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Sete perguntas e respostas para quem tem férias marcadas para o Médio Oriente

Como agir se tem viagem marcada para a região, os países a evitar, como funcionam os reembolsos, e o que ter em atenção para reduzir constrangimentos ao planear as próximas férias.

Sâmia Fiates
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Quando na manhã de sábado Donald Trump anunciou o ataque coordenado dos EUA e Israel ao Irão, muitos turistas em férias (estima-se que poderão ter sido mais de mil) não viram de imediato as notícias. Mas aos poucos os portugueses espalhados por destinos habitualmente turísticos, como o Dubai ou as Maldivas, foram sentindo as consequências. Com espaços aéreos fechados e voos cancelados, ficaram retidos em hotéis, aeroportos de escala e até num cruzeiro. Nos primeiros três dias após o início da ofensiva, mais de 500 portugueses no Médio Oriente entraram em contacto com o Governo, revelou o ministro dos Negócios Estrangeiros à rádio Observador. “Em termos de pessoas que nos contactaram pelas redes e dos números próprios, o que estamos a fazer é, em parceria com Estados amigos, a preparar eventuais operações de repatriamento que sejam necessárias”, afirmou Paulo Rangel na passada terça-feira. Esta sexta-feira o primeiro voo militar com repatriados chegou a Lisboa, com 39 passageiros, parte de uma operação anunciada no dia anterior pelos ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Defesa para o repatriamento de 186 pessoas, quase todos portugueses.

A situação deixou em alerta também pessoas que têm viagens marcadas para os próximos dias ou semanas, especialmente para destinos no Médio Oriente ou que façam escala em países da região. Contactadas pelo Observador, agências de turismo dizem estar a tratar de cada situação individualmente, assegurando rotas alternativas que garantam a segurança dos passageiros, mas são muitos os que preferem adiar ou cancelar as férias — ou até optem por viajar para outras zonas que representem menor risco. Preparámos sete perguntas e respostas para ajudar os seus planos.

Que espaços aéreos e aeroportos estão fechados?

O espaço aéreo iraniano fechou imediatamente depois dos ataques dos EUA e Israel, pelo que neste momento não há nenhum voo comercial a entrar, sair ou sobrevoar o país. Além do Irão, o Qatar também tem o espaço aéreo encerrado desde sábado, com o aeroporto de Doha fechado no momento. Uma atualização sobre o status é esperada na manhã de sábado, dia 7. Também o Kuwait e o Bahrein fecharam os espaços aéreos depois do ataque de sábado, e juntam-se a países como a Síria, o Iraque e o Iémen, que já não costumam estar nas rotas comerciais por serem zonas de conflito. Israel também tem o espaço aéreo fechado e o principal aeroporto, Ben Gurion, em Telavive, não está a operar.

A retaliação iraniana atingiu tanto o aeroporto internacional do Dubai como o de Abu Dhabi — os dois chegaram a estar fechados, mas aos poucos recuperam a sua capacidade de operação. Entretanto, ainda são os dois aeroportos que mais registam cancelamentos e atrasos de voos de acordo com os sites de monitorização de aeroportos pelo mundo — menos da metade dos voos programados estão a operar com normalidade a partir destes dois aeroportos. Os espaços aéreos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos permanecem abertos, mas com um grau elevado de atenção.

Outros países vizinhos que não têm o espaço aéreo fechado mas têm sido desviados pelas rotas comerciais são a Jordânia e o Líbano, que fazem fronteira com Israel. Já o Egito tem o espaço aéreo aberto e tem sido uma das rotas mais usadas pelos voos comerciais que se desviam da área de conflito no Médio Oriente.

Para além dos constrangimentos com o encerramento de espaços aéreos, há empresas de aviação a cancelar voos — de acordo com os dados disponibilizados ao Observador pela consultora Cirium, desde o início da guerra mais de 54% dos voos com origem ou destino no Médio Oriente foram cancelados, um número superior a 19 mil. A Etihad e a Emirates chegaram a suspender voos de e para o aeroporto do Dubai no início da semana, enquanto a Qatar Airways diz que vai fornecer uma atualização sobre o estado dos voos no sábado, dia 7, consoante à reabertura do espaço aéreo do país. Esta semana também a KLM – Air France anunciou que cancelaria todos os voos de e para o Médio Oriente — incluindo cidades como Telavive, Beirute, Dubai, Damman e Riade, enquanto a Lufhtansa e a British Airways suspenderam os serviços também para Amã, capital da Jordânia.

