Arranha-céus, centros comerciais e praias. Os postais turísticos dos países do Golfo Pérsico retratam-os como sítios seguro, com temperaturas elevadas, confortáveis para famílias e para muitos influencers do Ocidente. Essa imagem de tranquilidade foi posta em causa desde o passado sábado. Estados como os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Qatar e o Kuwait têm sido atacados pelo Irão. Nem a Arábia Saudita e o mediador Omã foram poupados pela ofensiva iraniana. Drones em zonas residenciais e incêndios provocados pelos destroços de rockets vieram quebrar a sensação de normalidade nesta região do mundo.
Estes países são um alvo fácil e óbvio para o Irão no cenário de uma guerra regional no Médio Oriente. Geograficamente, estão mais próximos das bases militares iranianas do que Israel, o principal inimigo do regime dos ayatollahs. Em termos geopolíticos, os Estados do Golfo Pérsico são aliados dos Estados Unidos, acolhendo bases militares norte-americanas. Há ainda uma certa animosidade religiosa e ideológica: o Irão é uma potência xiita revolucionária que está a atacar monarquias absolutistas sunitas.
Desde que a guerra começou, os países do Golfo têm mantido uma postura relativamente cautelosa. Por um lado, condenam categoricamente os ataques iranianos. Por outro, só se defendem, não estão a retaliar, se bem que tenham avisado que eventualmente o poderão fazer. O atual impasse explica-se à luz de dois fatores: não querem ser arrastados para uma ofensiva que conta com a presença israelita e receiam uma intensificação do conflito que prejudique a estabilidade.
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Ao mesmo tempo, as capitais das monarquias do Golfo veem os alicerces do seu projeto político a tremer. Ainda que sejam sociedades bastante conservadoras onde na maior parte vigora a sharia (a lei islâmica), tem-se verificado uma abertura gradual nos últimos anos, ancorada na liberalização económica e na relativa estabilidade interna. Países como a Arábia Saudita e o Qatar têm acolhido grandes eventos desportivos e culturais para demonstrarem ao mundo que estão a entrar numa nova fase. No entanto, a guerra no Irão expõe a sua vulnerabilidade face a ameaças externas e evidencia o grau de dependência em relação aos Estados Unidos para a segurança, podendo ainda ter custos também no plano económico a longo prazo.
Arábia Saudita incentivou Trump a entrar na guerra? Ataque do Irão ao Golfo Pérsico é “grande surpresa”
Embora partilhem muitas prioridades, estes países seguem caminhos ligeiramente distintos na sua política externa. A Arábia Saudita é a potência regional que tem estreitado laços com os Estados Unidos, mas tem aprofundado também as relações com a China e a Rússia. Os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein são mais próximos do Ocidente e estabeleceram relações diplomáticas com Israel. O Qatar e o Omã têm construído uma rede diplomática densa, mantendo boas relações com vários rivais e assumindo-se como mediadores em vários conflitos. O Kuwait é bastante mais cauteloso, privilegiando uma diplomacia económica discreta.
Em todo o caso, as decisões da Arábia Saudita costumam orientar a região, existindo um alto nível de comunicação entre os países vizinhos e influenciar as decisões diplomáticas das restantes monarquias do Golfo inserido na organização do Conselho de Cooperação do Golfo. Ora, o jornal Washington Post avançou que o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, terá convencido o Presidente norte-americano a lançar a ofensiva “Fúria Épica” e que a opinião do monarca foi decisiva para Donald Trump dar luz verde para que tudo avançasse.

Não seria de estranhar que os países do Golfo Pérsico pudessem ter sabido antecipadamente da operação militar e reconhecessem algumas vantagens estratégicas da mesma. A Arábia Saudita e as monarquias vizinhas (à exceção do Qatar) sempre viram no Irão um inimigo a cujo colapso não se importariam de assistir, na lógica da profunda rivalidade entre sunitas e xiitas. É provável que Mohammed bin Salman tenha antevisto esta guerra como oportunidade para conter a ameaça iraniana, mesmo correndo o risco de uma escalada difícil de controlar.
Mas a Arábia Saudita rejeitou publicamente ter incentivado a Casa Branca a atacar o Irão e fez questão de realçar que esteve sempre do lado diplomático. Tenha tentado influenciar ou não o Presidente norte-americano, certo é que os ataques iranianos surpreenderam muitos na região — incluindo o próprio líder dos Estados Unidos. À CNN Internacional, Donald Trump admitiu que a retaliação de Teerão aos países do Golfo foi “provavelmente a maior surpresa” do conflito. “Eles iam ficar um pouco envolvidos e agora insistem em estar envolvidos.”
Os ataques iranianos atingiram zonas residenciais, hotéis de luxo, aeroportos comerciais e arranha-céus em cidades emblemáticas como o Dubai ou Doha. A ofensiva do Irão foi mais além do que bases militares norte-americanas ou alvos locais — como embaixadas — onde está hasteada a bandeira dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, justificou que estes ataques não eram dirigidos “aos vizinhos do Golfo Pérsico”: “Estamos a ter como alvo a presença dos Estados Unidos nesses países. Os nossos vizinhos devem encaminhar as suas queixas aos responsáveis pelas decisões relativas a esta guerra”.
