Há quem diga que a indústria de smartphones se acomodou à sombra de atualizações incrementais, como ajustes de câmara e de desempenho, ou ferramentas de inteligência artificial (IA). Mas também há quem aproveite uma montra da indústria, como é o Mobile World Congress (MWC), para testar conceitos diferentes. O evento decorreu de 2 a 5 de março, em Barcelona.
Depois dos telefones dobráveis, há marcas de tecnologia a testar outros caminhos, desde braços robóticos, como fez a Honor, até telefones todo o terreno, capazes até de acender uma fogueira.
Mas, como nem só de telefones são feitas as feiras, também houve empresas a mostrar outras apostas, como pequenos aparelhos para a secretária com a tendência do momento: a IA.
Um smartphone “robô” para vídeos e fotografias mais estáveis
Nesta altura do campeonato, são raros os eventos de tecnologia que não têm robôs a passear pelos corredores. A Honor até teve em palco um robô humanóide a dançar, mas foi o Robot Phone que mais chamou à atenção.

A marca, que em tempos pertenceu à Huawei, já tinha mostrado o protótipo noutra ocasião, mas agora anunciou o Robot Phone como um produto que chegará ao mercado “este ano”. Sem datas concretas, também não apontou um preço para o telefone.
Apesar do nome, o Robot Phone tem, à primeira vista, o aspeto de um telefone tradicional. Até que um motor faz deslizar da parte de trás do telefone uma espécie de braço robótico, com uma câmara e um estabilizador de imagem. De acordo com James Li, CEO da Honor, tudo isto funciona graças a um “micro-motor” pouco mais pequeno que uma moeda de um euro.

O telefone tem uma câmara com um sensor de 200 megapixeis neste braço, que tem um sistema de estabilização gimbal de três eixos com a promessa de “movimento suave e preciso”. O telemóvel foi anunciado como tendo modo de vídeo e fotografia que tiram partido deste estabilizador. Além deste braço, o telefone tem ainda outro módulo de câmara, caso o utilizador queira uma opção mais discreta.
Já houve mais marcas a apostar em câmaras que ‘saltam’ do telefone — por exemplo, a Oppo fê-lo em 2018, com o Find X, e a Samsung com o A80, em 2019. Mas, no caso do Robot Phone, junta-se a IA à mistura. O equipamento faz a promessa de “interação de IA” com o utilizador, através do reconhecimento de som e de movimentos. Uma das utilizações deste pequeno robô é na compatibilidade com as videochamadas com IA. A Honor deixou a promessa de que, nessas situações, o braço robótico conseguirá seguir os movimentos do utilizador durante a conversa e até responder “com linguagem ‘corporal’ emocional”. Nas demonstrações feitas pela empresa, foram mostrados cenários em que o equipamento consegue interagir com uma pergunta feita pelo utilizador, através de acenos de “cabeça” positivos e negativos ou a dançar ao ritmo de música.
https://www.youtube.com/watch?v=U9apZYsozV4
Uma bateria de respeito num telefone capaz de ajudar a acender um fogueira
Se há quem queira telefones finos, também há quem prefira equipamentos mais robustos, quase todo o terreno. A Oukitel, sediada em Shenzhen, na China, faz telefones para o segundo grupo de pessoas.
A empresa apresentou no MWC o Oukitel WP63, um smartphone Android pensado para quem acampa em condições extremas ou precisa apenas de um isqueiro — no topo do telefone está uma pequena área que desliza e pode funcionar como isqueiro elétrico, semelhante ao dos carros.
Meios como o Android Authority assistiram ao teste no stand da empresa: é preciso abrir uma aplicação, para escolher a temperatura e a duração da chama, e ver um pequeno quadrado de tom incandescente surgir. O teste foi feito com um pequeno papel enrolado.
https://twitter.com/AndroidAuth/status/2029168265692336542
Esta é uma das funcionalidades incluída num telefone robusto, de grandes dimensões, que tem uma bateria de 20 mil mAh (miliampere-hora). Uma capacidade suficiente para fazer com que este telefone ganhe semelhanças a um powerbank. Até porque é possível usar o telefone para carregar outros equipamentos através de um cabo USB-C.
Mas, sendo um telefone para condições extremas e resistente a quedas de até 30 metros, há uma funcionalidade que fica de fora: a comunicação por satélite, uma ferramenta que pode ser usada em casos em que não há rede móvel.
De acordo com o Engadget, o telefone custará cerca de 399 dólares (343 euros), mas sem indicação de disponibilidade geográfica.
Um telefone com câmara Leica e um anel rotativo para controlar definições
A Xiaomi aproveitou o MWC para apresentar a nova série Xiaomi 17, fruto da parceria com a conhecida marca de câmaras Leica. E, sem surpresa, o principal ponto de destaque da apresentação foi mesmo a fotografia.

