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(A) :: À procura de ser herdeiro do MAGA, JD Vance torna-se camaleão de política externa e arrisca apoio de uma base fiel

À procura de ser herdeiro do MAGA, JD Vance torna-se camaleão de política externa e arrisca apoio de uma base fiel

Veterano do Iraque, Vance é um assumido anti-intervencionista que consolidou um perfil de política externa dentro da administração. Mas, leal a Trump, reformula a postura para apoiar ataque no Irão.

Madalena Moreira
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Donald Trump está sentado no topo de uma mesa, numa sala rodeada de cortinas negras. Atrás do Presidente norte-americano está um mapa do Médio Oriente. À sua frente, do outro lado da mesa, vários ecrãs, onde acompanha em direto os ataques dos Estados Unidos no Irão, a partir de Mar-a-Lago. À volta da mesa sentam-se os membros mais próximos da sua administração: o secretário de Defesa, Pete Hegseth, o secretário de Estado, Marco Rubio, e a chefe de gabinete, Susie Willes. JD Vance não aparece na fotografia publicada pela Casa Branca — o vice-presidente seguiu os primeiros momentos da guerra em Washington D.C.

A imagem do número dois da administração norte-americana na Situation Room, a quase 1.500 quilómetros do Presidente, também foi publicada pela Casa Branca e partilhada por Vance. Entre sábado e segunda-feira, a fotografia foi uma de poucas publicações novas nas suas redes sociais, quase todas partilhas de publicações oficiais da presidência. Ao contrário de Hegseth, Rubio ou Trump, Vance manteve-se em silêncio sobre a ofensiva israelo-americana no Irão durante mais de 72 horas, em que a guerra alastrou a outros países do Médio Oriente.

O silêncio de Vance e a sua ausência em Mar-a-Lago tornaram-se tema de conversa em DC. “As pessoas estão fixadas no facto de Vance ainda não ter tweetado. É um grande problema”, relatou um membro do Partido Republicano na Câmara dos Representantes, que falou com o Politico sob anonimato para relatar que o tema “dominou as conversas”. Esta realidade, somada ao historial de Vance como um anti-intervencionista, parecia sugerir uma oposição do vice-presidente à guerra no Médio Oriente.

Quando JD Vance finalmente se pronunciou, numa entrevista à Fox News na segunda-feira à noite, não foi para denunciar o ataque norte-americano, mas para o apoiar, com uma lealdade a Trump que lhe é característica. “O Presidente quer deixar claro aos iranianos e ao mundo que não vai descansar até cumprir o objetivo importante de garantir que o Irão não pode ter uma arma nuclear“, declarou. Em respostas à imprensa, a Casa Branca desmentiu posteriormente que exista sequer qualquer fratura dentro da administração no apoio ao ataque ao Irão e justificou a distância entre Trump e Vance com o protocolo de segurança.

O responsável por uma organização sem fins lucrativos conservadora, que também falou com o Politico, argumentou que a declaração de JD Vance é apenas o cumprimento de um dever que lhe é exigido enquanto braço direito de um Presidente que não aceita deslealdade. Mas a mudança de narrativa pode custar-lhe a sua sobrevivência política pós-Trump. “É muito mau para o Vance. Ele teve de cumprir uma tarefa enquanto subordinado e tentar convencer pessoas como nós que isto está bem entregue — é um comprimido difícil de engolir”, pondera.

O passado nos Fuzileiros moldou a oposição às “guerras eternas” — mas não à destruição do programa nuclear iraniano

No dia 23 de abril de 2024, JD Vance, então senador do Ohio, lembrou no Capitólio a sua história de vida. Em 2003, meses depois da invasão do Iraque, Vance alistou-se nos Fuzileiros, tendo sido destacado, como parte da secção de relações públicas, dois anos depois. “Eu servi o meu país com honra e vi, quando fui ao Iraque, que me tinham mentido”, declarou. A história, partilhada no Senado e em muitos outros momentos da sua vida política, definiu o anti-intervencionismo como uma das matrizes da sua política externa.

Foi essa mesma convicção que o levou, em 2023, a apoiar formalmente Donald Trump como candidato republicano, depois de o ter criticado noutras ocasiões. “Ele tem o meu apoio em 2024 porque sei que não vai mandar americanos para lutar no estrangeiro de forma imprudente”, escreveu numa coluna de opinião no Wall Street Journal, um ano e meio antes de ter sido escolhido como parceiro de campanha de Trump. A exceção a esta posição era Israel, que via como um caso “distinto”.

"Se pensarmos no Afeganistão, 20 anos sem ter um objetivo claro, 20 anos dos Estados Unidos a tentar trazer uma democracia liberal ao Afeganistão (...) O que é tão diferente aqui é que o Presidente definiu claramente o que quer alcançar."
JD Vance, sobre as diferenças entre a ofensiva dos EUA no Irão em 2026 e no Afeganistão em 2001

“Às vezes vamos ter interesses sobrepostos. E o nosso interesse não é uma guerra com o Irão. Seria uma enorme distração de recursos. Seria imensamente caro para o nosso país”, declarou numa entrevista durante a campanha eleitoral de 2024. “Eu não quero que o Irão tenha uma arma nuclear e acho que devemos encorajar os iranianos e utilizar toda a influência que temos para os encorajar a não ter uma arma nuclear (…) [Mas] a América não tem de policiar constantemente todas as regiões do mundo”, argumentou. Na sua leitura, os EUA deveriam retirar-se do Médio Oriente e deixar Israel e os países do Golfo responsáveis por “policiar” e “contrabalançar” o Irão.

