Até os deuses devem estar loucos: sai a epidemia de Covid 19 e entra a crise pandémica de saúde mental. No Brasil, mesmo quem parecia a apoteose da mente sã e corpo são puxa o travão de mão e anuncia – com um semblante beatífico e uma voz élfica – que irá pausar a carreira para “cuidar da saúde mental”.
Os casos são mais que muitos, como o da tenista Bia Haddad (ex Top 10) ou da ginasta Rebeca Andrade, bicampeã olímpica e maior medalhista da história do Brasil nos Jogos Olímpicos (2 ouros, 3 pratas e 1 bronze). Ou Tite, de 64 anos, treinador da seleção brasileira de futebol em dois Mundiais, e campeão do Mundial de clubes pelo Corinthians. Ou Gabriel Medina, tricampeão mundial de surf e medalhista olímpico. Aliás, se Medina, que mora numa praia edénica e pica o ponto na espuma das ondas, anda stressado, salve-se quem puder.
Nada como um dia depois do outro. Nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, o anfitrião era Hitler. Pois o Führer, em carne e osso e bigodinho tipo caganita de cabrito, teve de engolir um negro de 22 anos, o americano Jesse Owens, que embolsou 4 medalhas de ouro. Para não apertar a mão da criatura inferior, Hitler retirou-se do estádio com umas trombas daquelas. Não, Owens não desistiu de competir nem choramingou que era muito ariano para a camioneta dele. Como diz a frase da tenista Billie Jean King gravada no court do US Open, em NY: “Pressure is a privilege”.
Mas por que andamos todos borrados de medo? Desde o Iluminismo, a esperança de vida no mundo cresceu de 30 para 71 anos e, nos países prósperos, para 81. Doenças letais foram erradicadas. Ainda no século XIX, um terço das crianças nascidas nas áreas mais ricas do planeta morria antes do quinto aniversário; hoje, só 6%, e nas regiões mais pobres. E muitas vezes os bebés nadomortos levavam as mães no parto. A proporção da humanidade que vive em extrema pobreza caiu de quase 90% para menos de 10% e, durante o período de vida da maioria dos leitores deste texto, pode aproximar-se de zero. Como disse Steven Pinker, vivemos na primeira sociedade da história em que os pobres são gordos.
Não houve guerras globais nas últimas sete décadas. Viajar é cada vez mais seguro e barato — a comunicação internacional, idem. A capacidade informática de um smartphone excede a da Apolo 11 durante o primeiro pouso tripulado na Lua em 1969. Porém, nunca foi tão generalizada a vitimização e o pânico (incluindo o moral: já há quem garanta que TODOS os homens são Jeffrey Epstein, até são Francisco de Assis).
O sociólogo Frank Fured lançou “How Fear Works: Culture of Fear in the Twenty-First Century”. Um dos exemplos da atual paranoia reside na hiperproteção dos filhos pelos pais. Quando eu era miúdo (ok, admito que pouco depois do Big Bang), ia e voltava sozinho da escola, e nunca morri por causa disso (como espero que esta coluna ateste). Hoje, pais que não levam os filhos praticamente até ao colo da professora são novos Herodes.
Os jovens agora são conhecidos por “snow flakes” (flocos de neve), pela facilidade com que derretem emocionalmente: das famigeradas “microagressões” à incapacidade de encaixar a mínima crítica (“não me julguem!”). Já os pais são obcecados com o mais ínfimo risco físico ou emocional no mundo real – ao passo que dão rédea solta aos pimpolhos no pantanoso mundo virtual. Ao brincarem no mundo físico, as crianças adestram e testam aptidões adultas, como resolver conflitos de forma independente, e aprendem a lidar com frustrações e responsabilidade. Já na bolha digital basta bloquear o interlocutor melga. Estão em vias de extinção brincadeiras infantis seculares como a apanhada, o jogo da macaca, saltar à corda e brincar às escondidas. A menos que possamos fazer isso tudo só com os polegares.
