Foram cerca de 10 sessões e cinco dias de interrogatório cerrado em outubro de 2025. A sala de audiências chegou a ficar gelada devido à avaria do ar condicionado — e um advogado até sugeriu a evacuação em tom de brincadeira. Mas as declarações de Isabel Almeida, prestadas a 8 e 9 de outubro de 2025, foram explosivas e podem ter impacto no resultado final do julgamento do caso Universo Espírito Santo: pela incriminação de Amílcar Morais Pires por parte da ex-diretora do Departamento Financeiro, Mercados e Estudos (DFME) — o ‘coração financeiro’ do Banco Espírito Santo (BES).
Na hierarquia da alegada associação criminosa liderada por Ricardo Salgado, Isabel Almeida ocupa o terceiro lugar, logo atrás de Amílcar Morais Pires, ex-chief financial officer do BES e braço direito de Salgado. Para o Ministério Público (MP), que conseguiu a pronúncia da ex-diretora financeira do BES por 19 crimes, não há dúvida de que Isabel Almeida sempre agiu em conluio com Salgado e Morais Pires.
Quem é Isabel Almeida?
Ex-auditora da PwC durante dez anos, entrou no Banco Espírito Santo em 1995 a convite de Ricardo Salgado. No BES, chegou a diretora do Departamento Financeiro, de Mercados e Estudos e, em 2009, tornou-se assessora do Conselho de Administração, mantendo ligação ao grupo até 2016.
Vai a julgamento por 19 crimes: associação criminosa, corrupção passiva no setor privado, manipulação de mercado, cinco crimes de branqueamento de capitais e 11 de burla qualificada.
Perante a juíza Helena Susano (e com Amílcar Morais Pires a ouvir tudo, sentado no banco dos réus), Isabel Almeida transmitiu uma imagem muito diferente: falou em “traição” e num “abandono” de Morais Pires, afirmou que a autoria de diversos esquemas de financiamento fraudulento do GES denunciados pela acusação do MP pertence ao ex-CFO do BES e denunciou a “amnésia geral” dos “generais” (leia-se administradores do BES) que aprovaram todos os alegados esquemas. O “marechal” Ricardo Salgado não lhe mereceu palavras especiais de censura, mesmo quando a própria Isabel Almeida concluiu, após a falência do GES e a resolução do BES, que parte da tese do MP podia fazer sentido.
A juíza presidente Helena Susano não se deixou convencer por todas as explicações da ex-diretora do BES. Considerada uma profissional muito inteligente, organizada e trabalhadora, Isabel Almeida não conseguiu explicar por que razão sentiu necessidade de receber 2,8 milhões de euros (mais do dobro do que declarou em sede de IRS) de alegados salários e prémios numa conta na Suíça e em contas nacionais abertas em nome das suas filhas e pais.
O BRAX 1. Quem concebeu operação de substituição de dívida? “Foi o dr. Morais Pires”
No Universo Espírito Santo — artificialmente dividido entre uma área financeira (o BES) e a área não financeira (o GES) — proliferavam pequenas estruturas que apenas eram conhecidas de Ricardo Salgado e do seu pequeno círculo de leais colaboradores, como José Castella (já falecido), Amílcar Morais Pires (CFO do BES) e de Alexander Cadosch (líder da Eurofin). Essas pequenas estruturas opacas — essencialmente, sociedades offshore — que estiveram no centro dos mecanismos de alegado financiamento fraudulento do GES foram criadas pela Eurofin seriam geridas pelo DFME de Isabel Almeida, o que esta arguida nega.
À medida que as dívidas cresciam e, por consequência, as cadeias de financiamento se canibalizavam, essas sociedades offshore absorveram tudo à sua volta: o próprio grupo (que já estaria falido em 2009) mas, acima de tudo, a liquidez dos clientes do BES.
O que é a Eurofin?
A Eurofin está no centro do caso Universo Espírito Santo por ter criado uma rede de sociedades offshore que eram intermediários na compra e venda de títulos de dívida de várias empresas do GES e do próprio BES. O MP entende que a sociedade tem um papel de pivô nos alegados esquemas de financiamento fraudulento do GES e está na origem dos prejuízos do BES e dos seus respetivos clientes.
Alexander Cadosch foi pronunciado por 18 crimes, entre os quais associação criminosa, burla qualificada, branqueamento e manipulação de mercado, entre outros. A Eurofin, enquanto pessoa coletiva, também está a ser julgada.
As sociedades offshore em causa, como a EG Premium, a Martiz Brenan, Jarvis e a Zyrcan, entre muitas outras, foram utilizadas para captar recursos junto de clientes do BES para financiar a ESI e outras sociedades do GES entre 2001 e 2004. E a partir de 2004, face ao montante de dívida já emitida, passou a recorrer à EG Premium para emprestar fundos àquelas três sociedades.
