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(A) :: "O que Montenegro fez é imaturo e infantil. Absolutamente lamentável"

"O que Montenegro fez é imaturo e infantil. Absolutamente lamentável"

Em entrevista, Vasco Rato defende que o desafio de Montenegro a Passo Coelho é "absurdo", que "fica a sensação de uma grande fragilidade" e que ninguém conhece estratégia do atual primeiro-ministro.

Miguel Santos Carrapatoso
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Esteve com Pedro Passos Coelho na direção de Luís Marques Mendes, com quem ambos romperiam pouco tempo depois. É amigo pessoal do antigo primeiro-ministro, foi um dos seu principais apoiantes e continua a ser hoje um indefetível do passismo. Um dia depois de Luís Montenegro ter desafiado abertamente o seu pai espiritual, o antigo presidente da FLAD não tem dúvidas: o atual chefe de Governo está com as prioridades trocadas e pôs-se numa situação de “grande fragilidade”.

Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, Vasco Rato atira: “Fica a sensação de uma grande fragilidade. De um primeiro-ministro sem confiança, que está disposto a interromper o mandato. Imaginemos que, de facto, havia essa disputa interna e Montenegro perdia. Depois o que é que acontecia? Demitia-se o primeiro-ministro, lançava-se o país numa crise política? Anda há meses a falar de estabilidade e agora toma uma decisão que, no limite, poderia conduzir a essa instabilidade”.

Sem nunca se comprometer com o futuro político de Pedro Passos Coelho, Vasco Rato defende que o antigo primeiro-ministro tem todo o direito a fazer as intervenções que tem feito e diz que Passos jamais se deixará condicionar pela jogada do “grupelho” que lidera atualmente o PSD. “Ninguém espera que, de repente, Passos Coelho se venha a coibir de dizer aquilo que pensa. É uma coisa absolutamente absurda”, sentencia.

[Ouça aqui a Vichyssoise com Vasco Rato]

https://observador.pt/programas/vichyssoise/o-desafio-de-montenegro-e-absurdo/

“Desafio de Montenegro é absolutamente lamentável”

Luís Montenegro desafiou abertamente Pedro Passos Coelho a ir a votos. Esteve bem a disponibilizar-se para uma clarificação interna.
É uma coisa um bocado incompreensível, diria até um bocado infantil. Há um conflito internacional que tem implicações nacionais e seria de pensar que o Governo estivesse dedicado à reconstrução do país. Verificamos que a preocupação do primeiro-ministro é com alguém que, aparentemente, discorda dele num conjunto de posições políticas. Eu acho que isto faz parte. Um primeiro-ministro tem de saber aceitar críticas. É normal. E é absolutamente lamentável que esteja preocupado com aquilo que uma pessoa anda a dizer.

Acha que foi movido, de alguma forma, por medo? Medo da sombra de Pedro Passos Coelho?
Sim, mas é parte do absurdo desta iniciativa. Mesmo que não esteja a ser movido pelo medo, pelo receio, fica essa sensação. Fica a sensação de uma grande fragilidade. De um primeiro-ministro sem confiança, que está disposto a interromper o mandato. Imaginemos que, de facto, havia essa disputa interna e Montenegro perdia. Depois o que é que acontecia? Demitia-se o primeiro-ministro, lançava-se o país numa crise política? Anda à meses a falar de estabilidade e agora toma uma decisão que, no limite, poderia conduzir a essa instabilidade.

No limite, se houvesse eleições, poderiam dar a vitória ao Chega, como sugeriu Pedro Passos Coelho.
Não sei. Mas provavelmente as coisas ficariam mais ou menos iguais mesmo. E esse é que é o problema. O país está num impasse. Por isso é que não se compreende esta decisão de Luís Montenegro, porque irá entregar a batata quente ao novo Presidente da República. A última coisa que quer fazer é entrar em Belém e ter de dissolver o Parlamento e ter novas eleições. Isto é uma posição incompreensível e de grande irresponsabilidade.

"A grande clivagem parece ser o reformismo versus o não-reformismo. Admito que Luís Montenegro queira fazer reformas, dou de barato. Sei que o PS não quer e sei que o Chega quer em algumas coisas, mas não quer em outras — nunca sabemos bem. Portanto, isto é uma salada russa. Ninguém percebe nada de nada e os eleitores olham para estes três partidos e dizem: "O que é que estes tipos querem? Isto é tudo igual"

“Passos espera que o Governo governe”

Centrando em Pedro Passos Coelho. Se disse, como é previsível, que não está disponível para ser envolvido neste tipo de disputas internas, não ficará sem capital político para continuar a fazer observações críticas em relação a Luís Montenegro?
Imagino que era essa a intenção do grupelho que lidera o PSD. Mas vamos lá ver. Pedro Passos Coelho tem um conjunto de ideias sobre o país e não vai abdicar de expressá-las. Ninguém espera que, de repente, Passos Coelho se venha a coibir de dizer aquilo que pensa. É uma coisa absolutamente absurda. Passos Coelho não é candidato a nada. O que espera — o que todos esperamos — é que o Governo governe. Quem é que contesta que o país não está numa fase de crescimento? Que não precisa de um conjunto de reformas? O problema é saber porque é que isto não está a acontecer. E, aparentemente, não está a acontecer porque o primeiro-ministro parece estar preocupado com assuntos que não são particularmente relevantes.

