No final do verão de 2010, meio por acaso, sem que me percebesse cercado, mergulhei de cabeça na obra de Lobo Antunes. Tirei da estante o Manual dos Inquisidores e lembro-me de ver o meu espanto crescer a cada frase. A maneira malabarística com que ele ia estilhaçando a língua que eu julgava conhecer, a violência serena e sensível de um narrador distante de personagens que, ainda assim, não deixavam de o comover levou-me a pegar poucos meses depois n’A Ordem Natural das Coisas, e a seguir, já em desespero por ver que a febre não descia, no Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?
Nesse verão, aconteceu-me também apaixonar-me pelas músicas do Vitorino, em particular pelas que, como só viria a descobrir mais tarde, Lobo Antunes escrevera: Ana, Bolero do Coronel Sensível Que Fez Amor em Monsanto e, sobretudo, Tango do Marido Infiel Numa Pensão do Beato, onde se conta a história de um homem duro que vai contratando sucessivas prostitutas: “Que me abraçam sem paixão/ Que ignoram que eu anoiteço /Que me ensombro, que escureço / Que me enrugo e envelheço/ Me pregueio e apodreço / E a quem pago o que me dão:/ Uma espécie de ternura/ Uma imitação do amor», na esperança de que estas lhe permitam «encontrar por fim/ Aquela voz de menino/ Há tantos anos perdida/ Há tanto tempo esquecida/ Em soluços dissolvida/ A gritar dentro de mim”. E se isto não é o centro da literatura loboantuniana (e, já agora, da literatura ponto), então não sei que mais vos diga: personagens incapazes de aceder a si mesmas e que buscam em toda a parte fraudulentos (“uma espécie de (…)/ uma imitação do (…)”) sucedâneos do que buscam desesperadamente, mas em sítio nenhum conseguem encontrar.
Ao terceiro livro de enfiada, a fera amainava. Ainda assim, durante os seis meses seguintes, acho que terei visto rigorosamente todas as entrevistas que na altura estavam disponíveis no YouTube ou em sites de jornais, fui ouvi-lo ao São Jorge e senti-me, enfim, pronto para embarcar em novas obsessões, deixando-o definitivamente para trás das costas.
O tempo passou e fui-me esquecendo dele até que, pouco depois do convite para começar a escrever para o Observador, tive de escrever uma recensão ao mais recente Lobo Antunes, o Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Do Que A Água. Passado um ano, repeti a dose, com o Dicionário da Linguagem das Flores. Fi-lo com fastio e desinteresse e fiquei-me por aí. Nunca mais o li e quando falava de Lobo Antunes, fazia-o invariavelmente com desdém. É muito virtuoso, claro, mas está sempre a repetir as mesmas imagens, as mesmas ideias, as mesmas fórmulas.
Acho que o dizia por quatro motivos, que agora que já é tão tarde consigo perceber um pouco melhor: por um lado, é difícil a um escritor libertar-se das suas obsessões e gosto cada vez menos de escritores inventivos e versáteis, ou pelo menos prefiro os outros, ruminantes e obsessivos, incapazes de largar um assunto até o compreenderem, o que sabem que nunca acontecerá.
Por outro lado, quando dedicamos o tempo que eu na altura dediquei a alguém, é normal que ouçamos a pessoa que tanto admiramos repetir-se, ainda para mais quando os entrevistadores procuravam tantas vezes ouvir os chavões que sabiam um sucesso. Agora, ao olhar para trás, talvez essas entrevistas não fossem outra coisa que não duetos, em que radiantes jornalistas cantavam entusiasticamente os versos apenas para, ao chegarem às portas do refrão, passarem o microfone a um velho vocalista que talvez preferisse estar em casa e que, apenas por cortesia, declama, mais do que canta, os seus célebres hinos.
Por outro lado ainda, acho que o meu incómodo nos últimos anos com as frases de Lobo Antunes, as entrevistas de Lobo Antunes e, sobretudo, com os romances de Lobo Antunes eram semelhantes à raiva de um caloteiro que encontra o seu maior credor na rua e sente vontade de lhe cuspir em cima. Essa raiva que Freud tão bem descreveu ao falar de Édipo. Se hoje sou escritor, se hoje sou crítico literário e, sobretudo, se hoje sou leitor, é, estou certo, em parte porque naquele Verão peguei num romance dele perdido na estante dos meus pais. Da dívida à dúvida e da dúvida ao rancor, ao que parece, vão dois passos.
Por fim, estava convencido de que Lobo Antunes se repetia porque, de facto, ele repetia-se muito. Como um jogador de futebol que se refere a si mesmo na terceira pessoa por ainda estar espantado que a superestrela que com tanto pasmo vê todas as semanas na televisão é, afinal, ele mesmo, Lobo Antunes, ainda que o negasse mil vezes, parecia nunca deixar de se espantar por os livros de que mais gostava no mundo serem os que ele mesmo escrevia. A certa altura, como acontece a todos os que têm a sorte de escrever tanto, tão bem e durante tanto tempo, o caudal foi diminuindo e ele limitou-se a deleitar-se com o eco de uma canção distante. Seria fácil rirmo-nos ou protestarmos mas, em boa medida não fez nada que, todos nós, escritores portugueses das gerações pós-Cus de Judas, bem ou mal, acabámos também por fazer: em vez de escrevermos os nossos romances, tal como ele, tentámos, afinal, uma e outra vez escrever à Lobo Antunes.
Podia ter-nos dado para pior.