Ao longo de 2025, Vance foi reforçando uma visão mais agressiva face ao Irão do que em relação aos outros países do mundo, destacando sempre a necessidade de impedir Teerão de obter armas nucleares, algo que enquadra como um interesse norte-americano. Fê-lo no seu discurso na Conferência de Munique, em fevereiro, e novamente no deflagrar da Guerra dos 12 Dias, em junho, quando declarou que os EUA não estavam em guerra com o Irão, mas com o seu programa nuclear.

Foi precisamente neste detalhe que Vance se focou na passada segunda-feira, quando reagiu pela primeira vez ao início de uma nova guerra no Médio Oriente. À Fox, o vice-presidente argumentou que um ataque era a única forma de “fazer uma mudança fundamental na mentalidade iraniana”, que afastasse para sempre a ideia de desenvolver uma arma nuclear. “Se pensarmos no Afeganistão, 20 anos sem ter um objetivo claro, 20 anos dos Estados Unidos a tentar trazer uma democracia liberal ao Afeganistão (…) O que é tão diferente aqui é que o Presidente definiu claramente o que quer alcançar”, justificou.

Vance tem insistido, assim, que os EUA não se irão envolver em guerras de “construção de nações” ou “guerras eternas”, ou seja, guerras prolongadas, com soldados no terreno, que têm como objetivo uma democratização pela força. Porém, esta insistência expõe alguma dissonância com os restantes membros da administração: tanto Trump como Pete Hegseth não recusaram, nos últimos dias, a possibilidade de ver uma mudança de regime no Irão ou mesmo de colocar soldados norte-americanos no país. E ao contrário do que diz Vance, a crítica mais dirigida a Washington na sequência dos ataques tem sido mesmo a falta de um plano e de objetivos concretos.

A fórmula de sucesso. Um perfil consolidado como Cheney e um “pragmatismo político” a lidar com Trump

JD Vance e Donald Trump não estiveram juntos na Situation Room no dia 28 de fevereiro. Mas, dez dias antes, os dois tinham estado reunidos com Hegseth, Rubio, Willes o diretor da CIA, John Ratcliffe, e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Dan Caine, para preparar uma intervenção no Irão. O ataque, a que Vance se tinha vindo a opor, ia mesmo acontecer. Com isso em mente, o vice-presidente terá proposto que um ataque devia ser “grande e rápido”, segundo avançou o New York Times e a NBC.

A sugestão tinha como objetivo impedir que as informações chegassem à imprensa, dando tempo ao Irão para se preparar para responder ou mesmo atacar ainda antes de os Estados Unidos o fazerem, relataram fontes com conhecimento do encontro. Dessa forma, seriam minimizadas as possibilidades de baixas norte-americanas, quando comparado com a possibilidade de um ataque cirúrgico com mais planeamento.

Esta reunião ilustra a posição consolidada de Vance entre os conselheiros mais próximos de Donald Trump. Majda Ruge, analista no think tank europeu ECFR, compara, num artigo de análise do final do ano passado, JD Vance a Dick Cheney, o vice de George W. Bush durante a guerra no Iraque. Não porque os dois partilhem a mesma ideologia — afinal, Cheney era um clássico republicano neoconservador, responsável em grande parte pela “guerra contra o terror” travada pelos EUA no início do século XX —, mas porque ambos conseguiram “esculpir um perfil de político externo claro”, argumenta a especialista. Em contraponto, Ruge destaca que vices como Kamala Harris ou Mike Pence não tiveram particular influência neste campo.

O sucesso de JD Vance em conseguir assumir uma posição é particularmente surpreendente dado o perfil de Donald Trump que, apesar de ouvir os seus conselheiros, acaba por definir de forma muito independente, instintiva e imprevisível os rumos de política externa dos Estados Unidos. Ruge atribui este sucesso à sua busca por novas alianças: em vez de grandes nomes mais conservadores do partido, o seu apoio está nas alas mais jovens, mais economicamente liberais, o que se reflete no facto de os seus principais apoiantes económicos serem nomes de Sillicon Valley.

Ao mesmo tempo, Vance é “um pragmático político”, destaca a especialista. Ou seja, Vance sabe quando vale a pena travar as suas batalhas com Donald Trump e quando precisa de dar o braço a torcer e ceder à liderança do Presidente. Nos casos em que se força a ceder, não demonstra, contudo, uma oposição aberta à posição de Trump. Pelo contrário, é capaz de reconstruir a narrativa e apresentá-la como se sempre a tivesse defendido — é precisamente isto que tem vindo a fazer com o Irão e o foco no seu programa nuclear, detalhou um aliado próximo de Vance que falou, sob anonimato com o New York Times.

