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Morreu o escritor António Lobo Antunes. Tinha 83 anos

Morreu esta quinta-feira António Lobo Antunes, um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea.

Manuel Nobre Monteiro
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Miguel Pereira Santos
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Mariana Lima Cunha
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Mariana Carvalho
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António Lobo Antunes, um dos maiores e mais consagrados nomes da literatura portuguesa contemporânea, morreu esta quinta-feira, aos 83 anos. A informação foi confirmada ao Observador pela editora Dom Quixote e de imediato começaram a surgir várias reações, da política à literatura, passando pelo desporto.

“Foi com profunda tristeza, e ainda a recuperar do choque, que recebemos a notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus leitores e admiradores”, escreveu a editora nas redes sociais.

“A Dom Quixote, que se compromete a continuar a trabalhar e a promover a sua obra, cuja importância ultrapassou fronteiras, despede-se assim do grande escritor português, o verdadeiro escritor, que dedicou toda a sua vida à literatura, prestando-lhe a devida e merecida homenagem e deixando sentidas condolências à sua família, aos seus amigos e aos seus leitores”, acrescentou.

Lobo Antunes é um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, tendo escrito mais de 30 romances. O seu primeiro livro, Memória de Elefante, surgiu em 1979, logo seguido de Os Cus de Judas, no mesmo ano, sucedendo-se Conhecimento do Inferno, em 1980, e Explicação dos Pássaros, em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.

Políticos recordam “rara coragem” do “maior intérprete do Portugal do nosso tempo”

O Governo reagiu rapidamente, não só lamentando a morte de António Lobo Antunes como decidindo também declarar este sábado, dia 7 de março, dia de luto nacional pelo escritor. Reunido em Conselho de Ministros com Marcelo Rebelo de Sousa — um ato simbólico que é costume acontecer na reta final do mandato do Presidente da República –, o Governo informou também, em comunicado, que propôs ao Presidente da República e este “prontamente aceitou” a atribuição do Grande-Colar da Ordem de Camões ao escritor.

O “amigo” Marcelo Rebelo de Sousa deixou uma nota de pesar em que frisa que Lobo Antunes deixa “uma bibliografia vasta, visceral, sofisticada em termos narrativos, atenta ao quotidiano, e muito tributária de experiências como a guerra e a prática clínica da psiquiatria” e que “ninguém terá sido mais imitado pelas gerações seguintes”.

“Seu leitor, admirador e amigo há décadas, pude em 2022 atribuir-lhe as insígnias da grã-cruz da Ordem de Camões, com a certeza de que poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país territorialmente pequeno. Vou agora depositar junto dele o grande-colar da mesma ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa”, acrescentou o chefe de Estado.

Antes disso já Luís Montenegro tinha reagido nas redes sociais, lamentando a morte desta “figura maior da cultura portuguesa”: “O seu legado é uma crónica da humanidade e da originalidade do olhar português e por isso continuará a inquietar-nos e a inspirar-nos”, escreveu o primeiro-ministro.

A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, considerou Lobo Antunes, “escritor maior de Portugal”, um “intérprete sensível e incomparável da condição humana”, que deixa um legado inesquecível e se tornou também um dos autores portugueses mais “reconhecidos” das últimas décadas. E o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, falou de Lobo Antunes como um “homem com uma humanidade comovente”, que se distinguiu “no modo como olhou para nós próprios, para a nossa condição de portugueses e retratou momentos muito importantes do nosso passado e presente”.

“Eu espero, tenho a certeza, [que] será cada vez mais reconhecido por aqueles que haverão de estudar e de compreender melhor esse trabalho”, acrescentou o governante.

https://twitter.com/margaridalopes/status/2029483236422799854

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, também quis reagir à morte do “vulto maior da literatura portuguesa”: “Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa”.

As reações políticas não ficaram pelo Governo: o Presidente da Assembleia da República (segunda figura do Estado), José Pedro Aguiar-Branco, expressou o seu “profundo pesar pela morte de António Lobo Antunes”, lembrando que além de escritor era “médico psiquiatra” e “revolucionou a literatura nacional”.

https://twitter.com/AssembleiaRepub/status/2029497604178854135

No PS, o secretário-geral, José Luís Carneiro, também recorreu às redes sociais para transmitir as suas condolências pela morte de António Lobo Antunes, considerando que a sua morte “constitui uma perda irreparável para a literatura e para a cultura portuguesas”. Já o Presidente da República eleito, António José Seguro, disse receber com “enorme tristeza” a notícia da morte de António Lobo Antunes, cuja obra considerou “profundamente marcada pela lucidez” e “exigência moral” para com o país e a condição humana.