A EG Premium chegou a 31 de dezembro de 2008 com 10 emissões de obrigações que tinham um peso de 754,3 milhões de euros: 735 milhões de euros em nominal e 19,3 milhões de euros de juros. E o seu único ativo eram os empréstimos de 734,9 milhões de euros que tinha feito à Zyrcan e à Martz Brenan.
https://observador.pt/especiais/como-salgado-usou-o-saco-azul-para-implementar-um-esquema-de-financiamento-fraudulento-do-ges/
Como a maturidade das obrigações emitidas seria atingida entre 2009 e 2012, o MP diz que a associação criminosa liderada por Ricardo Salgado teve necessidade de criar novos esquemas de financiamento fraudulento. E é aqui que entra o BRAX 1. O que é o BRAX 1? A juíza Helena Susano perguntou e Isabel Almeida respondeu — e disse quem era o autor da ideia.
IA: Sim, foi um plano de substituição de dívida da EG Premium. Eram obrigações e ações preferenciais emitidas por uma entidade que eu dizia que era um fundo. Não sei se era um fundo, se era uma companhia, a que o dr. Morais Pires se referia como sendo uma entidade que agregava interesses estratégicos de negócios. (…)
HS: Mas a substituição. Quem é que determinou esta substituição?
IA: Foi o dr. Morais Pires.
HS: Não é por acaso que a senhora doutora está a citar Morais Pires. Por que o faz?
IA: Porque foi ele que me apresentou…
HS: Pronto. Nada do que dizemos é ao acaso. E a senhora seguramente não diz, não é? Portanto, por que é que diz isso? Porque foi ele que lhe apresentou o plano? É da lavra dele? Este BRAX?
IA: O plano, sim, sim. É.
Na prática, o BES veio a emitir obrigações próprias — designadas de BES Finance — que seriam vendidas através da Zyrcan (gerida pela Eurofin) “aos seus clientes, por um preço superior ao da respetiva colocação em mercado. Os ganhos de liquidez com esta operação seriam empregues para a compra aos clientes do BES das obrigações EG Premium que estavam neles colocadas”, lê-se na acusação.
Tudo isto graças aos mandatos de gestão discricionária que, na prática, eram uma espécie de procuração passada pelos clientes para que o BES gerisse as suas poupanças como bem entendia — mas com o pressuposto de que tomaria as decisões de investimento no melhor interesse dos clientes.
O problema é que o esquema da EG Premium já tinha alcançado uma dívida de 965 milhões de euros e, como já referimos, não tinha capital para remunerar os clientes do BES que tinham adquirido essas obrigações. O objetivo da venda das obrigações BES Finance à Zyrcan por um preço superior era precisamente gerar uma mais-valia que serviria para comprar os títulos da EG Premium aos clientes.
Como a Zyrcan revendeu de seguida essas obrigações BES Finance por um valor inferior, ficou com uma menos-valia. O mesmo já tinha acontecido com o primeiro esquema da EG Premium que chegou a ter um total de perdas de 489 milhões de euros, além de perdas potenciais de 326 milhões de euros. Estes números foram apurados pela equipa liderada por Isabel Almeida e deixam claro que os clientes do BES tinham investido em lixo financeiro.
Daí a necessidade de resgatar estes títulos e do BRAX 1 — que é apelidado de “solução criminosa” pelo MP.
A ex-diretora financeira do BES, por seu lado, desmentiu ao longo do interrogatório que ela própria ou a sua equipa gerissem de facto os veículos da Eurofin. Contudo, uma das provas documentais mais fortes do MP no processo Universo Espírito Santo foram os mapas de liquidez (necessidades de financiamento) dessas sociedades criadas pela Eurofin encontrados nos computadores de funcionários do DFME.

Acresce que, três meses após o arranque do BRAX 1, o pedido de esclarecimento de um cliente do BES sobre um produto financeiro ligado à EG Premium fez soar alarmes. A resposta foi afinada num chat da Bloomberg, onde Nuno Escudeiro e António Soares, então funcionários do DFME, combinaram os argumentos a apresentar. É outro pormenor relevante: os funcionários do DFME e da Eurofin comunicavam entre si através de um sistema de comunicação codificado (o CITRIX/CPS) que nunca foi registado no BES, mas cujos registos foram encontrados na sede da Eurofin após buscas do MP Federal da Confederação Helvética, a pedido das autoridades portuguesas.
Ou seja, o BRAX 1 levou à emissão de nova dívida através das obrigações BES Finance. O capital arrecadado (1.190.134.174,83 euros, diz o MP na acusação) permitiu a recompra dos títulos EG Premium aos clientes BES e a extinção desta última dívida.
