adesão em Portugal, não correspondendo, portanto, à formalização de uma prática informal disseminada entre a população.
● A imposição a uma língua de “regras arbitrárias vindas de cima” é sempre detestável, mesmo quando as regras se pautam pela racionalidade, pela clareza e pela coerência – mas as regras do AO90 estão infestadas de irracionalidades, ambiguidades e incongruências.
● Em resultado 1) da abissal disparidade populacional entre Portugal e o Brasil (1 para 21), 2) da escassa penetração dos produtos culturais portugueses (nomeadamente literatura, cinema, televisão, música, publicações científicas) no Brasil, por comparação com a continuada e intensa presença dos produtos culturais brasileiros em Portugal, e 3) da atitude assaz flexível dos brasileiros no manuseio da língua (isto não é um juízo de valor, apenas um facto objectivo), é natural que o português do Brasil continue a divergir do português de Portugal, independentemente do AO90 ou de qualquer acordo ortográfico que possa vir a ser assinado. Por outro lado, as tendências que possam desenvolver-se em Portugal, em termos de ortografia, pronúncia, vocabulário ou sintaxe, deixarão absolutamente indiferente a sociedade brasileira, que, provavelmente, nem sequer se dará conta delas. Ao assinar o AO90, Portugal comportou-se como um chihuahua que escolheu amarrar-se a um dogue dinamarquês, crendo, presunçosamente, que, a partir daí, o caminho a seguir pela dupla seria decidido pela vontade consensual de ambos.
● Os promotores e defensores portugueses do AO90 argumentam que a nova ortografia elimina complicações desnecessárias (como as consoantes mudas), tornando, assim, a aprendizagem do português mais fácil. Se pretendêssemos mesmo tornar a aprendizagem do português mais fácil (esperando, porventura que isso aumentasse a produtividade per capita, atraísse mais investimento estrangeiro ou desencadeasse uma paixão global pela cultura portuguesa?), seria muito mais eficaz acabar com o género gramatical ou reduzir a variedade de tempos verbais. Na verdade, do ponto de vista dos falantes de línguas da Europa Ocidental, a remoção das consoantes mudas (que serão mudas para alguns falantes, mas não para todos) que o português herdou do latim dificulta a aprendizagem do português, uma vez que essas consoantes continuam presentes na maioria dessas línguas (com a excepção – paradoxal – do italiano). Ou seja, nesta tentativa (fútil) de “colagem” à ortografia brasileira, o AO90 afasta o português de Portugal das línguas com que partilha as raízes e com as quais co-evoluiu durante séculos, convertendo-o numa “jangada de letras” que se solta da Europa e é impelida pelas correntes para as costas tropicais da América do Sul.
● A supressão das consoantes (supostamente) mudas que desempenham a função de abrir as sílabas poderá reforçar a tendência do português de Portugal para o fechamento e para a compressão silábica e, assim, tornar o falar português ainda mais ininteligível aos ouvidos dos estrangeiros (ver O português devora-se a si mesmo).
“Complicar uma língua só por complicar”
Coetzee aborda, nas pg. 81-82, a desagradável descoberta que teve, na adolescência, da “complicação” que é o género gramatical. Tendo crescido “a falar duas línguas, africânder e inglês, uma e outra mais ou menos desprovidas de género”, quando teve, na escola, de aprender latim, encarou “o fenómeno do género gramatical de uma maneira que agora me parece lamentavelmente vesga: como um cansativo meio de complicar uma língua só por complicar. […] Quando mais tarde adquiri algumas luzes de alemão e de espanhol, continuei a encarar o género como uma característica da língua sem função”. Coetzee reconhece que só anos mais tarde compreendeu que “as línguas têm história” e que essa história está em grande parte para além da memória, tanto remonta no tempo”, mas ficou preservada na forma de as falar e de as escrever.
