Primeiro, lançaram ataques aéreos contra a liderança política e militar. Depois, bombardearam os sistemas de lançamento e os depósitos de mísseis e drones. Dias mais tarde, os ataques passaram a estar focadas na frente marítima e na destruição da Marinha. Foi assim que evoluiu a estratégia dos Estados Unidos e de Israel ao longo da primeira semana de guerra, focada em destruir as capacidades militares do Irão, no ar, na terra e no mar.
Do outro lado, a estratégia do Irão ficou clara desde a primeira resposta ao primeiro ataque, que visou Israel e bases militares norte-americanas no Qatar, na Arábia Saudita e noutros países do Golfo. Os Estados Unidos levaram a guerra até ao Irão; o Irão alargou-a à região. Ao mesmo tempo, o regime de Teerão procurou interferir nas comunicações, na produção energética e no comércio por toda a região.
Com duas estratégias opostas, cada passo dado por um dos lados obteve uma resposta concreta do outro, num rápido encadeamento de eventos militares e políticos que se fazem sentir já à escala regional e global. Assim, em apenas seis dias, as consequências já se fazem sentir dos dois lados: milhares de mísseis balísticos e drones lançados e mais de 1.300 mortos — números que excedem os verificados em junho do ano passado, numa guerra entre as mesmas três partes que durou o dobro do tempo.
Dia 1. A guerra numa “fase preparatória”
É por volta das 10h (6h30 em Lisboa) de sábado, dia 28 de fevereiro, que se ouvem as primeiras explosões em Teerão. Uma hora depois, o Presidente norte-americano confirma: “As Forças Armadas do EUA começaram uma grande operação de combate no Irão”. Os ataques atingem o complexo da liderança do regime iraniano, onde o Líder Supremo, o aiatola Ali Khamenei, está reunido com os principais membros da cúpula política e militar de Teerão.
Os ataques terão matado mais de 40 comandantes, mas a morte de Khamenei não foi confirmada imediatamente. Só quase 10 horas depois do primeiro ataque é que a informação começa a ser avançada: primeiro por fontes em Telavive, depois por Donald Trump e só na madrugada de domingo é que os media estatais iranianos confirma a morte de Khamenei.
Durante as longas horas de incerteza sobre o paradeiro do aiatola, o dia é marcado por repetidas vagas de ataques aéreos. Para além de Teerão, Estados Unidos e Israel atacam ainda as cidades iranianas de Kermanshah, Lorestan, Tabriz, Isfahan e Karaj. Durante a primeira hora dos ataques, um míssil atinge uma escola primária feminina na cidade iraniana de Minab, no sul do país, matando mais de 160 alunas — Israel e Estados Unidos recusam responsabilidade por este ataque.
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Por volta do meio dia local, o Irão lança a primeira resposta militar ao ataque israelo-americano. As sirenes de defesa anti-aérea soam em quase todo o território de Israel e em várias bases militares norte-americanas nos países do Golfo: Qatar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrain. Por toda a região, são cancelados voos e fechados os espaços aéreos e as zonas residenciais não são poupadas à destruição. Para além do Irão, Israel e dos quatro países do Golfo, a retaliação iraniana também atinge mais tarde a Arábia Saudita, a Jordânia, o Iraque e a Síria.
As repetidas vagas de ataques que se fazem sentir ao longo do primeiro dia, levam Hamidreza Azizi, analista do Instituto Alemão de Estudos Internacionais de Segurança (SWP), a apontar que a guerra se encontra numa fase “preparatória e não final”. “A guerra parece estar estruturada para se desenrolar de forma sequencial, em vez de através de um único golpe avassalador (…) O comportamento do Irão aponta para uma estratégia centrada na resistência e preservação do regime”, escreveu o especialista no seu blog Iran Analytica.
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Dia 2. Ataques mútuos continuam, desenham-se narrativas políticas
Na manhã do segundo dia de guerra, o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, anuncia que as forças israelitas conseguiram estabelecer um corredor aéreo sobre Teerão. Este objetivo é cumprido devido à destruição dos sistemas de lançamento de mísseis iranianos alcançada durante o primeiro dia e permite que caças israelitas e norte-americanos circulem de forma segura nos céus iranianos, facilitando operações futuras.