BRAX 2, o “Bacalhau” que reuniu os ganhos e a “imaginação extraordinária” de Morais Pires
Com o tempo, o BRAX 1 tornou-se obsoleto. As obrigações BES Finance usadas na primeira fase do plano deixaram de ter viabilidade para continuar porque incorriam no mesmo erro da EG Premium: não havia fundos que permitissem reembolsar os clientes. A razão era a de sempre: a EG Premium (ou a Martiz Brenan, a Jarvis ou a Zyrcan) eram meras sociedade veículo e não geravam riqueza.
Era necessária uma nova solução. E é aqui que entra em cena o BRAX 2, destinado a adquirir essas obrigações BES Finance e eliminá-las através da Zyrcan. Ou seja, novas emissões de dívida do BES foram criadas com a designação de BES Londres e BES Luxemburgo, a Eurofin comprou e revendeu, gerando-se assim receitas que permitiam à Eurofin adquirir as obrigações BES Finance.
Como a juíza Helena Susano tentou exemplificar em sentido figurado: “Eu vendo a minha casa ali à dra. Bárbara [Churro, juíza auxiliar] e depois vou comprá-la mais cara…”
Isabel Almeida fugiu à analogia mas explicou que a mais-valia que tinha sido conseguida com o BRAX 1 acabou por ‘desaparecer’ com o BRAX 2. Porque as obrigações BES Londres e BES Luxemburgo “regressaram à carteira do banco (…) ao valor líquido contabilístico registado. E, por isso, desfez-se aquele ganho que tinha permitido recomprar as EG Premium”. O que pode ser visto como (mais) uma confirmação da tese da acusação.
A razão para a ex-diretora financeira do BES estar tão à vontade pode-se prender com um pormenor relevante: o MP determinou que o esquema do BRAX 2 terá sido concebido numa reunião no dia 3 de dezembro de 2011 (um sábado) na sede do BES, em Lisboa, entre Amílcar Morais Pires, António Soares (subalterno de Isabel de Almeida) e Saúl Oliveira (funcionário do DFME que não foi acusado). A líder do DFME não participou nessa reunião.
Contudo, e para o MP, as coisas não são assim tão claras. A dado momento do interrogatório, a juíza Helena Susano confronta Isabel Almeida com um email de 22 de fevereiro de 2012, que lhe fora enviado por José Castella, então controller do GES e braço direito de Salgado, onde se lia: “Há luz verde de Ricardo Espírito Santo Silva para a operação BRAX 2. Quando pensa desencadeá-la? Beijinhos, Zé”.
HS: Quando se lê isto, parece que é a sra. dra. que está ao comando e decide quando é que isto se executa. Parece, mas a senhora agora esclarece.
IA: (…) a única razão pela qual pode ser o Departamento Financeiro a dizer quando é que isto vai começar é porque, efetivamente, as substituições só podem ocorrer nas datas em que se vencem as séries comerciais.
HS: E essa é que é a pergunta: se isso é sabido, qual o sentido desta pergunta “quando pensa desencadear?”. Não, a pergunta é: “Quando se vencem as primeiras emissões”? “Quando é que isto começa?” “Já tem a data aí da primeira?”.
IA: Provavelmente o dr. José Castella não sabia, não sabe, onde é que estas obrigações estão, onde é que estão as séries comerciais, ou as OSTs [Obrigações de Substituições de Títulos].
O esquema das obrigações BES Londres e BES Luxemburgo repetia o mesmo das obrigações BES Finance: os clientes do BES subscreveram cerca de 1,5 mil milhões de euros, tendo outro veículo gerido pela Eurofin comprado a dívida aos clientes por um valor superior ao da emissão — o que gerou uma mais-valia de cerca de 175 milhões de euros que foi utilizada para tapar outros ‘buracos’ da Eurofin, segundo o MP.
Os 1,5 mil milhões de euros serviam pra comprar as obrigações BES Finance que estavam nos clientes do BES — para evitar perdas para esses clientes, visto que o veículo não tinha fundos para pagar capital e juros — e revender por um valor inferior aos fundos BES Vida. No final, o que aconteceu?
- Os fundos BES Vida venderam os títulos BES Finance ao próprio emitente — o BES;
- Venderam de forma neutra para si (BES Vida), mas por um valor inferior ao da emissão.
- Quem foi prejudicado? O próprio BES.
Pormenor: as mais-valias de 175 milhões de euros conseguidas com o esquema das obrigações BES Londres e BES Luxemburgo foram calculadas num ficheiro informático que ficou conhecido como “ICE Bacalhau”.
IA: Eu acho que estes nomes foram batizados pelo dr. Morais Pires, não me lembro.
HS: Ah, o dr. Morais Pires era o homem da imaginação. E ICE Bacalhau?
IA: Esse então, eu nunca ouvi falar.
HS: Nunca? ICE Bacalhau?
IA: Nunca ouvi falar. (…)
HS: Mas pensa que poderá ter sido Amílcar Morais Pires, uma vez que foi ele o mentor deste plano?