As línguas são entidades dinâmicas, em constante evolução, mas tentar mudá-las por decreto é um acto de presunção e prepotência. Por outro lado, pretender simplificar uma língua a pretexto de tornar a sua aprendizagem mais fácil é não perceber que as “complicações desnecessárias”, as irregularidades e as idiossincrasias são parte intrínseca da língua, das sucessivas gerações que a falaram e escreveram e das vicissitudes da sua história. Seguindo a lógica asinina do argumento “língua mais simples, aprendizagem mais fácil”, não deveríamos deter-nos no AO90 mas, antes, reformular a fundo a língua portuguesa, de forma a aproximá-la da racionalidade asséptica e polida do esperanto, que é a língua cujo domínio requer menor tempo de aprendizagem – cerca de 100-300 horas (a aprendizagem será mais fácil para quem tenha língua materna europeia ocidental, e mais fácil ainda será se se tratar de uma língua de origem latina).
Se nos outros países as suas academias e governos decidissem imitar Portugal e reger-se pelo critério da “facilidade”, seria prioritário reduzir o número de declinações no alemão (que tem quatro), no islandês (quatro), nas línguas eslavas (entre quatro e sete), no estónio (catorze) e no húngaro (dezoito).

Mais urgente ainda seria a adopção do alfabeto latino pelas línguas que usam sistemas de escrita ideográficos (ou logográficos), como o chinês e o japonês. O sistema de escrita japonês é, numa óptica estritamente utilitarista, um dos mais “desnecessariamente complicados” do mundo, pois nele coexistem um sistema logográfico, o kanji, cujos caracteres foram adaptados do sistema de escrita chinês, e dois silabários, o hiragana e o katakana, que recorrem a versões simplificadas de alguns caracteres chineses. O hiragana e o katakana contam com 48 caracteres cada e o kanji tem um número total de caracteres que se estima rondar os 50.000, ainda que nem os eruditos os conheçam todos e, no dia-a-dia, se utilizem apenas uma parte deles: para a conclusão do ensino secundário “apenas” é exigido o conhecimento de 2136 caracteres kanji.

Bastaria que o Japão se libertasse deste empecilho anacrónico e adoptasse o alfabeto latino (rōmaji, em japonês) para que a produtividade desse um salto em frente e o país saísse, finalmente, das três décadas e meia de estagnação económica em que tem estado mergulhado. Se os jovens japoneses já figuram sistematicamente, tal como os chineses e coreanos, nos lugares de topo das avaliações internacionais de desempenho académico, imagine-se do que seriam capazes se não consumissem horas infindas a aprender a ler e desenhar dois milhares de aranhiços com diferenças infinitesimais entre eles. E se o tempo e esforço assim poupados aos estudantes fossem alocados a aulas de empreendedorismo e se os japoneses não perdessem tanto tempo com vénias, mesuras, perífrases e fórmulas de cortesia e se se deixassem da cerimónia do chá e passassem simplesmente a ir buscar um iced tea ao frigorífico, como fazem os povos pragmáticos, o PIB do Japão duplicaria a cada cinco anos.
O Foreign Service Institute (FSI) do Departamento de Estado Americano, que é responsável pelo treino do pessoal diplomático dos EUA, categorizou as línguas mais usadas em função da dificuldade na sua aprendizagem, presumindo que a língua materna do estudante é o inglês (mas a categorização é válida, com ajustamentos pontuais, quando o estudante tem por língua materna uma outra língua da Europa Ocidental). Na categoria I, requerendo 575-600 horas de estudo, encontram-se as língua românicas (com origem no latim) e o holandês, o norueguês, o sueco e o dinamarquês; na categoria II, requerendo 750 horas, está o alemão; na III, requerendo 900 horas, estão o indonésio, o malaio e o swahili; na IV, requerendo 1100 horas, estão as línguas eslavas, o turco, o hindi, o bengali, o urdu e, com menção de especial dificuldade, o finlandês, o húngaro, o mongol, o tailandês e o vietnamita; na V e última categoria, requerendo 2200 horas, estão o árabe, o cantonês, o mandarim, o coreano e, com menção de especial dificuldade, o japonês. Os governantes e academias de ciências ou de letras de todo o mundo deveriam pôr os olhos no exemplo do AO90 e impor reformas linguísticas simplificadoras visando colocar a respectiva língua nacional na categoria I – deitar-se-iam para o lixo algumas arrobas de tradições carunchosas e abrir-se-iam as portas de uma era de prosperidade inaudita.

