Possessão, medo, raiva, controlo, desconfiança, vergonha, tristeza. Como é que o ciúme afeta a nossa saúde mental?
Sentir ciúme pode ser comum, mas deixar que o medo de perder alguém determine o nosso comportamento pode tornar-se patológico e perigoso. O problema não é senti-lo – é o que se faz com ele.
1 O que é o ciúme?
É uma reação emocional comum, caracterizada pelo receio de perder alguém que se ama e de se ser substituído. Surge habitualmente quando se sente que uma relação importante pode estar ameaçada — por isso pode ser descrito como ansiedade ao imaginar a antecipação da perda. Não é uma emoção dita “pura”, mas sim um conjunto de estados emocionais ativados pela ameaça à relação.
“O ciúme envolve medo de perder alguém (ou pode até surgir depois de se ter perdido), insegurança e, muitas vezes, raiva perante uma possível traição, real ou imaginada”, diz Miguel Ricou, psicólogo clínico e professor universitário.
Pode funcionar como um alarme de ameaça à relação. Só que, em alguns casos, o alarme fica a tocar sem parar e domina a vida da pessoa. E por isso tem potencial para se tornar num problema clinicamente relevante.
2 Mas que emoções envolve o ciúme, ao certo?
Várias. Envolve o medo associado à perda da relação, o medo associado ao facto de a pessoa ciumenta se ver como tendo pouco valor, a raiva associada à sensação de ameaça de perda e à infidelidade, a tristeza associada a um luto antecipado da relação. E ainda a vergonha e a humilhação da exposição que a pessoa teme, ou seja, que os outros saibam que o/a parceiro/a foi infiel (quando é essa a razão do ciúme). Pode existir ainda a culpa pela desconfiança que a pessoa tem.
3 Como se manifesta o diúme?
Pode manifestar-se de forma discreta, apenas por uma inquietação ou um desconforto, ou pode aparecer de maneira mais evidente. Pode revelar-se a três níveis:
- emocional, marcado por ansiedade, irritação e tristeza;
- cognitivo, com pensamentos ruminantes, suspeitas e interpretações ameaçadoras;
- e comportamental, com pedidos de garantias, interrogatórios e verificações.
Nos casos mais intensos, surgem comportamentos de controlo como vigilância, “testes” de fidelidade, exigências de provas de amor, invasão de privacidade com a verificação de telemóveis, redes sociais ou e-mails.
Aliás, o mundo digital está a amplificar o fenómeno. “As redes sociais e as mensagens trocadas dão ‘pistas’ sem contexto associado, como sejam os likes nas publicações, os seguidores, o tempo que a pessoa demora a responder a algumas mensagens, o controlo sobre a última vez que esteve online, entre outros fatores muito dados a interpretações e que tornam a monitorização fácil e repetível”, diz o presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
4 Sentir ciúme é normal?
Até um certo ponto, sim. Ter medo de perder alguém importante é comum e até humano, pode dizer-se. O problema não é sentir ciúme, mas o que se faz com ele. “Se a pessoa sente ciúmes, reconhece isso mesmo e os ciúmes não assumem o controlo do comportamento, então está tudo bem.Quando a pessoa responde ao ciúme, ou seja, age movida pelo ciúme, isso é sempre potencialmente desequilibrador.” Porque a ideia de posse prejudica a relação.
“O ciúme pode ser transitório e perfeitamente gerível, mas pode ser intrusivo, persistente e incapacitante. O que interessa clinicamente não é ter ou não ter ciúmes, mas sim a intensidade, a frequência e o prejuízo funcional.”
5 Então há ciúmes saudáveis?
Não há “bons” e “maus” ciúmes. Há ciúmes que a pessoa reconhece, aceita como emoção passageira e não deixa que orientem o seu comportamento. E há ciúmes que dominam o pensamento e conduzem a atitudes de controlo. A diferença está na gestão que se consegue ou não fazer.
Pode dizer-se que o ciúme não é saudável nem um sinal positivo quando assenta na ideia de que são precisas provas de fidelidade a toda a hora, já que, não poucas vezes, reflete necessidade de poder e controlo e não amor. “O que é saudável é a capacidade de tolerar o ciúme sem agir sobre ele, ou seja, sem tentar controlar o outro ou manipular de qualquer forma.”
6 Há vários tipos de ciúme?
Sim. Há ciúmes em relações amorosas, entre irmãos, de filhos em relação aos pais, entre amigos. A lógica não deixa de ser semelhante, ou seja, medo de perder um vínculo significativo. O contexto muda, mas a estrutura emocional é parecida.
Em quadros graves, poderá ainda distinguir-se dois tipos de ciúme: um ciúme obsessivo com pensamentos intrusivos e persistentes, necessidade de certezas e rituais de verificação/controlo para aliviar ansiedade; e um ciúme delirante, também conhecido como Síndrome de Otelo, que passa por uma crença fixa e irracional de infidelidade, resistente a qualquer tipo de provas, e por isso mais patológico.
7 Podemos falar de sintomas de uma pessoa ciumenta?
Mais do que sintomas, deve falar-se de padrões, ou seja, de pensamentos intrusivos e persistentes, necessidade de confirmação constante, dificuldade em confiar e a tendência para interpretar sinais neutros como ameaçadores.
Quando há a passagem ao ato, aparece o controlo, a vigilância a vários níveis (telemóvel, redes, horários, exigência de provas) e acusações repetidas, com interrogatórios e testes de fidelidade. Esta passagem será o sinal clínico mais claro, sendo que existe, muitas vezes, dificuldade em parar, apesar de reconhecer que o ciúme está a piorar a relação.