IA: Claro. Sim. (…) Enfim, o dr. Morais Pires era uma pessoa imensamente competente. Era uma pessoa com uma imaginação extraordinária.
Mais tarde, já entre 2012 e 2013, veio ainda a ser executado o BRAX 3 — que consistiu na emissão de nova dívida do BES (denominada BES Luxemburgo) para financiar a substituição da carteira de três Special Purpose Vehicle (SPV) do Credit Suisse que eram geridos pelo BES. Estava em causa a substituição de títulos de dívida da EG Premium, ESCOM, ESI e ES Turismo por novas obrigações do BES Luxemburgo. Operações que agravaram os buracos dos veículos da Eurofin e a situação financeira do BES.
O que são os SPV - Special Purpose Vehicle do Credit Suisse?
Chamavam-se Euroaforro, Poupança Plus e Top Renda e eram três sociedades criadas no centro offshore da ilha de Jersey pelo Credit Suisse nos primeiros anos da década de 2000 com o enquadramento de Special Purpose Vehicle (SPV). Apesar de terem sido criados pelo Credit Suisse, e de serem administrativamente geridos por entidades ligadas a um ex-funcionário do GES (Karl Sanne), a sua gestão era assegurada, segundo o Ministério Público, por elementos do DFME.
E o que é um SPV – Special Purpose Vehicle? Conhecido pela sigla inglesa SPV, refere-se a empresas com personalidade jurídica que também são reconhecidas como sociedade veículo. Isto é, trata-se de sociedades que são criadas apenas e só para um determinado propósito; não têm uma atividade geral, nem receitas próprias.
O “pecado original” do GES e a reunião em que Isabel Almeida ficou “sem pinga de sangue”
A Espírito Santo International (ESI), a principal holding do Grupo Espírito Santo já estava tecnicamente falida em 2009, apesar de continuar a vender dívida a clientes do BES. Tinha capitais próprios negativos de 961,9 milhões de euros e resultados negativos transitados de 1,2 mil milhões de euros. Três anos depois, com Portugal mergulhado numa crise e sob intervenção externa, os capitais próprios negativos da ESI já ascendiam a 1,6 mil milhões de euros. E o buraco não parou de crescer até à insolvência oficial da ESI e de outras holdings do GES e à resolução do BES de 2014.
A alegada falsificação da contabilidade é uma das imputações mais graves da acusação do caso Universo Espírito Santo — e que provavelmente nunca será sancionada criminalmente, como o Observador noticiou. Porque o crime de falsificação de documento é uma bagatela penal, tem uma pena reduzida e prescreve com relativa rapidez.
https://observador.pt/especiais/crimes-de-falsificacao-da-contabilidade-do-ges-e-atos-que-provocaram-prejuizos-de-933-milhoes-de-euro-ao-bes-vao-prescrever-no-final-de-2024/
No final de novembro de 2014, Isabel Almeida e Morais Pires foram chamados a uma reunião que incluía Francisco Machado da Cruz, o famoso comissaire aux comptes do GES, José Castella, o controller do GES, e Ricardo Salgado. Estava já em curso o exercício ETRICC — Exercício Transversal de Revisão das Imparidades dos Créditos Concedidos a certos Grupos Económicos, determinado pelo Banco de Portugal e, segundo a ex-diretora, Ricardo Salgado fez disparar os alarmes: “Temos um problema: faltam passivos nas contas do GES”. Machado Cruz mostrava listas com sublinhados, indicando as emissões em falta.
IA: Confesso que já vi muita coisa na minha vida, mas nunca tinha visto haver omissão de passivo. Nem conseguia alcançar como é que isso seria possível. O dr. Ricardo nessa mesma reunião disse ‘Bom, mas isto é com certeza um erro ou seja, falta passivo, mas também falta ativo’. Essa reunião foi muito breve, eu confesso que fiquei sem pinga de sangue, fiquei muito preocupada.
HS: Porquê?
IA: Porque estávamos a colocar papel comercial nos clientes… Enfim, não era o papel comercial diretamente colocado nos clientes, porque já de trás vinha a colocação do papel comercial dentro dos fundos. Sendo os fundos ou sendo diretamente o efeito, era exatamente o mesmo.
A certeza da juíza sobre a “confissão” do ex-contabilista: “Eu, euzinho omiti passivo”
No dia seguinte a ter ficado “sem pinga de sangue”, o “problema” (um eufemismo para a falsificação das contas da ESI) precipitou outra reunião, desta vez mais alargada, com a presença de Joaquim Goes e Carlos Calvário. Nesta ocasião, Isabel Almeida recorda-se de a questão ter sido apresentada com alguma esperança (“Faltam aqui ativos, mas vai-se resolver”, dizia Ricardo Salgado) e diz ter acreditado na tese de que se tratava apenas de um erro, apesar de ter ficado “muito preocupada”.