As lacunas semânticas
Mesmo quando operam entre línguas muito próximas, os tradutores deparam-se frequentemente com palavras na língua de partida para as quais não conseguem encontrar uma palavra equivalente na língua de chegada. Escreve Dimópulos, na pg. 123, que “podemos sempre recorrer a uma reformulação para uma palavra que falte na nossa língua ao traduzir um elemento difícil, um objecto ou uma experiência invulgar para a nossa cultura. Mesmo assim, há qualquer coisa que se perde quando propomos uma paráfrase em lugar de uma só palavra”. Quando Dimópulos desafia Coetzee a dar a sua opinião sobre este fenómeno que designa como “o poder mágico das palavras individuais”, ele responde lembrando que não é só na conversão de uma língua para outra que surgem lacunas semânticas – elas podem manifestar-se também no seio da própria língua, quando um escritor se exprime na sua língua materna: “É comum entre escritores de todo o género” ter a certeza de que existe uma palavra perfeitamente adequada para um determinado fim, “mas não ser capaz de a encontrar, seja na memória, seja nos dicionários”. Interroga-se Coetzee: “Será a convicção que sentimos de que a palavra existe, num ou noutro lugar, uma convicção falsa, ilusória? Haverá, verdadeiramente […], uma lacuna entre o que podemos pensar e aquilo que a língua é capaz de expressar? […] Existirá a palavra que não conseguimos encontrar [na nossa língua] numa outra língua? Será essa a razão pela qual o inglês adopta naïve do francês e kaput do alemão, porque elas colmatam aquilo que consideramos serem lacunas semânticas [na nossa língua]? Se assim é, quantas mais línguas soubermos, mais provável se torna que o fenómeno do sinónimo inexacto desapareça. Algures, numa das línguas do mundo, a palavra exacta aguarda”.
Sobre o fascinante tema das lacunas semânticas, Adam Jacot de Boinod escreveu três livros que complementam, com leveza e humor, as reflexões de Coetzee e Dimópulos. The meaning of tingo (2005) e Toujours tingo (2007) são recolhas, abrangendo línguas de todo o mundo, de palavras que sintetizam objectos, criaturas, situações e sentimentos, frequentemente muito específicos, cuja descrição ou expressão em inglês requer uma longa paráfrase, bem como de provérbios e expressões idiomáticas peculiares. O terceiro volume da trilogia, The wonder of whiffling (2009), é dedicado a palavras muito pouco conhecidas (algumas limitadas a uso regional) da língua inglesa, que se aplicam a situações bizarras ou anacrónicas e que também requerem longas paráfrases ao serem vertidas no inglês corrente moderno. Os três volumes foram reunidos num “tijolo” de quase 800 páginas com o muito apropriado título I never knew there was a word for it, ou seja, numa tradução livre, “Não fazia ideia de que havia uma palavra para isso”.

“Saudade” e outras palavras “intraduzíveis
Quando o tema das “palavras intraduzíveis” é abordado entre portugueses, evoca-se, infalivelmente, a “saudade” e é verdade que as sugestões usuais de tradução nas línguas com que os portugueses têm familiaridade – por exemplo, o espanhol “anhelo”, o francês “désir”, o italiano “desiderio”, o inglês “longing” e o alemão “Sehnsucht” – não são inteiramente satisfatórias.