É verdade que Pedro Passos Coelho vem há muito que vem dizendo o que disse nos últimos dias. Mas nunca com esta cadência e com esta acutilância. A pergunta que toda a gente faz é: porque agora? O que move exatamente Pedro Passos Coelho?
Passos Coelho tem vindo a dizer isto há décadas. Antes de ser líder do PSD já falava nestas coisas. Aliás, não é só ele a falar nisto. O PS aparentemente também está de acordo. Pelo menos, José Luís Carneiro disse-o. Portanto, toda a gente parece estar de acordo. O problema parece ser Passos Coelho a dizê-lo, parece que há um problema qualquer. Toda a gente pensava que, encerrado este ciclo de várias eleições, iríamos começar a discutir e a trabalhar para que o país pudesse avançar. Acho que o facto de ele ter falado mais, se é que falou mais, prende-se, sobretudo com o tempo e não com outra coisa.

Exclui alguma possibilidade de Pedro Passos Coelho, de facto, querer regressar ao poder, primeiro no PSD, depois no país?
Não me cabe a mim excluir ou incluir. É uma decisão inteiramente dele. Ele disse era uma má notícia se regressasse.

Mas também usou a palavra “quando”, o que é uma raridade. Não usou apenas o “se”.
O pressuposto é que a governação irá correr bem. Portanto, quando se diz: “Bom, espero nunca ter de estar perante uma decisão dessa natureza e se alguma vez estiver perante essa decisão é porque as coisas estão a correr mal no país…”. Esperava-se agora que Luís Montenegro fizesse tudo para que as coisas corressem bem.

"Acho que António José Seguro tem de ser um árbitro neutro e ajudar o país a sair deste impasse. Não pode ser um líder fação e julgo que não o será. E, sobretudo, que saiba gerir o silêncio. Das coisas mais nefastas que aconteceram nos últimos anos foi termos um Presidente da República que banalizou a palavra, que falava sobre tudo em calções de banho. Isso sempre me pareceu pouco digno"

“Não se vislumbra um rumo do atual Governo”

Esteve nesta Vichyssoise há praticamente três anos e disse o seguinte: “Montenegro não tem sido bem sucedido”. Nessa altura António Costa ainda era primeiro-ministro, como sabemos. Daí para cá, o PSD já venceu duas eleições relativas. Continua a achar o mesmo?
Sim, não tem sido bem sucedido na tentativa de propor uma visão, um rumo e um programa para o país. Três anos depois parece-me evidente que não. Alguém que tivesse um rumo e estivesse empenhado em reformar o país nem sequer levantava uma questão de eleições internas. Deixava o seu trabalho falar por si. Parte do problema do Luís Montenegro na governação tem sido esse. Não é por acaso que muitas pessoas, não que eu necessariamente esteja de acordo, dizem que este governo parece um “António Costa 2.0”.

Não está de acordo com essa crítica?
Não, apesar de tudo, acho que há diferenças e que talvez seja injusto para Montenegro. Mas não se vislumbra um rumo. Hugo Soares [secretário-geral e líder parlamentar do PSD] diz: “Ah, baixámos os impostos”. Bem, eu peço desculpa, mas não parece que isso seja uma reforma, ainda por cima quando falamos de uma redução relativamente baixa dos impostos.

E a primeira redução de impostos sobre rendimentos foi muito encavalitada numa decisão tomada por Fernando Medina.
Sim, exatamente, com aquela confusão toda. Aliás, nos últimos dias, a propósito daquilo que está a acontecer no Irão, o Governo também se meteu num psicodrama que era completamente evitável. Bastava o ministro dos Negócios Estrangeiros assumir a posição que assumiu no Parlamento. Mas andaram aqui a permitir que o país discutisse as Lajes. Na reforma laboral foi exatamente a mesma coisa: em vez de apresentar uma coisa concreta, mesmo que o Parlamento a rejeitasse… Imagino que os defensores de Montenegro dirão que isto é diálogo. Mas isto não é diálogo; isto é cacofonia, não faz sentido nenhum. Acho que o próprio primeiro-ministro deve perceber que tem um problema. Se não perceber, é porque as coisas estão ainda muito piores do que se pensava.