Questionada sobre a forma como Morais Pires enfrentou “o problema”, Isabel Almeida defendeu o seu ex-chefe: “Ficou como eu: estupefacto (…) ele não teria deixado colocar papel comercial [nos clientes do BES] se alguma vez soubesse que havia um problema nas contas do GES. Essa é a minha convicção muito, muito profunda”.
Apesar de defender Morais Pires, Isabel Almeida referiu-se ao “erro nas contas do GES” como um “pecado original”. O que levou a juíza Helena Susano a dirigir-se a Francisco Machado da Cruz, que estava presente na audiência — como está praticamente em todas as sessões de julgamento. Naquele dia também tinha a companhia de Morais Pires — que não é tão assíduo nas audiências como Machado da Cruz, mas que fez questão de assistir ao interrogatório de Isabel Almeida.
https://observador.pt/especiais/o-depoimento-secreto-do-contabilista-do-bes-machado-da-cruz-se-eu-dissesse-a-verdade-o-dr-ricardo-e-o-ges-teriam-caido/
HS: Mas esse pecado original, sra. dra. tem um nome… Ou vários. A quem pertence esse pecado original da ocultação do passivo? Está ali Francisco Machado da Cruz — que já disse que ‘sim senhor, eu ocultei’. Já o disse aqui. Não mandou dizer por ninguém. E pode haver outras pessoas que, não estando ali sentadas, que também, devessem ou pudessem levantar a mão.
Mas, antes que a ex-diretora pudesse responder, Machado da Cruz ‘entrou’ no interrogatório pela voz do seu advogado presente. Miguel Cordovil de Matos informou que o interrogatório de Machado da Cruz em tribunal (aqui descrito pelo Observador) não tinha valor probatório porque o ex-comissaire aux comptes tinha interrompido as suas declarações antes de ser alvo de contraditório pelos advogados de outros arguidos.
HS: Oh, sr. dr., vamos lá ver uma coisa. O que eu disse aqui foi que as declarações valem o que valem naquela parte, e isso é uma questão de direito, não vamos agora discutir aqui nem interromper, naquela parte em que responsabiliza outros. Francisco Machado da Cruz disse: “Eu, euzinho, omiti passivo”. E esta parte, Francisco Machado da Cruz assumiu. sr. dr., acha que não?
Advogado Miguel Cordovil Matos (MCM): Eu acho que não. Faço só este alerta.
HS: E ele até está a dizer que “sim” com a cabeça [referindo-se a Machado da Cruz que estava a assistir à audiência no banco dos arguidos]. A dizer que sim, assumiu que ocultou passivo. Aliás, que é público. E só se responsabiliza nessa matéria.”
Os pagamentos do saco azul do GES a Isabel Almeida. “Vamos falar de prémios, sra. dra.?”
Foi uma das grandes novidades da acusação do Ministério Público de julho de 2020: Ricardo Salgado — que, entretanto, foi condenado de forma definitiva por ter corrompido Manuel Pinho enquanto ministro da Economia de José Sócrates, terá igualmente e alegadamente corrompido os seus próprios funcionários do BES para promoverem e executarem os financiamentos fraudulentos.
A partir de contas no Banque Privée Espírito Santo, abertas em nome de sociedades offshore como a Espírito Santo (ES) Enterprises — mais tarde denominada Enterprises Management Services —, a Alpha Management (com sede nas Ilhas Virgens Britânicas), a Balenbrook (do Panamá) e a Clauster (sediada no Belize) —, Salgado terá dado ordens de transferência num total de 56,8 milhões de euros para administradores como Morais Pires, mas também para diretores como Isabel Almeida. São os pagamentos do famoso saco azul que foram alvo de uma investigação do Observador publicada em janeiro de 2018.
https://observador.pt/especiais/os-documentos-do-saco-azul-do-ges-20-milhoes-a-mais-de-50-altos-funcionarios/
Os pagamentos tiveram origem em operações de emissão de dívida que foi colocada nos clientes do BES e são vistos pelo MP como uma prova de “lealdade” dos membros da “associação criminosa” liderada por Ricardo Salgado, e levaram à imputação do crime de corrupção no setor privado ao ex-líder do BES (na sua forma ativa) e a Morais Pires e Isabel Almeida e a outros quadros do BES (na forma passiva).
A visão dos arguidos é outra e a designação “prémios” anuais que eram devidos é a explicação mais corrente de diversos arguidos.
“Vamos falar de prémios, senhora doutora?” — foi assim, de forma diplomática e utilizando léxico dos arguidos (e não do MP) que a juíza presidente Helena Susano optou por abordar o tema. O tema era quente e, ironicamente, foi abordado na sessão do julgamento em que o ar condicionado do Campus de Justiça se avariou. A juíza confrontou Isabel Almeida com os quadros das transferências que beneficiou da Enterprises Management Services (antiga ES Enterprises) e da Alpha Management em contas nacionais, mas também numa conta que a própria diretora do BES tinha aberto na Union des Banques Suisses (UBS), em Zurique.