As redes sociais são moldadas para viralizar o conteúdo extremo — a civilidade e a bonomia não são carismáticas. Daí o catastrofismo das “fobias” cada vez mais predatórias. Racismo? Estamos muito pior que no tempo da Ku Klux Klan, de Ben-Hur nas galés ou das pirâmides do Egito! Homofobia? Basta ver como todos os gays andam com uma estrela cor-de-rosa ao peito, como o primeiro-ministro dos Países Baixos, Rob Jetten, ou o presidente da Letónia, Edgars Rinkévics. Misoginia? Já que não é possível recrutar a Dama de Ferro nem Merkel, perguntem à primeira-ministra do Japão! Disforia de género? É curioso como, nos 150 mil anos anteriores de existência do Homo Sapiens, os bebés humanos nunca se mataram de angústia por causa de sua fluidez sexual.
“É o lobo, é o lobo!” da fábula – só que agora quem alarma são os crescidos. Muito da elite contemporânea (na academia, nas artes, nas empresas, nas empresas, etc.) substituiu como casta messiânica os ingratos “trabalhadores” (que salivam por ser burgueses e não gostam dos imigrantes que não gostam dos anfitriões) pelos nichos interseccionais fofinhos. A retórica da provação abastece uma ideologia. Une-se a santimónia ao lucro: trata-se de monetizar a virtude, entesourando likes e rebanhos de “seguidores”, quem sabe até uma sinecura pública.
Passamos para o âmbito médico-político vicissitudes que dantes eram dilemas morais. Já em 1966, Philip Rieff (infelizmente hoje mais conhecido como “o marido xoné da Susan Sontag”) publicou “The Triumph of the Therapeutic”. Jonathan Haidt, cujo “A Geração Ansiosa”ditou o banimento dos telemóveis nas escolas em vários países, incluindo Brasil e Portugal, notou que as elevadíssimas taxas de depressão se devem em parte aos excessos de diagnósticos. É a alfinetada de Karl Krauss: “A psicanálise é a doença da qual ela pretende ser a cura”. Hoje em dia, quem não faz terapia não está bom da cabeça.
Tudo é tóxico, o mundo é imundo e o próprio planeta está com os pés para a cova. Crise demográfica global? Mas para quê fazer filhos se o mundo vai acabar amanhã? Ops, mas o próprio Bill Gates não admitiu que o apocalipse climático não era bem assim? E depois? Em 2006, Al Gore carpiu que tínhamos dez anos para salvar o planeta (tic-tac…). Para António Guterres, continuamos “à beira do abismo”. O príncipe Charles, em 2009, deu-nos oito anos para o fim; em 2017, Christiana Figures, chefe do clima na ONU, previu três anos; o sucessor dela, Simon Stiel, estimou dois anos. Se a profecia falha, esses cartomantes fazem cara de esfíncter e adiantam o relógio. Greta Thumberg, que não é parva embora nunca tenha pisado uma escola, mudou o seu guiché do aquecimento global para a Palestina (podia ter dado boleia a Guterres).
Até ontem, os Cavaleiros do Apocalipse brandiam fotos pungentes de ursos‑polares exangues. A realidade é que o número daqueles majestosos bicharocos está a aumentar – de 7 mil na década de 1960 para 26 mil em 2023. Poucos souberam da boa nova: os ativistas pararam discretamente de usar ursos‑polares na propaganda. O buraco na camada de ozono sobre a Antártida apresenta recuperação contínua e, em 2025, registou o seu fechamento mais precoce desde 2017. Há uma década, ambientalistas balbuciavam que a Grande Barreira de Coral da Austrália (GBC) estava quase extinta, devido à hecatombe climática. O “Guardian’ até publicou um obituário. Em 2024, os cientistas revelaram que dois terços da GBC apresentam hoje a mais ampla cobertura de corais desde que os registos começaram, em 1985. Claro que o renascimento da fénix não mereceu um pio.
Apesar da tagarelice sobre “resiliência”, prospera uma Olimpíada mórbida para ver quem está mais lixado. Para a Geração Z, transtornos mentais conferem uma espécie de “glamour”. E cancelamos os sadios iníquos, que desfrutam de “privilégio neuronormativo”. A interseccionalidade deita lenha à fogueira. Ah, estás a suar com a tua identidade de género? Bem, tenta lidar com isso e depressão ao mesmo tempo, como “neuroqueer”! Já experimentaste ser um autista não branco? E ai de ti se fores um Asperger mas deres a volta por cima. É “supremacia autista”.