Na avaliação da Guarda Revolucionária iraniana, os países do Golfo são o local ideal para pressionar os Estados Unidos. Neste sentido, em declarações à Al Jazeera, fonte diplomática saudita lamentou que os norte-americanos tenham abandonado os países do Golfo e tenham “redirecionado a defesa aérea para proteger Israel”: “Deixaram todos os países do Golfo que acolhem bases militares norte-americanas à mercê dos ataques iranianos”.
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O que o Irão pretende com os ataques aos países do Golfo?
As relações entre o Irão e os países do Golfo registaram alguns momentos de apaziguamento na última década. Embora a rivalidade entre sunitas e xiitas continuasse a existir, a China mediou, em 2023, um histórico acordo de relações diplomáticas entre Teerão e Riade, o que alimentou uma vaga de reconciliação cautelosa em todo o Médio Oriente. Mas a desconfiança mantinha-se, ainda assim.
Num artigo publicado no site do think tank norte-americano Carnegie Endowment, o analista Andrew Leber explicou que, desde 2023, os países do Golfo “priorizaram a diplomacia e o diálogo a lidar com Teerão”. “Embora todos os países do Golfo acolhessem militares norte-americanos de uma forma ou outra, todos tentaram distanciar-se publicamente dos Estados Unidos e de Israel”, principalmente desde que a guerra na Faixa de Gaza começou.
https://observador.pt/2023/03/12/a-vitoria-diplomatica-impressionante-da-china-que-ajudou-os-antigos-rivais-arabia-saudita-e-irao-a-reatar-relacoes/
O Qatar até serviu como importante intermediário (e local de negociações) para um cessar-fogo em Gaza. Mas guerra é guerra para os iranianos e a reaproximação a estes países caiu por terra, mesmo que a diplomacia iraniana tenha enfatizado que desejava atacar os EUA e que os países do Golfo eram apenas um palco para isso acontecer. Com estes ataques, o principal objetivo do Irão é que estas monarquias convençam Donald Trump a terminar com o conflito e os Estados Unidos regressem à mesa das negociações.
Em declarações à Deutsche Welle, o especialista no Médio Oriente Hasan Alhasan sublinha também que os “Estados do Golfo estão muito mais próximos do Irão e não estão tão bem defendidos como Israel”, o que aumenta o sucesso iraniano em acicatar os ânimos dos aliados dos Estados Unidos. Enquanto os israelitas têm o potente sistema de defesa aérea Iron Dome (a Cúpula de Ferro), estes países não têm tecnologia tão potente para se protegerem.
Explorando esta vulnerabilidade, o Irão entende que os ataques a hotéis de luxo no Dubai ou ao aeroporto do Kuwait põe em xeque a estratégia internacional da política externa dos países do Golfo, que pretendem transmitir uma imagem de tranquilidade e estabilidade para atrair turistas e investidores. “O Irão está bem consciente das dinâmicas. A liderança do Irão está a contar que os custos na reputação — e a ameaça do pior cenário — force os líderes do Golfo a convencer Trump a alcançar um cessar-fogo, ou arriscam-se a um confronto militar aberto e ruinoso”, afirma Andrew Leber.

Esta análise é corroborada pela diretora do think tank Gulf International Forum. “Teerão entende que não pode ganhar uma guerra convencional contra os Estados Unidos. A estratégia não está virada para uma vitória decisiva, mas para impor custos adicionais. Ao atacar os Emirados Árabes Unidos, o Irão sinalizou que a prosperidade do Golfo é uma vantagem que vai usar a seu favor. É por isso que o Irão continua a atacar infraestruturas críticas, áreas civis e aeroportos nos países do Golfo”, explica Dania Thafer.
A mesma especialista aponta igualmente que os ataques ao setor petrolífero dos países do Golfo consistem numa estratégia iraniana para gerar disrupções nas cadeias de abastecimento nos combustíveis de todo o mundo. O encerramento do Golfo de Ormuz insere-se também nessa lógica. “Teerão quis lembrar a comunidade internacional que a geografia permanece a maior e mais potente vantagem estratégica. A vitória para o Irão é definida pela sobrevivência sob pressão mantendo [a capacidade] de dissuasão intacta. Fadiga estratégica — não vitória no campo de batalha — converte-se no principal objetivo. Essa fadiga manifesta-se nos países do Golfo”, diz Dania Thafer.
Pressionados pelo Irão e a verem os norte-americanos empenhados noutros teatros de operações, os países do Golfo ficaram sem rede de segurança perante os ataques iranianos. “Os países do Golfo estão a enfrentar uma crise sem precedentes”, acredita o analista Andrew Leber, expondo a difícil situação em que se encontram: “Estão encurralados entre uma liderança desesperada iraniana disposta a impor custos significativos e um Presidente dos Estados Unidos que age com indiferença”.
