Há episódios na história medieval portuguesa que parecem saídos de uma narrativa que desafia a lógica. O que sucedeu à rainha D. Teresa no verão de 1120 (ou 1121) é um desses casos. Diante da invasão do território portucalense pela rainha Urraca de Leão, sua meia-irmã, a mãe de Afonso Henriques viu-se obrigada a procurar refúgio num castelo. Escolheu a fortaleza de Lanhoso, a cerca de 20 Km a norte de Braga, mais pela segurança que aquela fortificação oferecia do que pela proximidade em relação ao seu solar em Toronho (Tui), de onde teve de partir.
Quem hoje visita o castelo de Lanhoso questiona-se como pôde aquela fortaleza constituir abrigo eficiente para a rainha e seu séquito. O baluarte é diminuto, dispõe de uma só torre (convertida hoje em acolhimento, loja, centro interpretativo e miradouro) e, mesmo equacionando a existência de estruturas habitacionais em madeira, dispersas pelo pátio e adossadas aos muros interiores, nunca aquele recinto poderia acolher mais do que algumas (poucas) dezenas de pessoas.
Dava-se ainda o caso de a rainha ter encontrado asilo num castelo mandado construir por D. Pedro, primeiro bispo da diocese restaurada de Braga em finais do século XI. Já parece estranho que a fortaleza capaz de garantir a segurança da rainha tivesse sido erguida por um titular da Igreja. Mais estranho era o facto de a catedral construída por aquele mesmo bispo ter sido mandada incendiar por D. Teresa alguns anos antes, e de o titular da cátedra bracarense naquele ano de 1120, D. Paio Mendes da Maia, ser um declarado inimigo da rainha portucalense.
Finalmente, a estadia no castelo de Lanhoso motivada pela invasão leonesa não foi a última ocasião em que D. Teresa se viu forçada a subir aquele escarpado penedo. Oito anos depois, o mesmo castelo viu uma derrotada rainha entrar nas suas portas, desta vez para não mais pisar terra portucalense.
O castelo de Lanhoso
A sensação de relevância estratégica do sítio onde se ergue o castelo é imediata para quem se aproxima. Hoje, facilitados os acessos, já não é preciso escalar a íngreme via que circundava o morro pelos lados nascente e norte. Para além disso, o denso arvoredo atual camufla visualmente o facto de a fortaleza coroar o maior monólito granítico da Península Ibérica. Este impressionante penedo de quase 400 metros de altitude possui superfícies verticais que formam defesas naturais em três dos seus lados.
Um primeiro forte foi construído nos séculos IX-X, quando este território foi colonizado por nobres asturianos. Essa fortificação foi reconstruída no final do século XI por um inusitado protagonista: o bispo D. Pedro (1071-1091). A memória do prelado foi comemorada por uma inscrição no exterior do castelo, no início da escadaria de acesso à única porta do recinto, à vista de todos que ali passam.
Pode parecer pouco habitual que um alto titular da Igreja se tenha empenhado na construção de um reduto militar. Naquela época, o território portucalense tinha várias torres, mas poucos castelos. A ação do bispo bracarense foi contemporânea de idêntica iniciativa protagonizada pelo conde D. Henrique no castelo de Guimarães, por exemplo, o que melhor explica a centralidade de Lanhoso para quem procurava a segurança das muralhas de pedra. Mesmo que o recinto definisse um perímetro com pouco mais de 200 m2.