Que países estão desaconselhados pelas autoridades?

A orientação geral no site do Ministério dos Negócios Estrangeiros é que “são desaconselhadas as viagens ao Médio Oriente”. “Recomenda-se que os cidadãos portugueses na região redobrem os cuidados, que se mantenham em casa ou num local abrigado, evitando dentro do possível deslocações ao exterior. Mais se recomenda que acompanhem de perto as notícias locais e internacionais e seguir as instruções das autoridades locais. Caso se encontrem em trânsito, aconselha-se contacto com a respetiva companhia aérea para mais informações.” A orientação inclui destinos turísticos populares como a Jordânia e os Emirados Árabes Unidos, contudo o Egito continua apenas com as recomendações de segurança anteriores ao conflito no Irão, em que são desaconselhadas quaisquer deslocações para o Norte da Península do Sinai.

Os Estados Unidos da América recomendaram que os norte-americanos deixem a região através de voos comerciais, listando 14 países com “alto risco para a segurança”: Irão, Iraque, Israel, Kuwait, Jordânia, Líbano, Omã, Qatar, Arábia Saudita, Síria, Emirados Árabes Unidos, Iémen, Bahrein e Egito. Contudo, para países como a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Egito, os ministérios dos Negócios Estrangeiros de outros países como o Canadá, a Austrália ou o Reino Unido, orientam apenas que os cidadãos reconsiderem ou evitem viagens não essenciais.

O que fazer se teve o voo cancelado ou tem voo com escala em aeroportos que estão fechados?

No caso de cidadãos que tenham ficado retido em países do Médio Oriente, o MNE recomenda “que os cidadãos sigam as instruções das autoridades locais. Se for aconselhado a refugiar-se, permaneça dentro de casa ou procure o edifício seguro mais próximo ou um abrigo designado.” A Autoridade Nacional da Aviação Civil orienta cada passageiro a aguardar atualizações das companhias aéreas acerca de atrasos ou cancelamentos e a confirmar o estado do voo antes de se dirigir ao aeroporto. Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem partilhado informações sobre voos comerciais a partir dos aeroportos dos Emirados Árabes Unidos.

De acordo com a DECO PROteste, em caso de cancelamento de voos de ou para aeroportos dentro da União Europeia, os passageiros podem escolher entre o reembolso do valor pago ou o reencaminhamento para o destino final, seja na primeira oportunidade disponível ou numa data posterior da sua conveniência. Os viajantes também têm direito a assistência, incluindo refeições, bebidas, comunicações, alojamento e transporte local. Entretanto, não se aplica a compensação financeira até 600 euros, por se tratar de circunstâncias extraordinárias. Para solicitar reembolsos é importante guardar todos os comprovativos de despesas adicionais provocadas pelo cancelamento do voo.

Pedro Quintela, diretor geral de vendas da Agência Abreu, em respostas por email ao Observador, informou que a operadora tem clientes no Médio Oriente e noutros destinos cujos voos de regresso previam escala no Dubai, Abu Dhabi ou Doha, por exemplo. “Desde o primeiro momento que estamos em contacto com todos, acompanhando cada situação de forma próxima e permanente, em articulação com as companhias aéreas, para encontrar as melhores alternativas possíveis e assegurar o seu regresso com a maior normalidade”, explica, destacando que “sempre que se verificam cancelamentos, os reembolsos estão a ser processados de acordo com as políticas das companhias aéreas e dos restantes fornecedores de serviços, bem como com a legislação aplicável.”

Os países onde se registam a maioria dos constrangimentos tem solicitado a compreensão da indústria hoteleira, assumindo os custos adicionais associados. O Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, por exemplo, emitiu um comunicado no sábado direcionado aos operadores de hotéis da região a pedir que estendam o período de permanência dos hóspedes retidos devido aos cancelamentos de voos, confirmando que vai pagar pelo custo das noites adicionais. “Diante das atuais circunstâncias, e pelo facto de alguns hóspedes já terem atingido a data de check-out mas estarem impossibilitados de viajar devido a razões que fogem do seu controlo, pedimos gentilmente que estendam o período de permanência até que possam partir”, diz a carta. O Departamento de Economia e Turismo do Dubai tomou uma medida parecida, ao contactar os hotéis e pedir “apoio aos hóspedes afetados ao facilitar a extensão das estadias sob as condições previamente contratadas”. Já o Turismo do Qatar emitiu uma circular no dia 2 de março a pedir o mesmo aos hotéis, informando que vai “cobrir os custos adicionais”.