Os ataques continuam como no primeiro dia de guerra: Estados Unidos e Israel atacam o Irão, que retalia contra Israel e as bases norte-americanas no Golfo. Um míssil iraniano atinge a cidade israelita de Beit Shemesh, matando nove pessoas — o ataque mais mortal no lado israelita até agora. Omã, que mediava negociações entre Estados Unidos e Irão, é atacado pela primeira vez e são registados danos no porto de Duqm e em petroleiros ancorados ao largo da costa omani, tendo Teerão recusado responsabilidade por estes ataques. No Kuwait, um centro de operações norte-americano é atingido, matando três soldados dos EUA.
Já a morte de Khamenei motiva declarações dos principais grupos de resistência armada apoiados pelo Irão — o Hamas, o Hezbollah libanês e os Houthis do Iémen — com o Hezbollah a ameaçar mesmo entrar no conflito. Contudo, os grupos alinhados com o Irão não são os únicos que tomam posição na guerra. Mais longe do palco de operações, três países europeus — Reino Unido, França e Alemanha — anunciam que que vão “trabalhar em conjunto com os EUA” para tomar “ações defensivas para destruir as capacidades do Irão disparar mísseis e drones na sua origem”. O Reino Unido vai mais longe e autoriza os Estados Unidos a utilizarem as suas bases militares no Oceano Índico com os mesmos propósitos.
Longe do campo de batalha, Teerão e Washington acertam as narrativas políticas para uma guerra. Os líderes interinos do Irão são anunciados e começam os trabalhos para escolher o sucessor de Ali Khamenei. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, em entrevistas à imprensa internacional, argumenta que a guerra “foi imposta pelos Estados Unidos e Israel”, mas recusa não visar os seus interesses do Golfo, pondo de lado uma suspensão da retaliação. Também em entrevistas por telefone à imprensa norte-americana, Donald Trump dá o primeiro prazo concreto para a operação: “Quatro ou cinco semanas”. Além disso, o Presidente insiste na possibilidade de morrerem soldados norte-americanos. Ambos os lados afastam a possibilidade de retomar negociações rapidamente.
Dia 3. A guerra chega ao Mediterrâneo e trava o estreito de Ormuz
O terceiro dia de guerra começa com uma nova extensão do palco de operações: são detetados dois ataques com drones numa base militar da Força Aérea britânica no Chipre, depois dos anúncios do Reino Unido no domingo. As autoridades cipriotas detalham que os drones terão sido lançados não a partir do Irão, mas do Líbano. Uma nova mudança: o Hezbollah junta-se oficialmente à guerra. Apesar de enfraquecido, depois do conflito mais recente com Israel em 2024, ao longo de segunda-feira o grupo libanês lança 12 vagas de ataques contra Israel.
Os ataques israelo-americanos contra o Irão continuam e começa a notar-se um padrão: os ataques israelitas atingem bases e sedes da Guarda Revolucionária, das secretas e das autoridades de segurança principalmente na cidade de Teerão, que visam a destruição da máquina do regime, enquanto os Estados Unidos estão focados em atacar as infraestruturas nucleares e militares, localizadas no sul do país. Num balanço diário feito nas suas redes sociais, o analista Hamidreza Azizi cita relatos iranianos que avançam que “a avaliação de Teerão é que pode sustentar um conflito de alta intensidade durante 60 a 90 dias”.
No Kuwait — o mesmo país onde o centro de operações foi atacado e o número de vítimas mortais subiu para seis —, despenham-se três caças F-15 norte-americanos. Os tripulantes sobrevivem e os aviões terão caído depois de terem sido atingidos por “fogo amigo” dos sistema de defesa do Kuwait. É o primeiro incidente de fogo cruzado numa guerra que, em menos de três dias, envolve já mais de uma dezena de países. Em Washington, Donald Trump fala pela primeira vez em público desde que começou a guerra, mas apenas reforça as declarações da véspera.

