Os dados estão lançados. Depois de duas semanas a ser queimado em lume brando por Pedro Passos Coelho, Luís Montenegro decidiu tentar virar o jogo a seu favor e desafiou o antigo primeiro-ministro a apresentar-se a votos para a liderança do PSD já em maio. A manobra é relativamente simples de explicar: Montenegro sabe que Passos jamais morderá o isco; logo, daqui em diante, não terá autoridade política para criticar o Governo da Aliança Democrática.
Esta não é sequer a primeira vez que Luís Montenegro ensaia algo do género. Antes das europeias de 2024, e numa altura em que se falava abertamente de um regresso de Pedro Passos Coelho se o PSD falhasse aquelas eleições, Montenegro deu uma entrevista à TVI/CNN em que prometeu recandidatar-se vencendo ou perdendo aquela corrida às urnas. Na altura, tal foi entendido como uma forma de condicionar Pedro Passos Coelho e evitar que o primeiro-ministro se apresentasse como alternativa no PSD. A queda prematura de António Costa e a consequente vitória de Montenegro nas legislativas alterou todos os calendários e conjeturas que iam sendo feitas.
Este raciocínio parte de um elemento dado há muito como adquirido: Pedro Passos Coelho nunca será candidato contra Luís Montenegro. O antigo primeiro-ministro não olha para o seu ex-delfim como um igual e nunca lhe passou pela cabeça colocar‐se nesse plano. Não para já, pelo menos. Montenegro está perfeitamente consciente disso mesmo, pelo que sabe que qualquer desafio que possa fazer a Pedro Passos Coelho ficará sem resposta — o que lhe dará uma legitimidade política reforçada. Numa ideia: se Passos tiver medo de ir a votos, não pode continuar a criticar aqueles que não tiveram.
Mais a mais, os homens de Luís Montenegro acreditam convictamente que Pedro Passos Coelho ainda não percebeu duas coisas: que, com estas críticas recorrentes ao Governo da AD, está a delapidar por completo o capital que poderia ainda ter no partido, hostilizando os militantes sociais-democratas; e que o partido e país, se ou quando conhecerem verdadeiramente as reformas de que tanto fala Passos, nunca lhe darão a vitória em eleições.
Existe, naturalmente, um copo meio vazio. Para os partidários de Pedro Passos Coelho, Luís Montenegro acaba de cometer um erro de palmatória: se Luís Montenegro está disposto a ir a votos, colocando em risco o seu lugar como primeiro-ministro, então deixa de ser um fator de estabilidade e passa a ser um fator de instabilidade. Porque o resultado prático de uma derrota interna seria esse. Nem Passos aceitaria ser primeiro-ministro sem ir a votos, nem os partidos de oposição aceitariam essa transição sem eleições legislativas.
Tudo somado, com este desafio, que os mais próximos de Pedro Passos Coelho consideram digno do pior que há na “politiquice“, Luís Montenegro deixou de ter ele próprio autoridade moral para exigir a José Luís Carneiro ou a André Ventura que tenham responsabilidade política e não promovam crises artificiais. Se está disposto a hipotecar a sua liderança, se está disposto a deixar de ser primeiro-ministro só porque alguém o criticou durante duas semanas, então não poderá exigir que José Luís Carneiro e André Ventura deem a mão a Governo em nome da estabilidade. E vêm aí tempos muito difíceis e de grande desgaste. “Cheira a desespero“, antecipa um indefetível de Passos.
O desafio de Montenegro
Numa intervenção de cerca de meia de hora, aberta à comunicação social, Luís Montenegro foi juntando argumentos para contratariar todo o argumentário utilizado por Pedro Passos Coelho nas suas mais recentes aparições. Sem nunca nomear o antigo primeiro-ministro, Montenegro terminou o seu discurso no Conselho Nacional com um desafio claro ao seu antecessor: quem, no PSD, está contra a estratégia que está a ser seguida pelo atual Governo, tem de ir a votos internamente.
“Gosto de ser claro e direto: se houver um caminho alternativo e diferente que seja apresentado e que seja objeto da apreciação do partido, dos seus órgãos e dos militantes. Estamos aqui para transformar Portugal, para ouvir aqueles que nos querem ajudar, mas para não perder a oportunidade, a honra e o privilégio que alcançámos nas urnas com a confiança dos portugueses”, desafiou o atual primeiro-ministro.
No Conselho Nacional social-democrata, e sempre de forma indireta, Montenegro chegou a associar Pedro Passos Coelho aos adversários externos do PSD, sugerindo que era uma traição que fossem os próprios elementos do partido a juntarem-se ao coro de críticas que vêm da oposição”. “Quando executamos este projeto de transformação podemos compreender que os nossos adversários tentem desvalorizar. Será mais estranho e um equívoco gigante sermos nós a duvidar daquilo que estamos a fazer.”
“Aqueles que, no PSD, se conformarem às narrativas dos partidos da oposição e daqueles que acham que este primeiro-ministro é uma segunda versão do primeiro-ministro que lhe antecedeu, não estão a compreender aquilo que estamos a fazer”, provocou Luís Montenegro, referindo-se a associação permanente que Pedro Passos Coelho tem feito entre o atual primeiro-ministro e António Costa.
De resto, Passos tem feito recorrentemente essa crítica desde 2023. O antigo primeiro-ministro. considera que os eleitores não perdoarão nunca a Luís Montenegro que se transforme numa espécie de António Costa 2.0, patologicamente “alérgico” a fazer reformas, especialista em empurrar os problemas com a barriga durante “oito anos”. Nas intervenções mais recentes, Passos exigiu claramente a Montenegro que começasse a apresentar resultados concretos e reformas que se vissem.
Ora, perante a cadência e acutilância das críticas de Passos, Montenegro decidiu dar um passo em frente. “Como me conhecem, vou ser muito direto: não é minha intenção estar na presidência do PSD e do Governo sem a confiança dos militantes do PSD e dos eleitores. Nunca quis ser presidente do PSD sem estar legitimado. Estando nós com alguma dúvida existencial sobre a nossa estratégia política e sobre alianças políticas, creio que devemos conformar aos ciclos políticos a gestão política do PSD. Para que não haja nenhuma dúvida, é meu desejo que se possam a realizar as eleições diretas em maio.”
A próxima jogada pertence agora a Pedro Passos Coelho. O antigo primeiro-ministro será um dos oradores da Cimeira AEFEP 2026, que acontece entre 5 e 6 de março, na Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Passos vai intervir na sexta-feira às 16 horas. E dificilmente conseguirá evitar responder ao desafio lançado por Luís Montenegro.
https://observador.pt/especiais/da-bencao-a-rutura-final-a-historia-do-confronto-adiado-entre-passos-e-montenegro/
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