 O que fazer se tem viagem marcada para países não recomendados pelas autoridades?

As viagens não estão proibidas, mas o risco é grande de ter algum constrangimento ou correr algum risco, especialmente se as férias forem em algum dos países do Médio Oriente e estiverem agendadas para as próximas semanas. A melhor opção é alterar, adiar ou cancelar as férias. E é o que a maioria dos viajantes tem feito nestes últimos dias.

Miguel Quintas, presidente da ANAV destacou em declarações à Lusa que “as agências estão a registar um aumento relevante de pedidos nas últimas 48 horas, sobretudo adiamentos e remarcações (mais do que cancelamentos efetivos)”. Segundo o presidente da ANAV, “a causa principal é a incerteza operacional”, com aeroportos e rotas condicionados, assim como “alterações de percurso e risco de ligações perdidas”. Ainda de acordo com Miguel Quintas, “os destinos mais afetados são os do corredor de risco e, sobretudo, os hubs que multiplicam itinerários: Dubai, Doha, Abu Dhabi, e também Telavive, Beirute e Riade (estes via escalas)”.

No caso da Agência Abreu, Pedro Quintela explica que a operadora tem recebido dúvidas de clientes relacionadas com possíveis alterações de voos e ligações. “É uma reação natural face ao contexto. Neste momento, a nossa prioridade está centrada em acompanhar de perto todas as situações que possam ser impactadas e apoiar os clientes de forma individualizada”, explica o diretor geral de vendas da agência. “Relativamente às partidas previstas para os próximos dias que envolvem países do Médio Oriente, estamos a analisar cada situação de forma individual, em função das orientações oficiais e da evolução operacional dos voos e espaços aéreos”, explica, destacando que a agência tem oferecido “alternativas de parte aérea de modo a garantir aos clientes a manutenção das suas viagens, e imputando os custos às seguradoras”. “Estamos a acompanhar as reservas que incluam escalas no Médio Oriente e, sempre que necessário, a encaminhar os clientes para rotas alternativas. Existem várias opções de voo e estamos a assegurar soluções viáveis caso a caso, seja pelos principais hubs europeus ou outras opções disponíveis.”

De acordo com Rui Pinto Lopes, CEO da Pinto Lopes Viagens, agência especializada em roteiros de grupo, o conflito tem gerado alguma preocupação no setor. “Para além dos destinos diretamente afetados, temos registado maior sensibilidade em relação a países da mesma região ou proximidades geográficas“, diz o CEO, em comunicado, destacando que “neste momento, não temos clientes em destinos considerados de risco que necessitem de repatriamento.”

A agência, que anuncia no site uma viagem para Omã programada para abril, grupos para os Emirados Árabes Unidos para maio, junho e outubro, e um percurso pelo Iraque para outubro, diz que “encontra-se a avaliar continuamente a evolução da situação, em estreita articulação com parceiros locais, companhias aéreas e entidades oficiais”, afirmando que “sempre que considerarmos que não estão reunidas as condições necessárias para garantir uma viagem segura, seremos os primeiros a tomar a decisão de cancelar ou adiar essas operações.” Contudo, “nas viagens em que não exista impacto direto identificado – seja ao nível do destino, seja ao nível das ligações aéreas – estamos a manter a programação prevista“, afirma Rui Pinto Lopes.

Que direitos tem se quiser cancelar ou adiar a viagem?

Se a opção for por cancelar ou adiar a viagem, a ANAC alerta que, no caso dos bilhetes aéreos, “um eventual reembolso está sujeito às condições da tarifa adquirida“. O mesmo se aplica para reservas de hotéis e outros serviços turísticos, que terão de ser analisados caso a caso.

Pedro Quintela, da Agência Abreu, destaca que “em situações de exceção, podem também aplicar-se as coberturas dos seguros de viagem — que, no caso da Agência Abreu, incluem proteção reforçada — e os próprios fornecedores, como companhias aéreas ou hotéis, tendem a disponibilizar alternativas ou flexibilizar condições, incluindo cancelamentos sem custos, dependendo de cada caso.”

As viagens podem ficar mais caras?

De acordo com o presidente da ANAV, sim. “Se a instabilidade se prolongar no tempo é muito provável que os preços aumentem para os destinos fora da zona de conflito“, devido à aviação, com os custos dos desvios de rotas e devido ao pacote turístico, por causa da “necessidade de se realizarem novas contratações de alojamento”. Com a procura crescente para novos destinos, “os custos operacionais de contratação e seguros podem também levar ao aumento dos respetivos preços”. E de facto, redefinir rotas implica, em muitos casos, aumento de custos: mais combustíveis a bordo (ou paragem para reabastecimento), mais tempo de operação o que, por sua vez, também pode implicar tripulação adicional.