Porém, o romeno “dor”, que expressa um intenso, melancólico e, frequentemente, doloroso sentimento de nostalgia por alguém que está distante ou já partiu deste mundo, ou por experiências pretéritas ou por lugares onde se foi feliz, pode ser visto como equivalente a “saudade” (numa ilustração de como as línguas são moldadas por imprevisíveis sequências de caprichos e acasos, o “dor” romeno provém do mesmo étimo latino, “dolus”, que gerou a “dor” portuguesa e a “durere” romena, que é equivalente à “dor” portuguesa; já a “saudade” portuguesa vem do latim “solitas”, que também nos deu a “solidão”). Alguns falantes de galês (que, nas estimativas mais generosas, serão menos de 900.000) defendem que “hiraeth” é um sentimento intrinsecamente galês, mas vai-se ver a descrição que dele fazem e é muito semelhante à “saudade” portuguesa e ao “dor” romeno. Quem sabe se o tonganês ou o uzbeque não têm também palavras homólogas de “saudade”?

Conclui-se daqui que é precipitado presumir que, por haver palavras numa língua que não têm um exacto equivalente em três ou quatro línguas de grande difusão, elas são absolutamente “intraduzíveis” e exclusivas dessa língua. Quando elas dizem respeito a situações, aspectos da realidade ou sentimentos genéricos que todos os seres humanos, seja qual for a cultura a que pertencem, já experimentaram, é provável que algures, entre os milhares de línguas do mundo, tenham sido cunhadas palavras para exprimir essa situação ou sentimento.
As palavras realmente intraduzíveis envolvem, usualmente, sentimentos ou situações muito particulares – e é esse o foco dos livros de Jacot de Boinod acima referidos, que oferecem pérolas lexicográficas como “melotot”, palavra indonésia que descreve o acto de fitar alguém com os olhos esbugalhados, de forma a expressar contrariedade; ou “sjøstygg”, palavra norueguesa para designar alguém tão feio que, se estiver à beira-mar, dissuade a maré de subir.
Embora a experiência humana tenha amplas áreas de coincidência seja qual for o lugar do planeta, há culturas que consagram uma atenção minuciosa a aspectos que outras entendem ser irrelevantes, o que é espelhado na língua. Jacot de Boinod aponta, por exemplo, o caso do rapanui, a língua nativa da ilha de Rapa Nui (mais conhecida como Ilha de Páscoa), que possui cinco palavras distintas para designar as fases de desenvolvimento de um bebé: “kaukau”, quando começa a controlar o movimento de mãos e pés; “puepue”, quando começa a distinguir pessoas e objectos; “tahuri”, quando consegue rolar para um lado e para outro; “totoro”, quando começa a gatinhar; e “mahaga”, quando consegue ficar de pé sem apoios. Quererá isto dizer que os habitantes de Rapa Nui são pais mais extremosos (ou mais versados em puericultura) do que os pais de povos cujas línguas amalgamam os primeiros meses de vida com um simples “bebé”?
Se no caso das subtis distinções do rapanui no que toca a bebés não é possível tirar conclusões, já é possível estabelecer um vínculo entre a cultura tradicional albanesa, que exalta a virilidade, o destemor, a tenacidade e o orgulho, e o facto de a língua albanesa, a fim de nomear o apêndice capilar no lábio superior, que o português despacha com um sumário “bigode” (tal como o espanhol faz com “bigote” e o inglês e o francês fazem com “moustache”), dispor de 27 (vinte e sete) palavras diferentes, como “kacadre” (bigode com as pontas reviradas), “glemb” (bigode de pontas afiladas) ou “fshes” (bigode comprido, farfalhudo e hirsuto).

A tradução, entre a fidelidade e a liberdade
O assunto da fidelidade na tradução é um dos mais debatidos no meio literário e há quem, quando ele é abordado, invoque de imediato o conhecido aforismo italiano, “Traduttore, traditore”, que sugere que toda a tradução é imprecisa e atraiçoa o pensamento original. O aforismo revela uma visão simplista, que endeusa o autor e menospreza o tradutor. A tradução pode ser um trabalho árduo, mas não só não é impossível, como não é de excluir que algumas traduções possam superar o original – afinal de contas, o que menos falta são autores que escrevem com os pés e autores que, sendo genericamente competentes, não são imunes à intoxicação e à senilidade e têm os seus momentos de desleixo, enfado, preguiça mental, atabalhoamento e desnorte, compelindo o tradutor consciencioso a remendar discretamente as falhas mais clamorosas e a produzir um texto mais inteligível, preciso, congruente e elegante do que o original.