“A sua obra, profundamente marcada pela lucidez, pela memória e pela exigência moral com que olhou o país e a condição humana, ocupa um lugar incontornável na nossa cultura. Ao longo de décadas, os seus livros desafiaram leitores, abriram caminhos na literatura e deram à língua portuguesa uma expressão singular de intensidade e verdade”, escreveu António José Seguro no Instagram, descrevendo Lobo Antunes como um homem de “rara coragem intelectual, capaz de transformar a experiência individual e coletiva em literatura de grande fôlego”. “A sua escrita ficará como um testemunho poderoso do nosso tempo e como um património duradouro da cultura portuguesa”.

O presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, também reagiu, considerando “um privilégio” ter vivido no tempo de Lobo Antunes. “Tivemos a sorte e o privilégio de ver nele o maior intérprete do Portugal do nosso tempo: do fim do império, da experiência da guerra, da psicologia tão complexa deste nosso velho país”, salientou nas redes sociais, colocando Lobo Antunes na “rara aristocracia da literatura mundial, onde estão os grandes mestres”.

O benfiquista que queria ser “o Águas da literatura”

Não se resumindo a vida de Lobo Antunes à escrita, o Benfica fez também uma nota sobre a morte de Lobo Antunes, “um dos mais ilustres adeptos do clube e referência maior da cultura portuguesa contemporânea”. O clube fez questão de usar a “ligação afetiva” que o escritor manteve durante décadas e que “que tantas vezes atravessou a sua própria obra e os seus testemunhos públicos”: “A sua voz singular na literatura portuguesa expressou sempre uma identidade profundamente enraizada no benfiquismo”.

“Entre as muitas palavras que dedicou ao clube, permanece particularmente marcante a recordação dos tempos da Guerra Colonial, quando afirmava que ‘enquanto o Benfica jogava, não havia guerra’, sublinhando a dimensão simbólica e emocional que o Benfica representava mesmo nos momentos mais difíceis. Noutra ocasião, com a ironia e a ambição que marcaram a sua personalidade, confessou um desejo: ‘Quero ser o Águas da literatura’”, lê-se na nota.

“Com o desaparecimento de António Lobo Antunes, Portugal perde um escritor maior e o Benfica um adepto cuja genialidade, pensamento e paixão pelo Benfica ficarão para sempre na memória coletiva do benfiquismo”.

A identidade de Lobo Antunes passava também pela profissão de médico, no caso psiquiatra, e a Ordem dos Médicos também veio reagir à sua morte. “Reconhecido como um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea, projetou internacionalmente a cultura nacional. Formado em Medicina e especializado em Psiquiatria, exerceu no Hospital Miguel Bombarda antes de se dedicar plenamente à escrita. A sua obra, marcada pela experiência clínica, constitui um contributo ímpar de memória e identidade”, lê-se na nota, que fala numa personalidade que “honrou a Medicina e a Cultura”.

Livro póstumo a caminho. Escritores lembram obra “brilhante” e personalidade “polémica”

Com a notícia da morte chegou também o anúncio da publicação de um livro inédito de poemas, em abril, em que a Dom Quixote já estava a trabalhar, intitulado “Poemas”. “Ele que sempre lamentou não ter sido poeta”, lê-se na nota da editora. Já em declarações à rádio Observador a CEO da LeYa, Ana Rita Bessa, tinha revelado que tem um “compromisso ativo e presente com a obra e com a sua família”, falando de uma obra “extensa, de leitura obrigatória e tem ainda muito para dizer-nos sobre os tempos que aí vêm”.

Entre os seus pares, multiplicaram-se reações ora destacando a genialidade e criatividade de Lobo Antunes, ora a sua personalidade “polémica” e por vezes “difícil”. Na rádio Observador, Lídia Jorge lembrou António Lobo Antunes como “o mais criativo” entre os escritores portugueses da geração a que ambos pertencem: “Temos o Lobo Antunes entre nós”, disse, numa referência à sua influência.