Além dos topos de gama Xiaomi 17 e 17 Ultra, foi ainda revelado um outro smartphone, o Leica Leitzphone. O produto pretende assinalar o centenário da Leica, disse a Xiaomi em comunicado. “Este co-desenvolvimento pioneiro no setor coloca a abordagem clássica da Leica à captura de imagem no centro da experiência, combinando um século de know-how com tecnologia contemporânea.”
É um equipamento que quase pode ser descrito como uma máquina fotográfica no corpo de um telefone. Tem várias marcas de identidade da Leica, mas a principal é mesmo a câmara, que até tem direito a um anel rotativo, tal como acontece nas máquinas fotográficas.
Instalado à volta do módulo de câmara, é um “seletor físico com acabamento serrilhado”, explicou a Xiaomi, que permite controlar parâmetros como o zoom, a abertura e a velocidade do obturador. A ideia é que seja possível imitar o toque físico de uma câmara.
No que toca ao software, o Leica Leitzphone tem uma interface renovada e perfis que tentam recriar a estética das câmaras da marca.
O telefone estará à venda, em mercados selecionados, tanto através da Xiaomi como nas lojas da Leica. Em Portugal, a Xiaomi não irá incluir este telefone no seu catálogo de produtos. É uma novidade que não é para todos os mercados e muito menos para todos os bolsos, já que custará cerca de dois mil euros.
Tecno Mobile recupera a tendência dos telefones modulares — mas com espessura reduzida
Os smartphones modulares foram uma tendência que parecia promissora na década passada, mas que não conseguiu sair da categoria de nicho de mercado. A ideia é que o telefone fosse composto por uma base, ao qual seria possível acrescentar diferentes módulos. Por exemplo, uma câmara mais avançada, uma bateria com maior capacidade ou colunas mais potentes.
Houve várias empresas a apostar na ideia — a Google teve o Project Ara, a LG também embarcou neste mercado e a Motorola chegou a convencer a crítica com o Moto Z, lançado no verão de 2016. Mas uma boa parte destas ideias tinha um calcanhar de Aquiles: à medida que ganhavam módulos, ficavam demasiado volumosos.

Passados dez anos, a Tecno Mobile, uma empresa de Hong Kong, recupera a ideia dos smartphones modulares, mas apostando num modelo de espessura reduzida. A base do telefone, que tem um ecrã, um módulo de câmara simples e um conetor para ligar mais módulos, tem apenas 4,9 milímetros de espessura. A base é ainda mais fina do que o iPhone Air, que tem 5,6 milímetros.
https://observador.pt/especiais/o-salto-do-iphone-air-impossivelmente-fino-para-tentar-reavivar-a-curiosidade-as-renovacoes-no-apple-watch-e-a-falta-de-novidades-de-ia/
Depois disso, a ideia é que o utilizador vá adicionando mais módulos, através de uma ligação magnética. Além do perfil fino, há ainda mais alguns módulos invulgares, como a possibilidade de acrescentar uma lente telefoto, de dimensões consideráveis, ou uma antena para transformar o smartphone num walkie-talkie. Há ainda um módulo de controlador para jogos.
Para já, não é claro se este conceito modular chegará ao mercado e a que preços, nota o site especializado Engadget.
Vivo fez um híbrido entre um telefone e uma câmara para profissionais
A Vivo tem uma presença discreta fora do mercado chinês. Mas habitualmente aproveita o MWC para revelar produtos que vão chegar em breve ao mercado.
Foi a ocasião para apresentar o próximo topo de gama, o X300 Ultra, um telefone que se destaca por incluir uma lente telefoto extensível da Zeiss, com 400 milímetros, que tem um sensor de 200 MP. O telefone tem como público-alvo os profissionais de imagem e criadores de conteúdo e nem tanto quem precisa de um smartphone para o dia-a-dia.

O telefone pode ser usado em conjunto com outros acessórios para garantir uma maior estabilidade da imagem. Foi apresentada uma espécie de “gaiola” para a câmara, desenvolvida pela empresa SmallRig. Depois, ainda é possível acrescentar mais acessórios, desde microfones até luzes.
O X300 Ultra ainda não tem uma data de chegada ao mercado e não foram apresentadas mais especificações sobre o smartphone. Assim, não é possível ter informação sobre preços, mas a título de comparação a versão X300 Pro custa cerca de 1.400 euros no mercado europeu.
Um “colega” de trabalho para se sentar à secretária
Nem só de smartphones se fez o Mobile World Congress, já que há marcas que escolhem apresentar também outro tipo de gadgets. Foi o caso da Lenovo, que mostrou um conceito pensado para a aplicação da IA no mundo do trabalho.
O Lenovo AI Workmate foi descrito como “uma prova de conceito” de um gadget para ficar na secretária, com um tamanho semelhante a um candeeiro de escritório e capaz de interagir com um humano, através de voz ou gestos. O Workmate tem uma base, que pode ser colocada numa secretária ou presa numa parede, e uma “cabeça” redonda, com olhos que reagem ao utilizador. O corpo é articulado.

Num vídeo, a Lenovo mostrou o gadget a dar os bons dias e a resumir as atualizações de agenda e emails recebidos. Mas as indicações não são dadas apenas em áudio: a cabeça do Workmate também pode ser um projetor, capaz de dar informação visual projetada na secretária.
Ao mesmo tempo, o Workmate tem reconhecimento visual, conseguindo apreender rabiscos num papel. Tratando-se de uma prova de conceito, não há ainda ideia sobre se alguma vez será lançado como um produto.
https://youtu.be/mljs7BCHvds