Num ponto de situação feito pelo Observador na segunda-feira, contam-se centenas de mortos no Irão, em Israel, no Líbano, no Iraque, no Kuwait, no Bahrain, nos Emirados Arábes Unidos e em Omã, aos quais se somam ainda centenas de feridos, cujos relatos dos números variam. Mas ao claro custo humano e militar da guerra, soma-se ainda o custo económico. Teerão anuncia o bloqueio do estreito de Ormuz, a principal rota comercial de petróleo no mundo, e ameaça atacar qualquer navio que tente quebrar o bloqueio. “Se alguém tentar passar, os heróis da Guarda Revolucionária e a marinha comum vão incendiar esses navios”, declarou um responsável da Guarda Revolucionária.
https://observador.pt/especiais/ataque-retaliacao-e-contagio-o-que-esta-em-risco-no-estreito-de-ormuz-e-quem-e-mais-afetado-em-11-respostas/
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Dia 4. O envolvimento dos curdos e a definição da estratégia iraniana
Pelo quarto dia consecutivo, repetem-se os ataques israelitas e norte-americanos contra o Irão, que responde contra infraestruturas em Israel e nos vários países do Golfo — alguns dos quais já ameaçaram responder pelos seus próprios meios. Porém, se no caso israelita o esforço de guerra iraniano vai sendo partilhado com o Hezbollah, o mesmo não acontece no Golfo, onde os Houthis permanecem à margem da guerra aberta.
https://observador.pt/especiais/drones-na-arabia-e-fogos-no-dubai-encurralados-os-paises-do-golfo-podem-entrar-na-guerra-contra-o-irao/
Apesar dos danos em aeroportos e bairros residenciais, o verdadeiro foco da estratégia do Irão no Golfo começa a desenhar-se: Teerão destrói sistemas de vigilância e comunicação e radares em pelo menos sete bases militares norte-americanas, impedindo assim a identificação precoce de ataques iranianos e a comunicação em tempo real das forças dos EUA por toda a região, e infraestruturas energéticas nos mesmos países.
A Guarda Revolucionária relata ataques a grupos curdos na fronteira e arrasta para a guerra um novo ator. A CNN avança que a CIA está a armar os grupos curdos na região com o objetivo de alimentar um levantamento popular no Irão — algo a que Donald Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, têm apelado, sem sucesso, desde o primeiro dia. Já no palco mediterrânico da guerra, Israel começa operações terrestres no Líbano, em resposta aos ataques do Hezbollah na véspera.
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O analista Hamidreza Azizi define, no seu balanço diário, o quarto dia de guerra como “um reforço dos padrões observados nos dois dias anteriores”, marcado por “um alargamento do envolvimento de proxys, ataques contínuos contra infraestruturas de energia, operações aéreas dentro do Irão e um alargar do derrame regional do conflito”.
Dia 5. EUA estendem a guerra ao Oceano Índico, China e Turquia oferecem mediação
Os ataques da Guarda Revolucionária não demovem as forças curdas. Pelo contrário: alimentados pelos Estados Unidos, os diferentes grupos curdos formam uma coligação alargada, ameaçando com a possibilidade de uma invasão terrestre dos curdos junto à fronteira com o Iraque. No Irão, continua a desenrolar-se o processo para selecionar o novo Líder Supremo.
Face ao bloqueio do estreito do Ormuz pelo Irão, os Estados Unidos estendem o tabuleiro de guerra na frente marítima com um ataque com um submarino a um navio de guerra iraniano ao largo do Sri Lanka. Pelo menos 87 pessoas morreram, 32 foram resgatadas e dezenas são dadas como desaparecidas pelas autoridades locais. É a primeira vez desde a II Guerra Mundial que um submarino norte-americano ataca um “navio inimigo” em águas internacionais, como o secretário de Defesa faz questão de sublinhar.
O corte de uma das principais rotas comerciais globais motiva a entrada em cena de outra potência internacional. Ao quinto dia de guerra, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China anuncia que Pequim vai enviar um representante para o Médio Oriente, em articulação com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, para procura uma oportunidade de mediação entre Estados Unidos e Irão.
A guerra também continua a estender-se no palco do Mediterrâneo. Os sistemas de defesa aérea da NATO na Turquia intercetam um míssil que sobrevoou o Iraque e a Síria a caminho do Estado membro da Aliança, que já se ofereceu desde a primeira hora para mediar um fim do conflito. Os destroços caíram na província de Hatay sem se verificar quaisquer danos ou vítimas.