A vencedora do último Prémio Pessoa acredita que a melhor memória que o escritor deixa é a sua “estante absolutamente cheia dos livros dele”. Sobre a sua escrita, destacou a “proeza extraordinária” de pegar nos “métodos do romance psicológico do início do século XX” e enchê-los com a história recente de Portugal. “É um escritor do fim, é um escritor que se inscreve no fim dos impérios, do colapso dos impérios. É um tema absolutamente europeu e universal e ele fá-lo maravilhosamente na língua portuguesa”, disse.

Contudo, a autora considera que esse facto não o impediu de ter sucesso fora de portas. “Ele trabalhou, viveu para a literatura. Viveu escrevendo e deixa uma obra gigantesca, imensa. Uma obra que tem aspetos de inovação extraordinários e faz dele não só um escritor português, [mas] um escritor europeu. É um escritor do século XX, do século XXI”, continuou Lídia Jorge. “Quando as pessoas falam dele, ainda que digam que é complexo, a verdade é que abrem uma página e cada uma dessas páginas, a força poética é tão intensa que vale por si mesma. Isso faz dele um escritor universal. Basta ver a relação que teve com os vários países onde foi traduzido, que foi por toda a parte, e basta ver o enunciado dos prémios, também por toda a parte”.

Dulce Maria Cardoso disse, também à rádio Observador, que o escritor deixa “uma obra importantíssima, especialmente para quem é português, apesar da dimensão internacional que teve”: “O que interessa nele é a maneira como ele pensou Portugal e de o que é isto de ser português, e como nos ajudou a interpretar a história”, sublinhou a escritora. “Através dos seus romances, conseguimos perceber o que é ser português e o que é Portugal. Deixou um incrível tratado sobre paixões humanas”.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria, falou “num autor resistente com uma obra notável”, que “ficará para sempre” na História da Literatura portuguesa apesar de a sua obra “brilhante e longa” ser “menos premiada do que se esperava”.

À rádio Observador, a jornalista Ana Margarida Carvalho, que entrevistou várias vezes António Lobo Antunes e o acompanhou em viagens ao estrangeiro, contou que este tinha “um desprezo enorme por entrevistadores e jornalistas que iam lá a casa entrevistá-lo”. E prosseguiu: “Incluo-me nesse grupo, porque era extremamente difícil falar com ele”.

Ana Margarida Carvalho lembrou os “comentários muito inconvenientes” do autor, em relação aos entrevistadores, que acompanhavam a sua genialidade — “ao mesmo tempo, ele era brilhante”. A também escritora conta que acabou por ficar com “uma ótima relação” com Lobo Antunes, apesar de nunca se ter atrevido a dar-lhe os seus próprios livros a ler.

O escritor tinha uma “cultura vastíssima”, que não assentava apenas sobre facto passados, porque este também estava “muito atento ao que se estava a fazer” a cada momento. “Muitas vezes só respondia quando tinha alguma coisa brilhante para dizer. Às, vezes fazíamos perguntas e ele só respondia à quinta ou sexta pergunta”, conta Ana Margarida Carvalho. Por fim, a jornalista lembrou que o escritor “irritava-se muito” com a preferência do público pelos seus livros de crónicas porque era nos romances que “vertia o seu sangue todo”.

O escritor Afonso Reis Cabral destacou que António Lobo Antunes deixa “um legado de fronteira da literatura”, ou seja, perante aquilo que este escreveu “a literatura teve de definir maior aproximação, menor aproximação ou até de renegar” a sua obra. E contou, na rádio Observador, um episódio que viveu com o autor, em que pediu a Lobo Antunes ajuda para melhorar a escrita dos diálogos nos seus romances. “Ele olhou assim com um olhar bastante malandro — ele tinha, às vezes, esse olhar de menino que se vai portar mal, olhar de cima e de baixo — e perguntou-me: ‘Mas por que é que você precisa de diálogo?’”

Francisco José Viegas reagiu à morte de António Lobo Antunes na Rádio Observador afirmando que o escritor “reinventou a dimensão poética da ficção” e lembrando a forma como foi influente na panorama da literatura portuguesa. “Não há final para uma obra destas, para um homem destes”, disse. “Todos nós usamos muito aquela expressão de que fulano escreve à Lobo Antunes, porque, de facto, ele foi um dos autores mais marcantes, mais influentes”.

