(c) 2023 am|dev

(A) :: 8 de Março: a verdadeira história por trás do Dia Internacional da Mulher

8 de Março: a verdadeira história por trás do Dia Internacional da Mulher

O que se apresenta como luta por igualdade revela-se, na prática, uma agenda ideológica que prioriza o conflito sobre a harmonia familiar e social.

Maria Helena Costa
text

Em cada 8 de Março, o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher com flores, discursos sobre empoderamento e campanhas de marketing que transformam a data num evento comercial inofensivo. Mas, por trás dessa fachada simbólica, esconde-se uma origem que muitos preferem esquecer ou distorcer. A narrativa mais comum, repetida em escolas e universidades, conta a história trágica de 129 operárias têxteis que, em 1857, teriam sido queimadas vivas — uma mentira propagada pela propaganda socialista para criar uma “verdade” colectiva. Contudo, como nos alerta Bérénice Levet, esta celebração tornou-se a ponta de lança de uma “nova inquisição” que, sob o pretexto da emancipação, pretende desconstruir a nossa cultura e criminalizar a relação entre os sexos. Como veremos, esta data é um mito fabricado para ocultar raízes ideológicas que visam substituir a sedução e a harmonia pela vigilância e pelo conflito permanente.

O Mito Desmascarado: Não Houve Incêndio em 1857

A verdade é que não existiu greve alguma em 8 de Março de 1857, nem operárias queimadas vivas por reivindicarem direitos. Pesquisas históricas, incluindo análises de jornais da época nos Estados Unidos, confirmam que essa narrativa é uma invenção posterior, sem qualquer registo factual. O que realmente aconteceu foi o incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, mas não em 1857 e nem em 8 de Março. O fogo ocorreu em 25 de Março de 1911, causado por instalações eléctricas precárias e materiais inflamáveis – um acidente trágico, não um acto criminoso para punir grevistas. Nesse incêndio, morreram 146 trabalhadores: 125 mulheres e 21 homens, a maioria imigrantes judeus e italianos, com idades entre 14 e 23 anos. Não havia greve em curso; as vítimas eram trabalhadores comuns submetidos a condições precárias, como portas trancadas para impedir pausas ou furtos, o que agravou a tragédia.

Esse mito foi criado na década de 1950, especificamente em 1955, pelo jornal francês comunista L’Humanité, para dissimular as origens socialistas da data e torná-la mais palatável num mundo ocidental anticomunista. A confusão com o incêndio real de 1911 serviu para romantizar a luta feminista, apropriando-se de uma tragédia que nada tinha a ver com reivindicações políticas femininas. Hoje, o edifício onde ocorreu o incêndio abriga faculdades da Universidade de Nova Iorque, com uma placa que recorda o evento como um acidente que impulsionou reformas laborais, não como um martírio feminista. Em 5 de Abril de 1911, apesar da chuva, cerca de 100 mil pessoas participaram num funeral que se transformou numa manifestação pela força dos trabalhadores, destacando a necessidade de melhorias nas condições laborais, que viriam com o avanço da democracia e do capitalismo.

A Verdadeira Origem: Raízes no Socialismo e na Revolução Russa

Então, de onde vem o 8 de Março? A data tem origens no movimento socialista europeu e na Revolução Russa de 1917. Em 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhaga, a líder alemã Clara Zetkin propôs a criação de um “Dia Internacional da Mulher” para promover os direitos das trabalhadoras de acordo com os ideais socialistas, sem fixar uma data específica. A proposta foi aprovada por unanimidade por mais de 100 mulheres de 17 países, representando sindicatos, partidos socialistas e clubes femininos. O primeiro Dia da Mulher foi celebrado em 1911, em 19 de Março, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, com manifestações por sufrágio feminino e melhores condições de trabalho.

A fixação em 8 de Março veio da Rússia. Em 8 de Março de 1917 (23 de Fevereiro no calendário juliano russo), milhares de mulheres têxteis e familiares de soldados em Petrogrado (actual São Petersburgo) saíram às ruas exigindo “Pão e Paz” – fim à escassez de comida e à participação russa na Primeira Guerra Mundial. O protesto, iniciado por mulheres em filas de pão e fábricas, evoluiu para uma greve geral que derrubou a monarquia tsarista, culminando na abdicação do czar Nicolau II e na ascensão dos bolcheviques ao poder. Em 1922, Vladimir Lénine oficializou o 8 de Março como feriado na União Soviética para homenagear o papel das mulheres nessa revolução. Em 1921, a Conferência Internacional das Mulheres Comunistas em Moscovo confirmou a data como o dia oficial das lutas feministas e socialistas. A Organização das Nações Unidas (ONU) só reconheceu a data em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, transformando-a num evento global.

