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Há dez anos, o cenário seria difícil de imaginar. Na altura, o senador republicano veterano Lindsey Graham queria ser candidato presidencial — Donald Trump acabaria por ser o nome do Partido Republicano a avançar — e criticava o então milionário e estrela de televisão pelo seu “isolacionismo”. Anos depois, Donald Trump ainda atacava Graham pela sua visão agressiva para a política externa norte-americana, lembrando a incursão pelo Iraque, em 2003, como um mau exemplo. Agora, chegados a 2026, tudo parece ter mudado: não só os dois são muito próximos como Graham terá sido mesmo uma influência essencial para o ataque dos Estados Unidos ao Irão se concretizar.
A história de como Graham começou a construir a sua influência junto de Donald Trump num cenário confortável para ambos — um campo de golfe — é contada pelo Politico, na sequência de uma entrevista ao senador, apoiante fervoroso de Israel e dos ataques contra o Irão. Foi a jogar golfe que ambos começaram a conversar e que, depois das eleições de 2024, o senador da Carolina do Sul começou a dar “muitos conselhos” a Trump sobre o que deveria ser o seu segundo mandato presidencial.
E se Trump tinha convencido o eleitorado norte-americano com o seu slogan “America First” (América Primeiro) e muitas promessas de “acabar com guerras”, priorizando a qualidade de vida da população dos EUA — o que agora, com o ataque ao Irão, lhe vale algumas críticas dentro do próprio partido — Graham terá tido, segundo o próprio mas também fontes da Casa Branca ouvidas pelo Politico, uma importância grande na missão de convencer Trump a virar o discurso na política externa e passar a ser parte ativa neste conflito.
Para Graham, isto seria uma ação definidora para um segundo mandato de Trump: acabar com um “regime terrorista” e conseguir assim acordos mais estáveis no Médio Oriente. “Eu disse-lhe antes de ele tomar posse… se conseguires fazer colapsar este regime terrorista, isto é uma coisa como a queda do Muro de Berlim“.
O senador republicano foi conversando com Trump para persuadi-lo durante meses, e de forma mais intensa durante as últimas semanas — falariam sobre um o Irão pela última vez na quinta-feira, véspera do ataque norte-americano — o que, escreve o Politico, prova como as vozes dos “falcões” a que Trump costumava resistir, garantindo que a sua política teria mais a ver com não envolver os Estados Unidos em guerras, têm “dominado” as decisões no seu segundo mandato. E como Graham, que defende a importância de um ataque contra o Irão há décadas, conseguiu finalmente fazer a sua tese vingar, apesar de o próprio garantir que dentro da administração havia uma “verdadeira competição” de opiniões sobre o assunto.
“Houve uma grande luta para que isto não se fizesse. Deixar Israel fazê-lo sozinho ou não fazer grande coisa. Por isso falámos muito: ‘Senhor Presidente, quer ter as suas impressões digitais nisto. Quer que eles saibam que a América vai lutar'”. A ideia de construir um legado desta forma pareceu agradar a Trump, e, segundo Graham, o facto de a captura de Nicolás Maduro ter corrido bem, em janeiro, deu força ao Presidente norte-americano para concretizar o ataque ao Irão.
Apesar de as sondagens mostrarem a preocupação do eleitorado com o envolvimento dos Estados Unidos numa nova guerra, e de Trump ter chegado a garantir que não o faria e que parte do sucesso desta administração seria medido pelas “guerras em que não se meteu”, Graham defende agora que o Presidente está “nisto para ganhar”. “É difícil vender-lhe, mas quando lho vendes, ele está empenhado”.
Mas não em definir um novo regime do Irão: “Se eles quiserem reconstruir o país deles, construir mais armas nucleares e mísseis para nos atacarem, trataremos as pessoas novas como as antigas. Mas não acredito. Acho que vão arranjar uma forma de serem um país diferente”, disse ao Politico.
Numa entrevista à Fox News, esta semana, depois de ter chamado ao Irão a “nave-mãe do terrorismo”, Graham pediu também a Trump — que vai acompanhando as suas aparições televisivas e as aprecia — que “solte os militares americanos, com Israel, contra o Hezbollah”, defendendo que é preciso “acabar com estes filhos da mãe”.
Depois, na NBC, voltou a insistir que Trump não será responsável por construir um novo regime no Irão, e que o objetivo será apenas “assegurar que não se volta a tornar o maior Estado patrocinador de terrorismo” e que isso seria “uma vitória” para os Estados Unidos e para a região. Questionado sobre qual o “plano” que Trump teria nesse sentido, Graham irritou-se: “Não! Não é o trabalho dele, ou o meu, fazer isso! Quantas vezes tenho de dizer isto? O nosso objetivo é garantir que o Irão deixa de ser o maior patrocinador do terrorismo, ajudando as pessoas a construir um novo governo, sem tropas no terreno” nessa fase.
Como o Politico conta, o próprio Graham está surpreendido pela sua influência junto do Presidente: “Se me tivessem dito em 2016 que acabaria por ser um dos seus melhores amigos, o conselheiro mais próximo e admirá-lo como comandante supremo, eu não teria acreditado”. Há quem critique essa influência crescente: o republicano Tim Burchett disse aos jornalistas, após um briefing no Senado sobre o Irão, que “Linsey Graham nunca viu um combate de murros que não quisesse transformar num bombardeamento”.
O objetivo final de Graham será, contou o próprio ao Politico, chegar a um acordo bipartidário no Senado para conseguir um tratado que estabeleça a “normalização total” das relações entre Israel e os países árabes. Por agora, isso está longe de acontecer — mas Graham, e agora Trump, acredita que o ataque ao Irão foi um passo importante nesse sentido.