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(A) :: A caligrafia, os tipos de papel e uma tragédia online: o trabalho "interminável" sobre a peça inacabada de Fernando Pessoa

A caligrafia, os tipos de papel e uma tragédia online: o trabalho "interminável" sobre a peça inacabada de Fernando Pessoa

Durante dois dias, a Universidade de Parma foi palco de uma conferência que reuniu especialistas em torno da inédita "The Duke of Parma". A tragédia, que permanecia inédita, já está online.

Rita Cipriano
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Entre os incontáveis projetos que Fernando Pessoa deixou por concluir encontra-se uma complicada peça de teatro em inglês cuja existência poucos conhecem. Com o título The Duke of Parma (“O Duque de Parma”), a tragédia foi o projeto literário a que Pessoa dedicou o mais longo período de tempo, desde 1908 ou 1909 até 1935, o ano da sua morte. A peça é, também, aquela que sobrevive em maior número de documentos (mais de 170 folhas inteiras e pequenos pedaços de papel rasgados, que foram reaproveitados por Pessoa e transformados em folhas de rascunho). Apesar do espaço que ocupa no espólio pessoano, a obra permaneceu inédita e praticamente desconhecida desde a sua descoberta dos anos 60 até muito recentemente, quando uma equipa de investigadores a retirou, finalmente, do fundo da arca e a publicou, pela primeira vez, num arquivo digital.

Foi sobre os arcos e candelabros da histórica Aula dei Filosofi (“Sala dos Filósofos”), da igualmente histórica Universidade de Parma, que o arquivo digital The Duke of Parma, que oferece a possibilidade de navegar pelos manuscritos da peça e ler as respetivas transcrições, foi revelado. A apresentação aconteceu a 23 de fevereiro, no âmbito da conferência internacional “Unveiling The Duke of Parma” (“Revelando The Duke of Parma”), que, ao longo de dois dias, reuniu na cidade italiana especialistas de diferentes áreas em torno da tragédia de Fernando Pessoa. O encontro foi o culminar de dois anos de investigação. Durante esse período, uma equipa interdisciplinar e internacional de especialistas, financiada pela Universidade de Parma e coordenada por Enrico Martines a partir da cidade italiana, transcreveu, analisou e publicou os mais de 170 documentos que compõem o projeto inacabado. O evento serviu para fazer um ponto da situação do trabalho realizado nos últimos anos, mas também para partilhar experiências, reflexões e algumas conclusões — o arquivo está online, mas há ainda muito para fazer e para dizer sobre The Duke of Parma, um texto que, apesar de incompleto e fragmentário, esconde uma riqueza imensa que pode ajudar a iluminar certos aspetos da obra de Pessoa, alguns dos quais pouco explorados ao longo dos anos.

A incompreensível caligrafia de Fernando Pessoa, o envelope de Alexander Search e uma inesperada sessão de cinema em Lisboa

O caráter fragmentário de The Duke of Parma não permite discernir uma história com princípio, meio e fim, mas é possível perceber algumas coisas importantes, nomeadamente que a ação se passa em Parma, provavelmente no período renascentista; que a personagem principal é o duque que lhe dá nome, mas que nunca é nomeado; que os temas explorados incluem a loucura, a linguagem e a sexualidade feminina, que atravessam toda a obra de Pessoa; e que o inglês, difícil e arcaico, tem inspiração shakespeariana. O período escolhido por Pessoa para a peça, o renascimento italiano, corresponde, obviamente, à época de Shakespeare, que morreu em 1616, mas trata-se também de um período que exerceu um grande fascínio nos escritores ingleses do século XIX. Poetas como Byron, Shelley e Browning não só escreveram sobre o renascimento italiano, como viveram, e nalguns casos morreram, em Itália (a trágica morte de Shelley, num naufrágio ao largo do Golfo Spezzia, é particularmente famosa). Pessoa, que estudou em Durban, na África do Sul, na altura uma colónia britânica, conhecia esses e outros autores associados ao movimento do neo-renascimento do século XIX. Alguns dos seus livros estão preservados na sua biblioteca particular.

As possíveis influências literárias de The Duke of Parma foram um dos assuntos debatidos durante a conferência em Parma, mas o primeiro dia, 23 de fevereiro, foi dedicado ao trabalho de transcrição, o primeiro grande desafio dos investigadores, e à criação do arquivo digital, que ficou disponível nessa manhã. Depois dos habituais discursos institucionais, proferidos pelo reitor da Universidade de Parma, Paolo Martelli, e pelo diretor do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da instituição, Massimo Magnani, foi a vez de as equipas responsáveis pela transcrição exporem algumas conclusões preliminares. O processo de transcrição seguiu um modelo diferente do habitual: em duas cidades distintas, Lisboa e Bogotá, duas equipas trabalharam em diferentes partes do texto, que depois passaram aos colegas no outro canto do mundo para revisão.