Países do Golfo podem entrar na guerra?
É uma hipótese que nunca foi colocada de parte logo desde o início dos ataques. Esta terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar, Majed Al-Ansari, acusou o Irão de “ultrapassar todas as linhas vermelhas”. “O ataque à nossa soberania, o ataque flagrante à nossa população, à segurança da nossa nação… Isso ultrapassou toda e qualquer linha vermelha”, lamentou o responsável, acrescentando que os dirigentes do Qatar se “reservam ao direito de retaliar”.
Uma eventual retaliação contra o Irão seria algo inédito na história dos países do Golfo. Avessas a conflitos, as monarquias absolutistas desta região do mundo tentam manter-se prudentes em conflitos internacionais. Mas é certo que tem havido uma certa divisão: o Qatar parece estar mais disposto a contra-atacar, enquanto os Emirados Árabes Unidos mantêm-se mais cautelosos. “Apesar da gravidade dos eventos, a nossa posição permanece equilibrada: não procuramos expandir o círculo do confronto e não acreditamos que as soluções militares criem uma estabilidade duradoura”, declarou a ministra da Cooperação Internacional dos Emirados, Reem Al Hashimy.
O desejo das monarquias do Golfo passa, para já, por ver os Estados Unidos estabilizarem o conflito e reforçarem a proteção, prestando assistência militar e diplomática a curto prazo. Estes países esperam que a capacidade ofensiva iraniana se degrade em breve, de maneira a que os ataques cessem e a região volte a algum nível de previsibilidade. Ainda assim, tudo indica que a ofensiva israelo‑americana se vai prolongar: Donald Trump estimou que a operação “Fúria Épica” pode durar quatro semanas, ainda que admita que a campanha possa ser mais longa se considerar necessário.
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E a duração e a intensidade dos ataques deverão definir se os países do Golfo vão ou não retaliar contra o Irão. “Os Estados do Golfo enfrentam uma decisão difícil: ou se juntam abertamente aos Estados Unidos no seu esforço de guerra — permitindo que o espaço aéreo seja usado ou potencialmente participando em operações militares —, ou arriscam-se a assistir a uma escalada no seu próprio solo”, assinalou, à Reuters, Abdulaziz Sager, presidente do think tank saudita Gulf Research Center.
Entre todos os países do Golfo, as atenções estão viradas para a Arábia Saudita, o país militarmente mais forte da região. Até ao momento, a coroa saudita não deu indicações de que atacaria o Irão. Porém, a televisão estatal israelita KAN avançou, esta quarta-feira, que Riade entraria no conflito se os Houthis do Iémen atacassem o território saudita. “Por agora, estamos a deixar os EUA e Israel concluírem os seus passos no Irão”, indicou fonte saudita ao canal de Israel, sinalizando que essa postura se alteraria se o grupo pró-iraniano iemenita atacasse a Arábia Saudita.
À exceção da Arábia Saudita, as monarquias do Golfo não dispõem de forças militares poderosas e continuam a depender dos Estados Unidos como principal garante da sua política defensiva. Globalmente, os Estados do Golfo até têm acesso a armamento mais moderno e gastam mais em defesa do que o Irão, mas o regime iraniano mantém uma vantagem relativa em mísseis e drones, ainda que sejam obsoletos.

Para já, a postura dos governos das monarquias do Golfo é de esperar para ver. A curto prazo, estes países temem ser associados a Israel, considerado um pária para a opinião pública de muitos destes Estados. Uma entrada precoce na guerra daria a impressão de que se teriam aliado a Telavive. “Eles não querem ser vistos a trabalhar para Israel ou trabalhar com Israel. Eles querem ser vistos como líderes, não como seguidistas”, frisa, à Al Jazeera, o docente universitário Rob Geist Pinfold.
Com uma sociedade civil praticamente inexistente, as monarquias do Golfo continuam a ter de gerir a opinião pública e querem recuperar a credibilidade externa. “Eles querem ser vistos a proteger o seu próprio povo, a proteger o território e a soberania”, argumenta Rob Geist Pinfold. Para isso, uma entrada no conflito poderá ter de ser necessária para alcançar esses fins.
Por agora, os dirigentes dos países do Golfo já visitaram centros comerciais para garantir que existe normalidade no dia a dia. O Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed Al Nahyan, visitou, esta segunda-feira, o gigantesco centro comercial do Dubai para demonstrar está tudo bem, apesar dos ataques iranianos. Vários influencers com conexões às monarquias do Golfo também têm feito vídeos nas redes sociais a assegurar que a vida continua normal.
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Entre todos os pontos vulneráveis para os Estados Unidos no Médio Oriente, o Irão fez algo inédito na História: atacou infraestruturas civis nos países do Golfo. Ciente da importância que estes Estados dão à sua imagem e reputação na comunidade internacional, o regime iraniano espera que seja suficiente para que as monarquias convençam Washington a terminar a ofensiva. Porém, no Médio Oriente, Donald Trump aparenta ter um maior aliado com interesses distintos: Israel.