O aforismo também não considera que é frequente que, para ser fiel ao espírito do original, o tradutor tem de fugir à literalidade e recorrer a alguma liberdade criativa. Escreve Dimópulos que, “quando falamos de ética da tradução, a primeira coisa a determinar é qual deve ser o equilíbrio entre fidelidade e liberdade, porque, na minha opinião, a balança não pode pender constantemente para o lado do literal. Na tradução literária, fazer jus a um texto significa também ser-se suficientemente criativo para verter alguma espécie de beleza, de harmonia, e até da intenção do autor (haverá tal coisa?) na própria língua” (pg. 95). Poderia acrescentar-se que, quanto mais a cultura e o tempo em que viveu o autor diferem da cultura e do tempo em que vivem os destinatários da tradução, mais o tradutor necessita de liberdade e criatividade para tornar o texto inteligível e congruente na cultura e tempo “de chegada”.
Após defender que “uma vez que o objectivo da tradução é transpor informação e conteúdo de uma língua para outra, é exactamente isso que quem traduz deve fazer”, Dimópulos entra em terreno escorregadio: “Porém, quando essa informação é eticamente duvidosa ou inconveniente, o princípio da fidelidade colide com o princípio superior daquilo que vale a pena ser dado a conhecer. Você não aceitaria traduzir um romance que expresse um conteúdo racista” (pg. 95-96). Dimópulos defende, todavia, um critério diferente se se tratar de “uma passagem de um texto antigo […]. Eu penso que aqui o texto tem direito a ser conhecido tal como está. Seria um erro transformar os textos antigos exactamente naquilo como hoje queremos que sejam”.
Dimópulos não esclarece o que a leva a ter critérios diferentes consoante os textos sejam recentes ou antigos, nem o que entende por “recente” e “antigo”, nem como será possível separar, objectivamente, o “recente” do “antigo”. Também não explica o que é um “romance que expresse um conteúdo racista”. Veja-se o caso de Uncle Tom’s cabin (1852, A cabana do pai Tomás): o romance foi escrito por de Harriet Beecher Stowe – uma abolicionista fervorosa – com a intenção de mostrar os horrores da escravatura e convencer a sociedade americana a pôr-lhe termo; o livro foi um estrondoso best-seller (entre os livros publicados nos EUA no século XIX, foi o que vendeu mais exemplares, só sendo superado pela Bíblia) e há quem considere que produziu tal comoção na opinião pública que criou as condições para o desencadear da Guerra Civil Americana e para a subsequente abolição da escravatura. Porém, ainda no século XIX, foi alvo de críticas por Stowe se ter (alegadamente) aproveitado de obras de escritores afro-americanos e por, através da atitude da personagem Tom, promover a resignação dos afro-americanos, quando o que se imporia era incitá-los à rebelião e à luta. No século XX, Uncle Tom’s cabin foi acusado, por críticos e escritores proeminentes, de ser medíocre do ponto de vista literário – sentimental, rudimentar, panfletário, infestado de clichés melodramáticos – e de ter contribuído para perpetuar estereótipos raciais. Considerará Dimópulos que Uncle Tom’s cabin faz parte dos livros que um tradutor consciencioso deverá recusar-se a traduzir?

Coetzee diverge de Dimópulos no que respeita à tradução de “textos clássicos”, pois alvitra que, quando “há linguagem que agora parece de uma maneira ou de outra ofensiva – racista, anti-semita, homofóbica ou o que quer que seja, […] talvez devêssemos ceder à pressão das partes ofendidas no sentido de se eliminar essa linguagem e confiar que o pêndulo da história se deslocará em sentido contrário, até a um dia em que a linguagem original do autor possa ser recuperada” (pg. 97). Esta sugestão confere ao tradutor o papel de intérprete do sentimento dominante, a cada momento, na opinião pública e subordina o seu trabalho aos critérios e expectativas dessa opinião.
