Ninguém duvida, ninguém nega: António Lobo Antunes marcou a produção literária lusófona na segunda metade do século XX e no que vivemos da primeira do século XXI. Para trás, entre 35 romances e 5 livros de crónicas, deixa um monumento chamado literatura. Quem ali cai de enfiada deve começar por onde? Não há respostas óbvias, muito menos científicas, mas é possível traçar caminhos que, em poucos passos — e no meio de tão longa jornada — revelam desejos, medos, anseios e uma personalidade tão literária quanto real. Este que se segue é apenas um dos mapas possíveis.
“Memória de Elefante”
1979
No início, era o Verbo rejeitado pelo autor. Coisa comum na literatura, até porque cada frase seguinte já tem aprendizagem dentro. Mas, se é para perceber Lobo Antunes, há que perceber também onde foi posto o primeiro tijolo desta casa. Publicado em 1979 pela editora Vega, contrasta com que o autor viria a ser: mão que escreve centenas de páginas de enfiada, estas publicadas sob o selo da D. Quixote.
Ali dentro, há muito da vida de Lobo Antunes. Afinal, no livro está a história da vida de um psiquiatra, aqui narrador, que se viu destruído: as filhas distanciam-se, a mulher também, e pelo meio ainda há as cicatrizes que o Ultramar lhe deixou na cabeça. Quem nele pegar não deve esperar ser receptáculo: imbuído de metáforas em permanência, exige acção por parte do leitor, não raras vezes para permitir a compreensão. Afinal, Memória de Elefante extrapola o seu enredo, estabelecendo um diálogo entre várias formas artísticas (música, pintura e literatura), numa acção que também serve para exigir o movimento do leitor. Neste primeiro tijolo, sente-se, assim, uma vontade de usar o território do romance para tocar em vários pontos, entrelaçando a vida com as suas expressões. Destas, vão ainda sendo usadas as técnicas de composição, não se limitando o autor a uma construção intra-textual intra-literária.

Já nesta fase se notava em Lobo Antunes a tendência para a frase longa e, dentro desta, para incluir referências eruditas e o mais básico do quotidiano. Em termos estilísticos, há neste romance a mistura de alguém que ainda tacteia e não decidiu o tom. Ainda assim, a procura e a exploração já sabem a caminho. Nesses primeiros passos, já temos o que continuaria a obcecar o autor: um certo desalento com o exercício da profissão de psiquiatra, as feridas da guerra colonial, a dor pungente da separação. Ora, o enredo, que passa por simples, ganha complexidade pelas várias opções tomadas, e pela vontade que o autor já ia mostrando de expor o tutano da vida e da condição humana.
A posteriori, Lobo Antunes viria a considerar Memória de Elefante um livro cheio de defeitos. Tem-nos, e a leitura empanca com frequência, mas quem procura a compreensão deste fenómeno tem de começar por aqui.
“Os Cus de Judas”
1979
Foi publicado quase ao mesmo tempo que o anterior, e é fácil ver onde é que os dois romances se tocam – estes que, tantos anos volvidos, ainda são essenciais para se ler Lobo Antunes. Também aqui há um médico em combate, ecos das memórias de África e a exploração artística da separação. Com o romance, o leitor parece ter as portas abertas para a guerra nas ex-colónias, agora em processo de descolonização. A realidade era pungente, a escrita em vertigem também.
Os Cus de Judas é o segundo volume da trilogia do pós-África, com Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno, este publicado pela primeira vez em 1980. Este pós-África marcou a literatura de Lobo Antunes em particular, da mesma forma que marca a literatura contemporânea portuguesa em geral. Disso são exemplos outros romances poderosos, como A Costa dos Murmúrios (1988), de Lídia Jorge, ou mesmo O Retorno (2012), de Dulce Maria Cardoso.
Neste romance, Lobo Antunes mete em primeira linha – ou seja, na primeira pessoa – alguém que esteve no estômago do conflito. As atrocidades aparecem, assim, sem pó de arroz e, acima disso, sem o filtro da distância. Quem narra viu e foi o drama.