Dia 6. A dificuldade de resposta aos drones iranianos e a destruição da Marinha de Teerão
Pelo terceiro dia consecutivo, os grupos curdos assumem um papel de destaque na guerra. Donald Trump afirma abertamente que “seria fantástico” se estes grupos armados abrissem uma frente de batalha terrestre no Irão. Mas os curdos não são a única minoria étnica que pode contribuir para acentuar a instabilidade interna iraniana e promover a divisão. Para lá da fronteira noroeste do Irão, dois drones atingem um aeroporto e uma escola no Azerbaijão. O Presidente azeri condena o “ato de terror” e ameaça retaliar, mas o Irão nega — tal como no ataque contra a Turquia — toda a responsabilidade.
https://observador.pt/especiais/curdos-a-ambiciosa-e-arriscada-aposta-dos-eua-e-de-israel-para-derrotarem-o-irao/
Ao mesmo tempo que nega ter lançado ataques que espalham ainda mais o conflito pela região, o Irão continua a disparar drones e mísseis contra infraestruturas energéticas e de comunicações e radares no Golfo. Os Estados árabes ponderam rever os seus investimentos no estrangeiro, de forma a colmatar os impactos económicos da guerra nas economias nacionais. Ao mesmo tempo, avisam os Estados Unidos de que as reservas de mísseis intercetores estão baixas e apelam ao envio de mais remessas de armamento.
Na Europa, um outro país disponibiliza-se para apoiar os países com esta fragilidade. O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, destaca o extenso conhecimento das forças ucranianas sobre os drones Shahed — de fabrico iranianos, mas utilizados pela Rússia na guerra — e oferece-se para “defender da guerra aqueles que ajudam [a Ucrânia]. “Certamente vamos aceitar assistência de qualquer país”, responde Trump, em entrevista à Reuters.
Os Estados Unidos continuam focados em desbloquear o estreito de Ormuz e a lançar, portanto, ataques contra a Marinha iraniana. Em menos de uma semana de guerra, as forças norte-americanas destruíram mais de 30 navios iranianos, segundo números avançados pelo comandantes Brad Cooper, do Comando Central dos Estados Unidos, em conferência de imprensa.
Dias seguintes. As reservas iranianas degradadas e a escolha do novo Líder Supremo
Foram precisos apenas seis dias de guerra para os dois lados começarem a sentir pesadas consequências. Porém, apesar dos pedidos de ajuda aos Estados Unidos por parte dos países do Golfo, a verdade é que as reservas iranianas de mísseis e drones estão bastante degradadas, graças aos ataques norte-americanos e israelitas, destaca o Institute for the Study of War.
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Can Kasapoğlu, analista do Hudson Institute, detalha números mais concretos num artigo de análise: nos primeiros dias da guerra, o Irão lançou cerca de 350 mísseis por dia, enquanto agora está a lançar cerca de 50, numa diminuição do poder ofensivo total de 70% a 85%. Os especialista destaca que uma diminuição abaixo dos 30 lançamentos por dia indicará uma “degradação significativa da capacidade de ataque da República Islâmica”.
No campo político, e apesar das várias ofertas de mediação, tanto os Estados Unidos como Teerão excluíram a possibilidade de avançar para negociações num futuro próximo, ao mostrarem-se preparados para um confronto durante várias semanas. Nesta área, a atenção recai sobre a política interna de Irão, destaca Kasapoğlu, onde ainda decorre a escolha do próximo Líder Supremo: quem vai ser este líder e como vai a sua nomeação ser acolhida internamente pela Guarda Revolucionária — e como isso pode fraturar o país e aproximá-lo de um cenário de guerra civil — e no estrangeiro por Donald Trump.
https://observador.pt/especiais/sem-khamenei-guarda-revolucionaria-deve-radicalizar-regime-iraniano-pode-ficar-brutal-como-a-coreia-do-norte/
À medida que a guerra entra na segunda semana, impõe-se ainda a questão da regionalização da guerra e da entrada em cena de mais atores. Qatar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita já ameaçaram responder diretamente ao Irão — o que podia ser a gota de água que arrasta também os Houthis para o conflito —, aos quais se soma ainda a possibilidade de o Azerbaijão responder ao ataque desta quinta-feira e de as forças curdas cumprirem a ameaçada invasão — abrindo assim uma frente de combate terrestre no Irão.