Coetzee não esclarece que habilitações especiais possuem os tradutores para aferir algo tão ambíguo e volátil como a opinião pública, sobretudo numa época em que esta oscila violentamente ao sabor das ondas de indignação virtuosa que varrem as redes (ditas) sociais, que são hoje a arena onde se forma, em boa medida, a opinião pública. Coetzee parece não se dar conta de que 1) no presente clima de “guerras culturais”, confrontação política polarizada e sensibilidades exacerbadas, a mais inócua imagem, frase ou palavra pode ser interpretada como “ofensa; 2) o espaço público foi sequestrado pela “pressão das partes ofendidas”, sejam elas da extrema esquerda woke ou da extrema-direita anti-woke. Ora, como se este acirrado jogo de pressões não fosse, por si só, uma ameaça aos fundamentos da vida em sociedade, Coetzee sugere que a tradução – e porque não também a escrita? – seja regida por ele.
Umas páginas à frente, Coetzee traz à colação a reedição de um romance da autora sul-africana Olive Schreiner (1855-1920), que inclui “linguagem anti-semita” e “termos que os leitores africanos de hoje consideram ofensivos”, e conclui, contradizendo-se a si mesmo, que tomar a opção de “substituir os termos ofensivos por sinónimos neutros” equivale a “falsificar o romance dando a impressão de que Olive Schreiner estava isenta dos preconceitos raciais que eram comuns entre os seus contemporâneos” (pg. 102). Dimópulos responde que se, como tradutora, “abrir a porta às minhas opiniões sobre o conteúdo, o resultado do processo de tradução será em última análise um comentário, uma paráfrase, uma reformulação – mas não uma tradução. A ética da tradução é a ética da exactidão” (pg. 104).

Proteger o leitor de palavras e ideias ofensivas
A ideia de que a tradução e reedição de obras clássicas pode (ou deve) incluir um processo de “amaciamento”, destinado a expurgá-las de linguagem que não é consentânea com as convenções e os padrões éticos actuais radica, está em linha com o credo woke e partilha com ele três presunções estultas e perigosas:
1) O leitor do presente é uma criatura frágil, ignorante da história e dos factos da vida e destituída de discernimento; como tal, deve ser cuidadosamente protegido de tudo o que possa perturbá-lo ou desafiar as suas crenças e a sua mundividência;
2) O passado deve ser julgado e à luz dos padrões morais do presente e as obras do passado devem, se necessário, ser censuradas e reescritas de acordo com esses padrões;
3) As elites bem-pensantes do mundo ocidental de hoje são o pináculo da evolução civilizacional e o padrão supremo, infalível e imutável de sabedoria e virtude e estão investidas do direito e do dever de zelar pela execução dos dois pontos anteriores.
A operação de “amaciamento” assume implicitamente que o leitor é tão limitado intelectualmente que é incapaz de perceber que o discurso e os pensamentos das personagens de ficção não coincidem necessariamente com as ideias do autor. Ora, o autor poderá atribuir a algumas personagens discursos e pensamentos estúpidos, infames e obnóxios simplesmente com o intuito de retratar, de forma neutra e realista, a realidade social de um determinado tempo e lugar; ou, mesmo que o autor perfilhe crenças politicamente correctas, pode atribuir às personagens discursos e pensamentos estúpidos, infames e obnóxios precisamente com o propósito de evidenciar quão estúpidas, infames e obnóxias são essas personagens e a ideologia que professam. Haverá casos em que esse jogo irónico é óbvio e é mesmo apresentado de forma tão demonstrativa e caricatural que sai do campo da ironia para entrar no do panfletarismo ou da chalaça grosseira; noutros casos, o autor pode optar por recorrer à ironia fina e manter a ambiguidade sobre o que ele realmente pensa sobre o assunto, confiando que o leitor a quem se dirige seja suficientemente atento e perspicaz.

