A urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital de Vila Franca de Xira vai encerrar, anunciou esta quinta-feira o diretor-executivo do SNS, Álvaro Almeida, que esteve nesta unidade hospitalar para uma reunião de trabalho com a administração. As mulheres e grávidas que vivem na área de influência deste hospital (que serve uma população de cerca de 250 mil pessoas) vão ter que se deslocar ao hospital Beatriz Ângelo, em Loures, a cerca de 35 quilómetros de distância. Ao Observador, o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira diz que é “inadmissível” que a ministra da Saúde tenha decidido encerrar a urgência sem falar com os autarcas da região.
“O que estamos a fazer é começar por criar duas urgências de Obstetrícia centralizadas, uma delas que envolve a ULS do Estuário do Tejo (hospital de Vila Franca de Xira) e a ULS de Loures/Odivelas (hospital Beatriz Ângelo). Essa urgência centralizada será das duas ULS, fisicamente estará no hospital Beatriz Ângelo, mas serve os utentes e os profissionais das duas ULS”, anunciou Álvaro Almeida aos jornalistas.
Na semana passada, em declarações na Assembleia da República, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, anunciou o fecho da urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital do Barreiro (“porque não tem condições para se manter aberta”) mas não detalhou qual o plano para a reorganização dos cuidados a norte de Lisboa, ou seja, para os hospitais de Vila Franca de Xira e de Loures, apesar de já correrem rumores que apontavam para o fecho da urgência em Vila Franca. “As primeiras urgências externas de âmbito regional serão na área da obstetrícia e ginecologia e estarão a funcionar, dentro de pouco tempo, na Península de Setúbal, centralizadas no Hospital Garcia de Orta, e na Unidade Local de Saúde (ULS) de Vila Franca de Xira e na ULS Beatriz Ângelo”, afirmou também Ana Paula Martins.
Diretor-executivo do SNS justifica decisão com a falta de médicos
Pouco mais de uma semana depois, o diretor-executivo do SNS confirma o fecho da urgência de Vila Franca de Xira, justificando a decisão com a falta de médicos para preencher as escalas. “Mesmo que contratássemos todos os médicos [obstetras] que estão inscritos na Ordem, para além dos que estão no SNS, só conseguiríamos assegurar 70% das horas necessárias. Não há capacidade no país de termos tantas urgências de Obstetrícia abertas“, defendeu Álvaro Almeida.
O serviço de urgência de Ginecologia/Obstetrícia de Vila Franca de Xira tem funcionado com sérios constrangimentos ao longo dos últimos anos (o que se traduz, com frequência, no encerramento total ou parcial da urgência aos fins de semana ou mesmo em dias úteis nalguns períodos, como o Natal e o verão), o que obriga ao encaminhamento das mulheres e grávidas para o hospital Beatriz Ângelo.
https://observador.pt/2026/03/03/autarcas-servidos-pelo-hospital-de-vila-franca-de-xira-repudiam-possivel-encerramento-das-urgencias-obstetricas/
Álvaro Almeida confirmou também que o encerramento da urgência de Vila Franca de Xira e a concentração da resposta no hospital de Loures vão ocorrer até final de março. Na semana passada, Ana Paula Martins também já tinha dito, aos deputados da Comissão de Saúde da AR, que duas urgências regionais na área de Ginecologia/Obstetrícia (uma no hospital Garcia de Orta e outra que envolvia os hospitais de Vila Franca de Xira e de Loures, e que, sabe-se agora, funcionará no hospital Beatriz Ângelo) iriam começar a funcionar em março, não se comprometendo em relação a uma data concreta. “Não posso dizer que é dia X ou Y”, disse a ministra da Saúde.
Prevendo o encerramento da urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital local, o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira já tinha dito, à Lusa, esta terça-feira que essa seria uma medida da “maior gravidade”. Esta quinta-feira, ao Observador, Fernando Paulo Ferreira criticou a decisão, considerando “inadmíssivel” que a ministra da Saúde tenha decidido encerrar a urgência sem falar com os autarcas. “É inadmissível que a senhora ministra tenha tomada esta decisão sem nunca nos contactar. Temos uma reunião pedida com a senhora ministra desde janeiro e nunca tivemos resposta”, lamenta o presidente da câmara, acrescentando que contactou o gabinete de Ana Paula Martins por duas vezes na última semana, sem que nunca lhe tenha sido confirmado o encerramento da urgência.
“Os cinco presidentes de câmara foram totalmente desconsiderados“, critica, lembrando que o atual momento que a região vive — com muitas estradas cortadas e condicionadas devido às recentes intempéries — é “o pior possível” para encerrar a urgência. “É o pior momento para tomar uma decisão destas”, sublinha.
O hospital de Vila Franca de Xira e o hospital Beatriz Ângelo, em Loures, distam entre si cerca de 35 quilómetros, num percurso que pode ser feito em cerca de 30 minutos. No entanto, tanto a distância como o tempo de deslocação aumentam se for considerada a distância entre o hospital de Loures e outros concelhos da área da influência do hospital de Vila Franca de Xira.