D. Urraca I, de Leão, meia-irmã de Teresa, mãe de Afonso Raimundes e tia de Afonso Henriques (Fonte: Wikipédia).
A invasão leonesa de 1120 (ou 1121)
O reinado de Urraca de Leão (1109-1126) foi marcado por traições, reviravoltas, súbitas mudanças de lado e alianças tão conjunturais quanto efémeras. Viúva do conde D. Raimundo, de quem teve um filho (futuro Afonso VII), casou depois com Afonso I de Aragão, com quem se enfrentou militarmente em várias ocasiões, mesmo durante o casamento. Urraca foi uma rainha em tempo de homens. Lidou com a ambição de reis, condes, nobres e bispos e enfrentou a tentativa de sua meia-irmã em restaurar o reino da Galiza.
Do lado portucalense, parcela autonomizada da Galiza em 1096 por gestão estratégica militar da fronteira Sudoeste face ao perigo almorávida, a história de Teresa tem muitas semelhanças com a de sua meia-irmã. Viúva desde 1112, a condessa e futura rainha sustentou alianças com membros muito diferentes da nobreza galega e portucalense e procurou o apoio do arcebispo de Compostela contra os bispos de Braga, dioceses em constante contraciclo naquele período.
Em 1116, Urraca foi cercada no castelo de Sobroso por tropas portucalenses e galegas, lideradas por Pedro Froilaz de Trava e Gomes Nunes de Pombeiro, com o apoio de D. Teresa e do arcebispo compostelano Diogo Gelmires. Quatro anos depois, os papéis inverteram-se. Teresa, ocasionalmente isolada e incapaz de combater o exército leonês, refugiou-se em Lanhoso, de onde assistiu à devastação do território portucalense. O principal beneficiado daquela incursão foi o bispo de Braga, D. Paio Mendes da Maia, homem da média nobreza local e profundo conhecedor da política regional. A 17 de junho, certamente quando Teresa ainda estava cercada no penhasco de Lanhoso, Urraca e o filho, Afonso Raimundes, confirmaram e ampliaram o couto da Sé bracarense.

A condessa-rainha D. Teresa, meia-irmã de Urraca, mãe de Afonso Henriques (Fonte. Wikipédia).
Diogo Gelmires foi encarcerado por Urraca em 1121 e o mesmo destino teve Paio Mendes, no ano seguinte, por decisão de D. Teresa. Possivelmente para punir o bispo pelo apoio concedido a Urraca durante a invasão da terra portucalense, a rainha repetia, em moldes porém mais brandos, o castigo imposto à Sé de Braga 13 anos antes. Em 1109, D. Maurício Burdino, recém-nomeado bispo de Braga, deslocou-se a Leão para a coroação da rainha Urraca, aí firmando pelo menos dois documentos. Tal comportamento mereceu a ira dos condes portucalenses, cujos maiorinos (principais homens de armas) incendiaram a igreja e o claustro e danificaram drasticamente o edifício.
Os acontecimentos do Verão de 1120 (alguns autores indicam 1121, o que é menos provável) levaram Teresa a tomar medidas autonómicas mais afirmativas. Intitulava-se rainha desde 1117, mas a fragilidade sentida na solidão do rochedo de Lanhoso tê-la-á levado a confiar a defesa do território portucalense aos aliados galegos, a dois irmãos da família Trava, ambos documentados na cúria portucalense a partir de inícios de 1121. Bermudo Peres de Trava casaria com Urraca Henriques, filha de D. Teresa, e teve a tenência de Viseu (mais tarde a de Seia, já no reinado de Afonso Henriques). Fernão Peres de Trava, pai de quatro filhos de D. Teresa, governou Coimbra e Soure, sendo nomeado várias vezes como conde da rainha.

D. Afonso Henriques (Fonte: Wikipédia).
Este mais claro projeto galego foi derrotado na batalha de São Mamede, em 1128, mas a sua inviabilidade fora demonstrada por Afonso VII no ano anterior, quando cercou o castelo de Guimarães enquanto Teresa e Fernão Peres de Trava se recusaram a combater. O rei leonês tinha o apoio de Diogo Gelmires e do patriarca da família Trava, seu preceptor na infância. Alguma nobreza portucalense já se tinha afastado do partido galego e até o bispo de Braga viria a apoiar Afonso Henriques, o novo protagonista dos anseios autonómicos regionais contra os senhores galegos. A via galaica-portucalense extinguiu-se em 1128, separando definitivamente (?) os destinos de Portugal e da Galiza. Teresa partiu para o exílio. É provável que a sua última estadia na terra portucalense tenha sido o alto e solitário rochedo de Lanhoso, onde se acolheu depois de privada dos títulos de condessa e de rainha. Morreu dois anos depois.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