O primeiro grupo a abordar a questão da transcrição, tema de inúmeras conversas nos intervalos da conferência, entre cafés servidos por um italiano que viveu na Figueira da Foz, foi o da Universidade de Los Andes, em Bogotá, na Colômbia. Partindo de vários exemplos retirados do texto em inglês, os professores e investigadores Jerónimo Pizarro e Nicolás Barbosa defenderam que o processo de transcrição não é uma operação mecânica, mas um ato de interpretação, dependente do contexto e do conhecimento prévio da obra literária do autor. Seguindo a mesma linha de pensamento, Carlos Pittella, a quem coube comentar a comunicação de Pizarro e Barbosa, argumentou que é possível encontrar pistas para melhorar a transcrição nas leituras de Pessoa e nos textos do poeta que se assemelham a algumas passagens da tragédia. Mas não só. O investigador, o primeiro a apresentar um projeto para trabalhar o manuscrito de The Duke of Parma, foi mais longe e sugeriu que o poeta português poderá ter-se inspirado no cinema, no filme expressionista alemão Fausto (1926), de F. W. Murnau. Na adaptação para o cinema do poema homónimo de Goethe, Mefistófeles transporta Fausto para a cidade de Parma, onde conhece a duquesa, a mulher mais bonita do mundo, uma cena que não existe na obra do escritor alemão. O filme mudo estreou-se em Portugal em 1927 e Pessoa, que escreveu sobre e para o cinema, poderá tê-lo visto nessa altura em Lisboa, propôs Carlos Pittella.

O painel seguinte reuniu os investigadores João Dionísio e Maria Sousa, da Universidade de Lisboa, que também trabalharam na transcrição dos documentos. João Dionísio e Maria Sousa, que falaram sobre a organização da mais de uma centena de manuscritos de The Duke of Parma, descreveram os diferentes tipos de papel usados por Pessoa para escrever a peça, que incluem folhas lisas, pautadas e quadriculadas, de cores e texturas diferentes, e folhas inteiras e pequenos pedaços de papel reaproveitados por Pessoa. As folhas estariam originalmente guardadas no interior de um envelope de tamanho A5 e organizadas de acordo com os cinco atos da peça (sobrevivem cinco folhas que serviriam como separadores). As que não cabiam no envelope foram dobradas ao meio. Ainda é possível discernir as marcas das dobras.

O estudo do papel usado por Pessoa pode parecer uma tarefa pouco interessante e enfadonha, mas, na verdade, permite chegar a diversas conclusões relevantes para a datação do projeto literário. Durante a análise, o professor e investigador João Dionísio, que foi responsável pela edição da Imprensa Nacional — Casa da Moeda dos poemas ingleses de Alexander Search, descobriu que alguns poemas do semi-heterónimo foram escritos no mesmo papel utilizado para escrever algumas passagens de The Duke of Parma. A carreira de Search, a mais prolífica figura literária do universo pessoano antes do aparecimento dos três principais heterónimos (Caeiro, Campos e Reis), teve o seu ponto alto entre 1906 e 19011, um período que corresponde aos primeiros anos de The Duke of Parma, o que significa que Pessoa trabalhou nos dois projetos ao mesmo tempo. Essa cronologia é também confirmada pela existência, entre os documentos da tragédia em inglês, de um envelope, dirigido a Search, com uma lista de personagens. O envelope tem dactilografada a morada da casa na Rua de Bela Vista à Lapa onde Pessoa viveu com a avó paterna, Dionísia Seabra, e as tias-avós, Maria e Rita, entre 1907 e 1909, após o seu regresso definitivo a Lisboa.

Da parte da tarde do primeiro dia de conferência, Elena Lombardo, professora e investigadora na Universidade de Lisboa, abordou em pormenor a construção do arquivo digital The Duke of Parma. Elli Bleeker, do Instituto Huygens Instituut, em Amsterdão, fez alguns comentários e sugestões. Carlotta Defenu, da Universidade de Parma, falou sobre a génese da tragédia, o tema da sua tese de pós-doutoramento. Durante a sua exposição, a investigadora e especialista em crítica textual focou-se nas fases de planificação e redação da peça de teatro e em como essas foram concretizadas por Pessoa. De acordo com Carlotta Defenu, ao contrário do que se esperaria, o planeamento nem sempre antecedeu a redação. Pelo contrário: alguns dos documentos que contêm a estrutura e a descrição das personagens foram alterados ou até mesmo delineados depois de Pessoa ter escrito parte do texto, o que indicia que, quando começou a escrever, o poeta não tinha uma ideia concreta acerca do que queria fazer e que o plano inicial foi sendo adaptado às necessidades da própria narrativa. Essa e outras descobertas relacionadas com a composição de The Duke of Parma contribuem para um melhor entendimento do processo criativo de Pessoa, que tinha o hábito de continuar a trabalhar nos mesmos, mesmo depois de publicados, como aconteceu com Mensagem.