O Socialismo Soviético e a “Emancipação” da Mulher: Uma Prisão Ideológica

Os bolcheviques pregavam a “emancipação da mulher” através da saída do lar para o trabalho operário, inspirados nos escritos de Karl Marx, que viam o casamento e a família como instrumentos de opressão feminina. Para Lénine, o trabalho doméstico “embrutecia” a mulher, impedindo a sua participação na vida política. Políticas soviéticas, como o Código da Família de 1918, facilitaram o divórcio, legalizaram o aborto (em 1920, a URSS foi o primeiro país a fazê-lo) e promoveram a igualdade sexual, argumentando que só o socialismo resolveria a contradição entre trabalho e família. Influenciadas por figuras como Alexandra Kollontai, as mulheres soviéticas demandavam libertação sexual, fim à dependência económica do casamento e reinvenção das relações homem-mulher.

Na prática, isso significava servir ao Estado: mulheres foram incorporadas à força de trabalho, mas o “novo lar” comunal nunca se materializou plenamente, e sob Estaline, em 1936, políticas mais conservadoras fortaleceram a família nuclear para estabilizar a sociedade. Tal como as feministas modernas ainda pedem – divórcio facilitado, aborto e “libertação” da maternidade –, essa agenda era uma guerra contra o patriarcado e o capitalismo, bandeiras do colectivo “Pão e Rosas”. Mas o que se vende como empoderamento é, na verdade, uma ideologia que prioriza o Estado sobre a família, trocando a dependência do marido pela do regime totalitário.

Uma Data Esvaziada: Do Revolucionário ao Comercial

Com o colapso dos regimes socialistas no final do século XX, a data perdeu temporariamente o seu viés revolucionário explícito, tornando-se mais palatável para adopção global. O mito das operárias queimadas vivas, propagado especialmente na década de 1950 por veículos comunistas franceses como o jornal L’Humanité, serviu precisamente para “limpar” as suas origens comunistas, dissociando-a da Revolução Russa e permitindo que se espalhasse sem tanta resistência no Ocidente capitalista. Hoje, o 8 de Março é frequentemente reduzido a um nicho de mercado: flores, descontos promocionais, slogans vazios e campanhas comerciais que ocultam a sua essência política — o facto de que celebramos, em última análise, o papel das mulheres na Revolução Russa de 1917, que trouxe morte, miséria e opressão para milhões ao longo do século XX.

No entanto, em pleno século XXI, a data parece ter recuperado vigorosamente o seu carácter revolucionário e ideológico. São sobretudo partidos e movimentos de esquerda — como PT, PSOL, PCdoB, Bloco de Esquerda, LIVRE, PCP e colectivos feministas radicais associados — que se apropriam do 8 de Março para organizar marchas, greves simbólicas e manifestações massivas, disseminando mitos feministas históricos (como o do incêndio punitivo) e promovendo uma narrativa de luta permanente entre os sexos. Reivindicam “direitos” que, em muitos países ocidentais (incluindo Portugal e Brasil), já existem há décadas: igualdade salarial formal, acesso ao aborto legal em certos contextos, protecção contra “violência de género” e leis antidiscriminação. Em 2025, por exemplo, no Brasil, mulheres petistas e centrais sindicais como a CUT convocaram actos nacionais contra a violência e pela “democracia”, enquanto frentes feministas realizaram marchas em cidades como Curitiba, Pelotas e Florianópolis, com milhares nas ruas exigindo avanços que vão além do já conquistado.

Em Portugal, a Rede 8 de Março — Greve Feminista, apoiada por dezenas de colectivos (incluindo Bloco de Esquerda, LIVRE e PAN), organizou manifestações em Lisboa e Porto com lemas como “Pela Libertação de Todas as Mulheres” e “Enfrentamos o fascismo, exigimos avançar!”, reunindo mais de mil pessoas em marchas que denunciavam retrocessos imaginários e promoviam pautas radicais de género, antirracismo e antimilitarismo. Esses eventos, frequentemente descritos como resistência ao “fascismo” e à “opressão patriarcal”, mantêm vivo o espírito confrontacional original, transformando uma data que poderia ser de celebração num palco de polarização ideológica e de perpetuação de uma guerra de sexos que ignora os avanços reais alcançados pela sociedade democrática e pelo mercado de trabalho moderno.

O que se apresenta como luta por igualdade revela-se, na prática, uma agenda ideológica que prioriza o conflito sobre a harmonia familiar e social. Pois, como nos recorda Bérénice Levet na sua obra contra as novas inquisições, a verdadeira liberdade não se encontra na rejeição da nossa natureza nem na guerra entre sexos, mas sim no resgate da dignidade da mulher e da harmonia com o homem — libertem-nos, pois, do feminismo, para que possamos finalmente recuperar a nossa humanidade.