Isabel Almeida recebeu cerca de 2.854.259,03 euros da Enterprises Management Services, Alpha Management e Bank Espírito Santo International Limited (sociedade offshore das Ilhas Caimão) entre 2008 e 2014. Problema: Isabel Almeida era contribuinte residente em Portugal e, segundo o MP, apenas declarou rendimentos de 1.306.855,21 euros — uma diferença de cerca de 1,5 milhões de euros.
Os “prémios” que eram o triplo do salário — e as contas abertas em nome das filhas e dos pais
Isabel Almeida tentou jogar com a informação que estava descrita nos quadros que a juíza Helena Susano estava a mostrar em audiência. A então diretora financeira do BES abriu várias contas no banco BBVA em Portugal em seu nome, mas também em nome das suas filhas e dos seus pais. E era nestas contas que recebia cerca de 1.750 euros mensais com base em contas suíças da Enterprises Management Services e, mais tarde, da Alpha Management.
Contudo, Isabel Almeida também recebeu na UBS em Zurique um valor anual com origem nas mesmas sociedades offshore controladas por Ricardo Salgado:
- 174.250 euros em 2008;
- 300.000 euros em 2009;
- 437.000 euros em 2010, sendo que em Portugal recebeu mais 74 mil euros. Os cerca de 1.750 euros mensais passaram a cerca de 9.000 euros em alguns meses;
- os mesmos 437.000 euros em 2011 e os mesmos cerca de 74 mil euros em Portugal
- cerca de 600 mil euros em 2012 e mais 30 mil euros nas contas nacionais, sendo que 14 mil eram da Espírito Santo Financial Group (ESFG), a subholding que titulava a participação da família Espírito Santo no BES;
- cerca de 600 mil euros em 2013, sendo agora paga pela Alpha Management, com a ESFG a transferir mais 42 mil euros em Portugal.
A juíza Helena Susano confrontou Isabel Almeida com toda esta informação e com uma carta de quitação da holding Espírito Santo International (ESI) que atestava que o pagamento era feito em nome de “serviços” prestados pela então diretora do DFME à ESI.
HS: (…) Quer explicar-me isto?
IA: Enfim, a partir do momento em que estas remunerações passaram a ser declaradas de uma forma regular em Portugal era necessário um documento que suportasse os bónus que eram pagos. E aquilo que o doutor Morais Pires me disse na altura foi que isto [a carta da ESI] era aquilo que era possível ter.
HS: Era o dr. Morais Pires que determinava os seus prémios? Isto é um prémio?
IA: É, isto é um prémio. (…) Eu preparava uma folha com os resultados, com a análise dos resultados, com o valor do bónus do ano anterior, com as pessoas, não é? Do departamento financeiro. E, pronto, ele [Morais Pires] depois dizia que ia falar com o doutor Ricardo [Salgado]. E depois regressava com os valores [prémios] que eram atribuídos. (…)
Isabel Almeida explicou os valores recebidos do saco azul do GES de duas formas: prémios atribuídos por Morais Pires devido aos resultados do DFME e componente fixa do salário no BES. “O meu ordenado era muitíssimo baixo. E por isso, enfim, tinha uma remuneração variável que compensava esse valor“, comparando a sua remuneração, “muito inferior”, com os salários praticados no BCP.
A juíza Helena Susano não se mostrou muito convencida, até porque há incongruências que Isabel Almeida não explicou:
- por que razão recebia a componente variável do seu salário em contas do BBVA abertas em nome das suas filhas e pais;
- por que razão recebia os prémios numa conta aberta num banco suíço — e não recebia todos estes valores em contas do seu próprio banco, o BES?
- e qual o racional de parte dos prémios anuais representarem o “triplo do salário”? Em 2012, por exemplo, Isabel Almeida recebeu de salário anual 163.657,31 euros e um prémio de 615 mil euros.
Usando uma das suas armas habituais — o sarcasmo —, a juíza Helena Susano explorou essas incongruências.
HS: Nunca recebeu valores em contas das suas filhas?
IA: Eram minhas.
HS: Eram suas, mas elas [as filhas] eram menores. Portanto, eram suas e delas. Elas eram também titulares da conta. (…) Sabe perfeitamente que os menores até podem ter uma conta aberta, onde os avós e os tios vão depositando nos aniversários, etc, etc. Menos regular será, digo eu, daquilo que eu conheci na minha vida, que nós recebamos valores que são pagos da entidade patronal nessas contas. É natural que a sra. dra. também tivesse de ser titular mesmo, na medida em que elas eram menores.
IA: Certo. Sim, mas também aconteceu com os meus pais. Porque eram poupanças, eram valores.
HS: Mas aconteceu com os seus pais o quê, sra. dra.?
IA: Também receberam valores. E eram contas onde eu também era titular.