8 É uma perturbação mental?
O ciúme, que qualquer pessoa pode sentir, não é uma doença. Torna-se problemático quando é intenso, frequente e interfere de forma significativa na relação e na vida pessoal. Pode, por isso, ser considerado uma emoção habitual ou pode ser sintoma de um outro problema ou condição clínica, independentemente de não existir um diagnóstico específico.
Há, no entanto, uma situação clínica específica, o ciúme delirante (Síndrome de Otelo), em que existe uma crença fixa e irracional na infidelidade do parceiro, sem qualquer evidência. “Neste caso, estamos a falar, claramente de uma perturbação mental, em que a intervenção psiquiátrica será uma necessidade obrigatória”, diz o psicólogo clínico. Pode ainda surgir um ciúme delirante ligado a quadros de abuso de álcool e de alcoolismo.
Há ainda uma discussão em curso que liga o ciúme à Perturbação Obsessivo-compulsiva, já que alguns padrões se assemelham a uma perturbação desse tipo, marcado por pensamentos intrusivos e por compulsões de verificação. “A existência deste padrão de ciúme, que pode ser chamado de ciúme obsessivo, pode ter implicações na forma de abordar as intervenções terapêuticas.”
9 O que distingue o ciúme considerado normal do ciúme doentio?
A intensidade, a frequência e, sobretudo, a incapacidade de resistir à ação. Se o ciúme é ocasional e não altera o comportamento, é expectável e, por isso, normal e habitual, independentemente de não ser uma boa sensação. Se é persistente, intrusivo e leva a vigilância, acusações ou restrições à liberdade do outro, é um problema clínico.
Perguntas que devem ser feitas para ajudar a perceber:
- O ciúme é ocasional ou quase diário? Ocupa muito tempo do meu pensamento?
- O ciúme afeta o meu trabalho ou o meu sono? Prejudica a minha vida social, já que não resisto a falar do tema com outras pessoas? Prejudica a minha relação, já que não consigo deixar de o mostrar ao outro e até de o tentar controlar?
- Quanto ao meu comportamento: não consigo deixar de vigiar algumas coisas da vida do outro? Não consigo deixar de verificar o que o outro me diz e conta? Não consigo deixar de acusar o outro?
Respostas afirmativas a estas questões devem merecer a atenção e levar à procura de ajuda.
10 Quais os impactos na saúde mental?
A nível individual, pode gerar ansiedade persistente, tristeza marcada, pensamentos ruminantes, perda de qualidade de sono, sensações de baixa autoestima, consumo de substâncias e até comportamentos violentos.
Na relação, conduz a conflitos crónicos que escalam (o controlo exercido pela pessoa ciumenta acalma no imediato, mas faz aumentar o ciúme pelo que acaba sempre por prejudicar), perda de confiança e de comunicação, já que tudo se pode tornar numa prova contra o próprio, e desenvolvimento de dinâmicas relacionais tóxicas como o isolamento do outro, a restrição de liberdade e o crescimento do medo, estando a outra pessoa sempre preocupada com a reação do parceiro ciumento.
Exemplos:
- Uma pessoa que diariamente verifica o telemóvel do parceiro pode sentir alívio momentâneo. Mas esse alívio reforça o ciclo de desconfiança, tornando-o cada vez mais intenso;
- Quando alguém fica amuado ou zangado com frequência por causa do comportamento do outro, que afirma não o respeitar ou considerar, isso gera o crescimento das omissões na relação e o condicionamento do comportamento pelo próprio, fazendo aumentar os conflitos e a infelicidades das duas pessoas.
- Vê-se um like, a ansiedade cresce, verificam-se mensagens que possam estar relacionadas, sente-se alívio, mas fica-se dependente de controlar. E isso faz a relação piorar, o que aumenta a insegurança e o medo que encontre outra pessoa.
11 Quando procurar ajuda?
Quando há sofrimento e não há controlo sobre o que se sente. “Os ciúmes apenas são normais se não nos afetam. Sempre que se refletem no meu comportamento, estão a condicionar o comportamento do outro, e ninguém tem o direito de exercer controlo sobre o parceiro ou parceira”, diz o psicólogo Miguel Ricou.
A ajuda é urgente quando os ciúmes passam a organizar a relação, a ser o tema central e tudo o resto secundário, bem como quando ocupam grande parte do pensamento e quando há comportamentos de controlo. “Quando já existe medo por parte da vítima por causa dos ciúmes, quando existe intimidação e/ou violência, seja de que tipo for, a procura de ajuda passa a tornar-se, para além de tudo, uma medida de segurança.”
E se a pessoa tem convicção absoluta de infidelidade, impermeável às evidências, isso pede avaliação psiquiátrica urgente, já que pode ser um caso de ciúme delirante.
12 Há tratamento?
Sim, há, mas com critérios. A intervenção psicológica é individual numa primeira fase, para ajudar a compreender o problema como ele é, identificar as causas, trabalhar o autoconceito, regular a ansiedade, interromper os padrões de controlo.
A terapia de casal, na maioria das vezes, será útil numa segunda fase, quando existem “limites claros, para que não se torne numa espécie de tribunal em que a pessoa vítima dos ciúmes acaba por ser julgada, ou em que a pessoa que sofre de ciúmes não se sente compreendida e acaba por desistir prematuramente”.
Se o ciúme tiver padrões obsessivos, a intervenção deve ser adaptada, procurando trabalhar de forma mais direcionada a intolerância à incerteza e a reduzir os comportamentos de verificação e controlo. Nos casos de ciúme delirante ou de consumo problemático de álcool, a prioridade deverá ser a avaliação e intervenção psiquiátrica.