Um big mac e um kabab em como Donald Trump nunca viu um filme iraniano. Mesmo assim, é claro, sabe certamente que são uma porcaria, sem comparação com o estrondoso, o maravilhoso, o grandioso, melhor do que nunca, cinema americano (à parte quando o critica – aí, é uma parolice de vencidos).
Perdoe a pobreza da parábola, mas, ainda assim, repare como toca várias notas certas: sim, o cinema americano é bom; não, Trump não tem qualquer mérito nisso; sim, Trump serve-se constantemente do que não fez para ter o que quer; sim, consegue fazer um apaixonado pela América ficar farto da América; e não, nada disto diz o que quer que seja acerca do cinema iraniano. De quão belo e inventivo é, de como pode e deve coexistir com o americano e não se compara com ele. De como tantas cinematografias diferentes podem coabitar e seria paupérrimo o mundo se não houvesse senão filmes de super-heróis e pipocas.
Nunca fui ao Irão. Mas, como muita gente que só conhece a América pelo seu cinema, também eu julgo saber alguma coisa do Irão pelo dele. O cinema do perseguido – e mediático – Jafar Panahi, e já também do filho, Panah Panahi, de Asghar Farhadi, de Bahman Ghodabi, do vigoroso Saeed Roustayi, de Marjane Satrapi (cuja arte e influência se estende muito para além do cinema), e, acima de tudo, de Abbas Kiarostami, a propósito de quem o insuspeito de humildade Jean-Luc Godard disse um dia: “O cinema começa em Griffith e acaba em Kiarostami”.
Assim. “Começou”, tal como o conhecemos, em Hollywood, e acabou em Teerão. Porque, depois de descobrir como Kiarostami escrevia e dirigia os seus filmes, é difícil imaginar como ir mais além. Com uma vantagem quando se trata de amostra de um país ou cultura: é que Hollywood é a arte da mentira, da esplendorosa e admirável ilusão; e o cinema iraniano é – até por força dos constrangimentos económicos e políticos – uma arte da verdade. Um retrato do real. Uma câmara ao ombro ou telemóvel a filmar actores não profissionais nos carros, casas e ruas das cidades e das aldeias, com as suas roupas, os seus rostos não aprimorados pela cirurgia estética, a brancura poeirenta, aparentemente eterna, da persa luz do dia.
Se Trump tivesse visto ao menos um pouco desse cinema, talvez tivesse percebido, como eu julgo ter percebido, algumas coisas sobre o Irão. Quão antigo e rico é, quão próprio e diferente do mundo árabe, quão culta e instruída tanta da sua população, quão inventiva e corajosa, mesmo debaixo da opressão. Procurem o cinema sírio, ou iraquiano, ou saudita, ou bielorusso, e comparem, se conseguirem. Talvez assim Trump percebesse que o Irão não é o ayatollah, mas também não é o apetite por nenhum big mac; é outra coisa. Um país orgulhosamente persa e xiita e, ao mesmo tempo, um país enorme e complexo que não se esgota no que é persa nem xiita. Um país que sobrevive há séculos, apesar de todas as tentativas de submissão, ou pelos árabes, ou pelos otomanos, ou pelos ingleses, ou pelos americanos, ou pelos ayatollahs. Um país de contadores de histórias, berço das 1001 noites. Onde a palavra, o bom nome, a família ou a honra ainda têm um peso extraordinário, até no sistema de justiça.
Um país sacrificado há mais de 40 anos por uma ditadura que juntou o pior do comunismo ao do fundamentalismo religioso, matou meninas por não cobrirem correctamente o cabelo, disparou, sem piedade, sobre milhares dos seus, consumiu os muitos recursos do território a financiar grupos terroristas e um plano nuclear com o sonho de fazer desaparecer Israel, enquanto deixava a infraestrutura do país degradar-se até à ruína e a população morrer à sede, esmagada, por dentro pela seca, e por fora pela inflação. Um país a braços com problemas terríveis, para lá da crueldade assassina do Conselho de Guardiões, da Guarda Revolucionária e da Polícia da Moralidade: do desastre ecológico que vai, pura e simplesmente, obrigar ao abandono de Teerão e à construção de uma nova capital, noutro lugar, à epidemia de toxicodependência, apanhado no centro da rota de narcotráfico do Afeganistão e onde, somando à crise económica, haverá trabalhadores a serem pagos já não em dinheiro, que não há, mas em ópio.
Este país enorme, cheio de histórias e perigos, com pelo menos um milhão de pessoas armadas nas ruas, entre forças militares e paramilitares, não se resolve com uns dias de mísseis. Menos ainda de palavras.
Não. Donald Trump, certamente, nunca viu um filme iraniano. Assim o diz a mesma falta de curiosidade pelo outro que o levou a achar que canadianos ou gronelandeses correriam para os seus braços ao primeiro sinal, loucos de vontade de trocarem as suas soberanias, histórias, culturas e identidades, pela maravilha de ser americano. É um mentiroso compulsivo, prepotente e deselegante, que não hesita em sacrificar aos seus interesses todo o prestígio e poderio da grande, extraordinária nação onde teve a sorte de nascer. É uma caricatura do que de pior tem a América, que anuncia ao mundo o começo de uma guerra com a totémica cabeça enfiada num boné com as letras “USA”, a que faltava, para acompanhar, um cachorro-quente numa mão e uma cola XXL na outra. Ter-se-á metido nesta guerra em nome da aliança com Israel, ou da corrida contra a China pelos recursos naturais, por muitas razões, entre cujas 50 primeiras não está, certamente, a liberdade dos iranianos. Mas numa coisa tem toda a razão: esta deve mesmo ser a melhor oportunidade que terão numa geração de conquistarem o seu destino.
A Peste Negra matou um terço dos europeus no século XIV. Mas também levou à valorização do trabalho da mão-de-obra sobrevivente e às evoluções tecnológicas que conduziriam ao fim do feudalismo e, em última instância, ao começo da era moderna. Que é como quem diz: o que não falta na História são coisas más com consequências boas. Conta-me, Xerazade: e se, um dia, o Grande Satã se revelasse a melhor coisa que já aconteceu à Pérsia?