HS: E a sra. dra. acha isso normal, receber valores [de salários] em contas que eram suas e dos seus pais?
IA: Que queria dar aos meus pais, sim.
HS: Ah, eram valores que queria dar, que oferecia aos seus pais?
IA: Exato. Quer dizer, eram valores que estavam em contas conjuntas e que eu queria que eles usassem, óbvio, na medida das suas vontades. Mas eram contas conjuntas, eu não paguei ou não dei instruções para pagamento de nenhum valor para contas que não fossem, em que eu não fosse titular.
HS: Pronto. Portanto, a sra. dra. entende que receber numa conta cotitulada com os seus pais (o que se compreende, não é isso que está aqui em questão) ou cotitulada com as suas filhas, mas receber valores da entidade patronal… acha que isso é uma coisa absolutamente normal, certo?
IA: Não, quer dizer, não é nem normal, nem anormal.
HS: Ou é normal, ou é anormal.
IA: Não, não tem nada de anormal.
HS: Pronto, então é normal. É uma situação da vida regular. Está bem.
Os dias do fim: “Ó Amílcar, não me faça isso!”
Na noite do dia 3 de agosto de 2014, Carlos Costa, à data governador do Banco de Portugal (BdP), anunciou a derrocada do grupo de Ricardo Salgado. Tudo tinha começado a cair muito tempo antes, mas a nova administração do BES, liderada por Vítor Bento (que substituiu Salgado como líder do BES por pressão do BdP), divulgou os resultados semestrais e o choque não podia ser pior: o maior prejuízo de sempre na história empresarial portuguesa, no valor de 3.600 milhões de euros. Apenas dois meses antes, milhares de investidores tinham subscrito o último aumento de capital do BES.
Até hoje, mesmo com o BES morto, todos os anos o buraco cresce com os juros de dívida emitida que está na mão de investidores que não estão a ser pagos. Em 2024, aproximou-se dos 11 mil milhões de euros, depois de somar mais 400 mil euros de prejuízos apenas naquele ano, noticiou o Expresso.
Regressemos ao passado — e às últimas semanas de julho de 2014, antes da apresentação dos resultados que espelharam a verdade das contas do banco. Como se não bastassem todos os buracos já descritos — e que são uma pequena amostra do alegado financiamento fraudulento do GES —, havia um novo esquema descoberto por essa altura: o BES Ordens.
Tratava-se de uma plataforma de negociação direta de títulos criada para colocar obrigações do BES nos clientes e evitar episódios de reembolso forçado. Além das transações serem “artificialmente” animadas pelo DFME através dos veículos da Eurofin, o MP considera igualmente que houve mesmo falsificação grosseira dos valores da cotação dos títulos na plataforma informática.
Por tudo isto, a reunião do Conselho de Administração do BES, marcada para 25 de julho, transformou-se num verdadeiro passa-responsabilidades entre os “generais” de Ricardo Salgado (como Isabel Almeida se referia aos administradores do banco). A diretora financeira do BES já tinha sido questionada sobre o desaparecimento das receitas geradas pelas emissões de dívida dos veículos EG Premium, Zyrcan, Martz Brenan e outras sociedades offshore criadas pela Eurofin, mas não soube responder.
Mas nessa reunião de 25 de julho, e perante a “amnésia geral” de alguns dos “generais” de Salgado, Isabel Almeida diz ter contado tudo. Só não tinha contado antes porque não tinha toda a informação em seu poder. Afirmou ter trabalhado “exaustivamente” com a sua equipa do DFME e, em menos de 24 horas, apurou a informação que, assegura em sua defesa, nunca tinha tido antes.
IA: Eu estava a ser diretora financeira, CFO, enfim, a dar a cara pelo Banco em todos os fóruns, porque o administrador que estava lá como CFO [João Moreira Rato] passava o dia no Banco de Portugal, enfim, e coitado não tinha experiência sequer de gerir um banco naquelas águas turbulentas.
O meu administrador, demissionário [Amílcar Morais Pires], também decidiu que já não estava lá, porque estava a ser maltratado, e por isso decidiu abandonar o barco. E eu entendi que deviam ser eles, devia ser ele, o Amílcar Morais Pires e o Doutor Ricardo [Salgado], da anterior administração, a explicar porque todos os outros que estiveram nesta reunião, e alguns eram da administração anterior, pareciam que estavam a ouvir tudo aquilo pela primeira vez. (…)
Vivíamos um período, provavelmente o meu pior período profissional, para mim e para a minha equipa, estávamos completamente sozinhos, não tínhamos administrador em funções. O dr. Morais Pires nessa altura ainda estava no banco, só se demitiu no dia 25 [de julho], mas, de facto, não estava presente desde há muitas semanas, tinha pura e simplesmente abandonado o barco.
E nós estávamos a perder 6 mil milhões de depósitos, 8 mil milhões de recursos, eu acho que ninguém sabe o que é que isso significa num banco, graças a Deus, e eu espero que nunca mais, nunca ninguém volte a saber.