Uma refeição muito original: Fernando Pessoa “mastigou” Shakespeare?

O segundo dia da conferência, 24 de fevereiro, foi dedicado sobretudo a questões literárias, mas foi com uma novidade paleográfica que começou: durante a noite, Carlos Pittella teve uma epifania e conseguiu decifrar uma palavra em falta. Sentado numa das cadeiras de madeira da Ala dei Filosofi, o investigador mostrou a Maria Sousa o papel em que tinha anotado as suas conclusões noturnas, que permitiram iluminar a passagem obscura. Enquanto isso, Enrico Martines, coordenador do projeto, apresentava a primeira comunicação do dia, sobre as temáticas da sexualidade e da misoginia na obra de Fernando Pessoa. De acordo com o professor e investigador, as notas pessoais do poeta, deixadas à margem do texto, mostram que tinha uma opinião diferente da do Duque em relação às mulheres. Profundamente misógino, o Duque verbaliza, em vários momentos da peça, uma profunda aversão pelo sexo feminino, que se materializa na tentativa de assassínio da própria mulher.

Citando Richard Zenith, que salientou que Pessoa raramente “nos fazia lembrar que as suas criações eram ficcionais”, antes pelo contrário, Enrico Martines defendeu que o manuscrito de The Duke of Parma revela que existe uma distância clara entre a opinião do seu autor e a da personagem por ele criada. A apresentação do coordenador do projeto foi comentada por Mark Sabine, da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. O professor e investigador, que editou com Anna Klobucka o livro O Corpo em Fernando Pessoa, defendeu que o poeta português, ao usar uma linguagem e temas semelhantes aos de Shakespeare, não quis simplesmente imitar o dramaturgo inglês, mas ultrapassá-lo por meio da criação de uma personagem que personifica o conceito de “homem superior”. Tal como em Macbeth, em The Duke of Parma a principal característica do “homem superior”, e aquela que é a marca da sua superioridade, não é a ação, mas a inação. O Duque fala muito, mas faz muito pouco.

Parece ser unânime que Pessoa se inspirou em Shakespeare para escrever The Duke of Parma, mas a tragédia em inglês escrita pelo poeta português pode esconder outras influências menos óbvias. Alessandra Petrina, da Universidade de Pádua, que comentou a comunicação de Diego Saglia, da Universidade de Parma, sobre uso da linguagem na construção da identidade do Duque e, em especial, do conceito de wit (expressão em inglês que pode ser traduzida para português como “inteligência” ou “engenho”), que estava associado ao uso da ironia durante o período renascentista e também romântico e pós-romântico, sugeriu que Pessoa pode ter-se inspirado em peças shakespearianas como Measure for Measure (“Medida por Medida”), Hamlet ou Rei Lear, mas também em tragédias do revivalismo renascentista do século XIX, como The Cenci (“Os Cenci”), de Shelley (1819), e The Duchess of Padua (“A Duquesa de Pádua”). A propósito da influência de Shakespeare no século XIX, a professora e investigadora recordou o caso de Herbert I.E. Dhlomo, figura cimeira da literatura sul-africana, que escreveu várias peças de inspiração shakespeariana passadas na África do Sul. Fazendo eco do que tinha sido referido por Mark Sabine, Alessandra Petrina propôs que Pessoa transformou Shakespeare numa outra coisa — algo mais “pessoal” —, num processo semelhante ao da transformação dos alimentos em energia através da mastigação.

É possível publicar “The Duke of Parma”? “Isto não é apenas uma conclusão, é também um início”

Durante a última sessão do encontro, uma mesa redonda que reuniu Enrico Martines, João Dionísio, Jerónimo Pizarro, Simone Celani e Diego Saglia, recuperaram-se alguns dos temas abordados ao longo dos dois dias da conferência, como o processo de transcrição e a eventual publicação de uma edição crítica, digital ou em papel. Discutiram-se opiniões e fizeram-se sugestões. Não se chegou a uma única conclusão definitiva, mas a várias conclusões provisórias. E ficou clara a certeza, partilhada por todos, de que o projeto não terminou. Deve e tem de continuar, seguindo o mesmo modelo de entreajuda internacional e envolvendo especialistas de diferentes áreas do conhecimento, alcançando, assim, um conjunto mais amplo e rico de conhecimentos. “O Duke of Parma vai continuar; este grupo de investigação vai continuar; e talvez tenhamos outra conferência daqui a dois anos”, afirmou Enrico Martines. “Vamos continuar a acumular conhecimento, que nos vai permitir explorar caminhos diferentes, linhas de trabalho diferentes.”

