Em 3652 dias de presidência, Marcelo Rebelo de Sousa construiu uma marca política singular em Portugal: proximidade constante com os cidadãos, forte presença pública e um estilo comunicativo que lhe valeu o epíteto de “Presidente dos afetos”. Desde a tomada de posse em março de 2016, o chefe de Estado privilegiou o contacto direto — nas ruas, em praias, feiras ou cerimónias — transformando a Presidência numa presença quase quotidiana no espaço mediático e social do país, com tudo o que isso tem de bom e mau.
Ao longo de dois mandatos, Marcelo atravessou momentos críticos da vida nacional. Entre eles estiveram os devastadores incêndios de 2017, a pandemia de Covid-19, várias crises políticas e a dissolução da Assembleia da República por duas vezes, que conduziu a eleições antecipadas.
Em 5 de dezembro de 2021, Marcelo decidiu dissolver o parlamento depois de a Assembleia ter chumbado o Orçamento do Estado para 2022, apresentado pelo governo de António Costa. A decisão levou à convocação de eleições legislativas antecipadas em 30 de janeiro de 2022, que acabaram por dar maioria absoluta ao Partido Socialista também de António Costa.
A segunda dissolução aconteceu em 9 de novembro de 2023, após a demissão de António Costa no contexto de uma investigação judicial que afetava membros do governo e o próprio primeiro-ministro. Marcelo optou por dissolver o parlamento e convocar eleições legislativas para 10 de março de 2024 que deram a vitória a Luís Montenegro.
Um dos episódios mais sensíveis do segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa foi o caso das gémeas, que ganhou grande visibilidade pública em 2023 e 2024. A polémica envolveu o acesso de duas crianças luso-brasileiras a um tratamento caro no Serviço Nacional de Saúde, com diligências que teriam incluído contactos do filho do Presidente e o próprio pai através da sua casa civil. O caso levou a audições parlamentares, durante as quais o filho de Marcelo foi chamado a depor, mas acabou por não prestar declarações perante os deputados. Apesar de Marcelo ter negado qualquer intervenção irregular, o episódio tornou-se um dos momentos mais embaraçosos da sua presidência, suscitando debate sobre transparência, influência e igualdade no acesso à saúde.
A dimensão internacional também marcou o seu percurso. Em dez anos, realizou 175 viagens oficiais a 59 países, reforçando relações diplomáticas e mantendo uma atenção particular ao mundo lusófono e às comunidades portuguesas emigrantes. Visitas a países africanos de língua portuguesa, ao Brasil (uma delas polémicas, ao não ser recebido por Bolsonaro, já que se encontrou primeiro com Lula) e a várias comunidades na Europa e na América tornaram-se momentos recorrentes da sua agenda externa.
No plano político interno, conviveu com diferentes equilíbrios parlamentares e governos, desde a chamada “geringonça” liderada por António Costa até à maioria absoluta socialista saída das legislativas de 2022, assistindo ao crescimento do Chega que acabou por se tornar na segunda força do Parlamento.
A popularidade do Presidente assentou em grande medida na sua omnipresença e na facilidade de comunicação com os cidadãos. Banhos de multidão, selfies e abraços tornaram-se imagem de marca, refletindo uma presidência muito mediática. Esse estilo também gerou críticas de quem considera que a exposição constante diluiu a distância institucional tradicional do cargo.
Passada uma década, os dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa ficam associados a um período intenso da história recente portuguesa, marcado por crises, mudanças políticas e desafios globais, e por uma presidência que privilegiou a empatia e a proximidade. 175 viagens, 59 países e 3 652 dias depois, o “Presidente dos afetos” deixa um retrato singular da forma como ocupou o Palácio de Belém.
Recordamos nestas imagens os dois mandatos do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
































































































































































