Além de ter contado tudo à nova liderança de Vítor Bento, Isabel Almeida fez uma segunda coisa: ligar a Morais Pires. O que fez a 29 de julho.
Depois de lhe transmitir o que se havia passado na Comissão Executiva e de o ter informado de que não revelara que haviam sido os próprios a conduzir as operações da Eurofin, Isabel Almeida cobrou a lealdade do chefe de quase 20 anos. Perante uma postura “cuidadosa”, houve uma ameaça de “bomba” feita pela própria, assente na compra indefinida de obrigações pelo BES.
HS: A sôtora diz que tem ali uma bomba. (…) Não é a sra. dra. que tem a bomba, é o Banco. Ou é a senhora?
IA: Sim, eu tenho uma bomba, porque, enfim, eu estava sozinha…
HS: Mas a responsabilidade era de quem? Para dizer ‘eu tenho’, percebe?
IA: Eu falava assim ‘eu tenho uma bomba’, ‘eu estou a perder depósitos’, eu, sabe? Era eu que estava ali, não era mais ninguém.
Na chamada telefónica, ficou claro para Isabel Almeida que, embora Morais Pires tivesse atendido, já não estava ninguém do outro lado da linha. Como a juíza Helena Susano resumiu, Isabel Almeida sentiu-se “abandonada” pelo ex-CFO. “Lembro-me perfeitamente de ter dito para o Morais Pires vir explicar o veículo do Credit Suisse e ele me dizer ‘não sei do que é que está a falar’. (…) O António Soares estava à minha frente, ouviu e ficou estupefacto. Como é que era possível?”, afirmou.
A partir da escuta telefónica, a juíza assinalou, porém, que a conversa parecia apontar para uma leitura diferente da defendida pela arguida. Em várias passagens, observou, Morais Pires dava a entender que a decisão não tinha partido dele, nem resultara de uma ação conjunta assumida. Mais: o tom do diálogo parecia colocar a responsabilidade do lado de Isabel Almeida.
HS: Parece que é da sua lavra, dra. Isabel. Claro, no interesse superior, não está em questão, do dr. Ricardo, mas parece que não é o Morais Pires que intervém aqui para fazer nada. ‘Você trocou. Você tem de ir falar com ele. Você altruisticamente é que fez isto’. Porque a sôtora tem estado a dizer sempre: ‘Mas foi ele que me disse para fazer isto, (…) ele deu-me as instruções’.
IA: E é verdade.
HS: Mas nessa conversa eu não retiro isso. Ou então diga se retiro e onde.
IA: O dr. Morais Pires estava claramente a ser cuidadoso em toda a conversa. (…)
HS: Nesta conversa a sôtora responde assim, ‘Ó Morais Pires, não me faça isso. Não me faça uma coisa dessas’.
IA: Eu estava chocada. Ele estava preparado, se calhar, para esta sessão que está a acontecer agora aqui. Ele já estava preparado nesta altura. Eu não. Eu estava lá, enfim, a falar com o meu administrador. E eu nem sequer queria acreditar.
Posfácio: o testamento de Isabel Almeida após a morte cerebral do BES
Depois do verão quente, numas notas escritas após a resolução do banco, algures no inverno de 2014, Isabel Almeida ensaiou uma reflexão sobre a morte do BES.
Não eram apontamentos contemporâneos dos acontecimentos, explicou no interrogatório, mas pensamentos registados a posteriori, já influenciados pela informação que entretanto se tornara pública, incluindo o relatório da KPMG. Nessas páginas de pensamentos tardios sobre o que tinha acontecido no universo do GES surge uma conclusão escrita de forma direta, algo que terá sido escondido durante mais de 10 anos: a Eurofin era o próprio GES — umas das teses fundamentais da acusação do MP.
HS: Então, a Eurofin era o próprio GES?
IA: Não, eu não disse que era o próprio GES, mas que tinha ativos. Há pouco disse e mantenho: a Eurofin tinha, na sua essência, ativos que tinham transitado do BES e do GES.
HS: Mas, quando eu digo que “a Eurofin era o próprio GES”, eu interpreto, o leitor comum, o homem normal, que as coisas são o mesmo.
IA: Certo. Isto também são reflexões minhas numa fase do processo em que eu também estava a aprender.
HS: Mas era esta reflexão?
IA: Não. Com base nos documentos que já vi, enfim, se calhar não, se calhar tem BES e GES.
HS: A senhora está-me a dizer “nim”, nem sim nem não.
No interrogatório a certeza gravada no caderno apreendido pela investigação desvanece nas palavras ditas à juíza: “A Eurofin tinha, de facto, ativos que tinham a ver com BES e com GES. Por exemplo, reestruturação de créditos que estavam no BES. Não eram GES, eram BES”.