Um médico alferes, recém-chegado de Angola, vai discorrendo sobre o que se passou em terras africanas. Numa noite, conta a uma mulher os horrores que viu na guerra, e o que viu na guerra enformou quem foi durante os oito anos posteriores – os anos passaram desde que chegara até então. Há agora a distância temporal, mas a proximidade emocional marca o passo do romance. Com isso, o leitor tem a história contada por quem a viu no seu limite. O tom é ácido, e através dele vê-se o impacto da guerra em múltiplas frentes: a dissolução da família, a animalização de quem se vê em frente ao perigo.
Ao longo da leitura, o fluxo de memória vai constituindo a psique de quem já não pode existir só num tempo: aquele homem será o pré-guerra, a guerra e o pós-guerra. Para mais, como o tom é intimista, parece que não há camadas entre a literatura e a vida: a literatura é, isso sim, a objectiva tradução da vida.
“Explicação dos Pássaros”
1981
Continuamos nos primeiros anos de Lobo Antunes como romancista. Depois da trilogia pós-África, Explicação dos Pássaros foi o seu quarto romance, com data de nascimento em 1981. No entanto, pese embora a proximidade temporal, este romance marca uma guinada no percurso do autor. E, se dúvidas houvesse, Lobo Antunes dissipou-as, mostrando-se, logo à cabeça, como um autor versátil, capaz de fundir texto e contexto e dar ao leitor a visão panorâmica da vida.
Aqui, ao invés do foco em África, temos o foco de um país que já tem 50 anos de ditadura salazarista em cima. E, no meio disso, temos o dia-a-dia: um homem e a uma mulher a mudar à última os planos de viagem a Tomar. Em vez disso, seguem para Aveiro. E, no meio da coisa corriqueira da vida de todos os dias, temos o drama individual: ela não sabe ainda que o marido quer abandoná-la.
Toda a acção do romance, que ainda é longo, custa quatro dias de vida. Rui S. vai misturando as recordações da sua primeira mulher com a evidência do fracasso do segundo casamento, desta feita com uma comunista. Nisto, a prosa vai entrando em espiral, marcando o ritmo de uma obsessão, e isto pela parte de um homem que parece não encaixar em nenhum grupo: no pós-25 de Abril, filho de família das elite, quer imiscuir-se no povo. Ao longo do romance, a voz narrativa usa de sarcasmo para atacar, em duplo movimento, elites e proletariado.

O ponto de vista passa a assentar mais no estabelecimento de relações quase como casualidade, e a ideia de que o status quo podia ser outro está sempre presente. Como grande novidade em relação ao anterior, temos o recurso à ironia como ferramenta constante. E, em simultâneo, temos o fluxo da narrativa como forma de absorção e interiorização da realidade, sendo este Explicação dos Pássaros mais amplo, do ponto de vista da construção literária, do que os romances que lhe antecedem. Ao mesmo tempo, é mais exploratório, e a ideia de explicação do título cai por terra, uma vez que a própria vida se vai abrindo como construção e racionalização de uma ilusão, de uma narrativa construídas com os dados disponíveis, de forma a que estes permitam uma categorização ou uma catalogação.
Ao mesmo tempo, Explicação dos Passos também entra noutro domínio narrativo, uma vez que Lobo Antunes deixa de se prender aos próprios passos: em vez de referências auto-biográficas, de uma realidade intrinsecamente conhecida, temos a criação de uma personagem que traz para a narrativa tanto de trágico quanto de ridículo. Nisto, o contexto continua a fundir-se com o texto, mas Lobo Antunes já começa a mostrar uma maior amplitude narrativa, assim como densidade textual.
“Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura”
2000
Já depois de Fado Alexandrino (1983), ainda foi publicado Auto dos Danados (1985), mostrando um escritor profícuo em pleno voo. Vale a pena que uma leitura possa passar por este último, uma vez que tem uma prosa mais sóbria, uma mão mais firme. Depois disto, continuaram os anos de escrita intensos, e, com vários outros pelo meio, 2000 trouxe-nos Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura.
No conjunto da obra, este romance também não será coisa de somenos, uma vez que vai revelando outra faceta em plenitude. Aqui, parece que há uma fragmentação constante, e já há muito tinha sido abandonada a formulação clássica da prosa. O discurso aparece de forma partida, marcado por elipses constantes. Todos os elementos se cruzam, o fluxo narrativo interrompe-se com frequência, e ao leitor é exigido um papel activo. Mesmo em termos dos elementos do enredo, a ideia de fragmentação aparece como coisa constante. Para mais, a própria catalogação do romance – chamamos-lhe aqui romance – já traz água no bico, uma vez que o autor lhe chamou poema.