Miguel Quintas reconhece também que se “desconhece a dimensão e o tempo que durará o conflito”, alertando que se “os eventos se prolongarem no tempo, é possível que surjam destinos de substituição”, apontando para a probabilidade de troca por voos de longa distância para destinos “neutros em segurança”. No caso de viagens de luxo, as alternativas poderão ser Caraíbas, Sudeste Asiático ou Oceano Índico; enquanto outros viajantes podem escolher Turquia, Grécia e eventualmente Chipre e parte do Egito.

Rui Pinto Lopes, CEO da Pinto Lopes Viagens, também aponta para um aumento na procura futura por outros destinos. “É possível que alguns viajantes optem por destinos percecionados como mais seguros, como por exemplo na Europa, na América do Sul ou em África. Ainda assim, acreditamos que o fator determinante continuará a ser a informação rigorosa e a capacidade dos operadores em acompanhar e gerir estas situações com responsabilidade.”

De acordo com o diretor de vendas da Agência Abreu, “a principal recomendação é acompanhar a evolução da situação e, sempre que possível, aguardar antes de tomar decisões. Esta abordagem permite muitas vezes evitar ou minimizar eventuais custos associados a alterações ou cancelamentos, quer da componente aérea, quer dos serviços terrestres.”

O que ter em atenção em viagens futuras?

O Ministério dos Negócios Estrangeiros recomenda aos viajantes que se ausentem de Portugal o registo das suas viagens através da aplicação “Registo Viajante”, que facilita a ação das autoridades portuguesas perante a ocorrência de eventuais situações de emergência com cidadãos nacionais no estrangeiro. É também importante levar os documentos de identificação e viagem, como passaporte e cartão do cidadão, além de ter cópias dos documentos digitais. O site do Governo recomenda a verificação de necessidade de visto para o país de destino, e confirmar se os cartões multibanco ou de crédito são válidos no país para onde vai viajar. Contudo, ter algum dinheiro na moeda dos países que vai visitar ou fazer escala também é essencial para o caso de, por algum motivo, os cartões não funcionarem. Também é importante ter consigo o carregador de telemóvel com um adaptador de tomadas internacional e uma powerbank carregada.

Na mala de cabine, é importante que leve alguns itens que podem ser necessários no caso de ficar retido num aeroporto de escala, sofrer atrasos ou ter a bagagem extraviada ou perdida. Pelo menos uma muda de roupa, produtos de higiene, material para primeiros socorros e medicamentos para situações imprevistas e controlo de doenças ou condições de saúde. O site do Sistema Nacional de Saúde traz uma lista do que deve estar no “kit do viajante”, como, por exemplo, medicamento para dores ou febre, como o paracetamol, ou para alergias, como anti-histamínicos. É essencial ter atenção a medicamentos que demandam prescrição médica. O SNS recomenda que leve “em quantidade necessária para uma vez e meia o tempo da estadia, para poder fazer face a alguma emergência. Para além disso, é aconselhável que se faça acompanhar cópias das receitas prescritas, nas quais devem constar os princípios ativos dos medicamentos”. Também pode ser boa ideia incluir algum tipo de snack em formato viagem, desde que seja um alimento sólido, não perecível e preferencialmente embalado, como bolachas, barras energéticas ou frutos secos.

Já para evitar gastos excessivos se sofrer cancelamentos ou adiamentos repentinos, pode incluir a opção de cancelamento gratuito ou parcial ao comprar uma passagem, que pode ter um custo associado, ou também contratar um seguro de viagem que salvaguarde algumas situações inesperadas, como voos cancelados ou bagagem extraviada. “Situações como esta reforçam também a importância de reservar através de uma agência de viagens, que assegura acompanhamento permanente e apoio na gestão de eventuais imprevistos, garantindo maior tranquilidade e segurança aos clientes ao longo de todo o processo de viagem”, recomenda Pedro Quintela, afirmando considerar que “o setor do Turismo está altamente preparado para lidar com contextos de instabilidade e para reagir com rapidez sempre que necessário. A nossa orientação é que os viajantes planeiem as suas férias com normalidade, privilegiando sempre a marcação através de agências ou operadores reconhecidos, que asseguram acompanhamento permanente antes, durante e após a viagem.”

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