Existem histórias que nos obrigam a recuar à nossa própria história para percebermos quanto tempo passou desde a primeira vez que a contámos, a última vez que a contámos ou até a melhor vez que a contámos. Recuamos nos meses e nos anos, vamos até à nossa vida para recordar quem era aquela pessoa que contou a mesma história de maneiras, formas e sensibilidades diferentes. O Wrexham e a sua nova encarnação é uma dessas histórias.
No caso do Observador, é preciso recuar até abril de 2023, há quase três anos, para encontrar a primeira vez em que toda a história sobre a nova vida do Wrexham foi contada. Na altura, o clube mais antigo do País de Gales tinha sido recentemente adquirido por Ryan Reynolds e Rob McElhenney, dois atores norte-americanos que se tinham encantado pela mística de um emblema fundado no século XIX e enterrado na quinta divisão do Reino Unido há mais de uma década. Também na altura, o Wrexham estava prestes a subir à League Two. Atualmente, ainda sonha com a subida à Premier League.
https://observador.pt/especiais/dois-atores-um-clube-o-sonho-a-historia-do-wrexham-o-historico-do-pais-de-gales-que-esta-a-viver-um-filme-de-hollywood/
De lá para cá, o Wrexham garantiu a promoção em três temporadas consecutivas e aterrou no Championship, apenas um degrau antes da Premier League. O clube galês está atualmente no sexto lugar, muito longe da liderança do Coventry City mas a seis pontos da terceira posição que permite o apuramento para o playoff contra o antepenúltimo do escalão principal. Caiu da Taça da Liga na quarta ronda, mas está a fazer furor na Taça de Inglaterra: afastou o Nottingham Forest e eliminou o Ipswich Town, chegando com mérito aos oitavos de final. Quis o destino que esses oitavos de final fossem o Chelsea.
O resultado do sorteio deixou claro que, mais de três anos depois de a nova vida do Wrexham ter começado, um dos dias mais importantes da história recente do clube estava reservado para uma eliminatória da Taça de Inglaterra. No próximo sábado, os galeses vão receber um campeão inglês, um campeão europeu e um campeão mundial — e o Racecourse Ground vai ser palco de um dos episódios mais esperados de “Welcome to Wrexham”, o documentário do Disney+ que já conta com várias temporadas e detalha o dia a dia de um clube que está a reaprender a ser grande.
O planeamento do episódio que vai mostrar o jogo contra o Chelsea começou assim que o sorteio ditou que os blues iriam viajar até ao País de Gales. “Começámos a pensar no que poderíamos fazer assim que o sorteio aconteceu. Temos uma reunião semanal com os norte-americanos, a comunicação é muito importante ao longo da temporada. E também falamos muito com o clube, com a Julie [Greenwood, diretora das operações do estádio] e o Martin [Bradley, diretor de segurança], que ajudam muito em dias de jogo. Temos plena noção de que, acima de tudo, tudo isto é sobre futebol. Temos de respeitar que isto é um clube de futebol e que o futebol tem de vir primeiro”, explicou Sandy Johnston, produtor da série, ao The Athletic.
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Os planos para o próximo sábado vão incluir uma equipa de filmagem de três pessoas dentro do balneário do Wrexham e outra exatamente igual junto do banco de suplentes — onde o treinador Phil Parkinson, o obreiro das três promoções consecutivas, é sempre o verdadeiro protagonista. Em campo, vai estar uma câmara fixa a observar as reações dos adeptos nas bancadas, enquanto que uma terceira equipa de três pessoas vai ficar na Betty Buzz Suite onde Ryan Reynolds e Rob McElhenney costumam assistir aos jogos. Por fim, à entrada para o estádio, serão distribuídas pequenas câmaras a todos os adeptos que as quiserem aceitar.
Na mesma entrevista ao The Athletic, Sandy Johnston explicou que a relação de confiança que entretanto construiu com a equipa técnica e o plantel — de que faz parte Issa Kaboré, lateral que fez sete jogos pelo Benfica em 2024/25 — acaba por ser a chave para o sucesso da série. “O Phil tem sido brilhante connosco desde o início. Com os jogadores, ajuda muito o facto de estarmos no estádio ao longo da semana, no hotel antes dos jogos fora, o facto de sermos vistos e de já sermos muito familiares uns com os outros. Eles sabem que não estamos à procura de um ângulo. Se não quiserem que algo fique filmado, não filmamos. E encontrar esse equilíbrio é importante. A última coisa que queremos é incomodar os jogadores ou a equipa técnica”, atirou.
O produtor é adepto do Manchester United, mas garante que atualmente já é impossível não torcer pelo Wrexham. “Preocupo-me muito com eles e fico muito feliz por todos os jogadores. É ótimo quando vemos pessoas que conhecemos e admiramos a atingir algo tão especial. Sou do Manchester United, mas não consigo evitar o facto de já apoiar o Wrexham. É contagioso. Conheço os jogadores, conheço as pessoas. Somos todos colegas de trabalho, mas também já os vejo como amigos”, acrescentou.