A “incorrecção política” e o uso da ironia e da sátira pelo autor não são uma questão de preto e branco, mas de uma gama contínua de cinzentos. Na impossibilidade de se definir objectiva e consensualmente o que é ou não “politicamente incorrecto”, a decisão de “amaciar” ou não um trecho “sensível” de um livro (ou todo um livro) ficará inteiramente dependente da mundividência e das convicções políticas de cada tradutor e da sua percepção pessoal da definição de “incorrecção política” dominante na sociedade no momento – é importante realçar o factor “do momento”, pois não só a definição de “incorrecção política” tem vindo a expandir-se velozmente, abrangendo hoje palavras, expressões e situações consideradas inócuas ou neutras há uma década, como o entendimento dessa definição pelo tradutor é influenciado por uma multiplicidade de factores (nomeadamente a composição do seu círculo de “amigos” nas redes sociais e o seu grau de exposição e envolvimento nas “guerras culturais” que “inflamam” regularmente a Internet).
Escolher os leitores a quem se dirige e o tom em que se lhes dirige são prerrogativas do autor, não cabendo ao tradutor tornar a sua obra mais acessível aos menos cultos e inteligentes (“to dumb down”, na terminologia inglesa), ou menos susceptível de ferir as almas mais sensíveis e de suscitar a indignação dos “guerreiros pela justiça social”. Nunca será demais sublinhar que o “amaciamento” da linguagem não é um detalhe de ordem formal: é uma distorção das ideias e intenções do autor.
O “amaciamento” de textos não é apenas uma traição ao autor: também o leitor é traído, pois fica com uma ideia errada sobre o texto, o autor e, eventualmente, o contexto social e ideológico da época em que o livro foi escrito ou da época em que a acção decorre.
Na discussão em torno da possibilidade de o tradutor amenizar a linguagem de forma a conformá-la aos padrões éticos das pessoas “esclarecidas” do nosso tempo, Coetzee e Dimópulos parecem circunscrever-se à tradução de obras literárias. Mas, se se admitir que é legítimo e até desejável o “amaciamento” de obras de ficção, pode perguntar-se em que medida as obras não-ficcionais – diários, memórias, biografias, autobiografias, ensaios, artigos de opinião, discursos, palestras, manifestos – não deveriam ser sujeitas ao mesmo processo. Será legítimo que um tradutor confeccione versões “suaves” de Essai sur l’inégalité des races humaines (1853-55), de Arthur de Gobineau, de The passing of the great race (1916), de Madison Grant, de The rising tide of color against white world-supremacy (1920), de Lothrop Stoddard? A virulência de Mein Kampf recomenda que ele seja disponibilizado apenas em versão “desinfectada”? O tradutor poderia fazê-lo alegando pretender proteger os leitores de ideias tóxicas e ofensivas, mas, na verdade, poderia estar a favorecê-las, ao fazer passar a ideia de que elas são menos preconceituosas, obnóxias e perigosas do que realmente são.