Luís Montenegro tem governado em circunstâncias difíceis. Tem um Parlamento muito fragmentado e enfrentou um ciclo de eleições consecutivas. Isso não serve de atenuante?
As pessoas governam em circunstâncias difíceis. Passos também governou em circunstâncias difíceis. Faz parte. Quem não está disposto a governar em circunstâncias difíceis não governa. Mas há, de facto, uma mudança estrutura: a existência de três partidos médios. Isso implica que o Governo não possa andar como se estivesse num baloiço da esquerda para a direita. Tem de definir um rumo. A grande clivagem parece ser o reformismo versus o não-reformismo. Admito que Luís Montenegro queira fazer reformas, dou de barato. Sei que o PS não quer e sei que o Chega quer em algumas coisas, mas não quer em outras — nunca sabemos bem. Portanto, isto é uma salada russa. Ninguém percebe nada de nada e os eleitores olham para estes três partidos e dizem: “O que é que estes tipos querem? Isto é tudo igual”. Essa é a sensação. É nestas circunstâncias que terá de haver clarificação. Mas a clarificação não passa, como diz Montenegro, por eleições internas. Passa por Montenegro dizer o quer para o país e como é que ele quer fazer.

"A iniciativa de Montenegro é absurda. Mesmo que não esteja a ser movido pelo medo, pelo receio, fica essa sensação. Fica a sensação de uma grande fragilidade. De um primeiro-ministro sem confiança, que está disposto a interromper o mandato"

“Duvido muito que a legislatura chegue até ao fim”

Pedro Passos Coelho disse que o PSD deveria apresentar um caminho e que os outros partidos deveriam definir-se perante o caminho proposto por pelo PSD. Já percebemos que tem algumas reservas sobre o PS. Acha que o Chega estará com disposição para abraçar reformas?
Acho que pode haver convergência com o Chega num conjunto de coisas. Aliás, o próprio Montenegro também acha — basta ver a questão da imigração. Parte do pecado original foi esta ideia das linhas vermelhas. A partir desse momento, a flexibilidade estratégica do PSD na governação foi limitada.

O “não é não”.
Mas o “não é não” acabou por ser o “não é não, mas talvez em certos casos”. Também não é um rumo claro. Se a ideia era afastar o Chega, se o objetivo era fazer com que o Chega perdesse força eleitoral, então falhou redondamente, como falhou em França e noutros países. Se a ideia era aumentar a flexibilidade estratégica do PSD, podendo negociar com o PS e com o Chega, então chame-lhe um “Governo pisca-pisca”, que vai para a direita e vai para a esquerda. Se é essa a intenção, também não sabemos em que áreas é que o PSD está disposto a cooperar com o PS e com o Chega. Há uma nebulosa e a sensação com que ficamos é que não há estratégia nenhuma. Há oportunismo, há taticismo, há “veremos o que é que vai acontecer amanhã”. Posso estar a ser de facto muito injusto para como Montenegro. Se calhar há uma estratégia. Mas, se há, ainda não a partilhou com ninguém.

Vê algum risco de que esta legislatura não chegue ao fim e que tenhamos novamente eleições antecipadas?
Duvido que chegue ao fim. Duvido muito. Justamente por causa da situação no Parlamento. É relativamente óbvio que as coisas não podem continuar assim, com o Parlamento como está e com o Governo a não demonstrar que tem um rumo. O país não se pode dar ao luxo de viver um impasse durante três anos ou pior ainda. Estamos a convergir com os países mais pobres. Se isto não é um problema, não sei o que é um problema. Temos de discutir como é que podemos ter uma estratégia de crescimento, como é que podemos ter reformas que permitem esse crescimento e como é que enquadramos Portugal no mundo. A Europa tem de fazer reformas também, não é só um problema português. Se não tivermos crescimento não há Estado Social. O primeiro governo de Montenegro começou a tentar distribuir para os grupos que reivindicavam. Não estou a dizer que os aumentos não eram justos. Estou a dizer é que se a gente decide distribuir mais, temos também de ter uma estratégia de crescimento que nos permita aumentar recursos que depois possam ser distribuídos.

Voltando ao cenário que estávamos a traçar, ou seja, o fim prematuro da legislatura e novas eleições antecipadas. O PSD deveria fazer uma reflexão sobre que líder é que deveria conduzir o partido nessas eventuais eleições? A solução Pedro Passos Coelho faria sentido?
Não sei. Mas sei uma coisa: o PSD tem um líder; o que se espera é que ele lidere.

Apoiou António José Seguro nas últimas eleições presidenciais. O que espera do próximo Presidente da República?
Apoiei António José Seguro porque pensava que os outros candidatos eram piores. A decisão do PSD de apoiar Luís Marques Mendes resultou em 12%. Não me parece que tenha sido uma decisão feliz. Acho que António José Seguro tem de ser um árbitro neutro e ajudar o país a sair deste impasse. Não pode ser um líder fação e julgo que não o será. Não pode ser um Presidente preocupado com as fortunas políticas do PS. Espero que não faça política. E, sobretudo, que saiba gerir o silêncio. Das coisas mais nefastas que aconteceram nos últimos anos foi termos um Presidente da República que banalizou a palavra, que falava sobre tudo em calções de banho. Isso sempre me pareceu pouco digno. A Presidência da República tem de ser recuperada como um polo de autoridade.

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