John Ashbrook, estratega republicano próximo de Vance, diz precisamente que Vance nunca mudou de posição. “Ele disse em múltiplas ocasiões ao longo de múltiplos anos que devíamos ir muito longe para impedir que os iranianos desenvolvam armas nucleares”, argumentou, ao mesmo jornal, utilizando a narrativa que Vance tenta agora afirmar. Esta foi a mesma estratégia que Vance utilizou depois dos ataques contra o Irão em junho e a ofensiva norte-americana na Venezuela, no início deste ano.

Vance “gasta todo o capital político a apoiar o Presidente” e põe em risco eleições de 2028

Um em cada quatro eleitores republicanos acha que a utilização do poder militar por Donald Trump é excessiva. Os dados são de uma sondagem da Ipsos para a Reuters, feita durante os dois primeiros dias da guerra, que não é aprovada por 43% dos eleitores (13% dos republicanos). As respostas dos eleitores refletem uma porção minoritária do Partido Republicano, que se opõe a intervenções externas, muito menos presente do que os neoconservadores clássicos e os falcões de política externa.

Donald Trump conseguiu reunir sob o chapéu do MAGA uma aliança de diferentes ideologias políticas dentro do Partido Republicano, incluindo os isolacionistas e os não-intervencionistas. Majda Ruge, do ECFR, conta dentro desta franja vários membros do Pentágono e do Departamento de Estado, mas os membros mais visíveis encontram-se na comunidade das secretas e nos veteranos, grupos que testemunham em primeira mão as consequências da política externa de Washington no Médio Oriente.

"Ele quer construir uma grande coligação à direita e acho que vai ser impossível construir uma grande coligação simplesmente ignorando a direita anti-guerra. Acho que ele vai ter de ganhar algum desse apoio de volta."
Curt Mills, editor da revista The American Conservative

O facto de JD Vance fazer parte deste segundo grupo leva alguns especialistas a creditar o vice-presidente pela integração plena deste grupo no Partido Republicano. Mas isso também quer dizer que muitos destes eleitores e republicanos se sentem traídos com as repetidas justificações apresentadas por Vance para as intervenções externas de Trump, no Irão ou na Venezuela. “Ele está a gastar todo o seu capital político a apoiar o Presidente. Somos espertos o suficiente para saber que estamos a ser prejudicados”, criticou Justin Logan, diretor de estudos políticos do think tank libertário Cato Institute, ao Politico.

Críticas semelhantes foram feitas pela antiga representante republicana, Marjorie Taylor Greene, uma isolacionista e uma das primeiras e mais vocais defensoras do MAGA antes de se ter desentendido com Donald Trump e abandonado o lugar no Congresso. “As pessoas estão a prestar atenção, muita atenção. O silêncio não é suficiente”, escreveu nas redes sociais, antes de Vance ter quebrado o silêncio para apoiar a ofensiva norte-americana. “Sabem que não foi por isto que fizeram campanha e isto foi a 100% o que dissemos que não ia acontecer. Nós dissemos: não a mais guerras estrangeiras, não a mais mudanças de regime. Tudo o que queríamos era a América primeiro. Isto não é isso”, acrescentou.

Claro que as críticas são dirigidas também na direção do Presidente, mas Vance tem um motivo adicional para querer manter o apoio dos defensores desta linha de política externa: em 2028, o nome de Donald Trump não estará no boletim de voto, mas tudo indica que Vance tentará assumir-se como herdeiro do MAGA. “Ele quer construir uma grande coligação à direita, e acho que vai ser impossível construir uma grande coligação simplesmente ignorando a direita anti-guerra. Acho que ele vai ter de ganhar algum desse apoio de volta”, ponderou Curt Mills, editor da revista The American Conservative, ao Politico.

Vance tem algumas coisas a seu favor: o mandato ainda não vai a meio, o que lhe dá mais de dois anos para recuperar terreno, e a imprevisibilidade de Trump pode funcionar a ser favor, pois o Presidente pode decidir — ainda que não tenha dado sinais nessa direção — que uma operação curta foi suficiente para cumprir os seus objetivos no Irão e pôr fim à guerra. Mais do que isso, a lealdade de Vance às ações de Trump colocam-no na posição ideal para ser escolhido pelo líder do MAGA como o seu sucessor político.

Contudo, o camaleonismo político de Vance em torno daquela que era a sua posição política mais vincada também podem ter desferido um golpe demasiado fundo na sua reputação para aqueles que procuram num chefe de Estado o cumprimento das promessas eleitorais — e é impossível saber se a influência de Trump a partir de fora da Casa Branca será suficiente para fechar essa ferida. “Este é o tipo que se converteu ao catolicismo, o tipo que chamou ‘Hitler’ a Trump e agora é o seu vice-presidente”, define o responsável de uma ONG ouvido pelo Politico. “Estou confiante de que ele está totalmente preso a uma única perspetiva ou visão de mundo? Não.”

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