“A realidade como ela” é vs. “A realidade como alguns gostariam que fosse”
O processo de “amaciamento” pode ainda ter ainda um inconveniente adicional: mascarar a complexidade e as contradições do pensamento de um dado autor e, nalguns casos, a sua evolução no tempo. Tome-se o caso de H.G. Wells (1866-1946), prolífico autor com obras em diversos géneros e que foi um dos mais respeitados intelectuais do seu tempo. Wells era pacifista, tinha convicções socialistas (chegou a concorrer ao lugar de deputado pelo Partido Trabalhista) e defendia ideias assaz progressistas para a sua época, sobretudo no domínio dos direitos humanos e da igualdade, o que fez com que o seu ensaio/manifesto The rights of man (1940) viesse a servir de base à Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (1948) e à Convenção Europeia dos Direitos Humanos (1950-53). Em ensaios, manifestos e artigos de jornal, Wells expressou o seu “ódio e desprezo pela viperina suspeita em relação aos estrangeiros”; atacou o conceito de pureza racial, argumentando, baseado na sua formação em biologia, que “todas as raças são mais ou menos mestiças”; proclamou que “qualquer homem que me olhe nos olhos, ria comigo, fale a verdade e aja com justeza é meu irmão, ainda que a sua pele seja retintamente negra”; exaltou a determinação “heróica” dos afro-americanos em viverem de forma exemplar, honrosa e paciente, apesar da exclusão a que estavam condenados na sociedade dos EUA; subscreveu um abaixo-assinado contra a condenação à morte, num processo corroído por irregularidades, de um grupo de adolescentes afro-americanos acusados de violação de uma rapariga branca; denunciou a discriminação contra os negros na África do Sul e classificou o Governo deste país como uma “mesquinha tirania branca”.

Porém, na primeira fase da sua carreira, influenciado pelos seus estudos de biologia com Thomas Henry Huxley, o mais proeminente discípulo de Charles Darwin, Wells deixou-se arrebatar por uma interpretação cruel e enviesada da teoria da evolução, que tinha menos a ver com Darwin do que com as teorias pseudocientíficas do “darwinismo social” e da “sobrevivência do mais forte” de Herbert Spencer, e propalou uma visão inequivocamente racista da humanidade e um entusiasmo exuberante pela eugenia, que explicitou em obras de não-ficção e deixou subentendida em contos e romances.

Numa célebre passagem do seu ensaio Anticipations of the reactions of mechanical and scientific progress upon human life and thought (1901), Wells interrogou-se sobre como deveria o sistema político que idealizou para o futuro “tratar as raças inferiores? Como irá lidar com o negro? Como irá lidar com os amarelos? Como irá enfrentar essa (alegada) térmita do madeirame da civilização que é o judeu? […] Deverá fazer com que a multiplicação daqueles que fiquem abaixo de certos padrões seja desagradável e difícil”. Quanto aos judeus, Wells acreditava que acabariam por dissolver-se e perder os seus traços distintivos, mas interrogava-se: “Que fazer dos enxames de negros, castanhos, brancos-sujos e amarelos que não cumprem os requisitos da nova eficiência? Bem, o mundo é o mundo, não é uma instituição de caridade e eu acho que eles devem desaparecer. […] Se não desenvolverem personalidades sãs, vigorosas e distintas, compatíveis com o grande mundo do futuro, o seu fado é extinguirem-se sem deixar rasto”. Num texto de 1904, Wells chegou à conclusão de que, uma vez que a selecção dos melhores para fins reprodutivos não era viável, “é na esterilização dos falhados […] que reside a possibilidade de melhorar a espécie humana”.
As palavras e os actos contraditórios de H.G. Wells são parte integrante da sua complexa personalidade e atestam que as pessoas podem mudar drasticamente a sua visão do mundo. Uma intervenção que suavize os textos produzidos por Wells na viragem dos séculos XIX-XX deforma a nossa visão do autor e da história, ao ocultar o facto relevante de que, naquela época, havia intelectuais brilhantes que professavam ideias que hoje nos parecem detestáveis (e que o próprio Wells veio a renegar alguns anos depois).
O argumento da “rampa deslizante” (slippery slope), que estabelece que um passo numa certa direcção poderá, numa incontrolável sucessão de eventos, conduzir a resultados indesejáveis e até calamitosos, é frequentemente usado como ardil para impedir qualquer mudança e manter o statu quo, mas é legítimo invocá-lo para desaconselhar o tradutor de moldar os textos ao que ele entende ser a sensibilidade dos leitores do seu tempo e lugar. Como defende Dimópulos, “a ética da tradução é a ética da exactidão” e um desvio em relação a este compromisso, por pequeno e bem intencionado que seja, é uma fissura que pode propagar-se e fazer desmoronar a credibilidade do nobre ofício de tradutor.