O jornalista e escritor elogiou a forma como o escritor morto esta quinta-feira escreveu “sobre nós, sobre os poderosos, sobre os esquecidos, sobre os estranhos” e considerou-o também “um grande cronista, um cronista mais ou menos da memória e do quotidiano”. Quando à personalidade, não foi estanque: “Apesar de ter sido um homem muito aguerrido, polémico, controverso, enfim, tudo isso, agora recordo esse ar enternecido do António nos últimos anos, e era essa imagem que eu também gostava de levar”.

A escritora Patrícia Reis também falou à rádio Observador, frisando que a “autobiografia” de António Lobo Antunes se encontra na sua obra publicada. “Está lá tudo, a tristeza, a melancolia, a importância da família.”

“O grande território da escrita de Lobo Antunes é a memória. Talvez isso venha da sua vida de psiquiatra”, acrescentou a jornalista e escritora que entrevistou várias vezes o autor. Patrícia Reis lembrou como Lobo Antunes lhe pedia para desligar o seu gravador quando esta lhe fazia entrevistas e como o autor era “pouco dado a simpatias”. “Não podemos apenas mitificar o autor e a sua obra”, alertou. António Lobo Antunes “não era uma estátua” e pertencia a “uma determinada geração”, sendo “por vezes conservador, por vezes difícil e pouco dado a simpatias”.

Patrícia Reis contou também que António Lobo Antunes tinha “uma relação difícil com as mulheres escritoras, sempre naquela linha de tentar perceber a cabeça das mulheres”. Por outro lado, destacou a grande relação de amizade que tinha com o escritor José Cardoso Pires.

Reações da imprensa internacional

António Lobo Antunes também foi recordado por portais de notícias estrangeiros, na Europa e no mundo. Com um destaque considerável na imprensa espanhola, a notícia recebeu o lugar cimeiro das secções de Cultura dos jornais El País e El Mundo.

“O colosso das letras portuguesas que melhor indagou os traumas da história”, assim o descreve  Tereixa Constenla no El País, a que acrescenta a qualidade “maiúscula, ciclópea e colossal” do autor, até na morte. “O esquecimento de Lobo Antunes é um dos pecados capitais da Academia sueca, que numa história de mais de um século ignorou a riqueza e heterogeneidade da literatura portuguesa”, reforça o diário espanhol, que equipara ainda a rivalidade com José Saramago — vencedor do Nobel da Literatura em 1998 — a um duelo “entre Benfica e Sporting”.

No El Mundo, o jornalista Antonio Lucas destaca a natureza “guerrilheira” do também psiquiatra e o “único do baralho de grandes escritores portugueses do último meio século” ainda vivo. No obituário que escreveu, enfatiza a mestria literária do autor que “mantinha uma relação canibal com as letras” e que “tudo devorava e convertia em Lobo Antunes”.

O francês Le Figaro também deu um destaque considerável à notícia sobre “o escritor e psiquiatra português, nascido em 1942 em Lisboa, e considerado uma das grandes vozes do romance contemporâneo em língua portuguesa”, cuja obra declara “exigente, misturando romance, poesia e autobiografia com um estilo barroco e metafórico”. O artigo é de Thierry Clermont com a Agence France-Press.

Já o Le Monde, também francês, exaltou o “trabalhador incansável, autor prolífico com uma imaginação fértil e fervoroso defensor da liberdade de expressão”, “conhecido pela complexidade e exigência dos seus livros”, que o próprio argumentava serem um “reflexo da vida”. O diário destaca a obra marcada por “grande inventividade formal, mas também por um profundo sentido de ironia e um pessimismo sombrio”.

Do outro lado do Atlântico, vários jornais brasileiros lamentaram a morte de Lobo Antunes. Tanto O Globo como a Folha de S. Paulo enfatizaram a obra literária “de repercussão internacional”.

A tendência foi a mesma nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), com publicações como o Jornal de Angola, o moçambicano MZNews e o Expresso das Ilhas de Cabo Verde a homenagearam o autor, cujos livros mais célebres refletem sobre o período da Guerra Colonial em África.