Enquanto a prosa se tece, o leitor vai tendo acesso a uma escrita agora insistentemente metafórica, num inverno em que as sensações e os objectos são ressignificados. Daí que o livro exija uma leitura lenta, o que poderá entrar em conflito com um ritmo que, fragmentário, faz com que também a cabeça que lê possa entrar em rodopio.
Maria Clara, a protagonista, tenta rever-se num espelho quebrado. Do objecto, ficam os cacos, e com eles um puzzle de reflexos. A imagem, para além de ser já per se simbólica, já oferece de mão-beijada uma acção fragmentária, para que muito contribui o trabalho linguístico de multiplicidade de vozes. Para mais, o enredo compõe-se pelas divagações da personagem perante a iminência da morte do pai. Essas divagações têm tal sobreposição permanente que o romance vai sabendo a conjunto de vozes.
Este ambiente polifónico transformou-se, entretanto, numa marca comum da prosa de Lobo Antunes. A incursão de Maria Clara no passado, à medida que divaga, permite trazer para a prosa vozes em cima de mais vozes, e a vida aparece como monte de areia a cair em catadupa.
Com a multiplicidade de vozes a cair quase ao mesmo tempo – dentro da mesma voz, da mesma ideia –, o romance acaba por se destacar pela sua exuberância. A leitura, contudo, vai dar luta.
“As Crónicas”
2021
Saiu no ano seguinte, mas tem prosa mais antiga. Lobo Antunes não se fez apenas de romances. A sua produção de crónicas foi extensa e surpreendente e este é apenas um de vários volumes que a marcam. Desta vez, são 173 textos seleccionados e editados por Maria Piedade Ferreira, editora, que as pescou partindo de um universo de mais de 400 crónicas publicadas em 5 livros, entre 1988 e 2013, juntando-lhes nove inéditas.
Ao invés de narrativas longas, temos então a coisa curta, momentos cristalizados, um texto que parece caber todo numa mão. Neste compêndio, temos as grandes obsessões que marcaram o autor perante o público: a infância, o peso da memória enquanto nostalgia, a incompletude que a efemeridade deixa, o quotidiano, a morte. E, tal como já fora habitual no romance, as crónicas também apresentam uma variedade de registos, com diferentes metas ou exercícios estéticos.

Finda a leitura, vai sobejando a ideia de empatia ou de nostalgia. Lobo Antunes foi mestre em manipular o tempo, daí que uma visão sobre um fragmento temporal já tenha imbuída em si o efeito que a passagem do tempo lá deixou. Com isto, reproduzia a existência de forma quase pura, etérea, deixando ao leitor a sensação e a beleza, quase como se não fosse preciso manha artística ou técnica, quase como se escrever fosse fácil e fosse assim. E, ao olhar para a vida de todos os dias, Lobo Antunes pegou na banalidade como matéria-prima, e é aí que reside a sua grandeza-mor: o quotidiano como o alicerce da matéria, da humanidade.
Sendo a crónica um género quase desprezado em Portugal, a verdade é que Lobo Antunes o usou para voar – e o voo não foi mais raso do que o voo longo de um romance. Em vez disso, cada crónica era um pico, cada imagem era um cume, cada sensação de coisa mal concluída era uma queda.