Uma indústria bilionária incita a patologizar emoções negativas normais. No Reino Unido, a epidemia de TDAH está a exaurir o orçamento do NHS – meio milhão de pessoas se apinham nas listas de espera. Em 2025 o Serviço Nacional de Saúde torrou £128 milhões com empresas privadas especializadas em TDAH. Entre elas está a ADHD360, e um “pacote de cuidados essenciais” com avaliação por videochamada e tratamento por £ 1.740. Num ano, as receitas daquela empresa dobraram, com lucro de £9,7 milhões.
A Inteligência Artificial permite-nos minimizar riscos como nunca (menos quando o risco é ela). Com o trabalho e a escola home office, não precisamos nem de sair de casa, numa quarentena vitalícia. Apesar do vício nos tlm, a geração Z desenvolveu a telefobia: não atender chamadas telefónicas. Uma pesquisa da plataforma britânica Uswitch revela que 33% dos jovens nunca atendem ligações. Preferem a comunicação assíncrona (texto ou redes sociais), que lhes permite planear a mensagem — algo impossível na aleatoriedade de uma conversa de voz. 56% da miudagem acreditam que ligações são más notícias. No news is good news! É por isso que um tlm serve para tudo, menos para telefonar.
Quando a sociedade recompensa a vitimização, a lamúria e as vicissitudes com lisonjas e mimos, fatalmente obtemos mais daquelas três. Esperamos que o mundo se adapte a nós, que nos alivie do fardo opressor de sermos humanos. Exigimos que os outros nos façam sentir confortáveis 24/7 – caso contrário, berraremos “discriminação!” ou compraremos um diagnóstico. A infância dura cada vez menos (as crianças são sexualizadas e os pais infantilizados), ao passo que a adolescência dura cada vez mais (marmanjos de 40 anos vivem no resort all inclusive dos pais).
Mas compaixão e empatia (admiráveis virtudes humanas) não correspondem a dar graxa à angústia até que ela degenere na autoindulgência e na baba e ranho de barriguinha cheia. Nem a bajular a malta com mantras vazios como “tudo bem não estar bem”. Gerações anteriores superaram guerras, pobreza e privações e volta e meia saíram mais fortes e dignas (embora não invulneráveis) — claro que a atual também é capaz disso. Até porque, ninguém está a ficar mais jovem (nem sequer o Keith Richards). E confidencialmente: ninguém é jovem o suficiente para saber tudo.
Não que a vida seja mole para quem é duro: mesmo com sorte, ninguém vive sem rejeição ou pesar (não apenas por nós, mas também pelos nossos entes queridos). Viver dói, e é mortífero. Desde que o mundo é mundo, não houve muita gente que morreu eufórica (embora também possa haver inúmeros momentos de júbilo inebriante, talvez um desespero tranquilo – como o da Pietà – já esteja de bom tamanho).
Com uma orgia de autopiedade, a vida só fica mais árdua. Como diz o psiquiatra Anthony Daniels: “Hoje todas as decisões erradas que as pessoas tomam são atribuídas à falta de autoestima, e não a fenômenos humanos como insensatez, tibieza ou preguiça”. A chatice com a autoestima é que “ela é totalmente egocêntrica, ao contrário do respeito próprio, que é uma virtude social e impõe disciplina e obrigações à pessoa que a tem ou deseja tê-la. Já a autoestima é como uma medalha que se põe no próprio peito pelo simples fato de se existir.”
No Ocidente, as duas primeiras décadas do século XXI no foram de alucinação coletiva: acreditamos em delírios como “não existe o sexo biológico”, e por isso alguém pode identificar-se – e portanto, ser – um unicórnio. Cada louco com a sua mania, mas quem não tratar a criatura como unicórnio será da Gestapo.
Ao professar que “não existe verdade” (apenas narrativas intertextuais), o pós-modernismo minou a autoridade da razão, substituindo-a pelo relativismo moral e epistemológico. O resultado são as bolhas solipsistas. Já que nada é real, cada um que se amanhe. E todo o passado ocidental é um opróbrio excrementício (racismo, sexismo, colonialismo, genocídio). Só confiamos nos influencers antissistema (que só confiam na respectiva conta bancária), e na sua banha de cobra dos 15 minutos de fama.
Voltando aos brasucas do início: no conto “O Alienista”, de Machado de Assis, depois de aos poucos confinar a cidade toda no manicómio, o terapeuta Simão Bacamarte acabar por internar-se a si próprio. Se fizermos o mesmo, talvez resulte – desde que engulamos a chave.