Desde logo, na transcrição. Como a história da descoberta de Carlos Pittella ilustra, existem várias passagens que ainda deixam os especialistas de cabelos em pé, mas todos concordaram em Parma que a versão do texto que foi publicada online é apenas uma abordagem inicial a um manuscrito difícil, que tem de continuar a ser trabalhado. Paralelamente à acumulação de conhecimento, Diego Saglia sugeriu que se investisse na pesquisa de alguns temas que, no futuro, podem ajudar a estabelecer linhas de leitura. Para o professor e investigador, e também para Alessandra Petrina, é importante continuar a estudar a relação de The Duke of Parma com a literatura inglesa da época de Shakespeare, mas sem esquecer “a dialética com os trabalhos neo-renascentistas do século XIX”, que Pessoa provavelmente conhecia. “Outra sugestão é que, a certa altura, [o texto] seja visto por especialistas em literatura inglesa”, que podem ajudar a esclarecer algumas dúvidas de transcrição, acrescentou. “Outra contribuição que pode ser alcançada através deste tipo de sinergia entre a literatura inglesa e os especialistas em Pessoa tem a ver com o enriquecimento dos contextos. E foi isso que a Alessandra sugeriu.” Compreender o papel de Shakespeare no sistema educacional sul-africano e a forma como as suas obras eram usadas na sala de aula pode ajudar a explicar a relação de Pessoa com o dramaturgo inglês e o uso que fazia de frases “que soam a Shakespeare”. “Isso provavelmente está relacionado com coisas que ressoavam na sua cabeça”, sugeriu Diego Saglia.

Sobre se é possível encontrar “um texto” nos manuscritos do The Duke of Parma, uma questão que surgiu várias vezes ao longo da conferência, o especialista em literatura inglesa defendeu a importância de se continuar a refletir sobre “a ideia de texto” e “sobre como podemos aplicar esse conceito ou termo ao que estamos a fazer aqui”. “Encontrámos códigos identitários fascinantes no texto. Falámos sobre género, wit, ironia. Vamos continuar a expandir essas ideias assim que tivermos uma base sólida”, propôs. Em relação a uma eventual publicação de The Duke of Parma, Diego Saglia lembrou o caso do romance experimental The Unfortunates (1969), do escritor inglês B. S. Johnson, que ficou conhecido como “o romance da caixa” por ser composto por páginas soltas que podem ser lidas em qualquer ordem. Essa poderia ser uma solução para o problema referido por Manuel Portela, da Universidade de Coimbra. Durante a sua intervenção, a propósito da comunicação de Carlotta Defenu, ao final da tarde do primeiro dia do encontro, o professor, investigador e um dos editores do Arquivo Digital do Livro do Desassossego, lançado em 2017, apontou que o processo de criação de Pessoa  representa um desafio para a criação de uma edição genética, que organize os documentos de acordo com a data da sua composição. “Neste momento, estamos nesta fase, mas não tem de ser a fase em que necessariamente paramos”, comentou Diego Saglia.

Simone Celani, da Universidade de Roma — La Sapienza, mostrou-se mais esperançoso. Confessando-se um “otimista” e admitindo que esse é um dos seus “grandes problemas”, o professor e investigador disse que acredita ser possível fazer uma edição de The Duke of Parma, inclusive em papel. “Não acho que Pessoa tivesse a pensar num novo modelo [quando escreveu a peça]. Ele tinha na cabeça uma ideia de um trabalho terminado, de um trabalho tradicional. Às vezes, não conseguimos ir tão longe, mas acho que é possível fazê-lo [aqui]. Penso que, por exemplo, as séries que o Jerónimo [Pizarro] editou com a Tinta-da-China e a Nova Ática são possíveis modelos a seguir, porque contêm reflexão científica, aparato crítico, e o texto pode ser lido. E foi lido por uma grande parte do público que desejava conhecer o trabalho de Pessoa. Se isso resulta ou não, essa é a grande questão.”

No primeiro dia do encontro, o investigador Nicolás Barbosa admitiu que a conferência lhe parecia “uma conclusão, mas também um início”. A “revelação” de The Duke of Parma, na Universidade de Parma, foi apenas o levantar do véu de uma descoberta maior, cujos resultados finais só serão conhecidos mais à frente no tempo. Porque, tal como toda a obra de Pessoa, The Duke of Parma não é imediato ou evidente. Num ensaio publicado em 2018, Jerónimo Pizarro escreveu que “ler Pessoa é entrar num universo, ou melhor, num ‘universão’, como Álvaro de Campos descreveu Walt Whitman”. O poeta tinha noção disso: “Que mãos entenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu”. The Duke of Parma é mais uma constelação desse universo infinito.